Cresce o número de acidentes com motos em Belo Horizonte

Nos últimos seis anos, Belo Horizonte registrou um crescimento de 56,18% nos acidentes envolvendo motociclistas, conforme informações do Painel de Acidentes de Trânsito da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp). Em 2018, foram contabilizadas 13.158 ocorrências, número que subiu para 20.553 em 2024, o que representa, em média, dois acidentes por hora. O único recuo no período foi observado em 2020, ano marcado pelo início da pandemia. A partir de 2021, os índices voltaram a subir significativamente, coincidindo com o início da operação de um serviço de transporte de passageiros por motocicleta via aplicativo na cidade. Em 2025, até o mês de agosto, já foram registrados 12.057 acidentes. Para o engenheiro de transportes Carlos Antunes, o aumento expressivo está diretamente ligado à intensificação do uso das motocicletas como meio de trabalho. “Com a popularização dos aplicativos de entrega e, mais recentemente, de transporte de passageiros, muitos jovens passaram a enxergar na motocicleta uma forma rápida e acessível de gerar renda. No entanto, o crescimento desse mercado não foi acompanhado por políticas públicas de capacitação, fiscalização e infraestrutura voltadas para essa categoria de condutores”. Segundo Antunes, o problema vai além do comportamento individual dos motociclistas. “Estamos falando de uma falha sistêmica. A cidade não está preparada para receber um fluxo tão intenso de motos. Falta sinalização adequada, faixas exclusivas, fiscalização de velocidade e educação no trânsito para todos os atores envolvidos, inclusive motoristas de carros e ônibus que dividem o espaço urbano com os motociclistas”. Para a ortopedista Mariana Lopes, que já atendeu vítimas de acidentes de moto, os ferimentos costumam ser graves. “Quedas em alta velocidade, colisões com carros e atropelamentos geram lesões severas, como fraturas expostas, traumatismos cranianos e amputações. Muitos desses pacientes ficam com sequelas permanentes ou, em casos mais extremos, não resistem”. Ela reforça que o uso inadequado de equipamentos de proteção ainda é um problema recorrente. “É comum vermos motociclistas com capacetes de baixa qualidade ou mal ajustados, sem luvas, jaquetas, botas ou outros itens que poderiam minimizar os impactos em caso de queda. A fiscalização precisa ser mais rigorosa, mas também é necessário investimento em campanhas educativas e em políticas que incentivem a segurança no trabalho desses profissionais”. O poder público deve buscar alternativas para conter os acidentes, destaca Antunes. “É necessário mapear os principais pontos de ocorrência de acidentes com motociclistas para implementar intervenções no trânsito, como melhorias na sinalização e na iluminação pública. Além disso, dialogar com os representantes das empresas de aplicativo para buscar soluções conjuntas, como cursos de direção defensiva e incentivos à manutenção dos veículos”. De acordo com o especialista, um dos maiores desafios é alcançar os motociclistas autônomos. “Muitos trabalham por conta própria e estão fora do radar das empresas ou dos sindicatos. Precisamos criar mecanismos que os incluam nas políticas públicas e ofereçam suporte técnico e educacional para que possam atuar com mais segurança”. Além das ações locais, Antunes defende uma política nacional voltada para os motociclistas, com regulamentação clara do transporte por aplicativo em duas rodas, linhas de financiamento para equipamentos de segurança e programas de educação no trânsito nas escolas e nos centros de formação de condutores. Essas medidas visam reduzir acidentes e valorizar a categoria. “Enquanto as soluções não chegam, o número de acidentes continua crescendo, deixando cicatrizes profundas não apenas nas vítimas e suas famílias, mas em toda a sociedade. O que antes era visto como um meio de locomoção ágil e econômico, agora se revela um dos maiores desafios para a segurança no trânsito de Belo Horizonte e de várias outras cidades brasileiras”, conclui.

