Mortalidade por câncer colorretal pode subir 36% em 15 anos

Segundo a projeção do 9º volume do Boletim Info.oncollect, da Fundação do Câncer, a mortalidade por câncer colorretal deve aumentar 36,3% nos próximos 15 anos no Brasil. O crescimento dos óbitos entre os homens será de 35% até 2040 e, entre as mulheres, de 37,63%. Ainda conforme a pesquisa, a região Sudeste deverá ter um aumento de 34% nos óbitos e também irá concentrar o maior número absoluto de mortes. De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (Inca), os cânceres de cólon e reto são os terceiros mais frequentes do Brasil, com cerca de 45 mil novos registros por ano, estimativa para o triênio de 2023 a 2025. A gravidade do câncer colorretal está diretamente relacionada ao estágio em que é diagnosticado, segundo o estudo. Apesar de avanços em prevenção e diagnóstico precoce, a letalidade permanece elevada, sobretudo em países de baixa e média renda, onde o acesso ao rastreamento e ao tratamento é limitado. No Brasil, o índice estimado para essa neoplasia variou entre 40% e 60% entre homens e mulheres, o que reflete, em parte, o alto número de casos diagnosticados em estágios avançados. O coordenador da pesquisa, Alfredo Scaff, afirma que muitas vezes a doença se desenvolve de forma lenta, a partir de pequenos pontos que ao longo de anos podem se transformar em câncer. “Em nosso levantamento, 78% das pessoas que vieram a óbito foram diagnosticadas já nos estágios três ou quatro, o que reduz drasticamente as chances de cura”. Segundo o estudo internacional Concord-3 (2010-2014), em países com programas estruturados de rastreamento, a sobrevida em cinco anos pode ultrapassar 65%. Já no Brasil, os índices são inferiores: 48,3% para câncer de cólon e 42,4% para câncer de reto, revelando deficiências no acesso a diagnóstico precoce e tratamento oportuno. A coloproctologista da Unimed-BH, Hilma Nogueira, destaca que os casos de câncer de intestino têm aumentado muito em pacientes jovens. “E na maioria das vezes, acredito que não é só o fator familiar que influencia, mas também a dieta. Ela é pobre em fibras e riquíssima em substâncias químicas, conservantes e acidulantes”. Os principais fatores de risco são justamente a história familiar de câncer e uma dieta inadequada, ressalta a coloproctologista. “Os sintomas são muito discretos, às vezes um pequeno sangramento, uma cólica com gases, o intestino que estava preso fica solto, ou que é solto fica preso. São pequenas alterações que passam despercebidas e dificultam o diagnóstico precoce”. “E o Sistema Único de Saúde (SUS) não consegue dar conta de atender a todos. Existem pessoas esperando para fazer colonoscopia há uns seis ou oito meses, porque a demanda é muito grande. Precisamos de um estudo, de uma análise e de boa vontade para poder melhorar essas condições”, pontua. Orientações Entre as recomendações dos especialistas, além do rastreamento, é que homens e mulheres a partir dos 50 anos façam exames, como os testes de sangue oculto nas fezes e, se necessário, a colonoscopia. Pessoas com histórico familiar e outras condições de risco devem iniciar esse acompanhamento mais cedo, conforme a orientação médica. Hilma esclarece que o tratamento do câncer de intestino é individualizado. “Para cada caso tem um tipo de procedimento. E também depende da posição do tumor no intestino. Os tumores do cólon são tratados com quimioterapia e com cirurgia. Já os do reto com radioterapia e cirurgia”. Ela finaliza destacando que esse tipo de câncer é curável. “Quando tratado na fase inicial, sem metástase, o tumor pode ser retirado e o paciente curado. Os casos circulando na mídia são de pessoas que não fizeram a prevenção e descobriram o problema de forma tardia”.

