Quedas no Mundial de Clubes geram reflexão sobre emoções no futebol

Orgulho, tristeza, revolta, vergonha e choro. O torcedor brasileiro está experimentando um verdadeiro turbilhão de emoções com a eliminação dos representantes do país na Copa do Mundo de Clubes da Fifa, disputada nos Estados Unidos. Botafogo e Flamengo caíram nas oitavas, o Palmeiras parou nas quartas, e o Fluminense foi até a semifinal, mas ficou pelo caminho diante do Chelsea. Apesar da frustração, muitos também sentem orgulho de ver seus clubes enfrentando os gigantes europeus, jogando de igual para igual ou quase lá. Mas o que fazer com tantos sentimentos, como encarar a zoação dos rivais, os memes, os debates intermináveis e como os próprios atletas processam o peso da derrota. Na avaliação da psicóloga Êdela Nicoletti, o futebol é muito mais do que um jogo. Ele mexe com identidade, história e vínculos emocionais profundos. “Não é só esporte. É memória afetiva, é estar com a família, é cultura. Por isso, a dor da eliminação vai além do placar”. Já o psicólogo Vinícius Dornelles explica que ver o time do coração chegar entre os melhores do mundo gera euforia, mas também cria uma expectativa que, se frustrada, pode virar raiva ou tristeza intensa. “É natural sentir decepção. O torcedor investe emocionalmente no time e acaba se sentindo injustiçado ou até envergonhado. Mas é importante reconhecer esses sentimentos para não deixá-los crescer de forma descontrolada”. E nem tudo precisa ser negativo. Êdela lembra que mesmo na queda há espaço para reconhecer o mérito. “A emoção saudável é aquela que permite que a tristeza exista, mas sem nos desconectar daquilo que valorizamos, como o amor pelo clube”. Chorar faz parte do jogo Um dos momentos mais marcantes do torneio foi a entrevista do atacante colombiano Jhon Arias, do Fluminense. Visivelmente abalado, ele chorou ao falar sobre a eliminação e pediu desculpas aos torcedores. A cena emocionou e gerou identificação, afinal, nem sempre o jogador pode ou quer mostrar vulnerabilidade diante das câmeras. Para Dornelles, essa é uma reação compreensível e também muito necessária. “O atleta sente tudo: a frustração pessoal, o peso da responsabilidade e o medo do julgamento. Chorar não é fraqueza, é um passo importante para processar a dor com equilíbrio”. E, mais do que isso, essa humanização dos atletas pode ajudar toda a comunidade do futebol. “Quando um jogador se mostra sensível, ele ensina ao torcedor que sentir não é sinal de fraqueza. Isso ajuda a quebrar um ciclo de pressão desumana, que muitas vezes atinge não só os jogadores, mas também quem está na arquibancada”, finaliza Êdela.