Mulheres sofrem mais com a síndrome das pernas inquietas

A síndrome das pernas inquietas, também conhecida como doença de Willis-Ekbom, é uma condição neurológica que atinge entre 5% e 8% da população mundial. Caracterizada pela necessidade irresistível de movimentar as pernas, principalmente durante o repouso ou à noite, a enfermidade pode trazer impactos significativos para a qualidade de vida dos pacientes. Embora possa afetar qualquer pessoa, estudos indicam que a síndrome é mais frequente em mulheres, sobretudo naquelas que passaram por múltiplas gestações e em pessoas com mais de 40 anos. O desconforto costuma se intensificar à noite, prejudicando o sono e resultando em consequências como fadiga diurna, alterações de humor e dificuldades cognitivas. “É uma doença que pode ser primária, ligada a fatores genéticos e transmissão familiar, ou secundária, associada a patologias como deficiência de ferro e diabetes. Ela prejudica extremamente a qualidade do sono dessas pacientes, diminuindo a capacidade intelectual e aumentando a fadiga durante o dia”, explica o reumatologista Marcelo Cruz Rezende, membro da Comissão de Dor da Sociedade Brasileira de Reumatologia. Entre as causas associadas à síndrome das pernas inquietas estão condições como artrite reumatoide, insuficiência renal, diabetes e algumas doenças neurológicas. A relação com distúrbios do sono é um dos pontos mais preocupantes, já que a privação do descanso adequado pode comprometer atividades cotidianas, produtividade no trabalho e até a saúde mental. De acordo com Rezende, os principais fatores de risco são a deficiência de ferro e a gravidez. “Cerca de 20% a 25% das mulheres apresentam sintomas durante a gestação, principalmente no terceiro trimestre. A menstruação reduz a concentração de ferro no organismo, tornando as mulheres mais vulneráveis à síndrome”. O diagnóstico ainda é um desafio, pois muitos confundem os sintomas com cãibras, má circulação ou simples nervosismo. Segundo Rezende, identificar os sinais de alerta é essencial para evitar a progressão e buscar tratamento adequado com um especialista. “Não existe um sinal de alerta específico. O que deve ser levado em conta é que, se o paciente não relatar a sensação de pernas inquietas, dificilmente o médico perguntará. Muitas vezes, o profissional trata o distúrbio do sono, mas não investiga a causa real”. O tratamento varia conforme a gravidade do quadro. Nos casos mais leves, recomenda-se investir em estratégias não farmacológicas, como massagens, alongamentos, exercícios aeróbicos e higiene do sono. Já para situações moderadas a graves, podem ser prescritos medicamentos de uso contínuo ou em períodos específicos. “Os principais tratamentos hoje incluem a pregabalina, medicamentos antiparkinsonianos e a reposição de ferro. Em casos muito refratários, até opioides podem ser usados para tentar melhorar a qualidade do sono. Além disso, terapias também podem auxiliar”, detalha o reumatologista. Apesar de a ciência avançar, o especialista afirma que ainda não existem grandes novidades no campo da síndrome das pernas inquietas. O diagnóstico continua sendo clínico, dependendo do relato do paciente, e o tratamento apresenta bons resultados em cerca de dois terços dos casos. “A importância de procurar um especialista é fundamental. Reumatologistas e neurologistas clínicos são os profissionais mais indicados para diagnosticar e tratar a síndrome, ajudando os pacientes a recuperar qualidade de vida”, finaliza.

ACM Neto articula nome de Aécio para disputar o Planalto em 2026

Em Brasília e em Belo Horizonte, comentários indicam um novo projeto político para o deputado federal e ex-governador Aécio Neves (PSDB). Trata-se de um entendimento com o objetivo de incentivar a candidatura do mineiro à Presidência da República. Isso começou a reverberar depois que o governador Romeu Zema (Novo) se lançou ao pleito majoritário, em São Paulo. Fontes garantem que o tema vem sendo tratado entre Aécio Neves e seu maior incentivador, o ex-prefeito de Salvador, ACM Neto. O político baiano é pré-candidato a governador do seu estado e vice-presidente do União Brasil, um partido de enorme visibilidade, principalmente após a formação de uma federação com o PP, a denominada União Progressista, com mais de cem parlamentares. Toda essa estrutura, se colocada à disposição de uma eventual empreitada a favor de Neves, poderia fazer toda a diferença, tanto do ponto de vista de capilaridade quanto em relação a recursos financeiros. Essa aposta no nome do ex-governador de Minas Gerais para uma empreitada nacional não é de agora. Há o registro de algumas sinalizações, como a escolha do amigo de Aécio Neves, o ex-governador de Goiás, Marconi Perillo, para presidir o PSDB, sigla que também tem coligação a partir da formatação de uma federação com o Cidadania. Eduardo Leite Nos bastidores da Câmara dos Deputados circulam informações que merecem análise dos matemáticos da política brasileira. Um exemplo é a saída do PSDB do governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, quando ainda falta mais de um ano e meio para as eleições. À época, quando se filiou ao PSD a convite do presidente nacional da sigla, Gilberto Kassab, todos entenderam que se tratava de uma opção por um partido de maior visibilidade, visto que Leite tem projeto de se candidatar a presidente. Ao decidir deixar o ninho dos tucanos, muito possivelmente o governador do Rio Grande do Sul já tinha conhecimento das primeiras manifestações em prol de Aécio Neves rumo ao Palácio do Planalto. Eduardo Leite não quis correr o risco de ficar isolado dentro de seu próprio partido político. Essa possibilidade do pleito de 2026 contar com Aécio Neves como candidato à Presidência da República pode ser apenas uma ideia. No entanto, outro forte nome nos bastidores do União Brasil, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, esteve em Belo Horizonte na semana passada. Ele participou de um evento do segmento empresarial, circulou pelos meandros políticos e visitou a Associação Mineira de Municípios (AMM). Na sede da entidade, esteve com prefeitos e membros da diretoria da Associação, quando propalou a respeito da sua pré-candidatura sem dar muitos detalhes. “É hora da união dos políticos de centro para extirpar de vez o poder do PT e da esquerda brasileira”, comentou.