Salário de 54% dos trabalhadores não dura até o fim do mês

U ma pesquisa conduzida pela SalaryFits, empresa vinculada à Serasa Experian, revelou que neste ano, 54% dos profissionais com carteira assinada ou atuando como Pessoa Jurídica (PJ) não conseguem manter o salário até o fim do mês em sua conta bancária, evidenciando dificuldades na saúde financeira e no bem-estar dos trabalhadores brasileiros. O índice registrado em 2025 é o mais baixo desde que a pesquisa começou a ser realizada, em 2018. No ano anterior, 62% dos trabalhadores afirmavam que o salário não durava até o fim do mês, o que representa uma redução de oito pontos percentuais neste ano. Mesmo com essa melhora, a proporção de brasileiros que não consegue cobrir todas as despesas mensais com a renda ainda continua alta. O levantamento entrevistou 1.029 profissionais atuantes em empresas públicas e privadas, tanto sob o regime CLT quanto PJ, e revelou dados alarmantes. Segundo os resultados, 75% dos participantes não teriam condições financeiras de lidar com um gasto inesperado de R$ 10 mil. Além disso, 66% relataram ter enfrentado dificuldades econômicas nos últimos cinco anos, e 33% chegaram a ter o nome negativado no último ano, sendo que, entre esses, 17% ainda enfrentam pendências financeiras. De acordo com a pesquisa, a maior parte da renda dos brasileiros com o orçamento comprometido é direcionada a necessidades básicas, como alimentação (77%) e contas essenciais, como água e energia elétrica (71%). Em seguida, aparecem compromissos considerados menos urgentes, como financiamentos de imóveis e automóveis (52%), empréstimos pessoais (36%), compras de roupas e itens domésticos (33%) e despesas com educação (20%). A consultora financeira Júlia Almeida, especialista em finanças pessoais, analisa que o dado é reflexo de uma crise que vai muito além da má gestão individual. “Estamos vivendo um momento em que o salário simplesmente perdeu poder de compra. A inflação acumulada nos alimentos, no aluguel, no combustível e até nas contas básicas, como energia e água, está muito acima dos reajustes salariais dos últimos anos”. Ela afirma que muitas famílias estão entrando em um ciclo de dívidas rotativas no cartão de crédito, uso excessivo do cheque especial e empréstimos com juros altos para cobrir despesas básicas. “O trabalhador precisa se endividar para pagar o supermercado. Isso é sintomático, o problema não é só falta de educação financeira, é falta de renda suficiente para sustentar o básico”. Os profissionais que atuam como PJ, cada vez mais comuns em áreas como tecnologia, comunicação e prestação de serviços, também enfrentam dificuldades. O modelo promete flexibilidade e ganhos maiores, mas na prática, muitos desses trabalhadores não têm qualquer proteção trabalhista, como décimo terceiro salário, férias remuneradas ou fundo de garantia. Para o economista Renato Duarte, há uma romantização em torno da “liberdade” de ser PJ. “A verdade é que a pejotização é uma forma de burlar os direitos trabalhistas. O profissional se vê obrigado a aceitar condições instáveis, sem garantias, com pagamentos que muitas vezes atrasam. Isso torna o planejamento financeiro quase impossível”. “O descompasso entre renda e despesas não afeta apenas o bolso, também traz consequências para a saúde mental. Ansiedade, estresse crônico e insônia são cada vez mais comuns entre trabalhadores endividados. As pessoas se culpam por não conseguirem administrar o próprio dinheiro, mas estão fazendo milagres para sobreviver”, destaca. Júlia sugere algumas orientações para quem deseja começar a organizar melhor o orçamento. “O primeiro passo é manter um controle detalhado dos gastos, anotando todas as entradas e saídas da conta, a fim de entender para onde o dinheiro está indo. Em seguida, é importante priorizar o essencial, categorizando os gastos como indispensáveis, importantes ou supérfluos, e concentrando-se no que realmente é necessário até que as finanças estejam equilibradas”. “Criar uma reserva financeira, ainda que modesta, guardando pelo menos 5% da renda, mesmo que seja em um cofre físico, para não depender de crédito em situações emergenciais. Por fim, ficar alerta com os riscos de parcelamentos longos que podem comprometer o orçamento futuro, optando por pagamentos à vista sempre que possível, aproveitando para negociar descontos”, conclui.