Cerca de 12 médicos foram vítimas de violência por dia no Brasil em 2024

Um levantamento do Conselho Federal de Medicina (CFM) revelou que, em 2024, foram registrados 4.562 boletins de ocorrência de médicos que sofreram algum tipo de violência (seja ameaça, injúria, desacato, agressão física, difamação, furto ou outros delitos) em estabelecimentos de saúde do país, como hospitais, clínicas, consultórios, prontos-socorros, laboratórios e outras instituições, tanto da rede pública quanto privada. O número trata-se do maior já registrado na série histórica do CFM. A análise da distribuição das ocorrências revela que 66% dos casos, ou seja, 2.551, aconteceram em cidades do interior, enquanto 1.337 episódios (34%) foram registrados nas capitais. Segundo os dados apurados pelo CFM, a maioria das agressões foi praticada por pacientes, seus familiares ou por indivíduos sem qualquer vínculo com os profissionais de saúde. Dos 4.562 boletins de ocorrência no ano passado, 256 (6%) foram registrados por crimes de calúnia, injúria, difamação e ameaça cometidos contra médicos na internet, seja em redes sociais ou em aplicativos de mensagens. Em 2024, São Paulo liderou o ranking nacional, com 832 boletins de ocorrência, o equivalente a 26% do total de notificações. O Paraná ficou em segundo lugar, com 767 registros, sendo que Curitiba responde por 11% desses casos. Minas Gerais ocupa o terceiro lugar em número de ocorrências. A Polícia Civil mineira contabilizou 460 boletins, dos quais 15% foram registrados na capital, Belo Horizonte. O psicólogo Marcos Figueiredo afirma que a “espera prolongada, incerteza do diagnóstico e estresse emocional de pacientes e familiares elevam o clima de tensão. Em momentos de fragilidade, um olhar torto, uma palavra mal interpretada pode ser um gatilho para explosões de violência”. “Vivemos uma era de maior intolerância e impaciência. Entre os principais motivos está a sobrecarga dos serviços de saúde, especialmente no sistema público, onde a alta demanda e a falta de recursos contribuem para longas esperas, atrasos em atendimentos e frustrações por parte dos pacientes e seus familiares. Essa insatisfação, muitas vezes, é descarregada nos profissionais da linha de frente, como os médicos”, completa. Ele explica ainda que há uma crescente intolerância social e dificuldade de lidar com frustrações, o que tem se refletido em comportamentos agressivos em diversos contextos, incluindo o ambiente hospitalar. “Outro fator relevante é a desinformação sobre o papel e os limites da atuação médica, o que pode gerar expectativas irreais por parte dos pacientes e levar à hostilidade quando os resultados esperados não são alcançados”. Para o especialista em segurança pública, Marcelo Cunha, é fundamental adotar uma série de medidas integradas que envolvam tanto ações de segurança quanto mudanças estruturais e culturais no sistema de atendimento. “Em primeiro lugar, é preciso reforçar a segurança nos ambientes de saúde, com a presença de equipes treinadas, instalação de câmeras de monitoramento e protocolos claros para lidar com situações de risco. A criação de canais de denúncia eficazes e a garantia de que os casos serão investigados e punidos com rigor também são essenciais para desencorajar novas agressões”. “Outro ponto importante é melhorar as condições de trabalho dos profissionais, reduzindo a sobrecarga, garantindo recursos adequados e promovendo um ambiente de trabalho mais saudável e cooperativo. Investimentos em gestão e organização dos atendimentos, que ampliem o acesso da população a serviços de saúde de qualidade, com estrutura adequada e tempo de espera reduzido, contribuem para diminuir o clima de insatisfação que pode levar à violência”, ressalta. Cunha destaca que campanhas de conscientização pública sobre o respeito aos profissionais de saúde e sobre os limites da atuação médica também podem ser úteis, ajudando a construir uma relação mais equilibrada entre pacientes e equipes de atendimento. Além disso, o CFM tem se posicionado favorável à aprovação de Projetos de Lei em tramitação no Congresso Nacional que aumentam as penalidades para agressores de médicos em exercício profissional, como é o caso do PL nº 6.749/2016, já aprovado pela Câmara dos Deputados. A entidade também vem atuando junto a governadores e representantes da Polícia Civil nos estados para promover a criação de delegacias especializadas em investigar crimes cometidos contra profissionais da saúde.

Produção de pinhão gera renda anual de R$ 3,5 milhões em Delfim Moreira

Com safra estimada em 500 mil quilos de pinhão para este ano, a cidade de Delfim Moreira, no Sul de Minas, é um dos maiores produtores da semente no Estado. O município tem cerca de mil hectares de araucárias, produzindo 60 kg por árvore e com renda anual de R$ 3,5 milhões. A produção de pinhão tem aliado geração de renda e preservação ambiental nos municípios da Serra da Mantiqueira, também no Sul de Minas. Em Delfim, os produtores trabalham em ações que estimulam o plantio de árvores e que devem aumentar os lucros. Entre esses trabalhos, estão o viveiro de mudas de araucária e a construção de uma unidade de processamento do pinhão, que está em andamento. A secretária de Agricultura, Joelma Pádua, destaca que o município tem uma produção expressiva. “Esse manejo mantém o ecossistema natural e traz renda para os produtores, e há várias ações em desenvolvimento para o fortalecimento da atividade em Delfim”. No total, cerca de dois mil produtores realizam a atividade de colheita do pinhão todos os anos no Estado. Segundo dados do Safra Agrícola da Emater-MG para 2024, além de Delfim Moreira (2ª posição), os maiores produtores de pinhão em Minas são: Itamonte (1º lugar/1,2 tonelada), Alagoa (3º lugar/700 mil quilos), Baependi (4º lugar/480 mil quilos) e Marmelópolis (5º lugar/475 mil quilos). O extensionista da Emater em Delfim Moreira, Túlio César Meirelles, explica que, atualmente, a produção de pinhão ainda não está entre as principais atividades econômicas do Sul de Minas. “No entanto, possui um potencial estratégico crescente, principalmente em áreas de altitude, onde a araucária angustifolia ocorre naturalmente. O pinhão representa uma fonte de renda complementar importante para os agricultores”. Ele afirma que toda a produção é feita por pequenos produtores. “Atualmente, a Emater orienta cerca de 175 agricultores familiares no município de Delfim Moreira, cadastrados no Programa de Garantia de Preços para a Agricultura Familiar (PGPMBio)”. “Esse número representa não apenas as famílias que coletam e comercializam o pinhão, mas também aquelas que recebem assistência técnica direta da instituição em diferentes etapas do processo: desde o mapeamento de áreas com araucárias, boas práticas de coleta, regularização ambiental, até o apoio na documentação necessária para acesso à política pública”, complementa. Agregando valor Segundo Meirelles, há diversas iniciativas em andamento no município para agregar valor ao pinhão. “Promovendo não apenas a valorização econômica da semente, mas também a preservação da araucária e o fortalecimento da identidade cultural local. Essas ações são coordenadas pela Secretaria Municipal de Agricultura, Pecuária e Meio Ambiente”. “Entre outras ações que se complementam, formando um ecossistema de valorização do pinhão, que vai do campo à mesa, da educação à indústria, da preservação à inovação. Delfim Moreira está se tornando referência regional na integração entre cultura, economia e conservação da araucária, com apoio técnico, políticas públicas e participação da sociedade”, finaliza.