10% dos idosos no Brasil já sofreram algum tipo de violência

Um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) analisou dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019 e revelou a gravidade da violência contra idosos no Brasil. Cerca de 10% deles relatam ter sofrido algum tipo de agressão. Entre os tipos, a psicológica foi a mais recorrente (9,63%), seguida pela física (1,56%). Os fatores mais associados à violência foram: idade entre 60 e 69 anos, viver em áreas urbanas, sintomas depressivos e presença de múltiplas doenças. A ausência de parceiro íntimo se mostrou um fator de risco para a violência entre idosas, diferindo do perfil de mulheres mais jovens. A taxa de violência entre mulheres em áreas urbanas chegou a 11,55%, frente a 7,63% nas zonas rurais. Entre os homens, essa diferença foi menor: 9,07% nas cidades e 7% no campo, indicando maior vulnerabilidade feminina em contextos urbanos. Para discutir o assunto, o Edição do Brasil conversou com a responsável pelo estudo, a pesquisadora Fabiana Martins Dias de Andrade. Você acredita que a sociedade reconhece plenamente o que é violência contra esse grupo? A sociedade ainda não reconhece plenamente o que é violência contra as pessoas idosas. Embora existam legislações, ações e ampliação do debate público sobre a temática, muitos tipos de violência ainda são invisibilizados, seja por falta de conhecimento ou até mesmo por naturalização desse evento na sociedade. Quais são os principais impactos físicos e psicológicos na vida de uma pessoa idosa que sofre agressão? A violência contra a pessoa idosa pode causar inúmeras consequências físicas e psicológicas, o que pode agravar as condições de saúde, bem-estar e qualidade de vida. Podemos destacar as lesões corporais como hematomas, fraturas, queimaduras, cortes e escoriações. Também existe o comprometimento da mobilidade (quedas provocadas por agressões ou negligência podem levar à perda de independência), além de desnutrição, desidratação e complicações médicas devido à falta de cuidados. Em relação aos efeitos psicológicos, depressão, ansiedade, baixa autoestima, isolamento social, insônia, declínio cognitivo e até mesmo ideação suicida. Como sintomas depressivos e multimorbidades contribuem para a exposição à violência? Os sintomas depressivos e as multimorbidades (presença de duas ou mais doenças crônicas em uma mesma pessoa) contribuem para o aumento significativo da vulnerabilidade da pessoa idosa à violência. A depressão causa sentimentos de isolamento e apatia, reduzindo a capacidade do idoso de reagir ou denunciar a agressão. Já as multimorbidades aumentam a dependência física e emocional de cuidadores, tornando o idoso mais vulnerável a negligências e as demais formas de violência. A subnotificação é um problema comum nesse tipo de crime? Sim, o tema da violência é estigmatizado. Os idosos têm vergonha e medo de denunciar por depender da pessoa (geralmente, o agressor é um familiar ou cuidador). Já nos serviços de saúde, os profissionais ficam com receio devido ao medo de represálias. Quais medidas concretas poderiam ser tomadas a partir dos resultados desse estudo? Diversas medidas podem ser adotadas para enfrentar a violência contra idosos, como o desenvolvimento de políticas públicas que reduzam desigualdades sociais e de gênero, além da ampliação e qualificação dos serviços de assistência social. É essencial criar centros de acolhimento temporário para vítimas em risco, implementar programas de visitas domiciliares regulares a idosos vulneráveis e promover campanhas de conscientização sobre etarismo e relações intergeracionais.

