986 mil jovens podem não ingressar na graduação por causa de gastos com bets

Uma pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) e pela Educa Insights indica que dos quase 2,9 milhões de potenciais ingressantes na educação superior privada, aproximadamente 986 mil estão sob risco de não efetivar a matrícula no primeiro semestre de 2026, por conta do comprometimento financeiro com apostas on-line. No mesmo período, em 2025, 34% dos entrevistados afirmaram que precisaram interromper as apostas para iniciar os estudos; esse número cai para 24% quando se considera o segundo semestre. Em um recorte regional, o Nordeste e o Sudeste são as regiões com a maior proporção de brasileiros que associam o adiamento da graduação à prática de apostas on-line. No primeiro semestre, os percentuais foram 44% e 41%, respectivamente. E no segundo, os índices foram de 32% e 27%. A pesquisa revela ainda que, entre os apostadores que já estão no ensino superior, 14% deles atrasaram a mensalidade ou trancaram o curso devido aos gastos em casas de apostas. O estudo mostra também que, em abril de 2025, entre os entrevistados impactados pelos prejuízos causados pelas perdas em apostas, 20,9% já deixaram de investir em algum curso, idiomas ou outro aprendizado. Na avaliação do diretor-geral da ABMES, Paulo Chanan, os dados mostram que as apostas on-line se tornaram um obstáculo adicional para o acesso à educação superior no Brasil. “Precisamos olhar com seriedade para esse cenário e desenvolver políticas públicas que conscientizem os jovens sobre as responsabilidades envolvidas com a prática de apostar”. A presidente da Comissão de Direito Digital da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/MG), Daniella Avelar, salienta que o brasileiro, de uma forma geral, não possui educação financeira. “Assim, enquanto o jovem deposita o seu dinheiro em apostas e assume dívidas, acaba deixando de investir em cursos e capacitações educacionais”. Segundo Daniella, a falta de investimento na educação pode ter vários impactos. “Inclusive na segurança, na vida, na economia, na construção da cidadania e principalmente na democracia. Existem algumas ações do poder público para tentar controlar essa situação, mas não é o suficiente. Precisamos de medidas mais efetivas e que verdadeiramente alcance as pessoas mais vulneráveis”. Possíveis soluções A presidente ressalta que é preciso mais fiscalização. “A regra já existe e menores de idade não podem apostar. Ou seja, é necessária uma equipe especializada para filtrar esses acessos e seguir a lei. Caso não seja cumprida, deve ser aplicada multa diante da plataforma”. “Investir em educação digital para toda a sociedade, inclusive as mais vulneráveis; tornar obrigatório que as plataformas de jogos passem vídeos de conscientização dos usuários sobre os riscos das apostas; e ser mais severo na aplicação de multa, em caso de descumprimento”, são algumas medidas que a advogada aponta como possíveis soluções. Ela finaliza dizendo que essa construção de uma sociedade mais consciente é dever de todos, passando pelo setor privado e também público. “Os jogos de apostas são uma realidade e é preciso ser trabalhado para que a sociedade tenha mais segurança e transparência ao utilizá-los”. Jovens apostadores De acordo com a pesquisa, 52% dos entrevistados apostam regularmente, sendo a frequência predominante de uma a três vezes por semana. Os valores investidos variam conforme a classe social: os apostadores da classe A destinam, em média, R$ 1.210 mensais, os das classes D e E, o valor médio é de R$ 421. Ainda que a maioria, cerca de 80%, afirme comprometer até 5% da renda mensal, cresceu o número de pessoas, especialmente entre os mais pobres, que ultrapassam a marca de 10% do orçamento com essa prática. Comparando os dados com 2024, houve um agravamento da situação. O percentual de jovens que apostam regularmente subiu de 42,9% para 52%, e aqueles que dizem comprometer parte da renda com as bets passou de 51,6% para 54,2%. Além disso, houve um salto de 11,4 pontos percentuais na quantidade de pessoas que deixaram de iniciar uma graduação por causa dos gastos com bets.