Tempo frio exige cuidados redobrados com a saúde

Com a chegada do inverno, as temperaturas mais baixas, o ar seco e a maior permanência em ambientes fechados criam um cenário propício para o surgimento de doenças respiratórias, agravamento de quadros crônicos e até mesmo impactos no bem-estar emocional. Embora muitos acreditem que basta se agasalhar para enfrentar o frio, o cuidado com a saúde durante essa estação exige atenção a diversos fatores, da hidratação à alimentação, da ventilação dos espaços ao reforço da imunidade. O corpo humano precisa fazer mais esforço para manter sua temperatura interna estável durante o inverno, o que pode sobrecarregar o organismo, especialmente entre idosos, crianças e pessoas com doenças pré-existentes. Nos dias frios os vasos sanguíneos se contraem para preservar o calor, o que pode elevar a pressão arterial. Além disso, a tendência de se aglomerar em locais fechados cria um ambiente ideal para a proliferação de vírus e bactérias. Para a nutricionista Cristina Souza, um dos hábitos mais importantes que ajudam a fortalecer a saúde e a prevenir complicações é a hidratação. “As pessoas tendem a beber menos água no inverno porque sentem menos sede, porém, o corpo continua perdendo líquidos, especialmente por meio da respiração e da urina. A falta de hidratação enfraquece o sistema imunológico, prejudica a circulação e aumenta o risco de infecções”. Ela também destaca o papel da alimentação na manutenção da saúde durante o inverno. “Uma dieta rica em frutas cítricas (como laranja, acerola e kiwi), legumes e verduras de cores vivas é essencial para reforçar as defesas do corpo. Alimentos com vitamina C, zinco e ômega 3 ajudam a modular o sistema imunológico”. Outro aliado importante da saúde no inverno é o exercício físico. “A prática regular de atividades ajuda a manter a circulação ativa, melhora a respiração, estimula a produção de serotonina e fortalece o sistema imunológico. Mesmo nos dias frios, é importante se movimentar, fazer caminhadas leves, alongamentos ou exercícios dentro de casa. Por outro lado, o sedentarismo pode contribuir para a piora da saúde cardiovascular e da saúde mental”, explica. De acordo com a pneumologista Sônia Andrade, entre os principais problemas de saúde associados ao inverno estão as infecções respiratórias, como gripes, resfriados, sinusites, bronquites e pneumonias. “As doenças alérgicas, como a rinite e a asma, também tendem a se intensificar devido ao acúmulo de poeira, mofo e à má ventilação. Além disso, o ar seco, característico desta estação, resseca as mucosas do nariz e da garganta, facilitando a entrada de agentes infecciosos no organismo”. É fundamental manter os ambientes arejados, embora seja tentador deixar as janelas fechadas o tempo todo para conservar o calor. “Essa prática favorece a concentração de agentes patológicos no ar. Basta abrir as janelas por 15 a 20 minutos por dia, em horários de sol, para renovar o ar e reduzir o risco de contágio por vírus respiratórios”, recomenda. Sônia também reforça a importância de manter a caderneta vacinal em dia. “A vacina contra o vírus Influenza, por exemplo, é recomendada anualmente e pode reduzir em até 70% os casos graves da doença. Esse ato não é apenas uma proteção individual, mas também coletiva, pois reduz a circulação viral entre os grupos mais vulneráveis”. Por fim, a dermatologista Luciana Oliveira destaca que outro ponto que merece atenção é o cuidado com a pele e as mucosas, que sofrem com o ressecamento causado pelo ar frio e seco. “Tomar banhos muito quentes pode agravar esse quadro, removendo a camada protetora natural da pele. Eles devem ser mornos e rápidos, seguidos do uso de hidratantes corporais ricos em ureia, ceramidas ou ácido hialurônico. Também é importante usar protetor labial e filtro solar, pois mesmo em dias nublados há radiação UV”.