Audiência pública debate a utilização de agrotóxico no Estado

O Brasil se destaca, desde 2008, como o maior consumidor mundial de agrotóxicos, respondendo por 19% do mercado. Essa foi a justificativa do requerimento para realização de uma audiência pública promovida pela Comissão de Participação Popular da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), a pedido dos 20 parlamentares integrantes do Bloco Democracia e Luta, no dia 26 de agosto. Embora ações de controle do uso de agrotóxicos estejam sendo implementadas no Estado, deputados, agricultores e representantes de órgãos públicos defendem a urgência de reforçar o incentivo à agroecologia. A demanda principal é a retomada do Grupo Executivo Permanente (GEP), que é uma estrutura de gestão criada para implementar, coordenar e fiscalizar políticas e projetos específicos. Um dos seus principais objetivos é reduzir, de forma gradual e contínua, a disponibilidade, o acesso e o uso de agrotóxicos no Estado, bem como fomentar a prática da agroecologia e da produção orgânica. Para o deputado e presidente da Comissão, Ricardo Campos (PT), é fundamental articular esforços municipais, estaduais e federais para implementar ações efetivas a fim de promover o acesso a alimentos saudáveis. “Como parlamentares, defensores da agricultura familiar, nos sentimos no dever de trazer esse debate e a partir dele propor as diretrizes para fazer com que as falas se tornem realidade”. O diretor da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa), Samuel de Melo Goulart, admitiu a inatividade do GEP, porém, mencionou ações implementadas pelo Executivo. Como o combate às pragas e à aquisição de merenda escolar das produções agroecológicas. “Embora o grupo esteja, de fato, parado, o Estado não parou”. Existem outras formas de produzir e nenhuma delas deve ser imposta à sociedade. “A pauta da redução de agrotóxicos é muito válida, porém, deve-se ter muita cautela quanto ao termo que se usa. A redução gradual é importante, contudo, a eliminação imediata não é algo interessante, pois os agrotóxicos, muitas das vezes, são a última opção que nós temos para uma produção sustentável em todos os sentidos”, acrescentou. O uso do agrotóxico pode ser reduzido, segundo avalia Goulart. “Hoje, temos alternativas onde a utilização é minimizada ou mesmo dispensada, mas é importante estabelecer também que a eliminação imediata pode trazer mais problemas do que benefícios. É necessário saber que nós precisamos de todas as alternativas”. Consequências do uso De acordo com o biólogo e coordenador do Fórum Mineiro de Combate aos Agrotóxicos e Promoção da Agroecologia (FMCA), Gilson Luiz Reis, 1 milhão de pessoas são intoxicadas no mundo a cada ano. “No Brasil, entre 2010 e 2019, esse número pode chegar a quase 3 milhões. A intoxicação causa mortes, doenças, como o câncer, e afastamentos do trabalho. Estamos contaminando de forma violenta o nosso ecossistema e matando a fauna e a flora”. A dirigente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Paula Ribeiro Guimarães, afirmou que é necessário fomentar a mecanização e a produção de bioinsumos. “É isso que garante nossa soberania alimentar. Lamento a discrepância entre os recursos públicos repassados ao agronegócio e à agricultura familiar, o uso de agrotóxicos proibidos em outros países e a pulverização aérea, que contamina vizinhanças e causa, entre outros danos, a morte de abelhas”. Como resultado, os participantes reconheceram que é necessário avançar nas ações citadas na reunião. Entre os pedidos de providência que serão encaminhados por requerimento, o deputado Ricardo Campos anunciou a cobrança pela recomposição do GEP e a realização de seminário legislativo para avaliar o Plano de Ação da Estratégia Intersetorial de Redução do Uso de Agrotóxicos e Apoio à Agroecologia e à Produção Orgânica em Minas Gerais (Planera).

Aprovação de lei marca início para a proteção das crianças nas redes

A aprovação do Projeto de Lei (PL) 2.628/2022 pelo Congresso Nacional nos últimos dias marcou mais um passo na proteção de crianças e adolescentes no ambiente on-line. A tramitação ganhou força após a repercussão do vídeo “Adultização” do influenciador Felca, que expôs como o chamado “Algoritmo P” poderia estar colocando menores em contato com conteúdos exploratórios e sexualizados. O texto aprovado traz medidas como a proibição de publicidade segmentada a crianças, bloqueio de técnicas de perfilamento e realidade aumentada para indução comercial, exigência de verificação de idade e vínculo das contas de menores a responsáveis legais, além da criação de uma autoridade independente de fiscalização. Prevê ainda a publicação de relatórios de transparência pelas plataformas e estabelece critérios claros para remoção de conteúdos nocivos, como exploração sexual, assédio e incentivo à automutilação, sem afetar o direito à crítica e à liberdade de imprensa. Para entender os impactos da medida, o Edição do Brasil entrevistou a coordenadora de Digital do Instituto Alana, Maria Mello. Como você avalia a aprovação do PL e quais pontos merecem destaque? O texto é um grande avanço e uma conquista da sociedade civil. Ele resulta de cinco anos de debates entre organizações, academia e poder público, e foi aprovado em rara unanimidade. Mantém garantias fundamentais, como o conceito de “acesso provável”, que inclui serviços usados por crianças mesmo quando as plataformas dizem o contrário; a vedação do perfilamento comercial; e a exigência de relatórios de transparência. Também é importante destacar que o PL concilia a proteção da infância com a liberdade de expressão, já que só permite a remoção de conteúdos nocivos muito específicos. O projeto proíbe práticas como perfilamento de dados e uso de realidade aumentada para publicidade. Que impacto isso deve trazer? Essa regra impede que empresas explorem dados e emoções de crianças e adolescentes para direcionar anúncios. Já houve casos em que plataformas usaram sinais de insegurança de jovens para vender produtos de beleza e medicamentos para emagrecer. O PL coloca limites claros a esse tipo de exploração, protegendo vulnerabilidades que não devem ser exploradas comercialmente. A exigência de vincular perfis de menores de 16 anos a um responsável legal é suficiente? É um avanço importante. A lei exige não só o vínculo com responsáveis, mas também que as empresas informem claramente quando o serviço não é adequado para menores, monitorem conteúdos atrativos a crianças e aprimorem mecanismos de verificação de idade. Ou seja, a supervisão parental é reforçada, mas também acompanhada de obrigações para as próprias plataformas. O texto cria uma autoridade independente para fiscalização. Qual seria o modelo ideal? Uma autoridade independente é essencial porque garante autonomia frente a governos e empresas. Defendemos que seja um órgão multissetorial, com participação da sociedade civil e estrutura robusta para agir com agilidade. Agora, é preciso definir rapidamente sua composição e funcionamento para que a lei seja efetiva. Você acredita que além da legislação seria preciso investir em educação digital? O PL avança ao proibir a monetização e o impulsionamento de conteúdos sexualizados envolvendo crianças e ao exigir relatórios de transparência. Mas o problema é multifatorial. Além da lei, seria necessário investir em educação digital, diálogo com famílias e crianças e políticas de prevenção que envolvam também as próprias plataformas. Quais são os próximos passos agora que o projeto segue para o Senado? A sociedade civil teve papel fundamental na construção do texto e continuará acompanhando sua tramitação. Estamos confiantes de que os senadores manterão o compromisso com a celeridade, para que o PL seja sancionado o quanto antes. O desafio seguinte será garantir uma regulamentação eficaz e a implementação das medidas aprovadas.