Projeto social capacita moradores de Betim e região no segmento da beleza

Com o objetivo de promover inclusão social, geração de renda e incentivo ao empreendedorismo, o Instituto Ramacrisna, sediado em Betim, abriu inscrições para novos cursos gratuitos na área da beleza. A iniciativa integra o projeto Construindo o Futuro VI, realizado em parceria com a Petrobras, por meio do programa Petrobras Socioambiental. São oferecidas capacitações nas áreas de cabeleireiro, barbeiro, trancista, designer de sobrancelhas e manicure e pedicure. Os cursos são voltados para moradores em situação de vulnerabilidade social dos bairros Imbiruçu e Petrovale, em Betim, e também das cidades de Ibirité e Sarzedo, áreas próximas à Refinaria Gabriel Passos (REGAP). A proposta é capacitar tecnicamente e oferecer condições para que os participantes ingressem rapidamente no mercado de trabalho, seja em salões, clínicas de estética ou como autônomos. Ao fim da formação, os alunos recebem um kit de produtos que permite iniciar os atendimentos. “Os cursos são pensados estrategicamente para atender áreas com alta demanda e baixo custo de entrada. Isso permite que, mesmo com poucos recursos, os alunos comecem a atuar logo após a formação. Muitos veem neles a chance de conquistar independência financeira e transformar a própria realidade. Com apoio da Petrobras, conseguimos ampliar esse impacto e promover inclusão produtiva”, explica a vice-presidente do Instituto Ramacrisna, Solange Bottaro. A formação em designer de sobrancelhas é um dos destaques. A capacitação abrange técnicas como modelagem, visagismo e coloração, e pode servir de base para outras especializações, como extensão de cílios e micropigmentação. Segundo Solange, os cursos também oferecem noções de gestão, precificação e divulgação nas redes sociais, para incentivar o empreendedorismo. “Esse apoio é ainda mais simbólico para as mulheres, que enfrentam múltiplas jornadas e barreiras sociais”. Transformando vidas A trajetória da ex-aluna Pâmela Abrantes é um reflexo desse impacto. Mãe de três filhos, ela buscava uma alternativa de renda que pudesse conciliar com a rotina em casa. Participou do curso de designer de sobrancelhas e construiu o próprio negócio com o apoio da família. Com o kit inicial, comecei a atender em domicílio e, depois, montei um cantinho só meu”, conta. O Instituto mantém contato com os alunos mesmo após a formação, monitorando como estão aplicando os conhecimentos adquiridos. Segundo a vice-presidente, muitos iniciam atendimentos em casa e com o tempo, estruturam seus próprios negócios. Como se inscrever As inscrições devem ser feitas pelo site ramacrisna.org.br/nossos-cursos. Os cursos têm início a partir de setembro, com turmas formadas conforme a área e o local da capacitação. São de 10 a 20 alunos por turma. Para garantir que as vagas sejam destinadas a quem realmente precisa, o Instituto realiza uma avaliação socioeconômica dos inscritos. “Esses cursos são voltados especialmente para bairros com maior índice de vulnerabilidade. A seleção é feita com base nesse critério”, detalha Solange. Ela aponta que a meta do projeto é beneficiar mais de 4,3 mil pessoas diretamente até 2027 e alcançar outras 17 mil indiretamente, por meio de eventos, oficinas e atividades culturais e esportivas. “O projeto possui vários cursos que serão realizados de forma contínua até o final de 2027. As metas foram traçadas no início dos trabalhos e seguimos com foco em ampliar o acesso à qualificação e à geração de renda”, finaliza.

Festival Acessa BH valoriza artistas com deficiência em sua programação

Reconhecido como o principal evento voltado à valorização da cultura deficiente no Brasil, o Festival Acessa BH chega à sua 5ª edição, que acontece de 5 a 28 de setembro de 2025. A programação contempla mais de 30 atividades, incluindo apresentações teatrais, exibições de filmes e videoclipes, oficinas, rodas de conversa e o lançamento de um livro. Os ingressos para todas as atividades são gratuitos e podem ser retirados com antecedência nas bilheterias dos respectivos espaços. A programação completa está disponível no site acessabh.com.br. Com presença de artistas vindos de nove estados do país e também do Reino Unido, o festival destaca a potência, a diversidade e a originalidade da produção cultural protagonizada por pessoas com deficiência, reforçando seu papel central em uma cena artística inclusiva e ativa. Toda a programação será gratuita, com eventos realizados em locais como o Sesc Palladium, Palácio das Artes, Funarte MG e Centro Cultural Unimed-BH Minas. A programação do Festival conta com mais de 30 atividades distribuídas entre 14 apresentações artísticas, incluindo teatro, dança, música e performance, além de quatro oficinas, cinco produções cinematográficas (sendo três curtas e dois longas), três videoclipes, quatro conversas após os espetáculos, uma roda de diálogo e o lançamento de um livro. “Mais do que uma seleção de espetáculos, a curadoria propõe um campo de encontro e troca, onde diferentes modos de criação possam conviver e provocar o público a refletir, sentir e imaginar futuros possíveis. Um convite à escuta atenta e ao deslocamento dos olhares, que valoriza tanto a expressão poética quanto o engajamento político da cena contemporânea”, afirmam os idealizadores do festival, Daniel e Lais Vitral. O evento promove uma experiência inclusiva por meio de diversas ações de acessibilidade. Os espaços que recebem a programação têm estrutura acessível, oferecem cadeiras de rodas para empréstimo e permitem a presença de cães-guia identificados, conforme a Lei nº 11.126/2005. A acessibilidade comunicacional é garantida com legendas descritivas, janelas de Libras e audiodescrição nos filmes e espetáculos. Todas as atividades contam com interpretação em Libras/Português, além da oferta de abafadores de ruído e pranchas de comunicação alternativa. Na Funarte, haverá também uma sala de regulação sensorial. Uma equipe especializada, incluindo intérpretes de Libras, estará disponível para receber o público com deficiência. O Acessa BH destaca o protagonismo de artistas e profissionais com deficiência, envolvendo consultores e uma equipe qualificada para assegurar a inclusão em todas as fases do evento. “Esse trabalho conjunto inclui visitas técnicas aos espaços de apresentação, proposição de pautas e estratégias de comunicação, e análise de diversos recursos de acessibilidade para cada atividade. Para além do conhecimento teórico, as vivências com a equipe, artistas e público sempre provocam novas reflexões, e motivam nossa busca constante de fazer um festival cada vez mais diverso, acolhedor e potente”, explica Anita Rezende, coordenadora de Acessibilidade do Acessa BH. A professora de artes visuais Cecília Santana afirma que as expressões artísticas e culturais realizadas por pessoas com deficiência exercem um impacto amplo e significativo na sociedade. “Elas transformam o olhar da sociedade sobre a produção artística de pessoas com deficiência, que historicamente foram invisibilizadas. Ao colocar esses artistas no centro, o festival rompe barreiras estéticas e sociais”. Ela destaca que a acessibilidade proposta pelo Acessa BH não é apenas física, mas também simbólica. “Quando vemos espetáculos com audiodescrição, oficinas com interpretação em Libras e espaços sensoriais pensados para diferentes públicos, entendemos que a arte é para todos. É um exemplo de como eventos culturais podem e devem ser inclusivos”.