“Efeito preguiça” associado ao Bolsa Família é tema de estudo do Ipea

Um estudo recente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) questionou a ideia de que o Bolsa Família desestimula a busca por trabalho, uma hipótese popularmente conhecida como “efeito preguiça”. A pesquisa revelou que, mesmo com a ampliação expressiva do programa social entre 2019 e 2023, houve avanço nos indicadores de emprego com carteira assinada, especialmente entre os mais pobres. A renda real do trabalho também apresentou um crescimento anual médio, entre os ocupados dos 20% mais pobres, de 9,5%, acumulando alta de 43,6%. A sondagem utilizou as informações da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua. Para debater o assunto, o Edição do Brasil conversou com o cientista social e professor do UniArnaldo Centro Universitário, Luciano Gomes dos Santos. Por que essa ideia de que o programa desestimula o trabalho persiste no debate público? É alimentada por preconceitos históricos e por uma visão moralizante da pobreza, muito presente no imaginário social brasileiro. Ainda existe a crença de que as pessoas em situação de vulnerabilidade precisam ser “incentivadas” a trabalhar, como se a pobreza fosse resultado de uma escolha individual e não de desigualdades estruturais. A ideia de que o Bolsa Família estimula a ociosidade não se sustenta diante das evidências empíricas, mas ela continua sendo repetida, principalmente em momentos de polarização política. Em sua avaliação, o Bolsa Família realmente pode desincentivar a busca por emprego? Não, o Bolsa Família é um programa de transferência de renda de valores modestos, que não substituem os ganhos de um emprego formal. Na verdade, o projeto oferece uma segurança mínima que pode, inclusive, permitir que o beneficiário busque trabalho com mais estabilidade. Estudos do Ipea, da Universidade de São Paulo (USP) e de organismos internacionais, como o Banco Mundial, mostram que beneficiários estão entre os que mais procuram emprego, exatamente porque desejam melhorar de vida. Que outros mitos atrapalham a compreensão sobre programas de transferência de renda? De que o programa gera dependência, pesquisas mostram que a maioria dos beneficiários permanece por períodos temporários e que há grande rotatividade nos cadastros; de que o projeto é “gasto” e não investimento, ele movimenta a economia local, principalmente no comércio de pequenas cidades; e por fim, que o programa é “clientelista”, quando na verdade ele tem critérios objetivos de acesso e é monitorado por órgãos de controle. Em quais pontos o programa pode ajudar as pessoas em vulnerabilidade a se colocarem no mercado de trabalho? Ele pode funcionar como uma base de proteção que permite que as pessoas se movam com mais autonomia em busca de qualificação e de oportunidades de trabalho. A segurança de uma renda mínima, ainda que modesta, pode significar a diferença entre aceitar ou não um trabalho temporário, um estágio, ou participar de um curso de capacitação. Além disso, o programa está articulado com políticas de saúde, educação e assistência social, o que amplia a capacidade de inclusão social. O estigma do “efeito preguiça” pode atrapalhar o acesso a oportunidades por beneficiários? Sim, a ideia de que beneficiários são “preguiçosos” ou “acomodados” pode dificultar sua inserção no mercado de trabalho, pois reforça preconceitos por parte de empregadores e até de instituições públicas. Além disso, esse estigma desvia o foco do verdadeiro problema, que é estrutural: a baixa oferta de empregos de qualidade e a falta de políticas públicas que apoiem a transição para o trabalho decente. O Bolsa Família deveria estar atrelado a metas de inserção no mercado de trabalho? A vinculação direta com metas de emprego pode ser injusta, pois ignora as realidades locais e as condições de vida das famílias. O ideal é que o programa esteja articulado a políticas públicas que promovam oportunidades de trabalho, mas sem condicionar o benefício ao cumprimento de metas rígidas que podem acabar penalizando os mais vulneráveis.