Violência sexual faz uma menina virar mãe a cada 30 minutos

Segundo dados do DataSUS do Ministério da Saúde, entre 2014 e 2023, a cada meia hora, uma criança deu à luz no Brasil. A média foi calculada a partir da quantidade de nascimentos em que a gestante tinha de 10 a 14 anos de idade. Por ano, cerca de 20 mil meninas viraram “mães”, mas poderiam ter interrompido a gestação legalmente, por terem sido vítimas de estupro de vulnerável, como prevê o Código Penal brasileiro quando a relação sexual envolve menores de 14 anos. O projeto Meninas Mães, da Revista AzMina, traçou um levantamento inédito no Brasil, revelando que os serviços de interrupção legal da gravidez estão, em muitos casos, extremamente distantes das meninas de 10 a 14 anos que engravidam. Como consequência, nos últimos dez anos, cerca de 205 mil meninas tornaram-se mães por não conseguirem exercer o direito ao aborto após estupros presumidos. Algumas precisariam viajar até 2.500 km para alcançar uma unidade de saúde que ofereça esse tipo de atendimento. A ginecologista e obstetra Helena Moura aponta que esse fenômeno não é isolado. “As meninas engravidam como consequência direta de estupro de vulnerável, muitas vezes cometido por familiares ou pessoas de confiança. Em regiões remotas, sem estrutura de saúde ou sem conhecimento da lei, o resultado é uma gravidez imposta, sem qualquer apoio ou direito respeitado”. Na avaliação de Helena, a geografia da dor é clara: meninas negras, indígenas e pobres, especialmente no Norte e Centro-Oeste, estão entre as mais afetadas. “Nas áreas rurais e periferias, a falta de acesso à educação sexual, à saúde e à justiça potencializa o risco. Muitas vítimas sequer sabem que podem interromper a gravidez em caso de estupro, direito garantido por lei”. “Maternidade imposta a uma criança é um desastre. O corpo não está preparado, o risco de complicações obstétricas e psicológicas é enorme e há aumento de morbimortalidade, depressão profunda, retraimento social e ainda a carga insuportável de cuidar de outro ser”, adiciona. Uma pesquisa elaborada pelo Centro Internacional de Equidade em Saúde, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com apoio da organização Umane, verificou mais de 1 milhão de partos do Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos de 2020 a 2022 e constatou que meninas nessa situação têm acesso reduzido ao pré-natal, e em até 40% dos casos, o cuidado só começa após o primeiro trimestre, e isso se agrava conforme a vulnerabilidade socioeconômica. Além das consequências severas para essas vítimas, como danos emocionais, hiperexposição sexual precoce, distúrbios mentais e, posteriormente, maior risco de uso de substâncias e comportamento de risco. De acordo com a assistente social Camila Lima, seria necessário operar em três frentes ao mesmo tempo: prevenção via educação sexual acessível, acolhimento emergencial eficaz e responsabilização real. “Sem essas engrenagens funcionando, vamos apenas perpetuar essa violência”. Algumas medidas citadas pela profissional são a ampliação e divulgação da Lei do Minuto Seguinte, que garante atendimento emergencial multidisciplinar gratuito às vítimas de violência sexual. Isso inclui profilaxia, apoio psicológico e social, orientações legais, sem necessidade de boletim de ocorrência. Também a implementação em todo o país da Rede Cegonha com foco em meninas vítimas de violência, oferecendo acesso seguro ao parto ou interrupção da gestação conforme a lei, acompanhamento pré-natal, suporte psicológico e garantia de continuidade escolar e social. “Educação sexual desde a infância, com programas adequados às faixas etárias, capacitação de professores e envolvimento da família, para prevenir abusos e empoderar crianças a identificarem situações de risco, juntamente com políticas integradas nas regiões remotas, com uso de unidades móveis de atendimento (ônibus, barcos, telemedicina), para levar serviços de saúde, assistência social e jurídica onde o Estado ainda não chega”, finaliza Camila.