Mortalidade por câncer colorretal pode subir 36% em 15 anos

Segundo a projeção do 9º volume do Boletim Info.oncollect, da Fundação do Câncer, a mortalidade por câncer colorretal deve aumentar 36,3% nos próximos 15 anos no Brasil. O crescimento dos óbitos entre os homens será de 35% até 2040 e, entre as mulheres, de 37,63%. Ainda conforme a pesquisa, a região Sudeste deverá ter um aumento de 34% nos óbitos e também irá concentrar o maior número absoluto de mortes. De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (Inca), os cânceres de cólon e reto são os terceiros mais frequentes do Brasil, com cerca de 45 mil novos registros por ano, estimativa para o triênio de 2023 a 2025. A gravidade do câncer colorretal está diretamente relacionada ao estágio em que é diagnosticado, segundo o estudo. Apesar de avanços em prevenção e diagnóstico precoce, a letalidade permanece elevada, sobretudo em países de baixa e média renda, onde o acesso ao rastreamento e ao tratamento é limitado. No Brasil, o índice estimado para essa neoplasia variou entre 40% e 60% entre homens e mulheres, o que reflete, em parte, o alto número de casos diagnosticados em estágios avançados. O coordenador da pesquisa, Alfredo Scaff, afirma que muitas vezes a doença se desenvolve de forma lenta, a partir de pequenos pontos que ao longo de anos podem se transformar em câncer. “Em nosso levantamento, 78% das pessoas que vieram a óbito foram diagnosticadas já nos estágios três ou quatro, o que reduz drasticamente as chances de cura”. Segundo o estudo internacional Concord-3 (2010-2014), em países com programas estruturados de rastreamento, a sobrevida em cinco anos pode ultrapassar 65%. Já no Brasil, os índices são inferiores: 48,3% para câncer de cólon e 42,4% para câncer de reto, revelando deficiências no acesso a diagnóstico precoce e tratamento oportuno. A coloproctologista da Unimed-BH, Hilma Nogueira, destaca que os casos de câncer de intestino têm aumentado muito em pacientes jovens. “E na maioria das vezes, acredito que não é só o fator familiar que influencia, mas também a dieta. Ela é pobre em fibras e riquíssima em substâncias químicas, conservantes e acidulantes”. Os principais fatores de risco são justamente a história familiar de câncer e uma dieta inadequada, ressalta a coloproctologista. “Os sintomas são muito discretos, às vezes um pequeno sangramento, uma cólica com gases, o intestino que estava preso fica solto, ou que é solto fica preso. São pequenas alterações que passam despercebidas e dificultam o diagnóstico precoce”. “E o Sistema Único de Saúde (SUS) não consegue dar conta de atender a todos. Existem pessoas esperando para fazer colonoscopia há uns seis ou oito meses, porque a demanda é muito grande. Precisamos de um estudo, de uma análise e de boa vontade para poder melhorar essas condições”, pontua. Orientações Entre as recomendações dos especialistas, além do rastreamento, é que homens e mulheres a partir dos 50 anos façam exames, como os testes de sangue oculto nas fezes e, se necessário, a colonoscopia. Pessoas com histórico familiar e outras condições de risco devem iniciar esse acompanhamento mais cedo, conforme a orientação médica. Hilma esclarece que o tratamento do câncer de intestino é individualizado. “Para cada caso tem um tipo de procedimento. E também depende da posição do tumor no intestino. Os tumores do cólon são tratados com quimioterapia e com cirurgia. Já os do reto com radioterapia e cirurgia”. Ela finaliza destacando que esse tipo de câncer é curável. “Quando tratado na fase inicial, sem metástase, o tumor pode ser retirado e o paciente curado. Os casos circulando na mídia são de pessoas que não fizeram a prevenção e descobriram o problema de forma tardia”.

Salário de 54% dos trabalhadores não dura até o fim do mês

U ma pesquisa conduzida pela SalaryFits, empresa vinculada à Serasa Experian, revelou que neste ano, 54% dos profissionais com carteira assinada ou atuando como Pessoa Jurídica (PJ) não conseguem manter o salário até o fim do mês em sua conta bancária, evidenciando dificuldades na saúde financeira e no bem-estar dos trabalhadores brasileiros. O índice registrado em 2025 é o mais baixo desde que a pesquisa começou a ser realizada, em 2018. No ano anterior, 62% dos trabalhadores afirmavam que o salário não durava até o fim do mês, o que representa uma redução de oito pontos percentuais neste ano. Mesmo com essa melhora, a proporção de brasileiros que não consegue cobrir todas as despesas mensais com a renda ainda continua alta. O levantamento entrevistou 1.029 profissionais atuantes em empresas públicas e privadas, tanto sob o regime CLT quanto PJ, e revelou dados alarmantes. Segundo os resultados, 75% dos participantes não teriam condições financeiras de lidar com um gasto inesperado de R$ 10 mil. Além disso, 66% relataram ter enfrentado dificuldades econômicas nos últimos cinco anos, e 33% chegaram a ter o nome negativado no último ano, sendo que, entre esses, 17% ainda enfrentam pendências financeiras. De acordo com a pesquisa, a maior parte da renda dos brasileiros com o orçamento comprometido é direcionada a necessidades básicas, como alimentação (77%) e contas essenciais, como água e energia elétrica (71%). Em seguida, aparecem compromissos considerados menos urgentes, como financiamentos de imóveis e automóveis (52%), empréstimos pessoais (36%), compras de roupas e itens domésticos (33%) e despesas com educação (20%). A consultora financeira Júlia Almeida, especialista em finanças pessoais, analisa que o dado é reflexo de uma crise que vai muito além da má gestão individual. “Estamos vivendo um momento em que o salário simplesmente perdeu poder de compra. A inflação acumulada nos alimentos, no aluguel, no combustível e até nas contas básicas, como energia e água, está muito acima dos reajustes salariais dos últimos anos”. Ela afirma que muitas famílias estão entrando em um ciclo de dívidas rotativas no cartão de crédito, uso excessivo do cheque especial e empréstimos com juros altos para cobrir despesas básicas. “O trabalhador precisa se endividar para pagar o supermercado. Isso é sintomático, o problema não é só falta de educação financeira, é falta de renda suficiente para sustentar o básico”. Os profissionais que atuam como PJ, cada vez mais comuns em áreas como tecnologia, comunicação e prestação de serviços, também enfrentam dificuldades. O modelo promete flexibilidade e ganhos maiores, mas na prática, muitos desses trabalhadores não têm qualquer proteção trabalhista, como décimo terceiro salário, férias remuneradas ou fundo de garantia. Para o economista Renato Duarte, há uma romantização em torno da “liberdade” de ser PJ. “A verdade é que a pejotização é uma forma de burlar os direitos trabalhistas. O profissional se vê obrigado a aceitar condições instáveis, sem garantias, com pagamentos que muitas vezes atrasam. Isso torna o planejamento financeiro quase impossível”. “O descompasso entre renda e despesas não afeta apenas o bolso, também traz consequências para a saúde mental. Ansiedade, estresse crônico e insônia são cada vez mais comuns entre trabalhadores endividados. As pessoas se culpam por não conseguirem administrar o próprio dinheiro, mas estão fazendo milagres para sobreviver”, destaca. Júlia sugere algumas orientações para quem deseja começar a organizar melhor o orçamento. “O primeiro passo é manter um controle detalhado dos gastos, anotando todas as entradas e saídas da conta, a fim de entender para onde o dinheiro está indo. Em seguida, é importante priorizar o essencial, categorizando os gastos como indispensáveis, importantes ou supérfluos, e concentrando-se no que realmente é necessário até que as finanças estejam equilibradas”. “Criar uma reserva financeira, ainda que modesta, guardando pelo menos 5% da renda, mesmo que seja em um cofre físico, para não depender de crédito em situações emergenciais. Por fim, ficar alerta com os riscos de parcelamentos longos que podem comprometer o orçamento futuro, optando por pagamentos à vista sempre que possível, aproveitando para negociar descontos”, conclui.

Audiência pública debate a utilização de agrotóxico no Estado

O Brasil se destaca, desde 2008, como o maior consumidor mundial de agrotóxicos, respondendo por 19% do mercado. Essa foi a justificativa do requerimento para realização de uma audiência pública promovida pela Comissão de Participação Popular da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), a pedido dos 20 parlamentares integrantes do Bloco Democracia e Luta, no dia 26 de agosto. Embora ações de controle do uso de agrotóxicos estejam sendo implementadas no Estado, deputados, agricultores e representantes de órgãos públicos defendem a urgência de reforçar o incentivo à agroecologia. A demanda principal é a retomada do Grupo Executivo Permanente (GEP), que é uma estrutura de gestão criada para implementar, coordenar e fiscalizar políticas e projetos específicos. Um dos seus principais objetivos é reduzir, de forma gradual e contínua, a disponibilidade, o acesso e o uso de agrotóxicos no Estado, bem como fomentar a prática da agroecologia e da produção orgânica. Para o deputado e presidente da Comissão, Ricardo Campos (PT), é fundamental articular esforços municipais, estaduais e federais para implementar ações efetivas a fim de promover o acesso a alimentos saudáveis. “Como parlamentares, defensores da agricultura familiar, nos sentimos no dever de trazer esse debate e a partir dele propor as diretrizes para fazer com que as falas se tornem realidade”. O diretor da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa), Samuel de Melo Goulart, admitiu a inatividade do GEP, porém, mencionou ações implementadas pelo Executivo. Como o combate às pragas e à aquisição de merenda escolar das produções agroecológicas. “Embora o grupo esteja, de fato, parado, o Estado não parou”. Existem outras formas de produzir e nenhuma delas deve ser imposta à sociedade. “A pauta da redução de agrotóxicos é muito válida, porém, deve-se ter muita cautela quanto ao termo que se usa. A redução gradual é importante, contudo, a eliminação imediata não é algo interessante, pois os agrotóxicos, muitas das vezes, são a última opção que nós temos para uma produção sustentável em todos os sentidos”, acrescentou. O uso do agrotóxico pode ser reduzido, segundo avalia Goulart. “Hoje, temos alternativas onde a utilização é minimizada ou mesmo dispensada, mas é importante estabelecer também que a eliminação imediata pode trazer mais problemas do que benefícios. É necessário saber que nós precisamos de todas as alternativas”. Consequências do uso De acordo com o biólogo e coordenador do Fórum Mineiro de Combate aos Agrotóxicos e Promoção da Agroecologia (FMCA), Gilson Luiz Reis, 1 milhão de pessoas são intoxicadas no mundo a cada ano. “No Brasil, entre 2010 e 2019, esse número pode chegar a quase 3 milhões. A intoxicação causa mortes, doenças, como o câncer, e afastamentos do trabalho. Estamos contaminando de forma violenta o nosso ecossistema e matando a fauna e a flora”. A dirigente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Paula Ribeiro Guimarães, afirmou que é necessário fomentar a mecanização e a produção de bioinsumos. “É isso que garante nossa soberania alimentar. Lamento a discrepância entre os recursos públicos repassados ao agronegócio e à agricultura familiar, o uso de agrotóxicos proibidos em outros países e a pulverização aérea, que contamina vizinhanças e causa, entre outros danos, a morte de abelhas”. Como resultado, os participantes reconheceram que é necessário avançar nas ações citadas na reunião. Entre os pedidos de providência que serão encaminhados por requerimento, o deputado Ricardo Campos anunciou a cobrança pela recomposição do GEP e a realização de seminário legislativo para avaliar o Plano de Ação da Estratégia Intersetorial de Redução do Uso de Agrotóxicos e Apoio à Agroecologia e à Produção Orgânica em Minas Gerais (Planera).

Aprovação de lei marca início para a proteção das crianças nas redes

A aprovação do Projeto de Lei (PL) 2.628/2022 pelo Congresso Nacional nos últimos dias marcou mais um passo na proteção de crianças e adolescentes no ambiente on-line. A tramitação ganhou força após a repercussão do vídeo “Adultização” do influenciador Felca, que expôs como o chamado “Algoritmo P” poderia estar colocando menores em contato com conteúdos exploratórios e sexualizados. O texto aprovado traz medidas como a proibição de publicidade segmentada a crianças, bloqueio de técnicas de perfilamento e realidade aumentada para indução comercial, exigência de verificação de idade e vínculo das contas de menores a responsáveis legais, além da criação de uma autoridade independente de fiscalização. Prevê ainda a publicação de relatórios de transparência pelas plataformas e estabelece critérios claros para remoção de conteúdos nocivos, como exploração sexual, assédio e incentivo à automutilação, sem afetar o direito à crítica e à liberdade de imprensa. Para entender os impactos da medida, o Edição do Brasil entrevistou a coordenadora de Digital do Instituto Alana, Maria Mello. Como você avalia a aprovação do PL e quais pontos merecem destaque? O texto é um grande avanço e uma conquista da sociedade civil. Ele resulta de cinco anos de debates entre organizações, academia e poder público, e foi aprovado em rara unanimidade. Mantém garantias fundamentais, como o conceito de “acesso provável”, que inclui serviços usados por crianças mesmo quando as plataformas dizem o contrário; a vedação do perfilamento comercial; e a exigência de relatórios de transparência. Também é importante destacar que o PL concilia a proteção da infância com a liberdade de expressão, já que só permite a remoção de conteúdos nocivos muito específicos. O projeto proíbe práticas como perfilamento de dados e uso de realidade aumentada para publicidade. Que impacto isso deve trazer? Essa regra impede que empresas explorem dados e emoções de crianças e adolescentes para direcionar anúncios. Já houve casos em que plataformas usaram sinais de insegurança de jovens para vender produtos de beleza e medicamentos para emagrecer. O PL coloca limites claros a esse tipo de exploração, protegendo vulnerabilidades que não devem ser exploradas comercialmente. A exigência de vincular perfis de menores de 16 anos a um responsável legal é suficiente? É um avanço importante. A lei exige não só o vínculo com responsáveis, mas também que as empresas informem claramente quando o serviço não é adequado para menores, monitorem conteúdos atrativos a crianças e aprimorem mecanismos de verificação de idade. Ou seja, a supervisão parental é reforçada, mas também acompanhada de obrigações para as próprias plataformas. O texto cria uma autoridade independente para fiscalização. Qual seria o modelo ideal? Uma autoridade independente é essencial porque garante autonomia frente a governos e empresas. Defendemos que seja um órgão multissetorial, com participação da sociedade civil e estrutura robusta para agir com agilidade. Agora, é preciso definir rapidamente sua composição e funcionamento para que a lei seja efetiva. Você acredita que além da legislação seria preciso investir em educação digital? O PL avança ao proibir a monetização e o impulsionamento de conteúdos sexualizados envolvendo crianças e ao exigir relatórios de transparência. Mas o problema é multifatorial. Além da lei, seria necessário investir em educação digital, diálogo com famílias e crianças e políticas de prevenção que envolvam também as próprias plataformas. Quais são os próximos passos agora que o projeto segue para o Senado? A sociedade civil teve papel fundamental na construção do texto e continuará acompanhando sua tramitação. Estamos confiantes de que os senadores manterão o compromisso com a celeridade, para que o PL seja sancionado o quanto antes. O desafio seguinte será garantir uma regulamentação eficaz e a implementação das medidas aprovadas.

Violência sexual faz uma menina virar mãe a cada 30 minutos

Segundo dados do DataSUS do Ministério da Saúde, entre 2014 e 2023, a cada meia hora, uma criança deu à luz no Brasil. A média foi calculada a partir da quantidade de nascimentos em que a gestante tinha de 10 a 14 anos de idade. Por ano, cerca de 20 mil meninas viraram “mães”, mas poderiam ter interrompido a gestação legalmente, por terem sido vítimas de estupro de vulnerável, como prevê o Código Penal brasileiro quando a relação sexual envolve menores de 14 anos. O projeto Meninas Mães, da Revista AzMina, traçou um levantamento inédito no Brasil, revelando que os serviços de interrupção legal da gravidez estão, em muitos casos, extremamente distantes das meninas de 10 a 14 anos que engravidam. Como consequência, nos últimos dez anos, cerca de 205 mil meninas tornaram-se mães por não conseguirem exercer o direito ao aborto após estupros presumidos. Algumas precisariam viajar até 2.500 km para alcançar uma unidade de saúde que ofereça esse tipo de atendimento. A ginecologista e obstetra Helena Moura aponta que esse fenômeno não é isolado. “As meninas engravidam como consequência direta de estupro de vulnerável, muitas vezes cometido por familiares ou pessoas de confiança. Em regiões remotas, sem estrutura de saúde ou sem conhecimento da lei, o resultado é uma gravidez imposta, sem qualquer apoio ou direito respeitado”. Na avaliação de Helena, a geografia da dor é clara: meninas negras, indígenas e pobres, especialmente no Norte e Centro-Oeste, estão entre as mais afetadas. “Nas áreas rurais e periferias, a falta de acesso à educação sexual, à saúde e à justiça potencializa o risco. Muitas vítimas sequer sabem que podem interromper a gravidez em caso de estupro, direito garantido por lei”. “Maternidade imposta a uma criança é um desastre. O corpo não está preparado, o risco de complicações obstétricas e psicológicas é enorme e há aumento de morbimortalidade, depressão profunda, retraimento social e ainda a carga insuportável de cuidar de outro ser”, adiciona. Uma pesquisa elaborada pelo Centro Internacional de Equidade em Saúde, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com apoio da organização Umane, verificou mais de 1 milhão de partos do Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos de 2020 a 2022 e constatou que meninas nessa situação têm acesso reduzido ao pré-natal, e em até 40% dos casos, o cuidado só começa após o primeiro trimestre, e isso se agrava conforme a vulnerabilidade socioeconômica. Além das consequências severas para essas vítimas, como danos emocionais, hiperexposição sexual precoce, distúrbios mentais e, posteriormente, maior risco de uso de substâncias e comportamento de risco. De acordo com a assistente social Camila Lima, seria necessário operar em três frentes ao mesmo tempo: prevenção via educação sexual acessível, acolhimento emergencial eficaz e responsabilização real. “Sem essas engrenagens funcionando, vamos apenas perpetuar essa violência”. Algumas medidas citadas pela profissional são a ampliação e divulgação da Lei do Minuto Seguinte, que garante atendimento emergencial multidisciplinar gratuito às vítimas de violência sexual. Isso inclui profilaxia, apoio psicológico e social, orientações legais, sem necessidade de boletim de ocorrência. Também a implementação em todo o país da Rede Cegonha com foco em meninas vítimas de violência, oferecendo acesso seguro ao parto ou interrupção da gestação conforme a lei, acompanhamento pré-natal, suporte psicológico e garantia de continuidade escolar e social. “Educação sexual desde a infância, com programas adequados às faixas etárias, capacitação de professores e envolvimento da família, para prevenir abusos e empoderar crianças a identificarem situações de risco, juntamente com políticas integradas nas regiões remotas, com uso de unidades móveis de atendimento (ônibus, barcos, telemedicina), para levar serviços de saúde, assistência social e jurídica onde o Estado ainda não chega”, finaliza Camila.

Casos de hepatite A aumentam em várias regiões brasileiras

O Brasil tem registrado uma preocupante alta nos casos de hepatite A. Dados recentes do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) mostraram que, em 2024, o número de infecções saltou 54,5% em relação ao ano anterior, passando de cerca de 1,1 para 1,7 caso por 100 mil habitantes. Em algumas regiões, como Centro-Oeste, o aumento chegou a 350%, enquanto no Sudeste foi de mais de 57%, e no Sul cerca de 50%. Apesar disso, Norte e Nordeste continuam concentrando a maioria dos casos acumulados desde 2000. Esse cenário gera preocupação entre autoridades sanitárias, principalmente porque esse aumento ocorre em um contexto em que a doença havia sido amplamente controlada na infância. Desde 2014, a vacina contra hepatite A faz parte do calendário nacional infantil, o que causou queda nos casos entre crianças, uma redução de mais de 97% entre menores de 5 anos, e de mais de 99% entre aqueles com até 9 anos. “A hepatite A é transmitida pela via fecal-oral, ou seja, ingestão de água ou alimentos contaminados e contato com ambientes ou pessoas infectadas. A falta de saneamento básico e higiene ainda é um problema sério em muitas regiões, especialmente nas periferias das grandes cidades. Além disso, em populações adultas, práticas sexuais sem proteção vêm sendo identificadas como fatores importantes de transmissão”, explica o epidemiologista Eduardo Salgado. Ele salienta que a doença costuma começar com sintomas inespecíficos, como fadiga, mal-estar, febre e dores musculares. “Podem surgir náuseas, vômito, dor abdominal, diarreia ou constipação. A urina escura costuma anteceder a icterícia (pele e olhos amarelados), o período de incubação varia entre 15 e 50 dias, e os sintomas geralmente duram menos de dois meses”. Segundo a infectologista Beatriz Menezes, o diagnóstico se dá por exame de sangue, que detecta anticorpos anti-HAV IgM, indicando infecção recente. A presença de IgG, por sua vez, sinaliza imunidade prévia (por infecção passada ou vacinação). “Não existe um tratamento específico. O foco é aliviar sintomas, manter hidratação, nutrição adequada e repouso. Hospitalização só é necessária em casos de insuficiência hepática grave, o que é raro, e é importante evitar a automedicação, especialmente com substâncias tóxicas ao fígado”. A médica destaca que a vacinação é a principal estratégia. “No Sistema Único de Saúde (SUS), a vacina é em dose única podendo ser aplicada nas crianças de 12 meses e menos de 5 anos. Adultos em grupos de risco (portadores de HIV, hepatopatias, imunossuprimidos, entre outros) podem receber duas doses nos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE) com intervalo mínimo de 6 meses”. “Além disso, o uso de preservativos, a higienização das mãos, genitália e região anal antes e depois das relações sexuais, são muito importantes para evitar contágio por via oral-anal. A higiene pessoal também é importante, lavar bem as mãos após usar o banheiro e antes de preparar alimentos; higienizar frutas, verduras e utensílios; utilizar água tratada; evitar locais com esgoto exposto ou água contaminada; e cozinhar bem mariscos, peixes e carne suína”, conclui Beatriz. Com o aumento de 54,5% nos casos em 2024, sobretudo entre adultos jovens, especialmente homens de 25 a 29 anos, e com maiores incidências no Sul, Sudeste e Centro-Oeste, as autoridades reconhecem que o comportamento humano, mudanças nos padrões de exposição e a falta de imunização em adultos são fatores-chave. Enquanto isso, idosos enfrentam risco elevado de evolução para formas graves, entre os 27 óbitos registrados em 2024, a maioria ocorreu em pessoas com 60 anos ou mais. Para combater esse aumento, as campanhas de saúde pública enfatizam a importância da vacina infantil (com baixa cobertura em algumas regiões), da ampliação da oferta vacinal nos CRIE para adultos, e da promoção de higiene básica e saneamento. “Não podemos esperar que o surto volte a ser um pesadelo infantil, precisamos ampliar a imunização adulta e urgente”, afirma Salgado.