Postagens com ameaças a escolas nas redes sociais crescem 360% em 4 anos

Um estudo realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, revelou um crescimento de 360% nas publicações com ameaças direcionadas a escolas nas principais redes sociais brasileiras entre 2021 e 2025. A pesquisa teve como objetivo analisar tanto a forma como as plataformas digitais respondem a ataques violentos contra instituições de ensino quanto a abordagem de temas como o bullying nesses espaços virtuais. Conforme os dados, em 2023, cerca de 90% das postagens com discurso de ódio estavam concentradas na deep web, área da internet que não é indexada por mecanismos de busca convencionais. Já em 2025, esse percentual caiu para 78%, o que indica que esse tipo de conteúdo está cada vez mais presente na internet aberta, circulando sem controle ou moderação adequados. De acordo com o levantamento, até o dia 21 de maio deste ano, já haviam sido registradas mais de 88 mil publicações com ameaças direcionadas a estudantes, professores e diretores nas redes sociais. Para efeito comparativo, durante todo o ano de 2024 foram identificadas 105.192 menções desse tipo, enquanto em 2021 o número mal ultrapassava 43.830. O crescimento expressivo evidencia de forma contundente a necessidade de uma resposta articulada para frear esse avanço. Outro aspecto alarmante revelado pelos dados é o aumento expressivo na proporção de comentários que enaltecem os autores de ataques. Em 2011, ano em que ocorreu o massacre de Realengo (RJ), apenas 0,2% das interações nas redes exaltavam os agressores. Já em 2025, esse índice saltou para 21%, representando mais de um quinto do total. A maioria desses elogios é voltada a jovens que, supostamente, teriam reagido de forma violenta após enfrentarem traumas psicológicos e emocionais relacionados ao bullying. A psicóloga Ellen Oliveira acrescenta que os adolescentes são mais suscetíveis a discursos radicais, o que pode colocá-los em risco. “Devido ao desenvolvimento incompleto do cérebro e à necessidade de se identificar com grupos, os jovens podem embarcar em ideias, inclusive a de aceitar ideologias extremas, situações que os adultos já sabem que passam dos limites”. “Além disso, há um perfil mais frequente entre os autores dos ataques: homens jovens geralmente com baixa autoestima e sem popularidade na escola. Eles têm muitas relações virtuais e nutrem uma falta de perspectiva e propósito em termos de futuro. Esses jovens podem ser vítimas de bullying, viver em ambientes familiares violentos ou negligentes e ter acesso a conteúdos violentos na internet, o que contribui para o desenvolvimento de um perfil agressivo”. Os ataques violentos em escolas têm consequências devastadoras para as vítimas, suas famílias e a comunidade escolar como um todo, salienta Ellen. “Além das lesões físicas, muitos sobreviventes enfrentam traumas psicológicos duradouros. A sensação de insegurança permeia o ambiente escolar, afetando o desempenho acadêmico e o bem-estar emocional dos estudantes”. A pedagoga Beatriz Lima ressalta que a inserção de programas de educação socioemocional nos currículos escolares é fundamental. “Esses programas ensinam habilidades, como empatia, resolução de conflitos, autocontrole e cooperação, promovendo um ambiente mais harmonioso e respeitoso. A infância e a adolescência são momentos cruciais para a construção da personalidade e é essencial que todos recebam apoio”. Ela afirma que é essencial treinar professores e profissionais da educação para identificar sinais de problemas emocionais entre os alunos e lidar com situações de violência e bullying, criando um ambiente escolar seguro e inclusivo. “O diálogo constante entre escola e família também é crucial para garantir que os alunos recebam o apoio necessário tanto no ambiente escolar quanto no familiar. Os pais devem estar atentos ao comportamento dos filhos, estabelecer horários para o uso de dispositivos eletrônicos e monitorar o conteúdo acessado na internet, orientando-os sobre os riscos de grupos de ódio e discursos extremistas. É importante denunciar conteúdos violentos ou de incitação ao ódio nas redes sociais para que sejam removidos”, conclui.