Casos de hepatite A aumentam em várias regiões brasileiras

O Brasil tem registrado uma preocupante alta nos casos de hepatite A. Dados recentes do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) mostraram que, em 2024, o número de infecções saltou 54,5% em relação ao ano anterior, passando de cerca de 1,1 para 1,7 caso por 100 mil habitantes. Em algumas regiões, como Centro-Oeste, o aumento chegou a 350%, enquanto no Sudeste foi de mais de 57%, e no Sul cerca de 50%. Apesar disso, Norte e Nordeste continuam concentrando a maioria dos casos acumulados desde 2000. Esse cenário gera preocupação entre autoridades sanitárias, principalmente porque esse aumento ocorre em um contexto em que a doença havia sido amplamente controlada na infância. Desde 2014, a vacina contra hepatite A faz parte do calendário nacional infantil, o que causou queda nos casos entre crianças, uma redução de mais de 97% entre menores de 5 anos, e de mais de 99% entre aqueles com até 9 anos. “A hepatite A é transmitida pela via fecal-oral, ou seja, ingestão de água ou alimentos contaminados e contato com ambientes ou pessoas infectadas. A falta de saneamento básico e higiene ainda é um problema sério em muitas regiões, especialmente nas periferias das grandes cidades. Além disso, em populações adultas, práticas sexuais sem proteção vêm sendo identificadas como fatores importantes de transmissão”, explica o epidemiologista Eduardo Salgado. Ele salienta que a doença costuma começar com sintomas inespecíficos, como fadiga, mal-estar, febre e dores musculares. “Podem surgir náuseas, vômito, dor abdominal, diarreia ou constipação. A urina escura costuma anteceder a icterícia (pele e olhos amarelados), o período de incubação varia entre 15 e 50 dias, e os sintomas geralmente duram menos de dois meses”. Segundo a infectologista Beatriz Menezes, o diagnóstico se dá por exame de sangue, que detecta anticorpos anti-HAV IgM, indicando infecção recente. A presença de IgG, por sua vez, sinaliza imunidade prévia (por infecção passada ou vacinação). “Não existe um tratamento específico. O foco é aliviar sintomas, manter hidratação, nutrição adequada e repouso. Hospitalização só é necessária em casos de insuficiência hepática grave, o que é raro, e é importante evitar a automedicação, especialmente com substâncias tóxicas ao fígado”. A médica destaca que a vacinação é a principal estratégia. “No Sistema Único de Saúde (SUS), a vacina é em dose única podendo ser aplicada nas crianças de 12 meses e menos de 5 anos. Adultos em grupos de risco (portadores de HIV, hepatopatias, imunossuprimidos, entre outros) podem receber duas doses nos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE) com intervalo mínimo de 6 meses”. “Além disso, o uso de preservativos, a higienização das mãos, genitália e região anal antes e depois das relações sexuais, são muito importantes para evitar contágio por via oral-anal. A higiene pessoal também é importante, lavar bem as mãos após usar o banheiro e antes de preparar alimentos; higienizar frutas, verduras e utensílios; utilizar água tratada; evitar locais com esgoto exposto ou água contaminada; e cozinhar bem mariscos, peixes e carne suína”, conclui Beatriz. Com o aumento de 54,5% nos casos em 2024, sobretudo entre adultos jovens, especialmente homens de 25 a 29 anos, e com maiores incidências no Sul, Sudeste e Centro-Oeste, as autoridades reconhecem que o comportamento humano, mudanças nos padrões de exposição e a falta de imunização em adultos são fatores-chave. Enquanto isso, idosos enfrentam risco elevado de evolução para formas graves, entre os 27 óbitos registrados em 2024, a maioria ocorreu em pessoas com 60 anos ou mais. Para combater esse aumento, as campanhas de saúde pública enfatizam a importância da vacina infantil (com baixa cobertura em algumas regiões), da ampliação da oferta vacinal nos CRIE para adultos, e da promoção de higiene básica e saneamento. “Não podemos esperar que o surto volte a ser um pesadelo infantil, precisamos ampliar a imunização adulta e urgente”, afirma Salgado.

