Ação militar de Trump na Venezuela pode impactar o Brasil

No início de janeiro, os Estados Unidos fizeram uma ação militar na Venezuela e prenderam o então presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores. Com isso, um aumento do fluxo migratório entre o país vizinho e o Brasil pode ser uma das consequências. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os venezuelanos formavam o maior grupo estrangeiro no país, em 2022, com 271,5 mil pessoas. Em 2010, os imigrantes da Venezuela somavam 2,9 mil, ou seja, uma população quase 100 vezes menor do que a atual. Já uma pesquisa da Agência da ONU para as Migrações (OIM) e da PUC Minas, também de 2022, mostra que 48% dos imigrantes em Minas Gerais são desse país. Desde julho de 2018, o Estado acolheu mais de 4.426 venezuelanos por meio da Estratégia de Interiorização do Governo Federal, sendo Belo Horizonte e Juiz de Fora as cidades que mais registraram imigrantes. O professor de Ciências Sociais da UniArnaldo Centro Universitário, Luciano Gomes dos Santos, afirma que há um risco real de aumento nos pedidos de refúgio, caso a instabilidade política, social e humanitária na Venezuela se agrave. “A experiência recente demonstra que episódios de intensificação de conflitos ou sanções severas tendem a provocar deslocamentos forçados da população civil. O Brasil, por sua proximidade geográfica e por possuir uma política migratória reconhecida internacionalmente, surge como um dos principais destinos”. “Embora ainda não se observe um crescimento acelerado imediato, o histórico da migração venezuelana indica que qualquer agravamento do cenário interno pode gerar ondas migratórias progressivas, sobretudo de famílias e pessoas em situação de maior vulnerabilidade”, acrescenta. Santos explica que a chegada de um novo contingente de imigrantes pode impactar a economia brasileira de maneiras distintas e em diferentes horizontes de tempo. “Em curto prazo, há um aumento dos gastos públicos relacionados ao acolhimento, como saúde, assistência social, moradia temporária e regularização documental. Já em médio e longo prazo, os efeitos tendem a ser mais complexos e potencialmente positivos. Migrantes em idade economicamente ativa ampliam o consumo, estimulam economias locais e, quando inseridos no mercado formal, contribuem para a arrecadação tributária”. Roraima é o Estado mais diretamente impactado, por ser a principal porta de entrada, destaca o professor. “Programas de interiorização são fundamentais para reduzir a sobrecarga e distribuir de forma mais equilibrada os impactos e oportunidades econômicas entre outros estados. Os setores da economia mais diretamente afetados, por esse aumento no número de imigrantes, costumam ser a construção civil, os serviços urbanos, a agricultura, o comércio e a logística que absorve parte significativa dessa força de trabalho”. Sistema jurídico A advogada do escritório Abrahão Advogados e mestre em Ciências Jurídico Políticas, Rafaela Abrahão, pontua que o país possui um arcabouço jurídico robusto para tratar migração e refúgio. “Em 2024 foram mais de 27 mil pedidos de venezuelanos registrados no Brasil, dentro de um total de mais de 68 mil, um aumento de cerca de 16,3% em relação ao ano anterior”. Rafaela cita os principais desafios do sistema. “Capacidade administrativa e logística, como postos de atendimento, emissão de documentos e infraestrutura em fronteiras; integração socioeconômica, especialmente acesso à educação, saúde e mercado de trabalho formal; cooperação intergovernamental, entre União, estados e municípios; possíveis tensões sociais, se políticas públicas de absorção forem insuficientes ou mal articuladas; e riscos de processos migratórios irregulares ou uso de sistemas de refúgio para outros destinos”. Se um aumento de fluxos migratórios não for acompanhado por respostas claras e estruturadas pode trazer consequências, ressalta a especialista. “O acesso a direitos tende a se tornar desigual, gerando insegurança jurídica para migrantes e refugiados; maior informalidade e vulnerabilidade social; riscos de práticas discriminatórias ou decisões administrativas incoerentes, que podem resultar em litígios e violações de direitos humanos reconhecidos no Brasil; e impacto reputacional internacional ao não cumprir compromissos humanitários, prejudicando cooperação com organismos como ONU/ACNUR”.
Uso de anabolizantes pode aumentar as chances de infarto

De acordo com um levantamento da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), de 2018 a 2023, houve um crescimento de 670% nas vendas de esteroides anabolizantes no Brasil. Segundo a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), um em cada 16 estudantes já utilizou anabolizantes. A SBEM ainda alerta que o uso indiscriminado é um fator silencioso de risco cardiovascular, sobretudo entre jovens. Dados apresentados pela entidade mostram que 6,4% dos homens já utilizaram anabolizantes e que a taxa pode ser ainda mais alta entre frequentadores de academias. Em muitos casos, o uso não se limita a esteroides e envolve também insulina e hormônio do crescimento, o que, segundo a SBEM, potencializa os efeitos adversos. O urologista da Unimed-BH, Mateus de Almeida Ribas, destaca que o uso indiscriminado de anabolizantes mexe com o corpo inteiro. “O maior perigo é que muita coisa acontece por dentro, enquanto a pessoa só vê o resultado no espelho. No coração e na circulação pode aumentar a pressão, piorar o colesterol, engrossar o músculo do órgão, o chamado hipertrofia, e elevar o risco de arritmia, trombose, infarto e acidente vascular cerebral (AVC), inclusive em jovens”. “No fígado, principalmente com alguns anabolizantes orais, pode causar lesão relevante e, em casos graves, evoluir para problemas sérios. E também pode ter um impacto hormonal e sexual. No homem, o corpo desliga a produção natural, aparecendo queda de libido, disfunção erétil, redução do volume testicular e infertilidade”, complementa. E não é só no físico que os problemas aparecem, alerta o urologista. “Pode causar irritabilidade, ansiedade, insônia e, em alguns casos, queda forte de humor, ao interromper o uso. E a utilização estética tende a virar um ciclo de dependência psicológica, porque a pessoa fica presa ao medo de perder o resultado. Em adolescentes é ainda pior, é um corpo em desenvolvimento sendo exposto a doses hormonais que não foram feitas para isso”. Ribas pontua alguns sinais de alerta que não devem ser ignorados. “Dor no peito, falta de ar, palpitações, desmaio, olhos ou pele amarelados, acne explosiva, alterações extensas de humor, queda de libido, problemas de ereção, e também a famosa ginecomastia, que é o aumento das mamas. Às vezes é possível reverter o processo, mas não é garantido. Quanto mais tempo e maior a dose, aumenta a chance de causar um dano permanente”. Ilusão Na avaliação do profissional de educação física e especialista em Biomecânica e Longevidade, Randy Duarte, o uso de anabolizantes pode gerar um aumento rápido de força, volume muscular e até sensação de maior resistência nos treinos, e é justamente isso que ilude muitas pessoas. “O problema é que esse ganho acontece de forma artificial e desproporcional, principalmente no músculo, enquanto outras estruturas não acompanham essa evolução. O corpo até aparenta estar mais forte, contudo, fica mais vulnerável”. “Esses esteroides podem mascarar sinais importantes de fadiga e dor, fazendo com que a pessoa treine além do limite. É comum vermos um aumento no risco de lesões, como rupturas de tendão, estiramentos graves e sobrecarga articular, justamente porque o músculo passa a gerar forças que essas estruturas ainda não estão preparadas para suportar”, esclarece. O uso de anabolizantes está fortemente ligado à pressão estética e à influência das redes sociais, que muitas vezes vendem resultados irreais e rápidos, ressalta o profissional. “Com isso, o consumo acaba sendo normalizado, como se fizesse parte natural do processo de treino. E é fundamental reforçar que é possível evoluir sem esteroides”. Para Duarte, as estratégias educativas mais eficazes são aquelas que mostram a realidade sem prometer atalhos. “É essencial reforçar que no treino não existe caminho rápido e sustentável: constância no treinamento, boa alimentação, descanso e acompanhamento profissional continuam sendo a base de qualquer resultado duradouro”, finaliza.
Apicultura no Alto Jequitinhonha gera renda de R$ 400 mil por ano

Os dados mais recentes mostram que a apicultura em Minas Gerais está crescendo, 1.085 novos cadastros foram realizados no Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA), 34% a mais que no último levantamento. Nas comunidades rurais do município de Couto de Magalhães de Minas e região não é diferente, a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais (Emater-MG) em parceria com a Secretaria Municipal de Agricultura e Meio Ambiente, a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) e a Associação dos Apicultores de Couto de Magalhães de Minas (Apicouto), estão realizando o projeto “Produção de mel e própolis verde no Alto Jequitinhonha”. Atualmente, a atividade beneficia cerca de 100 apicultores. Os produtores enfrentavam falta de recursos financeiros para a aquisição de equipamentos e dificuldade para encontrar preço justo na comercialização, e com o objetivo de contornar esses problemas e gerar emprego e renda, em 2015, começaram os trabalhos de assistência. A Emater-MG trabalha na promoção da sustentabilidade, manejo orgânico, preservação da mata nativa, diversificação das floradas e assistência personalizada. Já a Apicouto é responsável pelo beneficiamento e comercialização de mel e própolis de 20 associados. O presidente da associação, André Marcos da Silva, que está na atividade há mais de 10 anos, relata que a experiência tem dado bons resultados tanto para ele quanto para a Apicouto. “Trouxe valorização para nossos produtos e ampliou mercado com as vendas para feiras do município e região. No total, são mais de 400 colmeias de abelha africanizada e a intenção é continuar melhorando cada vez mais a produção”. De acordo com o secretário Municipal de Agricultura e Meio Ambiente, Assis Antônio Vieira, o trabalho consolida o setor apícola, carro-chefe na geração de emprego e renda da cidade. “As parcerias estimulam os pequenos produtores e a economia local. Isso nos traz apoio e segurança para a execução de um projeto de sucesso, onde o nosso objetivo é o fortalecimento de agricultores familiares”. A produção O extensionista da Emater-MG, José Dilson Pereira Coelho, explica que a produção começou há cerca de 15 anos, como alternativa a mineração e a monocultura do eucalipto. “Além do mel, recentemente, também estamos nos especializando em própolis, em especial o verde, que é feito de alecrim e é bem abundante na região. O diferencial é que são produtos 100% naturais, pois são produzidos através da vegetação local, o Cerrado”. O programa compreende as cidades de Diamantina, Felício dos Santos, São Gonçalo do Rio Preto, Senador Modestino, Gouveia, Prados, Itamarandiba, Carbonita, além de Couto de Magalhães de Minas. Segundo Coelho, a produção de mel chega a 1.500 kg por ano e a de própolis alcança 350 kg. Já a renda é de R$ 250 mil por ano para o mel e, aproximadamente, R$ 150 mil para a própolis. A Emater-MG apoia os produtores em todos os segmentos, da captura até a comercialização, ressalta o extensionista. “Nós fazemos reuniões periodicamente para capacitação. A produção de mel se profissionalizou tem nove anos, e os produtos ficam na região, por enquanto, por causa do selo de comercialização. O conhecimento ainda é uma barreira para conseguir desbravar a burocracia”. Além do desafio do conhecimento, o período de seca, de julho até setembro, é o principal obstáculo para manter a atividade, junto às queimadas. “Nessa época, temos que alimentar as abelhas, vigiar as colmeias para protegê-las do fogo, e sempre visitar esses locais. Inclusive teve uma temporada de queimada que prejudicou bastante a atividade, alguns produtores até pensaram em desistir”. Coelho pontua ainda que para expandir para outros locais o projeto precisa se estruturar primeiro. “Precisamos fortalecer o programa, pois cada município do Jequitinhonha tem um foco. O diferencial do Alto Jequitinhonha, especificamente em Couto de Magalhães de Minas, é que temos um grupo já formado. Diferente das demais cidades, que podemos encontrar apicultores, mas que ainda não conseguem trabalhar em cadeia produtiva”.
Inadimplência bate recorde e atinge 8,7 milhões de empresas no país

Segundo o Indicador de Inadimplência das Empresas da Serasa Experian, 8,7 milhões de instituições brasileiras estão negativadas, sendo mais de R$ 200 bilhões em dívidas atrasadas. Desse total, 8,2 milhões são micro, pequenas e médias empresas, que juntas, concentraram o volume de 56,8 milhões de dívidas negativadas que somaram R$ 184,6 bilhões em contas em atraso. O setor de serviços ocupa o primeiro lugar em negativações, com 54,9% do total, seguido pelo comércio (33%), indústria (8%) e outros (3,1%). Em números absolutos, os estados do Sudeste concentram o maior volume de CNPJs inadimplentes, total de mais de 4,6 milhões, seguidos pelos da região Sul (mais de 1,4 milhão) e do Nordeste (mais de 1,3 milhão). Em Minas Gerais, são 813.406 empresas inadimplentes. A economista e Coordenadora de Ciências Econômicas e Ciências Atuariais da FMU, Natalie Verndl, explica que o endividamento das micro e pequenas empresas deriva de um conjunto de fatores que são estruturais. “O primeiro deles se refere ao alto custo do crédito, pois os juros cobrados ainda continuam muito caros. Há também a volatilidade da demanda, alguns pequenos negócios têm uma oscilação de vendas e sazonalidades que acaba tendo um reflexo no fluxo de caixa, e que não permite uma certa estabilidade a longo prazo”. “Por fim, ainda estamos vivendo um período prolongado de inflação elevada, bem pressionada, que encarece os insumos para as empresas, e em termos de lucro acaba reduzindo a sua margem. Além disso, tem a questão da complexidade tributária do país e também da baixa educação financeira dos empreendedores”, complementa. Para Natalie, a inadimplência acaba reduzindo o dinamismo econômico. “Porque impede que as empresas consigam acessar o crédito, investir, criar novas tecnologias e, principalmente, ampliar a sua capacidade de operações e produção. O resultado é uma desaceleração do crescimento econômico, ou seja, o Produto Interno Bruto (PIB) vai crescer menos em última instância”. Na geração de empregos, esse fato reduz o ritmo de contratação, afirma a economista. “Em muitos casos, o primeiro corte a ser feito para adequar essas contas, em um cenário de inadimplência, é a demissão de funcionários. Instituições que estão endividadas acabam perdendo essa capacidade de investimento e de expansão, e as micro e pequenas empresas representam basicamente 70% dos empregos formais no Brasil”. A especialista destaca que o governo poderia atuar em três frentes para ajudar essas instituições. “A primeira é fazer uma linha de crédito mais barata e com garantias públicas que possam auxiliar esse público. A segunda é a redução dos juros juntamente com a simplificação tributária. E o último ponto é a digitalização de processos, uma integração de cadastros, e uma facilitação para a abertura, manutenção e regularização dessas empresas, reduzindo a questão da burocracia”. Planejamento O advogado tributarista do escritório Morad Advocacia, Antônio Carlos Morad, esclarece que o planejamento é a chave da recuperação do negócio. “Uma empresa menor deve ser gerida como tal. É de suma importância que os pequenos investidores se preparem para o crescimento da firma. A pesquisa, o aprofundamento no conhecimento técnico do negócio, o reestudo de conceitos, a viabilidade, entre outros pontos, deve ser primordial para que se obtenha sucesso”, acrescenta Morad. Para regularizar uma instituição negativada, o advogado pontua os principais caminhos jurídicos. “Primeiramente repensar o negócio e verificar se existe um anacronismo. Se não for isso, o empresário carece de analisar onde ocorreram os erros e entender os pontos fracos, para que se corrija rapidamente. Um advogado experiente e especializado no direito tributário deve ser contratado para apresentar soluções que possam levar a empresa a restabelecer sua saúde fiscal”.
Motos respondem por quase 40% das mortes no trânsito brasileiro

A frota de motocicletas cresceu no Brasil nos últimos anos, e com isso, a participação das motos nas mortes por acidentes de trânsito passou de 3%, no fim dos anos 1990, para quase 40% em 2023, segundo dados do estudo “Mortalidade e morbidade das motocicletas e os riscos da implantação do mototáxi no Brasil”. Em duas décadas, as internações por sinistros com motocicletas no Sistema Único de Saúde (SUS) se multiplicaram, superando 160 mil internações e representando cerca de 60% de todas as internações por acidentes de transporte terrestre. Já os gastos hospitalares com vítimas de motos passaram de R$ 41 milhões para aproximadamente R$ 273 milhões. Para entender os impactos desses números na sociedade, o Edição do Brasil conversou com a presidente da Comissão de Enfrentamento à Violência no Trânsito da OAB-MG, Alice Araújo Oliveira Pedrosa. A alta mortalidade de motociclistas pode ser atribuída à falta de fiscalização? Não, ela não pode ser explicada apenas pela falta de fiscalização. Tanto a pesquisa quanto o Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito (Pnatrans) demonstram que se trata de um problema estrutural, que envolve mobilidade, saúde pública e organização do sistema viário e não somente o comportamento individual do condutor. A fiscalização é importante, mas atua apenas sobre uma parte do problema. Entre alguns fatores estão: o crescimento acelerado do uso da motocicleta como meio de trabalho e deslocamento diário; vias urbanas e rodovias projetadas prioritariamente para automóveis; velocidades incompatíveis com ambientes urbanos; ausência de políticas contínuas; e fragilidade física inerente à motocicleta. Há lacunas legais que dificultam a regulamentação mais segura do serviço de mototáxi? Sim. Embora o serviço seja permitido em âmbito federal, a regulamentação foi delegada a estados e municípios, o que gerou falta de padronização nacional e grande desigualdade nas regras de segurança. Na prática, muitas cidades não regulamentaram a atividade ou a fizeram de forma insuficiente. Que medidas legais poderiam ser tomadas para reduzir o número de acidentes com motos? À luz do Pnatrans, a redução de sinistros envolvendo motocicletas exige medidas legais integradas e não apenas aumento de penalidades. As principais são: padronização mínima nacional de regras para motociclistas profissionais; gestão legal da velocidade, com ampliação de zonas de tráfego calmo e limites compatíveis com a vulnerabilidade do motociclista; prioridade legal para infraestrutura segura, obrigando projetos viários a considerar motociclistas; fortalecimento da fiscalização qualificada, integrada a dados e focada em condutas de maior risco; integração entre trânsito e saúde pública; e educação permanente obrigatória, especialmente para motociclistas que utilizam a moto como instrumento de trabalho. Que papel os órgãos municipais de trânsito devem exercer na regulamentação local? Cabe aos municípios regulamentar o uso do sistema viário local, com critérios mínimos de segurança; planejar e implantar infraestrutura segura; promover fiscalização orientada por dados, priorizando condutas de maior risco; integrar educação para o trânsito às políticas locais de mobilidade; e articular-se com a saúde pública, utilizando dados do SUS para prevenir sinistros e reduzir a sobrecarga do sistema. O uso de aplicativos de entrega por motociclistas cria novos desafios legais? Sim, especialmente nas áreas de trânsito, trabalho, mobilidade urbana e saúde pública. De forma objetiva, os principais desafios são: incentivo indireto ao risco, com metas de tempo, ranqueamento e remuneração por produtividade; vácuo regulatório, já que os aplicativos não são penalmente responsabilizados pelos impactos da atividade sobre o trânsito e o SUS; precarização da atividade; dificuldade de fiscalização; e externalização dos custos, transferindo ao poder público os efeitos dos sinistros. Há como responsabilizar empresas de entrega por acidentes com motociclistas? É juridicamente possível responsabilizá-las quando o modelo de operação contribui para o risco, como metas de tempo, pressão por produtividade ou ausência de deveres mínimos de cuidado. O Pnatrans adota a lógica da responsabilidade compartilhada, afastando a ideia de culpa exclusiva do motociclista.
Times mineiros do futebol feminino são destaque

A temporada 2025 do futebol feminino chegou ao fim, e os times mineiros obtiveram bons resultados. O Cruzeiro disputou quatro campeonatos: Supercopa, Copa do Brasil, Campeonato Brasileiro e Campeonato Mineiro. As cabulosas foram vice-campeãs no Brasileiro, sendo o primeiro time mineiro a chegar a uma final e ainda conquistou a vaga inédita para a Copa Libertadores de 2026. Na SuperCopa, o time chegou à semifinal, e no mineiro, o Cruzeiro foi tetracampeão estadual contra o América, sendo o terceiro título consecutivo. As Spartanas, por sua vez, disputaram a Série A1 do Campeonato Brasileiro, a Copa do Brasil e o Mineiro. O clube fez sua melhor campanha no Brasileiro Feminino, chegando em 9º lugar. O América chegou até às oitavas de final da Copa do Brasil, e foi vice- -campeão do Campeonato Mineiro. Já o Atlético disputou a Série A2 do Campeonato Brasileiro, a Copa do Brasil e o Campeonato Mineiro. Rebaixado em 2024, o time terminou a primeira fase em 3º lugar e chegou até a semifinal, garantindo vaga na Série A1. Na Copa do Brasil, o time chegou às oitavas de final. No Mineiro, as Vingadoras chegaram na 3ª posição na primeira fase e foram eliminadas na semifinal. Spartanas e Vingadoras A jornalista esportiva Aline Teixeira destaca que o América fez uma boa campanha. “De uma forma geral, o time é umas das equipes que apresentam um bom trabalho, porque já tem uma organização e um propósito com o futebol feminino desde muito tempo, e isso fortalece a atividade que é realizada dentro do clube. E esse ano conseguiu fazer uma temporada regular”. “Para 2026, espero que o América saia desse quase e se classifique para a fase mata-mata do Brasileirão. O time merece, principalmente se seguir nessa linha das contratações pontuais, nesse trabalho organizado que é feito dentro do clube. Faltam poucas atribuições para as Spartanas serem cada ano que passa mais competitivas”, acrescenta. Já o Atlético, Aline pontua que apresentou uma evolução relevante. “Conseguiu voltar para a elite do futebol brasileiro por conta de um compromisso assumido pelo Paulo Bracks, diretor de futebol, que prometeu organizar uma equipe mais competitiva. E isso foi comprovado, tanto na montagem quanto na construção do elenco. E o mais importante é que para 2026 esse projeto seja mantido”. A grande dificuldade para as Vingadoras é disputar com equipes que fazem investimento muito mais contundente, afirma a jornalista. “São clubes que já estão fazendo um bom trabalho dentro do futebol feminino, e chegar com essa responsabilidade, com essa missão de enfrentar times mais organizados e ainda ter que se firmar e se manter, é sim um desafio, porém, não é impossível”. Cabulosas O Coordenador de Esportes da Rádio Inconfidência, José Augusto Toscano, ressalta que o vice-campeonato brasileiro do Cruzeiro é um marco na modalidade. “E um passo importante, tomara que definitivo, na consolidação do futebol feminino no clube. Dependendo do desempenho do time na Libertadores, em 2026, pode ter o surgimento de uma nova força na modalidade no continente”. Para Toscano, o time tem potencial para ser protagonista contínuo no futebol feminino. “Mas, os apoios financeiro e logístico precisam ser mantidos e melhorados. Sobre o desempenho, no Mineiro foi dentro das expectativas, já que a equipe Celeste vem há algumas temporadas se sobressaindo, contudo, no Brasileiro, a expectativa foi superada. O vice-campeonato e ainda por cima, encarando o ‘poderoso’ Corinthians, de igual para igual, foi além do esperado”. “Acredito que em médio e longo prazo, o Estado pode se tornar uma das referências na modalidade. Para o ano que vem, podemos esperar o surgimento de novas forças e o fortalecimento do Cruzeiro e do América, que têm projetos mais consolidados”, finaliza.
Museu do Norte de Minas recebe mostra “Sentinelas: Carrancas Pinceladas”

Simbolizando força, identidade cultural ribeirinha e fé, as carrancas são consideradas obras de arte popular e símbolo da cultura e do folclore brasileiro. Desde o início de dezembro, o Museu Regional do Norte de Minas, em Montes Claros, recebe a mostra “Sentinelas: Carrancas Pinceladas”, do artista, arquiteto e fundador do Centro Cultural Lá da Favelinha, Kdu dos Anjos. Com raízes fincadas no Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte, e memórias que atravessam o Vale do São Francisco, Kdu revisita as carrancas, figuras míticas que, há séculos, protegem embarcações e caminhos, para recriá-las em tinta, textura e gesto contemporâneo. Sua produção emerge como uma ponte espiritual entre o Serrão e o Velho Chico, entre a vida urbana e as águas que moldaram o imaginário ribeirinho do Norte de Minas, onde seu pai, natural da cidade de Manga, nasceu às margens do rio. O artista revela como surgiu a ideia para criar a exposição. “Sempre senti que as carrancas carregam uma força ancestral que conversa diretamente com a favela, com minha história e com o jeito que vejo o mundo. Cresci entendendo a proteção não como algo distante, mas como gesto cotidiano de sobrevivência. A mostra nasceu dessa vontade de aproximar esses universos: a potência do rio e da quebrada, duas margens que me atravessam e me formam”. “Meu pai cresceu às margens do São Francisco e me carregou junto nesse imaginário. Sempre ouvi as histórias dele, do rio, de barco, de bicho, e da correria para sobreviver. As carrancas entram como essa ponte afetiva: são memórias dele comigo, são símbolo de proteção e um jeito de manter viva a força do lugar de onde ele veio”, acrescenta. A mostra reúne 50 obras, divididas entre pinturas, esculturas e fotografias. Minhas carrancas não ficam presas no folclore ou no museu, afirma Kdu. “Elas ganham textura de tijolo, gesto de favela, cor de periferia. É uma tradição reinventada, as carrancas do rio viram sentinelas do morro. Misturo o espírito do São Francisco com a estética urbana, como quem entende que proteção também é território, comunidade, vizinhança que se olha e se guarda”. Ele descreve que proteção é movimento, é fé, é força que não precisa ser perfeita. “As pinceladas tortas, a textura de muro, o gesto bruto, tudo isso materializa a ideia de que proteger é resistir. Minhas carrancas são amuletos periféricos: espantam o mau, guardam caminhos e lembram que a beleza também pode ser talhada na luta”. Sentimentos e reflexões Kdu espera que o público se veja, se reconheça e se questione. “Que sinta a vibração do Norte de Minas, a energia da favela e o abraço espiritual da ancestralidade. Quero provocar orgulho, memória e principalmente pertencimento. A importância de ocupar um espaço como o Museu Regional do Norte de Minas é devolver para o território uma história que nasceu nele. É afirmar que a região também produz vanguarda estética, sensibilidade e potência. É ocupar um museu com narrativas que muitas vezes ficam do lado de fora, como: a favela, o rio, a periferia, o filho de Manga que volta como artista”. “O Norte de Minas é um celeiro cultural, espiritual e simbólico gigantesco, mas por muito tempo ficou à margem. Falta olhar com mais cuidado, mais investimento e mais orgulho. O que faço aqui é também um gesto de valorização”, acrescenta. A arte dá continuidade ao que poderia virar só memória, destaca Kdu. “Quando você traz a tradição para o presente, ela respira de novo. Pintar carrancas na favela, nos tijolos, nas telas, é mostrar que a cultura não é estática: ela se move, evolui, incorpora novos mundos e segue protegendo”, finaliza. Serviço: Exposição “Sentinelas: Carrancas Pinceladas” Visitação: até 31 de janeiro de 2026Horário: terça a sexta, das 9h às 17h; sábados e feriados, das 9h às 13hLocal: Museu Regional do Norte de Minas – Praça Dr. Chaves, 32 – Montes Claros Entrada gratuita
Minas alcança US$ 41,4 bilhões em exportações no acumulado do ano

As exportações de Minas Gerais totalizaram US$ 41,4 bilhões no acumulado de 2025, um aumento de 6,4% frente ao mesmo período de 2024, e as importações somaram US$ 17 bilhões, resultando em um superávit de US$ 24,4 bilhões, segundo a Fundação João Pinheiro (FJP). O Estado respondeu por 13% das vendas internacionais brasileiras e se manteve como o terceiro maior exportador do país. Nos 11 primeiros meses de 2025, as importações representaram um crescimento de 9,1% em relação ao mesmo período de 2024, sendo o quinto maior importador do Brasil com 6,5% das compras internacionais. De acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), o fluxo comercial mineiro somou US$ 58,4 bilhões, o terceiro maior do país, e superando em 7,2% o montante do ano passado. “Em todo o ano de 2024, as exportações mineiras somaram cerca de US$ 42 bilhões, o que já foi um salto significativo para o Estado. E os números mostram que, novamente, devemos quebrar um recorde na série histórica. Isso reforça que as políticas do Governo de Minas para o comércio exterior estão sendo efetivas e que os produtos mineiros, mais do que nunca, estão alcançando o mundo”, ressalta a secretária de Estado de Desenvolvimento Econômico (Sede-MG), Mila Corrêa da Costa. O economista titular do Conselho Regional de Minas Gerais, Gelton Pinto Coelho Filho, explica que há duas questões importantes e fundamentais para entender o sucesso das exportações mineiras, mesmo com a crise deflagrada pelo governo norte-americano. “O financiamento vultoso da produção, feita pelo governo federal, e anos de trabalho de empresas, como a Embrapa, que junto com o empresariado agroexportador têm avançado muito em tecnologias e utilização adequada da terra. O financiamento e as pesquisas diminuem substancialmente o risco do negócio e permitem melhor alocação dos insumos produtivos”. Filho salienta que os impactos do tarifaço foram diferentes por setor, mas significativamente menores do que havia sido projetado. “Individualmente, enquanto o café teve avanço, o aço, por exemplo, teve muitas perdas. O número final não pode ser vendido como sucesso, se vários setores tiveram prejuízos”. Dados de novembro No mês de novembro, Minas Gerais foi o segundo maior exportador brasileiro, tendo participação de 13,8% no comércio internacional do país, atrás de São Paulo, com 20,2%. Cerca de 60% da pauta mineira de exportações foi representada pelo café e minério de ferro. O café teve participação de 30,4% e aumentou 22% em valor, com queda de 19,1% em volume. O minério de ferro, que representou 28,2%, apresentou acréscimo de 32,6% em valor e de 15,9% em volume. Os principais destinos das exportações foram a China e a Alemanha. A participação da China foi de 25,1% em novembro de 2024, aumentou para 33,3% em novembro deste ano. A participação da Alemanha cresceu de 5,1% para 6,6% no mesmo período. A dos Estados Unidos, por outro lado, recuou de 13,9% para 6,5% em razão da retração em vários produtos. Hoje, o país está em terceiro lugar no ranking dos destinos. Projeções para 2026 “Não poderíamos imaginar um momento melhor, mesmo com crises e instabilidades internacionais graves. A partir de janeiro, grande parte dos cidadãos não pagará imposto de renda e, tendo a propensão baixa à poupança, essa população irá consumir com mais vigor. Do ponto de vista externo, o financiamento das atividades produtivas vai proporcionar segurança para a manutenção do plantio, produção e exportação”, destaca o economista. Porém, Filho afirma que Minas vive um completo desmonte logístico. “Faltam investimentos em ferrovias, estradas e transporte público de massa. Enquanto o Governo do Estado abriu mão de R$ 111 bilhões em renúncias fiscais e isenções tributárias, a dívida pública explodiu, passando dos R$ 200 bilhões, e a população não recebeu o mínimo de atenção em termos de recursos públicos. O funcionalismo, que com seus salários sustentam muitas cidades do interior, acumulam perdas que, em alguns casos, chega a ser superior a 40% dos proventos”, finaliza.
Governo quer uma biblioteca pública para cada cidade até 2035

Garantir a existência de pelo menos uma biblioteca pública em cada município e ampliar, em 10%, as bibliotecas escolares, a cada ano, até 2035, é a proposta do Ministério da Cultura como metas da nova Política Nacional de Leitura e Escrita. Além de distribuir 100 milhões de livros em 10 anos e modernizar 50% das instituições existentes. Essas medidas visam combater a queda no percentual de brasileiros que se declaram leitores, que atualmente está em 47%. De acordo com dados do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP), o número de bibliotecas públicas diminuiu de 6.057 para 5.293, entre 2015 e 2020. Na região Sudeste existem 1.274 instituições, sendo 1.266 municipais, sete estaduais e uma federal. Segundo a pesquisa Retratos da Leitura em Bibliotecas Escolares de 2019, 63% das escolas brasileiras não têm biblioteca. O pedagogo e professor da Una, Wagner Cardoso Silva, explica que se essa meta for alcançada, o impacto será extremamente positivo. “Uma biblioteca não é apenas um prédio cheio de livros, ela representa acesso ao conhecimento, cultura, pesquisa, inclusão e cidadania”. “Ampliar bibliotecas públicas e escolares favorece a democratização da leitura, fortalece o aprendizado, incentiva o pensamento crítico e reduz desigualdades educacionais, especialmente em regiões onde o acesso ao livro ainda é limitado. Além disso, a presença de bibliotecas aproxima a população de atividades culturais e educativas, fomentando um ecossistema intelectual mais ativo e participativo”, acrescenta. Para Silva, a meta é ambiciosa, mas não impossível. “O grande desafio está na execução, não basta construir bibliotecas, é preciso garantir manutenção, equipe qualificada, acervo atualizado e planejamento contínuo. Hoje, enfrentamos desafios orçamentários, desigualdades e mudança nas prioridades políticas. Porém, se houver continuidade administrativa e financiamento consistente, a meta pode se tornar realidade”. Uma biblioteca escolar ativa e bem estruturada é um dos principais fatores de estímulo à leitura na infância, afirma o pedagogo. “Ela desperta curiosidade, amplia o vocabulário, melhora o desempenho escolar e fortalece habilidades cognitivas, como interpretação e criatividade. Crianças com rotina de leitura tendem a se tornar adultos com maior capacidade de raciocínio, comunicação e senso crítico. Investimentos O bibliotecário do Centro de Estudos do Hospital Felício Rocho, Samuel de Carvalho Alves Dantas, destaca que a redução no número de bibliotecas no país revela um grande retrocesso. “Significa que milhares de pessoas perderam ou deixaram de ter acesso a espaços públicos de leitura, pesquisa e convívio cultural. É um sinal de descaso com a educação, a cultura e com as populações vulneráveis que dependem desses serviços”. Ele esclarece que para que essas instituições tenham qualidade e cumpram seu papel social é preciso investir. “Em infraestrutura física adequada, acervo diversificado e atraente, profissional especializado, tecnologia e sistemas de gestão, políticas contínuas de manutenção e atualização, e sustentabilidade financeira. O investimento não é apenas estrutural, também envolve compromisso político e social para integrá-lo à comunidade”. Dantas pontua ainda que ter uma biblioteca pública em cada município significa garantir direito universal à informação, cultura e educação. “Especialmente para populações que não têm acesso fácil a livrarias ou internet de qualidade. É uma forma concreta de promover inclusão social e democratização do conhecimento”. “A biblioteca representa acesso gratuito a livros, cursos, pesquisa, leitura e convivência comunitária para muitas pessoas. Também garante o fortalecimento da memória coletiva, da cidadania e do desenvolvimento cultural nas localidades menos favorecidas”, finaliza.
Ultraprocessados são 23% dos alimentos consumidos no país

A participação de ultraprocessados na alimentação dos brasileiros mais que dobrou desde os anos 1980, passando de 10% para 23%, é o que revela uma série de artigos publicados na revista Lancet por mais de 40 cientistas, liderados por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP). Os dados mostram que esse fenômeno não é exclusivo do Brasil, o consumo de ultraprocessados aumentou ao longo dos anos em todos os 93 países pesquisados, à exceção do Reino Unido, onde se manteve estável em 50%. A nação europeia só é superada pelos Estados Unidos, onde esses produtos perfazem mais de 60% da dieta. Em 40 anos, esse consumo triplicou na Espanha e na Coreia do Norte, alcançando índices de aproximadamente 32%. Na China, a participação dos ultraprocessados nas compras familiares era de apenas 3,5% e passou para 10,4%. Já na Argentina, o aumento foi menor, ao longo do mesmo período, saindo de 19% para 29%. Os artigos destacam ainda que o crescimento foi percebido nos países de baixa, média e alta renda, sendo que os últimos já partiram de patamares altos, enquanto as nações com renda menor registraram altas mais expressivas. O pesquisador do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens) da USP e líder do trabalho, Carlos Monteiro, ressalta que esse consumo crescente está reestruturando as dietas em todo o mundo. “Essa mudança na forma como as pessoas se alimentam é impulsionada por grandes corporações globais, que obtêm lucros extraordinários priorizando produtos ultraprocessados, apoiadas por fortes estratégias de marketing e lobby político que bloqueiam políticas públicas de promoção da alimentação saudável”. A endocrinologista da Unimed BH e diretora da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, Flávia Coimbra Pontes Maia, explica que essa alta no consumo de ultraprocessados é um problema grave e preocupante. “Esses alimentos estão relacionados com uma série de problemas para a saúde, como o aumento de incidência de diabetes, de obesidade, e do colesterol alto. Isso tudo pode causar risco de doenças cardiovasculares no futuro”. Flávia afirma que esses alimentos podem impactar o organismo de diversas maneiras. “Alteram a regulação do apetite e promovem a ingestão aumentada de calorias; elevam rapidamente a glicemia e isso faz uma produção excessiva de insulina, que favorece o acúmulo de gordura visceral, elevando o risco de diabetes tipo 2; são capazes de alterar a microbiota intestinal, causando o aumento da produção de substâncias inflamatórias crônicas; entre outros problemas”. “Todas as faixas etárias podem ser afetadas pelo consumo desses alimentos ultraprocessados. No entanto, existem algumas faixas com risco maior. Por exemplo, as crianças até aos 10 anos de idade, porque o organismo ainda está em desenvolvimento. Eles vão criar um hábito alimentar inadequado e isso no futuro vai levar à obesidade, puberdade precoce, déficit de atenção, de aprendizado, doenças alérgicas e imunológicas”, alerta. Os adolescentes também figuram na faixa etária muito vulnerável, acrescenta a endocrinologista. “Eles são mais propensos a querer comer esse tipo de alimento, e é um período que estão tendo as alterações hormonais, o que pode prejudicar esse processo. Além dos jovens adultos, que costumam apresentar doenças metabólicas mais precocemente”. Alimentação saudável A especialista destaca que é possível reverter os danos causados pela ingestão excessiva de ultraprocessados. “Pare de comer esses tipos de produtos ou reduza ao máximo o consumo, tentando buscar uma dieta baseada em alimentos in natura ou minimamente processados, como verduras, legumes, frutas e grãos. Os produtos ultraprocessados são realmente o grande mal, causadores de problemas como diabetes e obesidade. Precisamos implementar também medidas que restrinjam o consumo desses alimentos”, finaliza.