Esclerose lateral amiotrófica causa a paralisia dos músculos

A esclerose lateral amiotrófica (ELA) é uma enfermidade neurodegenerativa progressiva que afeta as células nervosas do cérebro e da medula espinhal. Segundo o Ministério da Saúde, sua incidência é de cerca de 2 casos por 100 mil habitantes por ano. Embora rara, a doença compromete a capacidade do corpo de controlar os músculos, levando à paralisia e, eventualmente, à morte. Mesmo com os avanços da medicina, ainda há muito a ser desvendado sobre suas causas e formas de tratamento. Segundo a neurologista Camila Borges, a ELA se caracteriza pela degeneração progressiva dos neurônios motores, que são as células responsáveis por controlar os músculos voluntários. “Sem estímulo nervoso, os músculos enfraquecem, atrofiam e param de funcionar. Ao longo do tempo, a pessoa perde movimentos simples, como segurar objetos ou caminhar, até chegar a funções vitais como respirar e engolir”. Apesar de muitas pesquisas, as causas da patologia ainda não são completamente conhecidas. Aproximadamente 90% dos casos são classificados como esporádicos, ou seja, sem origem hereditária identificável, os outros 10% são familiares, herdados geneticamente. “O que sabemos é que múltiplos fatores genéticos e ambientais podem contribuir para o surgimento da doença. Em casos familiares, mutações em genes estão frequentemente envolvidos, já nos casos esporádicos, há evidências de que exposição a metais pesados, pesticidas, traumas cranianos repetitivos e até infecções virais possam estar relacionados ao desencadeamento da doença, mas nada é conclusivo”, explica. Os primeiros sintomas podem ser sutis e variam de paciente para paciente. “Os mais comuns incluem fraqueza muscular localizada, geralmente nos braços ou pernas, e dificuldade para realizar tarefas rotineiras como abotoar uma camisa ou subir escadas. Câimbras e contrações involuntárias (fasciculações) também são sinais frequentes. Uma das grandes dificuldades é que os sintomas iniciais são inespecíficos e podem ser confundidos com outras doenças neuromusculares”, ressalta Camila. “À medida que a doença avança, os pacientes perdem progressivamente a força muscular em todo o corpo, incluindo os músculos respiratórios, o que representa um risco de vida. A fala, a respiração e a deglutição tornam-se cada vez mais difíceis, o que pode resultar em desnutrição. Curiosamente, os sentidos (visão, audição, tato), o controle dos esfíncteres e as funções cognitivas permanecem preservados na maioria dos casos”, explica o fisioterapeuta Renato Lacerda. A enfermidade não possui um exame específico para diagnóstico, o processo é clínico e envolve a exclusão de outras doenças com sintomas semelhantes, destaca a neurologista. “Exames como ressonância magnética, eletroneuromiografia (ENMG), Estudo de Condução Nervosa (NCS) e testes genéticos podem ser solicitados. Quanto mais cedo a descoberta, maiores as chances de iniciar medidas de suporte ao paciente. A ELA ainda não tem cura, mas o tratamento tem como objetivo retardar a sua progressão e melhorar a qualidade de vida”. Além dos medicamentos, Lacerda relata que o suporte multidisciplinar é essencial. “Fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, psicologia e cuidados paliativos são pilares do tratamento. O uso de dispositivos auxiliares, como cadeiras de rodas, sondas de alimentação e ventilação mecânica não invasiva, também são recursos importantes. Os especialistas elaboram um plano terapêutico individualizado, com intervenções voltadas para aprimorar a mobilidade, a nutrição e a função respiratória”. Não há uma forma específica de prevenção, no entanto, hábitos saudáveis, como alimentação balanceada, prática regular de exercícios físicos e evitar exposição a agentes tóxicos, são recomendações universais para a saúde neurológica. Para os casos familiares, aconselhamento genético pode ser uma ferramenta importante.