Minas Gerais revisa cortes e destina verba para abastecer viaturas

Após receber críticas pelo corte no fornecimento de combustível para as viaturas policiais, o Governo de Minas Gerais resolveu revisar as medidas de contenção de despesas na Polícia Militar. Como resultado, foi anunciada a liberação de um adicional de R$ 5 milhões para garantir o abastecimento dos veículos da corporação. A informação foi divulgada pelo secretário de Estado da Fazenda, Luiz Cláudio Gomes, durante audiência pública realizada na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). A Comissão de Segurança Pública promoveu a reunião por iniciativa de seu presidente, o deputado Sargento Rodrigues (PL), que expressou críticas ao fato de a revisão dos cortes orçamentários ainda não contemplar a Polícia Civil e o Corpo de Bombeiros Militar do Estado de Minas Gerais (CBMMG). Segundo Gomes, estão em curso negociações com a Polícia Civil para analisar a possibilidade de reavaliar os cortes realizados. “Estamos em tratativas com a Polícia Civil para avaliar a real necessidade. A situação financeira do Estado não é fácil e não é à toa que fizemos esse contingenciamento de R$ 1 bilhão”. Túlio Gonzaga, superintendente central de Planejamento e Orçamento da Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão (Seplag), afirmou que, até o momento, não foi realizada nenhuma avaliação específica em relação ao Corpo de Bombeiros. “O CBMMG ainda não entrou em contato com a gente, mas se for necessário a gente vai avaliar”. “Será que não tem consciência do que isso está causando lá na ponta da linha, o estrago?”, questionou o deputado Sargento Rodrigues, destacando que a escassez de combustível compromete o desempenho das atividades investigativas da Polícia Civil. Ele acrescentou que é inaceitável que o Corpo de Bombeiros seja impedido de atender ocorrências de incêndios ou outras emergências devido à ausência de combustível. “Não dá para aceitar passivamente que o cidadão que paga imposto não tem uma viatura para atendê-lo. Isso tem influenciado o avanço das organizações criminosas em nosso Estado”. Rodrigues observou que facções criminosas vindas do Rio de Janeiro, como o Comando Vermelho, antes ausentes em Minas Gerais, atualmente exercem forte influência em várias comunidades de Belo Horizonte, entre elas Cabana do Pai Tomás, Serra e Morro das Pedras. Em 2025, o governador determinou a todas as áreas da administração estadual a adoção de um corte geral de despesas, por meio de um decreto de contingenciamento. A medida seguiu recomendação do Comitê de Orçamento e Finanças (Cofin), que atua como órgão de apoio na formulação e execução das políticas orçamentárias, financeiras, de gestão e de recursos humanos do governo. No entanto, o secretário de Estado da Fazenda, Luiz Cláudio Gomes, esclareceu que a decisão do Cofin se limitou à determinação do corte geral de despesas, cabendo a cada gestor de órgão definir como os ajustes seriam aplicados internamente. “Não temos capacidade de tratar neste nível de detalhamento”. Sargento Rodrigues afirmou que o governo deve dialogar com os responsáveis pelos órgãos de segurança para reconhecer que houve uma falha na definição das prioridades para os cortes orçamentários. “Ou o governo não conversou com eles, ou eles estão tomando uma decisão que vai colocar o governo na fogueira”. O deputado contestou o secretário da Fazenda, ressaltando que os benefícios fiscais concedidos pelo governo às grandes empresas em 2025 somam R$ 25,2 bilhões. Ele questionou Luiz Cláudio Gomes sobre a possibilidade de revisar essas isenções, ao invés de impor cortes em programas públicos fundamentais. Gomes defendeu a manutenção dos benefícios fiscais. “É uma política pública de geração de emprego e investimento no Estado, e estruturante que não deve ser modificada por falta de dinheiro. A gente não pode demonizar o benefício fiscal”. Ele ressaltou ainda que a guerra fiscal entre os estados e os benefícios associados a ela devem ser eliminados até 2032, devido à reforma tributária, destacando a importância de atrair empresas durante os próximos sete anos. “É o momento de atrair as empresas aqui para Minas Gerais, pois nós achamos que, depois que elas se estabelecem, elas ficam”.

2,3 milhões de crianças de até três anos estão fora da creche no país

Quase 2,3 milhões de crianças de até três anos estão fora da creche por dificuldade de acesso, como falta de vagas ou de unidades próximas, segundo revela um estudo do Todos Pela Educação, realizado com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua e no Censo Escolar. O levantamento mostra também que embora o número de matrículas tenha aumentado entre 2016 e 2024, cresceram as desigualdades de acesso entre as crianças das famílias mais pobres e mais ricas. Para debater o assunto, o Edição do Brasil conversou com a doutora e mestre em Ciências Sociais e docente do Centro Universitário UNA , Naiane Loureiro. Como a falta de creche impacta o desenvolvimento infantil nos primeiros anos de vida? A falta de acesso à creche nos primeiros anos de vida pode afetar o desenvolvimento infantil de diversas formas, pois esse período do nascimento aos 6 anos é considerado pela neurociência o mais intenso no que tange ao desenvolvimento cerebral, social e emocional. Em relação ao desenvolvimento socioemocional, impacta a interação social da criança, podendo se estender para outras fases da vida. Em longo prazo, pode gerar efeitos na vida escolar futura dessas crianças e aumento das desigualdades. Por fim, a falta de creches pode gerar impactos indiretos na família, por exemplo, a dificuldade para os pais trabalharem fora e dentro de casa. Segundo a pesquisa, a desigualdade de atendimento a crianças ricas e pobres aumentou entre 2023 e 2024. Quais motivos podem justificar esse avanço? Este crescimento pode ter ocorrido por motivos como: infraestrutura insuficiente e/ou má distribuição de creches em algumas cidades, o que pode demonstrar falta de prioridade de políticas públicas voltadas para a educação infantil. Em municípios pequenos, como zonas rurais ou periferias, muitas crianças ficam sem atendimento devido à falta de creches próximas ou em quantidade suficiente. Quais são os fatores que impedem o acesso das crianças mais pobres às creches? Os principais são de ordem estrutural, socioeconômica, geográfica e cultural. Estrutural porque nota-se poucas vagas nas áreas mais vulneráveis. Socioeconômicas, pois mesmo quando a creche é gratuita, o transporte, alimentação complementar ou material escolar podem pesar no orçamento familiar. Geográfica porque a creche mais próxima muitas vezes fica a vários quilômetros de casa. E cultural, por exemplo, a baixa escolaridade dos pais pode reduzir a valorização da educação infantil formal. O que o poder público pode fazer para reduzir a fila de espera por vagas? Ampliar a oferta de vagas de forma planejada e regionalizada; oferecer apoio técnico e financeiro para municípios menores, que têm dificuldade para bancar novas creches; investir na construção e manutenção dessas instituições, priorizando regiões com maior déficit educacional nessa faixa etária e vulnerabilidade social; incentivar creches comunitárias e parcerias com organizações sociais para ampliar vagas; entre outras possibilidades. Minas Gerais tem a maior fila de espera por vaga em creches, com 247 mil crianças em 2024. O que leva o Estado a ser o destaque negativo do país? Minas possui uma complexidade territorial, muitas cidades pequenas e regiões rurais, onde a oferta é mais escassa e o acesso mais difícil, o que contribui para as filas nessas localidades. Vale lembrar também que, historicamente, a educação infantil enfrenta desafios para ganhar prioridade orçamentária suficiente diante de outras demandas estaduais e municipais. Em sua análise, o que podemos esperar das políticas de educação infantil para os próximos anos? Em agosto de 2025 foi lançada a Política Nacional Integrada da Primeira Infância, que visa garantir a proteção, o desenvolvimento integral e os direitos das crianças de zero a seis anos. Espera-se que com o desenvolvimento desta iniciativa ocorra uma expansão de vagas e melhoria da infraestrutura. Contudo, existem muitos desafios na implementação e necessidade de monitoramento, além de muitas tendências pedagógicas emergentes contemporâneas. Para isso, será necessário investir em educação continuada dos docentes, especialmente da educação infantil.

Seis regionais de BH tem o Bora Jogar + Basquete

Promover a prática do basquete, treinamento em quadra, exercícios de força, preparo físico, base teórica das técnicas e regras da modalidade esportiva são os objetivos do projeto Bora Jogar + Basquete realizado pela Prefeitura de Belo Horizonte (PBH). Atualmente, as atividades acontecem em seis das nove regionais da cidade: Venda Nova, Norte, Pampulha, Oeste, Centro-Sul e Nordeste. Voltado para adolescentes, com idade entre 12 e 17 anos, as aulas são ministradas por professores preparados e específicos de basquete que atendem, duas vezes por semana, 150 jovens, ao todo. Cada escolinha é composta por uma equipe profissional formada por um coordenador-geral, três professores de educação física e três estagiários. “A prática esportiva e de lazer oferece a todos os envolvidos a oportunidade do aprendizado e cultivo de valores fundamentais não só para a prática esportiva e de lazer, mas para todas as áreas da nossa vida: respeito, cooperação, liderança, responsabilidade, entre outras. O projeto contribui para o desenvolvimento dos beneficiados como jogadores de basquete, mas, sobretudo, permite o desenvolvimento de valores educativos e a formação moral dos jovens”, afirma Rodrigo Gavioli, coordenador do setor de Programas e Projetos da Diretoria de Formação Esportiva da Secretaria Municipal de Esportes e Lazer (Smel). O analista de Políticas Públicas da Smel e coordenador do projeto, José Eduardo Rangel, explica que a ideia do Bora Jogar + Basquete surgiu em 2022. “A partir da iniciativa da Smel de democratizar e ampliar o acesso a uma variedade de modalidades esportivas e atividades de lazer. Essa atuação diversificada garante que diferentes públicos tenham oportunidades de vivenciar práticas que contribuam para a saúde física e mental, inclusão social, convivência comunitária e formação cidadã”. “O projeto tem impactado a vida dos adolescentes no desenvolvimento da aptidão física; desenvolvimento de qualidades sociais e morais dos adolescentes (espírito colaborativo, competitivo, capacidade de assimilar derrotas e vitórias, respeito às regras); estimular a incorporação de práticas esportivas no dia a dia, garantindo uma vida mais saudável e de melhor qualidade”, acrescenta. Ele pontua que o programa é realizado a partir da Lei de Incentivo Estadual, com patrocínio da AMA/Ambev. “E que a escolha das regionais se deu a partir de critérios técnicos e a ampliação da proposta para outras regiões depende diretamente da captação de recursos por meio dos mecanismos das leis de incentivo”. Inscrições Rangel ressalta que para participar do Bora Jogar + Basquete, os critérios adotados para preenchimento das vagas são a ordem de inscrição e comprovante de matrícula. “Além disso, há prioridade nos seguintes casos: alunos matriculados na rede pública municipal de ensino; na rede pública estadual/federal de ensino; e bolsistas de escola particulares”. As inscrições podem ser feitas diretamente em cada núcleo, destaca o coordenador. “Importante ressaltar que é necessário que o responsável (maior de idade) pelo jovem leve um xerox tanto da própria identidade quanto do aluno, além de um comprovante de matrícula do adolescente”. Programação Segundas e quartas-feiras:Centro-SulQuadra da Barragem Santa LúciaAvenida Arthur Bernardes, 2.80116h às 17h (12 a 14 anos)17h às 18h (15 a 17 anos) OesteQuadra da Praça do SerenoPraça do Sereno, 2.42516h às 17h (12 a 14 anos)17h às 18h (15 a 17 anos) PampulhaQuadra da Comunidade DandaraAvenida Dandara, 1217h30 às 18h30 (12 a 14 anos)18h30 às 19h30 (15 a 17 anos) NortePraça Candido PortinariRua Ministro Oswaldo Aranha, 34517h30 às 18h30 (12 a 14 anos)18h30 às 19h30 (15 a 17 anos) Terças e quintas-feiras:NordesteQuadra de Esportes Professor Marcus MazzoniRua Professor Amedee Peret, 39016h às 17h (12 a 14 anos)17h às 18h (15 a 17 anos) Venda NovaQuadra da Praça João José de AraújoRua Wilson Abrão Abdo, 3015h às 16h (12 a 14 anos)16h às 17h (15 a 17 anos)

Fraudes na internet e IA testam os limites da proteção de dados

Criada para estabelecer regras claras no tratamento de informações pessoais e reforçar a privacidade dos cidadãos, a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) completa sete anos em agosto. A norma provocou mudanças significativas no mercado brasileiro. Porém, mesmo com avanços, os desafios seguem expressivos. Apenas em 2024, mais de 84 milhões de contas de usuários brasileiros sofreram violações de segurança, segundo uma empresa de cibersegurança, colocando o país na sétima posição mundial nesse tipo de incidente. De acordo com a advogada Giovanna Vigil, especialista em Direito Digital, a maior conquista foi a transformação cultural. “A proteção de dados deixou de ser um tema restrito ao setor jurídico ou de tecnologia e passou a fazer parte da estratégia das empresas. Hoje é comum que organizações tenham políticas de privacidade, canais para atendimento e cláusulas contratuais específicas sobre o tratamento de dados. Também houve maior conscientização e os cidadãos passaram a entender melhor seus direitos”, afirma. Apesar disso, Giovanna avalia que o número elevado de incidentes mostra que a maturidade ainda está longe do ideal. “Muitas empresas se adequaram apenas no papel, mas ainda carecem de investimentos consistentes em segurança da informação. Segurança não é apenas tecnologia. Envolve processos, treinamentos e respostas rápidas a incidentes. “Cumprir as regras da LGPD deve ser visto como um investimento em credibilidade. Empresas que cuidam dos dados ganham a confiança de clientes, parceiros e investidores”, acrescenta. Fiscalização A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) intensificou a fiscalização e aplica multas que podem chegar a 2% do faturamento, limitadas a R$ 50 milhões por infração. O advogado criminalista e especialista em Direito Digital, Thiago Calazans, explica que o cálculo considera fatores como gravidade da infração, número de titulares afetados e histórico de conformidade. “Antes da imposição da penalidade há um processo administrativo que garante o contraditório e a ampla defesa”. Calazans alerta que em incidentes graves como vazamentos massivos ou golpes com inteligência artificial, as responsabilidades vão além da reparação técnica. “A LGPD exige comunicação imediata à ANPD e aos titulares, medidas para mitigar os danos e, se comprovada ausência de segurança adequada, a empresa pode ser responsabilizada civilmente”. Inteligência artificial As ferramentas de inteligência artificial generativa já são usadas para ataques de phishing sofisticados, deepfakes e também clonagem de voz. Giovanna avalia que a prevenção exige treinamentos, autenticação forte, criptografia, monitoramento e políticas claras de uso. “No ambiente corporativo, auditoria de fornecedores e testes de segurança são indispensáveis”. Sistemas treinados com dados enviesados podem gerar discriminação algorítmica em decisões como crédito e contratações. “A LGPD já prevê revisão humana e transparência, e o Marco Legal da Inteligência Artificial tende a reforçar esses mecanismos”, ressalta Calazans. Embora não exista lei específica para deepfakes e clonagem de voz, o especialista acrescenta que elas podem ser enquadradas em crimes como estelionato e falsidade ideológica. “O desafio é a prova, pois identificar a autoria exige perícia forense e cooperação internacional”. Giovanna defende um modelo regulatório híbrido. “Temos uma base sólida com a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais, mas a velocidade da evolução tecnológica exige normas complementares e flexíveis para lidar com os riscos sem sufocar a inovação”. A proteção de dados é uma questão de sobrevivência empresarial, projeta Calazans. “A tendência é vermos maior integração da LGPD com normas setoriais, mais poder fiscalizatório da ANPD e uso da inteligência artificial como ferramenta de compliance”, finaliza.