6 milhões de brasileiros admitem usar o ChatGPT para fazer “terapia”

Cresce o número de pessoas que estão usando o ChatGPT como terapeuta para desabafar seus problemas. Uma estimativa da agência de comportamento Talk Inc afirma que mais de 12 milhões de brasileiros utilizam ferramentas de inteligência artificial para fazer terapia, dos quais cerca de 6 milhões recorrem ao ChatGPT como forma de apoio emocional. De acordo com a pesquisa, 62% dos entrevistados alegam dificuldade financeira para pagar um psicólogo humano e 54% disseram gostar do atendimento 24 horas. Nos Estados Unidos, um estudo do Sentio AI Research mostrou que 18% já usaram o chatbot para falar de saúde mental. O psicólogo e professor da Faseh, Welder Rodrigo Vicente, explica que a popularização do ChatGPT, como espaço de desabafo, está associada a múltiplos fatores. “Destaca-se a acessibilidade imediata, a ausência de julgamento e o anonimato, que reduzem barreiras emocionais e sociais. Muitas pessoas encontram dificuldade em se abrir com amigos, familiares ou até mesmo profissionais, seja por medo, vergonha ou falta de acesso”. “A inteligência artificial oferece respostas rápidas, disponíveis 24 horas por dia, promovendo um ambiente que simula acolhimento e escuta. Além disso, a interface conversacional cria uma sensação de interlocução empática, mesmo que tecnicamente não exista subjetividade na ferramenta”, complementa o profissional. Porém, Vicente salienta que o uso pode trazer riscos. “Entre os principais está a ilusão de estar sendo cuidado ou compreendido por um agente que não possui sensibilidade humana. Isso pode atrasar a busca por ajuda profissional adequada em casos de sofrimento psíquico intenso”. “Há também o risco da dependência emocional, do isolamento social, da validação acrítica de pensamentos distorcidos ou autodepreciativos e da limitação do aprofundamento necessário para o enfrentamento de questões complexas. A inteligência artificial pode confortar momentaneamente, mas não promove intervenções terapêuticas, escuta clínica ou diagnósticos”, acrescenta. Fenômeno crescente A comunidade de saúde mental observa esse fenômeno com interesse e cautela, afirma Vicente. “Por um lado, reconhecemos que o ChatGPT pode ser uma porta de entrada para pessoas que nunca buscaram ajuda antes. Por outro, há preocupação com a banalização do processo terapêutico, com a substituição indevida do profissional e com os impactos do uso massivo de tecnologias não supervisionadas para lidar com sofrimento psíquico. Muitos profissionais têm estudado essas interações e apontado para a necessidade de regulamentações e orientações públicas”. Ele pontua que o ChatGPT pode funcionar como um “espaço-tampão, permitindo que a pessoa organize seus pensamentos, acalme-se ou se sinta menos sozinha em um momento crítico. Pode também ajudar na elaboração inicial de sentimentos, facilitando o processo de verbalização que será retomado em um espaço terapêutico posterior. Além disso, pode oferecer informações úteis sobre saúde mental, autocuidado ou mesmo motivar alguém a procurar ajuda profissional”. “É importante que o uso do ChatGPT, como espaço de desabafo, seja visto com senso crítico e responsabilidade. A tecnologia, por mais avançada que seja, deve ser uma ferramenta de apoio e não uma substituta das relações humanas. Precisamos incentivar a escuta entre pares, fortalecer os vínculos comunitários e democratizar o acesso à saúde mental, para que ninguém precise contar apenas com uma tela quando estiver em sofrimento”, alerta o profissional. Tecnologia O doutor em Engenharia Elétrica, especialista em Inteligência Artificial e professor da Una, Flávio Souza, destaca que a premissa do ChatGPT não é essa. “Apesar de ser criado para ter um tipo de interação, buscar respostas educadas, a ferramenta é baseada em metodologia de análises. Não é feito para ter o efeito psicológico, do tratamento do profissional sobre o seu paciente”. “E ainda há motivos para se atentar à questão de proteção de dados e privacidade. A pessoa que está nesse tipo de situação pode ser que forneça dados e se exponha mais do que deveria ao acessar o recurso da inteligência artificial. É importante utilizar a ferramenta como forma analítica ou como um apoio ao profissional de saúde”, finaliza.

Mudança na lei de aprendizagem pode ampliar oportunidades para jovens

Criada em 2000, a Lei da Aprendizagem garante a jovens, entre 14 e 24 anos, o direito à qualificação profissional aliada ao emprego com carteira assinada, sendo um dos principais instrumentos de inserção produtiva para quem está começando a trajetória profissional no mercado de trabalho. Para modernizar e consolidar essa política pública, tramita na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei (PL) 6.461/2019, o Estatuto do Aprendiz, que deve ser votado nas próximas semanas. O texto busca reunir, em um só instrumento jurídico, regras que hoje estão dispersas e frequentemente modificadas, o que gera insegurança para empresas e entidades formadoras. Para entender melhor essas mudanças, o Edição do Brasil conversou com a diretora de Assistência Social da Rede Cidadã, Keure Chamse. Quais são os principais impactos do Estatuto para os jovens? O PL reforça os direitos já conquistados, especialmente o direito constitucional à profissionalização. Muitos adolescentes e jovens atendidos pelo programa estão em sua primeira experiência de trabalho e essa transição precisa ser acompanhada com responsabilidade. O Estatuto garante que eles não sejam expostos a atividades insalubres ou perigosas e também promove uma atuação intersetorial com educação e assistência social, que envolve as famílias e as escolas. Isso amplia as chances de sucesso escolar e profissional. Além disso, é uma política de prevenção que protege o jovem de contextos de risco e oferece perspectiva de futuro. A proposta pode ajudar a combater o desemprego juvenil e a evasão escolar? Sim, e já temos resultados que mostram isso. O estudante que entra no programa precisa manter frequência escolar, porque se abandonar os estudos, é desligado. Isso ajuda a manter o vínculo com a escola e afasta o risco do trabalho infantil, que muitas vezes é consequência da necessidade de renda. Com a aprendizagem, o jovem permanece na escola, recebe formação técnica e humana, e desenvolve competências socioemocionais. É um caminho estruturado para o mundo do trabalho. Vale lembrar que o Brasil tem hoje cerca de 650 mil aprendizes ativos, mas estudos do Ministério do Trabalho mostram que poderíamos ter mais de 1 milhão de vagas preenchidas. O Estatuto cria as condições para que isso se torne realidade. Como o Estatuto pode melhorar o ambiente para as empresas? Hoje, as regras estão dispersas em várias normativas, o que causa insegurança. A cada mudança no governo, surgem medidas provisórias que alteram requisitos, carga horária e processos. Isso desestrutura os programas e afeta a confiança das empresas. O Estatuto vem para consolidar tudo em um marco legal, moderno e estável, trazendo segurança para todos os envolvidos, empresas, entidades e os próprios aprendizes. Há benefícios previstos para pequenas empresas e o setor público? O projeto propõe incentivos para que micro e pequenas empresas e órgãos públicos também possam contratar aprendizes. São segmentos que hoje não são obrigados, mas que podem contribuir com a geração de oportunidades. Quando uma empresa contrata um jovem, cumpre não apenas a cota como também forma um futuro colaborador alinhado aos seus valores. Ao longo de dois anos, o aprendiz passa por diferentes áreas, adquire conhecimento técnico e humano, e sai pronto para o mercado. É uma via de mão dupla onde todos ganham. O que muda na formação dos aprendizes com o novo texto? O Estatuto qualifica as exigências para as entidades formadoras. Hoje, fala-se muito em estrutura física adequada, equipe técnica, educadores preparados e material didático atualizado. São coisas fundamentais para que o estudante receba mais do que capacitação técnica, porém, o jovem precisa de formação cidadã, de visão crítica e apoio para lidar com os desafios da vida e do trabalho. Quando a empresa percebe esse diferencial no aprendiz, reconhece o valor da parceria com a entidade e tende a manter uma cultura de formação.

Falta de saneamento básico ainda expõe população a diversas doenças evitáveis

Mesmo em 2025, mais de 33 milhões de brasileiros ainda vivem sem acesso à água tratada, e cerca de 90 milhões não têm coleta de esgoto adequada, de acordo com o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS). Segundo dados do Instituto Trata Brasil, o país registrou mais de 344 mil internações por doenças relacionadas ao saneamento ambiental inadequado em 2024. O médico de Família e Comunidade da Unimed-BH, Artur Oliveira Mendes, ressalta que a falta de saneamento básico favorece a contaminação da população e da natureza com substâncias nocivas e agentes patogênicos de diversos tipos. “As inúmeras parasitoses intestinais, hepatite A e cólera, estão entre as doenças mais comuns, que se espalham facilmente com a falta de saneamento. Crianças e idosos são os grupos mais frágeis, porém, estas enfermidades impactam igualmente toda a população”. Mendes afirma que o saneamento básico está relacionado a uma expressiva redução da mortalidade infantil, além da diminuição das internações por doenças diarreicas e infecciosas. “Já vi comunidades de todos os tipos e naquelas mais desfavorecidas economicamente, sem acesso a saneamento, é flagrante o quanto as doenças são mais prevalentes e o impacto negativo deste processo em todo o grupo”. Da lama à dignidade A líder comunitária e integrante da Associação de Moradores do Verde Vale (AMOVV) de Sete Lagoas, Maria Uises Rosa, lembra bem do cenário anterior às obras. “Cada casa jogava seu esgoto na rua e tinha muito mal cheiro, insetos e doenças. Formavam poças e lama na via, pois não havia asfalto”. Ela lutou por mais de 15 anos por mudanças. “Antes das obras de saneamento, a população enfrentava surtos de arboviroses e desconfortos intestinais por causa da contaminação da água. E os mais atingidos eram as crianças e idosos com a imunidade baixa, devido à exposição ao esgoto a céu aberto”, conta. A solução começou com pressão popular. “Fizemos abaixo- -assinados, chamamos a imprensa, mobilizamos as famílias e fomos atrás do poder público. A associação liderou essa luta por direitos com reuniões e visitas dos políticos para ver a situação de perto”. “Hoje, o cenário é outro. As questões de saúde da comunidade melhoraram, com mais dignidade e qualidade de vida. Houve também uma melhora significativa na saúde das crianças. Antes eram comuns casos de verminoses, por exemplo, agora não há tantas queixas”, acrescenta. No entanto, Maria destaca que o desafio ainda não acabou. “O esgoto ainda corre a céu aberto no fim do bairro, formando um córrego com mau cheiro e poluição até chegar à estação. Isso precisa mudar”. Mais de 98% de cobertura A cidade de Sete Lagoas, na região Central do Estado, atualmente, possui 98,87% de cobertura de saneamento básico. A região rural do município ainda não é atendida com acesso completo de coleta de esgoto, sendo aproximadamente 18 bairros, segundo informações do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE). A Gerente de Esgoto do SAAE de Sete Lagoas, Gabriela Moura dos Santos, explica que o maior desafio para alcançar a universalização do saneamento é a falta de recursos financeiros. “Temos várias obras em andamento e estamos buscando recursos para ampliar ainda mais a cobertura”. Sete Lagoas prevê um tratamento de 100% de todo o esgoto captado na cidade. Assim, o município vai parar de poluir o Rio das Velhas. Gabriela complementa dizendo que a obra da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) foi concluída. “No momento, estamos finalizando os ajustes relacionados à automação do sistema, etapa essencial para o pleno funcionamento da unidade. A previsão é que a estação entre em operação no mês de agosto”. Até 2030, de acordo com a gerente, a autarquia tem como objetivo alcançar avanços significativos na área de saneamento. “Com foco na expansão dos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário, redução das perdas na distribuição de água tratada, melhoria contínua na qualidade da prestação dos serviços, e aumento da eficiência operacional e promoção do uso racional da água”. Apesar dos avanços, a falta de saneamento básico ainda é um desafio para muitas cidades brasileiras. Investimentos e mobilização social continuam sendo essenciais para garantir saúde e dignidade a todos.

Prevenção à leishmaniose ganha destaque no mês de agosto

A leishmaniose é uma doença infecciosa grave, provocada por parasitas do gênero Leishmania, que tem causado preocupação entre autoridades de saúde pública, médicos veterinários e especialistas em zoonoses no Brasil. Por isso, a Semana Nacional de Controle e Combate à Leishmaniose, criada pela Lei nº 12.604/2012, promove a conscientização da população por meio de ações educativas, divulgando informações sobre a doença, suas formas de transmissão e maneiras de preveni-la. Ela é classificada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma das enfermidades negligenciadas mais relevantes globalmente. Essa condição afeta, com maior incidência, comunidades em situação de vulnerabilidade social, especialmente entre crianças. Segundo dados da OMS, o Brasil concentra a maior parte dos casos registrados em escala mundial. “Ainda é uma doença negligenciada, tanto pelo poder público quanto pela sociedade em geral. Isso ocorre porque ela atinge, em sua maioria, populações vulneráveis e animais em áreas menos favorecidas. Porém, o número crescente de casos urbanos entre humanos e cães tem mostrado que precisamos tratar essa questão como prioridade sanitária”, explica a infectologista Fernanda Diniz. O contágio ocorre por meio da picada do mosquito-palha, que se infecta ao sugar o sangue de um animal ou pessoa doente e, posteriormente, transmite o parasita a um novo hospedeiro. “Em humanos, a manifestação pode variar da forma cutânea, com lesões na pele, geralmente indolores, mas que causam deformações se não forem tratadas. A visceral se apresenta com febre prolongada, perda de peso, aumento do fígado e baço, anemia e fraqueza generalizada, podendo levar à morte se não for tratada”. “Exames laboratoriais como o PCR e a punção de medula óssea são essenciais para confirmar a infecção. O tratamento da leishmaniose humana é oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e inclui o uso de medicamentos”, completa. De acordo com a veterinária Patrícia Lemos, “nos cães, a infecção pode permanecer assintomática por longos períodos, o que contribui para a disseminação silenciosa da doença. Já os sintomas incluem emagrecimento progressivo, crescimento exagerado das unhas, feridas na pele de difícil cicatrização, queda de pelos, lesões oculares e apatia. O diagnóstico precoce é fundamental para o sucesso do tratamento. Utilizamos exames sorológicos que identificam a presença de anticorpos”. Patrícia ressalta que o cenário é mais complexo nos bichos. “Por muitos anos, o tratamento canino era desestimulado pela legislação brasileira, sob a alegação de que os animais continuariam como fontes de infecção. No entanto, com o surgimento de medicamentos específicos e protocolos mais seguros, o tratamento passou a ser permitido, desde que autorizado por órgãos de vigilância e que os tutores se comprometam a realizar o controle do vetor”. As estratégias de prevenção envolvem uma combinação de ações educativas, controle do vetor, diagnóstico precoce e manejo adequado dos animais. “O uso de coleiras repelentes impregnadas com inseticidas tem se mostrado eficaz na proteção dos cães, assim como vacinas licenciadas no Brasil, que ajudam a reduzir a carga parasitária e a probabilidade de infecção”. Eliminar criadouros do mosquito-palha, como matéria orgânica acumulada em quintais, folhas em decomposição e restos de alimento, é uma medida simples e eficaz. “O papel dos tutores de animais também é decisivo. Fazer um acompanhamento veterinário regular é essencial para conter o avanço da doença. Cães doentes e abandonados acabam se tornando fontes de infecção em áreas públicas e contribuem para o agravamento do problema”, conclui Patrícia.

Volume de vendas no Dia dos Pais deve alcançar mais de R$ 7 bilhões

Considerada a quarta data comemorativa mais importante do varejo, as vendas do Dia dos Pais de 2025 devem alcançar R$7,84 bilhões, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). A projeção representa um avanço de 3,2% em relação ao ano de 2024. Já um estudo realizado pelo Núcleo de Pesquisa e Inteligência da Fecomércio MG, mostra que 55,2% das empresas que são afetadas pela data (74,4%) esperam vender mais este ano. O otimismo dos empresários (68,5%) é a principal justificativa para a boa expectativa com as vendas, sendo que 47,6% deles esperam um retorno positivo de até 20% no faturamento. Roupas, kits/cestas, calçados e carnes encabeçam a lista dos produtos que devem vender mais na data. O tíquete médio, segundo 49,5% dos empresários, ficará entre R$ 70 e R$ 200. Já a modalidade de pagamento mais utilizada será o cartão de crédito. O Dia dos Pais é muito importante para o calendário varejista, diz a economista da Fecomércio MG, Gabriela Martins. “A data possui um grande apelo emocional. Isso implica que, por mais que o consumidor esteja endividado, há um aumento considerável da busca por determinados produtos. Consequentemente, esta é uma oportunidade para os comerciantes aumentarem suas vendas e traçarem estratégias”. O economista Ricardo Paixão esclarece que a expectativa maior de vendas pode ser atribuída à economia. “Estamos entrando em um cenário de recuperação muito importante, com geração de empregos, renda e inflação sob controle. Isso reflete no consumo maior, impactando positivamente vários setores”. “Também podemos atribuir essa expectativa às ações do governo federal, que promoveu políticas públicas de transferência de renda, além do aumento real do salário mínimo, fazendo com que os consumidores recuperem a confiança. Outro ponto importante é a redução da inadimplência”, pontua. Na avaliação do economista, o consumo nos períodos sazonais não é sustentável. “Pelo lado do consumidor, não entrar em um alto grau de endividamento. Já para os empresários, respeitar determinado limite para que não tenha estoque e acabe gerando custos”. “Tudo tem que ser com cautela, contratando pessoas dentro da efetiva necessidade, mas a tendência é o aumento das vendas se manter ao longo do ano. O panorama internacional é muito importante, saber como essas questões tarifárias podem impactar futuramente, porém, a economia brasileira entrando nesse cenário de contenção, a tendência é que mantenha esse crescimento”, acrescenta. Recorde de temporários Paixão ressalta que o aumento das vendas pode significar contratações temporárias. “Isso tem um alto impacto para economia, porque essas vagas podem se transformar em postos efetivos. É um momento de oportunidade para o trabalhador que busca uma recolocação, ou até mesmo uma melhora na sua condição de trabalho”. A CNC projeta oferta de 11,53 mil vagas temporárias no varejo para atender a demanda sazonal das vendas do Dia dos Pais. Se confirmado, esse será o maior contingente de trabalhadores por tempo determinado contratados dos últimos 12 anos. A taxa de efetivação pode ser de 15%, maior porcentual desde 2021 (16%). Faturamento Conforme a estimativa da CNC, as lojas de vestuário deverão faturar R$ 3,23 bilhões com a data. Seguido pelos produtos de perfumaria e cosméticos (R$ 1,57 bilhão) e de utilidades domésticas e eletroeletrônicos (R$ 1,26 bilhão). Somados, esses segmentos devem responder por quase 77% das vendas totais no varejo. Segundo a Fecomércio MG, a região do Alto Paranaíba será a mais impactada pela data, com 85,7%, seguido pelo Sul de Minas (77,5%), Central (76,2%), Rio Doce (75%) e Noroeste (72,5%). As regiões com menos impacto serão a Centro-Oeste (70%) e Jequitinhonha (68,3%).

Minas lidera uso do Fampe e soma R$ 5,4 bilhões em crédito liberado

Fundo de Aval às Micro e Pequenas Empresas (Fampe), uma das principais ferramentas de acesso ao crédito para pequenos empreendedores no Brasil, celebra 30 anos em 2025. Ao longo dessas três décadas de atuação, o Fampe já viabilizou mais de 655 mil operações de crédito no país, totalizando R$ 36,03 bilhões em financiamentos e R$ 26,46 bilhões em garantias concedidas. De janeiro a maio deste ano, Minas Gerais registrou R$ 409,6 milhões em crédito liberado por meio do fundo, com 6.543 operações, totalizando R$ 296 milhões em garantias. Desde a criação do Fampe, Minas já contabiliza 114.297 contratos, somando R$ 5,45 bilhões em crédito financiado e beneficiando 86.966 empresas, representando 17,4% de todas as operações nacionais. “Minas Gerais teve um papel de destaque em 2025, concentrando 25% de todas as operações com garantia do Fampe realizadas no país. Esse resultado é reflexo da forte atuação do Sebrae Minas junto às instituições financeiras parceiras, em especial as cooperativas de crédito, que têm ampla presença no estado e proximidade com os pequenos negócios”, afirma Rogério Corgosinho, gerente de Desenvolvimento Territorial e Serviços Financeiros do Sebrae Minas. O Fampe atua como avalista junto às instituições financeiras, viabilizando crédito para microempreendedores individuais (MEIs), microempresas, empresas de pequeno porte e pequenas agroindústrias, sem a exigência de garantias reais. Isso permite a inclusão financeira especialmente em municípios menores, onde a presença bancária tradicional é limitada. Corgosinho explica que o fundo concede o acesso ao crédito para empreendedores que, muitas vezes, não possuem garantias reais ou histórico bancário suficiente para conseguir financiamento. “Ao reduzir o risco para as instituições financeiras, o Fampe democratiza o acesso a recursos e contribui diretamente para a geração de renda nos pequenos negócios, especialmente onde o sistema bancário convencional tem baixa presença”. Mesmo com os bons resultados, o gerente aponta desafios a serem superados. “Muitos empreendedores ainda desconhecem o Fampe e suas vantagens. Além disso, uma gestão financeira pouco estruturada dificulta o uso estratégico do crédito e impacta na análise das instituições financeiras. Para ampliar o alcance do programa seria importante criar ações integradas com prefeituras e instituições locais, especialmente em regiões menos atendidas”, avalia. Fampe Mulheres Uma das novidades recentes é a modalidade Fampe Mulheres, que permite garantir até 100% do valor financiado por empresárias, destaca Corgosinho. Em Minas Gerais, essa linha já movimentou mais de R$ 1,1 milhão. “Ela foi estruturada para atender às necessidades específicas das micro e pequenas empresárias, oferecendo condições diferenciadas e facilitando o acesso ao crédito”. Um exemplo é a empreendedora Jéssica Sousa, da cidade de São Bento Abade, que é uma das beneficiadas. “Consegui o recurso de forma rápida e sem burocracia por meio da cooperativa de crédito. Pouco tempo depois, recebi o contato de um consultor do Sebrae que me ajudou a organizar melhor a gestão da empresa. Com o crédito, reformamos a padaria e ampliamos o atendimento com um espaço de empório”, relata. Outras ações Além do acesso ao crédito, Corgosinho lembra que o Sebrae oferece acompanhamento por meio do programa Crédito Assistido, que fornece orientações técnicas e práticas para garantir o uso eficiente dos recursos. “Na prática, o empreendedor recebe orientações e ferramentas para a gestão dos recursos financeiros, planejamento estratégico e melhoria dos processos. Isso aumenta as chances de sucesso, reduz os riscos e fortalece o crescimento do negócio”. Para potencializar os resultados do programa, o Sebrae Minas também lançou uma jornada de acompanhamento gratuita, que será expandida para todo o Estado a partir de agosto. A iniciativa inclui diagnóstico financeiro, plano de ação personalizado e orientações práticas. Além disso, uma jornada de pré-crédito também está em desenvolvimento. “Essa nova etapa prepara o empreendedor antes da liberação do recurso, fortalecendo sua capacidade de planejamento e gestão. Com isso, promovemos maior segurança na aplicação do crédito, reduzimos riscos e ampliamos o impacto positivo do Fampe”, finaliza Corgosinho.

ECA é uma das leis mais avançadas na defesa da infância e da juventude

Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) consolidou o princípio da proteção integral, reconhecendo jovens como sujeitos de direitos e colocando suas necessidades no centro das políticas públicas. Em julho deste ano, o Estatuto completou 35 anos. Inspirado na Convenção sobre os Direitos da Criança da Organização das Nações Unidas (ONU), o ECA foi fruto da mobilização de movimentos sociais, organizações da sociedade civil e da redemocratização do país, e é considerado uma das legislações mais avançadas do mundo. Sobre o tema, o Edição do Brasil conversou com Márcia Rodrigues, advogada e membro da Comissão da Criança e do Adolescente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/MG). Quais foram os progressos mais significativos promovidos pelo ECA? Destaco a criação dos Conselhos Tutelares; além da articulação de políticas públicas nas áreas da assistência social, educação e saúde; o fortalecimento das medidas socioeducativas com caráter pedagógico e não punitivo; e a consolidação de uma rede de proteção. Que direitos passaram a ser mais respeitados após a criação do Estatuto? A convivência familiar e comunitária deixou de ser negligenciada; as institucionalizações passaram a ser medidas excepcionais, com incentivo ao fortalecimento de vínculos e à adoção legal; a proteção contra todas as formas de violência e negligência ganhou força com a criação de canais de denúncia e responsabilização; e a educação também foi centralizada como um direito. Além da saúde, especialmente na atenção básica; e o reconhecimento do direito à escuta e à participação de crianças e adolescentes também foram marcos extremamente importantes. Existem desafios para efetivar o que está previsto no ECA? Os desafios são muitos e complexos. Por exemplo, o trabalho em rede, essencial para garantir a proteção integral, ainda encontra obstáculos como a falta de articulação, indefinição de atribuições, sobrecarga das equipes e ausência de formação continuada. Outro ponto crítico é a defasagem do ECA diante das transformações tecnológicas. O Estatuto ainda não contempla, com a profundidade necessária, crimes cibernéticos como aliciamento sexual, cyberbullying e exposição de dados. Quais avanços foram percebidos na educação e no combate ao trabalho infantil? O Estatuto afirmou o direito à educação como central para o desenvolvimento infantojuvenil. A exigência da matrícula obrigatória, o combate à evasão escolar e o reconhecimento da diversidade no ambiente educacional foram fundamentais para ampliar o acesso à escola. Na mesma linha, o enfrentamento ao trabalho infantil deu um salto qualitativo. O ECA rompeu com a lógica da naturalização do trabalho precoce e impulsionou políticas públicas, além da constante fiscalização pelas autoridades competentes. De que forma a proteção às crianças foi transformada pelos Conselhos Tutelares? Os Conselhos são órgãos permanentes e autônomos, responsáveis por zelar pelos direitos da infância e adolescência. Essa estrutura descentralizada trouxe a proteção para mais perto dos territórios. Antes, era quase exclusiva do Judiciário. Hoje, os conselheiros atuam diretamente na aplicação de medidas protetivas, no encaminhamento para a rede de serviços e na fiscalização de entidades. São eleitos pela comunidade, o que reforça seu caráter democrático. O Estatuto precisa passar por atualizações? Sim, o ECA tem de acompanhar as mudanças sociais, culturais, tecnológicas e científicas que atravessam a infância contemporânea. O mundo de hoje é profundamente diferente daquele de três décadas atrás. Novas formas de convivência, tecnologias digitais, redes sociais, inteligência artificial, transformações nas dinâmicas familiares, nos padrões de violência e nas formas de exclusão, exigem do Estado e da sociedade uma escuta atenta e uma capacidade constante de atualização. Um estatuto que nasceu para garantir dignidade e direitos não pode permanecer alheio às novas vulnerabilidades que surgem.