Energia sobe acima da inflação e mercado livre ganha espaço

Aconta de luz tem pesado cada vez mais no bolso dos brasileiros. Segundo levantamento da Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia (Abraceel), entre 2010 e 2024, a tarifa média no mercado regulado saltou de R$ 112/MWh para R$ 310/MWh, aumento de 177%, contra uma inflação acumulada de 122% no mesmo período. Isso significa que a energia ficou 45% mais cara do que o avanço do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Em contraste, o mercado livre de energia registrou alta de 44% no mesmo intervalo. De acordo com a Abraceel, o aumento no mercado regulado se deve a uma combinação de fatores estruturais, como a contratação compulsória de usinas térmicas, a indexação de contratos por até 30 anos à inflação, a existência de reservas de mercado para fontes mais caras, além de decisões políticas e alocação indevida de riscos ao consumidor. “A contratação de energia elétrica indexada à inflação por 30 anos tornou-se um peso para o consumidor regulado. A energia das hidrelétricas do Rio Madeira, contratada a preços baixos, hoje custa mais que a energia do mercado livre por causa dessa atualização inflacionária”, afirma Rodrigo Ferreira, presidente-executivo da Abraceel. Outro exemplo citado por Ferreira é a usina hidrelétrica de Itaipu, cujos investimentos já foram amortizados, mas cujas tarifas continuam altas. “Se houvesse apenas o mercado livre, Itaipu teria que oferecer preços mais competitivos. No entanto, como sua energia será comprada compulsoriamente no ambiente regulado, os consumidores continuam pagando encargos socioambientais e governamentais incorporados à tarifa”. Tarifa menor Dados recentes da Abraceel mostram que a tendência de maior competitividade se mantém. No acumulado de 12 meses até abril, a tarifa média para clientes do mercado livre subiu 5%, enquanto no ambiente regulado a alta foi de 10,4%. Segundo a entidade, essa vantagem decorre da própria dinâmica de funcionamento do mercado livre, no qual mais da metade dos contratos têm prazos de até quatro anos. Isso aumenta a frequência com que a energia volta ao mercado e é renegociada sob novas condições, o que estimula a competição entre fornecedores e gera preços mais baixos para o consumidor. “No mercado regulado, o risco hidrológico, por exemplo, foi retirado dos geradores e repassado ao consumidor, como ocorreu com a Medida Provisória 579. Mas o consumidor não tem meios para gerir esse tipo de risco, o que acaba onerando ainda mais a tarifa”, explicou a associação por meio de nota ao Edição do Brasil. “Cliente no centro” Para o CEO da TYR Energia, Eduardo Miranda, o diferencial do Ambiente de Contratação Livre (ACL) vai além da economia imediata. “No mercado livre, o cliente pode aproveitar momentos em que os reservatórios estão cheios e a energia está mais barata. A contratação é personalizada e leva em conta o perfil, a sazonalidade e a flexibilidade de consumo de cada cliente”, diz. Miranda reforça que o modelo empodera o consumidor ao permitir o monitoramento em tempo real do consumo e a adoção de metas e alertas automáticos. “O cliente deixa de ser um passageiro das revisões tarifárias e passa a ter controle. Isso é possível graças ao uso de medidores digitais, softwares de gestão e produtos como o boleto único, que simplifica o pagamento de todas as componentes da conta de luz em uma única fatura”. Ele também aponta o impacto da digitalização e da inteligência artificial como potencializadores da eficiência energética. “A energia mais barata é aquela que não é desperdiçada. O futuro está em operar a flexibilidade do consumidor, e isso só é viável em um mercado verdadeiramente livre”. Além de benefícios econômicos, Miranda defende que a expansão do ACL é estratégica para o país. “Estamos diante de uma oportunidade única. A abertura do mercado não é só sobre energia, mas sobre inovação, ciência, tecnologia e educação. O Brasil precisa aproveitar esse momento para transformar seu modelo energético e se projetar globalmente”, finaliza.

Ensino público ainda não retomou aos níveis do período pré-pandemia

Embora os níveis de aprendizagem tenham avançado nos últimos anos, a pandemia de COVID-19 ainda impacta a educação brasileira, é o que revela o estudo do Todos Pela Educação, com base nos resultados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), aplicado para estudantes do 5º e do 9º ano do ensino fundamental e do ensino médio para avaliar o desempenho em matemática e língua portuguesa. Em todas as etapas, os resultados de 2023 ainda não chegaram aos níveis atingidos em 2019. Por exemplo, no 5º ano do ensino fundamental, em 2023, 55,1% dos estudantes tinham aprendizagem adequada em língua portuguesa e 43,5%, em matemática. Esses índices eram de 56,5% e 46,7% em 2019, respectivamente. A educadora e doutora em educação, Josefina Baettens (foto), conversou com o Edição do Brasil sobre o tema. Quais são os principais fatores que impedem a retomada dos níveis de aprendizagem pré-pandemia? A pandemia expôs e aprofundou desigualdades históricas do sistema educacional brasileiro. Entre os fatores mais críticos estão: o aumento da evasão escolar, o agravamento das vulnerabilidades socioeconômicas, as lacunas acumuladas nas aprendizagens essenciais e o esgotamento emocional de alunos e professores. Além disso, o período afetou as condições sociais em que a aprendizagem se dá. A ausência de interações sociais ricas e mediadas, fundamentais para o desenvolvimento cognitivo e emocional, interrompeu os processos coletivos de construção de conhecimento. Como a formação e a valorização dos professores impactam esse quadro? A recuperação da aprendizagem passa, de forma central, pela valorização e formação docente. Sem condições adequadas de trabalho, políticas de carreira atrativas e oportunidades efetivas de formação continuada, os professores – protagonistas do processo educativo – ficam limitados em sua atuação. A alfabetização na idade certa continua sendo um desafio? Sim, e com agravamento. A meta de alfabetização até o 2º ano do ensino fundamental tornou-se ainda mais distante para milhares de crianças. Muitos estudantes ingressaram nos anos finais do ciclo de alfabetização sem desenvolver as habilidades mínimas de leitura e escrita, o que compromete todo o percurso escolar subsequente. A alfabetização, por sua natureza, exige interações frequentes, feedback imediato e mediação constante do professor. Há sinais de melhora no cenário atual? Embora algumas redes e escolas tenham implementado ações promissoras, o panorama nacional segue crítico. Os avanços, quando existem, são localizados e ainda insuficientes para reverter o quadro geral de estagnação e retrocesso educacional. Superar esse cenário demanda não apenas ações pontuais, mas um esforço estruturado para reconstituir os vínculos sociais, a confiança no processo educativo e o engajamento dos estudantes. Quais medidas emergenciais podem ser tomadas para recuperar a aprendizagem?As medidas precisam ser articuladas, intensivas e baseadas em evidências. Entre elas destacam-se: implementação de programas de reforço e recuperação com base em diagnósticos precisos; ampliação da jornada escolar, com foco em atividades de recomposição das aprendizagens; acompanhamento psicossocial dos estudantes, com ações que fortaleçam o pertencimento escolar; investimento contínuo em formação docente, com ênfase nas aprendizagens essenciais e na reconstrução de práticas pedagógicas mediadoras; e fortalecimento da gestão escolar, com foco explícito na aprendizagem e no desenvolvimento de ambientes colaborativos de ensino. O que pode ser feito para garantir que os avanços sejam duradouros e não pontuais? É fundamental transformar ações emergenciais em políticas de Estado, com continuidade de financiamento, monitoramento rigoroso de resultados, fortalecimento da gestão educacional e centralidade na equidade. Além disso, é imprescindível consolidar políticas de formação e valorização docente que compreendam a aprendizagem como um processo que se dá na e pela interação social. Promover ambientes escolares ricos em diálogo, mediação e colaboração é condição para garantir a sustentabilidade das mudanças no longo prazo.

Apenas Simões e Pacheco são citados para o Governo de Minas em 2026

A passagem do presidente Lula (PT) por Minas Gerais, na semana passada, foi por conta de trazer benefícios para os mineiros. No entanto, serviu como uma espécie de esquenta para as eleições de 2026, na qual é forte candidato à reeleição. A presença do chefe da nação também foi uma sinalização clara da sua pretensão em influenciar no pleito ao Governo do Estado, preferindo o nome do senador Rodrigo Pacheco (PSD) como postulante ao Palácio Tiradentes. O governador Romeu Zema (Novo), como está em lado oposto ao Planalto, se negou a participar dos eventos realizados em Mariana e na sede da CeasaMinas, em Contagem. Na cidade histórica, propalou-se um acordo de R$ 170 bilhões para reparar danos aos atingidos pelo rompimento da barragem de Bento Rodrigues, envolvendo vítimas em Minas e no Espírito Santo. Mas o ato de maior repercussão política teve como palco o pátio da CeasaMinas, mediante a distribuição de 300 máquinas para dezenas de municípios do Estado. Esse evento estava previsto para ser realizado no mês passado, porém, não aconteceu por conta da falta de espaço na agenda presidencial. Sucessão estadual No mesmo instante da presença de Lula em Minas, Romeu Zema declarou estar disposto a deixar de lado o apadrinhamento de Jair Bolsonaro (PL), para colocar o seu nome à disposição para disputar a presidência. Ambos os políticos, Zema e Lula, nada falam a respeito dos seus preferidos para o cenário ao pleito estadual do próximo ano. Contudo, existe uma sinalização clara de que o nome preferido do Executivo é do vice-governador Mateus Simões (Novo), já em pré-campanha quando visita as lideranças municipais pelo interior do Estado. Por enquanto, essa incursão não se traduz em popularidade suficiente para tornar Simões um nome competitivo. Por seu turno, o denominado campo de centro-esquerda não tem outra alternativa até o momento, exceto a possibilidade de o senador Rodrigo Pacheco (PSD) aceitar se lançar nesse movimento, apoiado pelo Palácio do Planalto. O parlamentar está cauteloso, embora o seu nome já faça parte de comentários de avaliações de grande parte das lideranças políticas no Estado. Em síntese, relativamente ao processo eleitoral mineiro, apenas os nomes de Mateus Simões e Rodrigo Pacheco estão em pauta no momento para a peleja de 2026. Até porque, o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos), antes citado com frequência, agora se esquiva em continuar discutindo o seu futuro político, no sentido de haver alinhamento positivo com essa bandeira de uma possível candidatura. No concernente do Partido Liberal, onde o bolsonarismo é dominante, a movimentação do deputado Nikolas Ferreira, o mais votado da história de Minas, não passa de mera especulação. Não se percebeu qualquer ação mais afirmativa do parlamentar sobre o assunto em pauta. Por fim, a possível presença de Romeu Zema no cenário político nacional terá no caminho alguns nomes já escalados como os governadores de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil); de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos); do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), e do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSD).