Combate às facções marcou a prestação de contas na Assembleia

O combate às facções criminosas dentro e fora das unidades prisionais foi um dos principais destaques da prestação de contas apresentada pelo secretário de Estado de Justiça e Segurança Pública, Rogério Greco, durante reunião conjunta das comissões de Segurança Pública e de Prevenção e Combate ao Uso de Crack e Outras Drogas da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). A audiência integra o programa Assembleia Fiscaliza e analisou as ações desenvolvidas pela Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) entre maio de 2025 e abril de 2026. Ao apresentar os resultados da pasta, Greco ressaltou as estratégias adotadas para enfraquecer a atuação do crime organizado em Minas Gerais. Entre elas está a política de segregação de lideranças e integrantes de facções em unidades de maior segurança. Segundo dados da Sejusp, atualmente 3.085 membros de organizações criminosas estão custodiados no sistema prisional mineiro. O secretário lembrou que, em abril, a pasta anunciou a adequação de seis penitenciárias ao padrão de segurança máxima, além da definição de novas regras operacionais. “Para que a gente possa ter um combate efetivo a essas facções, é necessário ter um lugar e um tratamento diferenciado”. “O faccionado é diferente do preso comum. Se for integrante de uma facção territorialista, como é o Comando Vermelho, já começa a extorquir a população, vender gás, água e até cobrar taxa de segurança, além da droga, que é apenas mais um produto na prateleira. Então, ele precisa de um tratamento diferenciado, porque está verdadeiramente em uma organização de natureza criminosa”, completou. Outro ponto enfatizado por Greco foi a Operação Cerco Fechado, apresentada como a maior ação de enfrentamento às facções já realizada em Minas Gerais. A iniciativa reúne forças estaduais e federais de segurança, além do Ministério Público e do Poder Judiciário, com o objetivo de impedir o domínio territorial por organizações criminosas, combater o tráfico de drogas e asfixiar financeiramente esses grupos. Até 12 de junho, a operação havia mobilizado 3.806 agentes, resultando na condução de 508 pessoas, apreensão de 43 adolescentes, cumprimento de 165 mandados de prisão, apreensão de 84 armas de fogo, 1.252 munições e mais de nove toneladas de drogas. “A população pode ficar tranquila, porque Minas tem conseguido atuar com todas as forças de segurança pública de forma integrada”, destacou o secretário. “A função da Sejusp é fazer essa integração para impedir que essas pessoas se estabeleçam aqui. Essas facções são territorialistas, precisam do território. Quando o Estado pensa em projetos e ações integradas de segurança, pensa justamente em não permitir que elas permaneçam em Minas Gerais”, acrescentou. No sistema prisional, o secretário também destacou indicadores de estabilidade. Atualmente, Minas Gerais possui 90.488 pessoas sob custódia, entre presos em unidades convencionais, monitorados eletronicamente e internos de APACs. Segundo a apresentação, o Estado não registra motins desde 2019. Estrutura para servidores Durante a reunião, o presidente da Comissão de Segurança Pública, deputado estadual Sargento Rodrigues (PL), chamou atenção para as condições estruturais enfrentadas por policiais penais em diversas unidades do Estado. “É necessária uma radiografia do sistema em todo o Estado para saber onde a situação está pior e o que deve ser resolvido primeiro. Visitei locais em que os alojamentos são improvisados e as mulheres não têm um banheiro adequado”. Em resposta, Rogério Greco reconheceu a necessidade de melhorias em parte das estruturas. O secretário afirmou que as unidades que demandam reformas já estão sendo avaliadas pela pasta e que alguns casos exigem intervenções mais complexas, incluindo eventual fechamento.
Festa Junina estimula turismo e cultura no Santuário do Caraça

O Santuário do Caraça prepara-se para receber visitantes de diversas regiões do Estado e do país durante sua tradicional Festa Junina nos dias 27 e 28 de junho. O evento contará com apresentações musicais, quadrilhas, comidas típicas e atrações culturais em meio à paisagem da Serra do Caraça. Aberta ao público mediante o pagamento da taxa de day use, a programação terá shows do cantor Tupete Silva, no dia 27, e do Trio Mineiro Uai, no dia 28, além das tradicionais apresentações de quadrilha e barracas com pratos típicos da culinária mineira. Mais do que uma celebração festiva, a Festa Junina é vista pela administração do Santuário como uma forma de preservar tradições culturais e fortalecer a relação da população com um dos principais cartões-postais do Estado. Segundo o diretor-administrativo do Santuário, padre Adalberto Costa, a Festa Junina é uma das expressões mais autênticas da nossa mineiridade. “Para o Santuário do Caraça, realizar este evento é reafirmar o nosso compromisso com a salvaguarda da nossa identidade. É uma oportunidade de abrir nossos portões para que todos vivenciem a hospitalidade mineira em sua essência”, ressalta. Na avaliação dele, o evento representa também um encontro entre a religiosidade e as manifestações populares que deram origem às festividades juninas. As comemorações tradicionais do mês de junho estão historicamente ligadas à devoção a santos como Santo Antônio, São João e São Pedro. “Entendemos que a cultura é uma manifestação da alma e, portanto, está intimamente ligada à fé. A festa não subtrai a espiritualidade do local; pelo contrário, ela a humaniza e a celebra. Quando vemos as famílias reunidas, celebrando em paz e alegria, estamos vivenciando os valores cristãos de fraternidade e comunhão”. Com mais de 250 anos de história, o Santuário aposta na festa como uma ferramenta para aproximar as novas gerações das tradições culturais mineiras. Para o padre Adalberto, manter costumes populares vivos é um desafio que exige iniciativas capazes de dialogar com diferentes públicos. “Queremos que os jovens percebam que a cultura popular não é algo do passado, mas um alicerce para o futuro. O Caraça oferece esse mergulho na história que ajuda a formar cidadãos mais conscientes de seu legado cultural”. Além das atrações juninas, os visitantes poderão aproveitar a estrutura turística do complexo, que inclui a igreja neogótica, museu, biblioteca histórica, trilhas ecológicas e cachoeiras como a Cascatinha e a Cascatona. O local também é conhecido pela observação do lobo- -guará, experiência exclusiva para hóspedes. De acordo com o diretor, a festa desempenha um papel importante na divulgação do patrimônio histórico, cultural e ambiental da região e contribui para movimentar a economia local. “Muitos vêm atraídos pelo evento e acabam descobrindo a riqueza do nosso museu, a profundidade da nossa biblioteca e a exuberância da nossa reserva natural. Isso fomenta o turismo sustentável e coloca a região em evidência”. A expectativa é de grande movimentação durante os dois dias de programação. Padre Adalberto explica que a equipe do Santuário já trabalha para garantir conforto e segurança aos participantes, enquanto as vagas de hospedagem registram alta procura. “Estamos organizando o espaço para que, mesmo com um grande número de pessoas, o ambiente de paz e o respeito à natureza, que são marcas registradas do Caraça, sejam preservados”. Para quem ainda não conhece o destino, o evento surge como uma oportunidade de reunir cultura, gastronomia, espiritualidade e contato com a natureza em um único passeio. “É a chance de conhecer uma das Sete Maravilhas da Estrada Real em um clima de celebração. É um convite para renovar as energias, alimentar o espírito e se encantar com a beleza que Deus e a história nos deixaram aqui”, conclui padre Adalberto. Serviço Festa Junina do Santuário do Caraça Datas e horários:27 e 28 de junho – sábado a partir das 11h,e domingo, a partir das 12h Endereço:Estrada do Caraça, Km 9, entre Catas Altas e Santa Bárbara
Veto da União Europeia a carnes brasileiras ameaça US$ 2 bilhões

A decisão da União Europeia (UE) de suspender as importações de carne bovina e outros produtos de origem animal do Brasil colocou o agronegócio nacional em alerta. A medida, anunciada neste mês e prevista para entrar em vigor em setembro, foi justificada pelo bloco europeu com base em questionamentos sobre os mecanismos de controle e rastreabilidade do uso de antimicrobianos na pecuária brasileira. Somente em 2025, a UE importou cerca de 368 mil toneladas de proteína animal brasileira, movimentando aproximadamente US$ 1,8 bilhão. As compras de carne bovina responderam por cerca de US$ 1,06 bilhão desse total, o equivalente a quase 6% da receita obtida pelo Brasil com as exportações da proteína. O diretor-presidente da Academia Latino-Americana do Agronegócio (Alagro), Manoel Mário de Souza Barros, considera que os efeitos imediatos sobre as exportações tendem a ser limitados, mas alerta para os riscos de médio e longo prazo. “Essa decisão não vai gerar impactos comerciais imediatos, mas acende um alerta bilionário para o agronegócio brasileiro. A medida foi formalizada agora em junho e passará a valer efetivamente em setembro. Até lá, o comércio segue normalmente, enquanto o governo tenta reverter esse cenário”. Segundo Manoel Mário, o veto não estaria relacionado a problemas sanitários efetivos ou à qualidade dos produtos nacionais. “Acho que a decisão não foi motivada por contaminação ou problemas de qualidade do produto brasileiro. Trata-se muito mais de um impasse burocrático e regulatório”. “O bloco exige comprovações documentais rigorosas de que o Brasil controla o uso de medicamentos antimicrobianos. A avaliação foi de que o país não apresentou essas garantias dentro do prazo exigido”, acrescenta. Impactos Estimativas do mercado apontam que, caso a restrição seja mantida, as perdas para os exportadores brasileiros podem variar entre US$ 1,8 bilhão e US$ 2 bilhões por ano. Apesar disso, o coordenador do Núcleo de Negócios do Instituto Mauá de Tecnologia, Ricardo Balistiero, avalia que o país possui alternativas para compensar parte desses prejuízos. “Se a medida ficar restrita à UE, trata-se de um prejuízo reversível, já que existem possibilidades de abertura de outros mercados, como o chinês, que recentemente declarou o Brasil livre da febre aftosa após uma longa negociação. Isso abre espaço para um crescimento importante das exportações”. A decisão europeia tem forte componente protecionista, ressalta Balistiero. “Eles e os norte-americanos fazem muito isso. Às vezes, para proteger seus produtores locais, apontam supostas irregularidades em outros mercados. Não vejo nenhuma possibilidade de dano à imagem do Brasil por conta dessa decisão. O país sempre foi reconhecido pelo rigor de seu controle fitossanitário na produção e exportação de proteínas”. Já Manoel Mário avalia que os reflexos reputacionais podem ser significativos justamente porque a Europa é vista como referência mundial em exigências sanitárias. “Ficar de fora da lista oficial prejudica a imagem da pecuária brasileira e pode dar argumentos a concorrentes internacionais para impor barreiras semelhantes. Além disso, a medida ocorre em um momento político sensível, logo após os avanços nas negociações entre Mercosul e UE”. Caminhos para reversão O dirigente da Alagro acredita que o episódio deve acelerar investimentos em certificações e sistemas de rastreabilidade. “O agronegócio vai enfrentar uma pressão imediata para ampliar os investimentos em certificações e reconstruir essas relações comerciais. O Brasil precisará avançar em mecanismos de controle e comprovação da origem dos produtos”. Balistiero defende uma estratégia de diversificação dos destinos de exportação. “A abertura de novos mercados é o caminho. Os europeus não querem comprar? Venda para a China. O potencial de crescimento é gigantesco. Quando perceberem que outros países continuam adquirindo e ampliando negócios com o Brasil, a tendência é que essa resistência diminua”, conclui.
Suspensão de norma reacende discussão sobre proteção infantil

A aprovação, pelo Senado Federal, do Projeto de Decreto Legislativo (PDL) 3/2025 que suspende os efeitos da Resolução 258/2024 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), que estabelecia diretrizes para o atendimento dessas vítimas pela rede de proteção, incluindo orientações destinadas a órgãos de saúde, assistência social, conselhos tutelares, delegacias e ao sistema de Justiça, reacendeu o debate sobre a proteção de crianças e adolescentes vítimas de violência sexual. O texto agora segue para promulgação. Embora não altere diretamente as leis que asseguram direitos às vítimas, seus reflexos sobre a efetividade do atendimento e a atuação dos órgãos responsáveis pela proteção de menores podem ser sentidos na prática. Para analisar as consequências, o Edição do Brasil conversou com o advogado especialista em Processo Penal, William Pimentel. A suspensão altera os direitos já garantidos às crianças e adolescentes vítimas de violência sexual? Ela não altera os direitos já assegurados por lei. Permanecem em vigor a Constituição Federal, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a Lei 13.431/2017, o Decreto 9.603/2018 e as normas penais relacionadas aos crimes sexuais contra vulneráveis. O que a medida afeta são as diretrizes nacionais de atendimento. A resolução funcionava como instrumento de orientação para a rede de proteção, buscando uniformizar procedimentos entre os diversos órgãos envolvidos no acolhimento e na assistência às vítimas. Quais podem ser os impactos práticos dessa mudança? Embora os direitos não tenham sido formalmente revogados, pode haver prejuízo à sua efetividade. Em matéria de proteção à infância, não basta que o direito esteja previsto em lei. É necessário que existam fluxos claros, rápidos e seguros para garantir sua aplicação. A retirada de uma diretriz nacional pode representar um retrocesso institucional caso reduza o nível de proteção concreta já alcançado, especialmente quando não há norma equivalente para substituí-la. Como a ausência dessas diretrizes pode afetar a investigação dos crimes sexuais contra menores? No âmbito penal, a falta de orientações uniformes pode dificultar a identificação, a apuração e a responsabilização dos autores desses delitos. Sem procedimentos padronizados, aumenta o risco de demora no atendimento, perda de vestígios, falhas na produção de provas e repetição desnecessária dos relatos das vítimas. Tudo isso pode comprometer tanto a proteção da criança ou adolescente quanto a eficácia da persecução penal. Existe o risco de revitimização das crianças e adolescentes afetados? Sim. A criança ou adolescente vítima de violência sexual deve ser ouvido de forma técnica, protegida e sem repetições desnecessárias de sua narrativa. Quando não existe uma orientação comum para todos os órgãos envolvidos, aumenta a possibilidade de a vítima ter de reviver diversas vezes a experiência traumática. Isso gera sofrimento adicional e pode comprometer a qualidade das provas produzidas durante a investigação. A mudança pode gerar interpretações diferentes entre os órgãos responsáveis pelo atendimento? Sem dúvida. Uma delegacia pode adotar determinado procedimento, enquanto um conselho tutelar segue outro entendimento. O Ministério Público pode exigir providências distintas, e o Judiciário pode decidir de forma diferente conforme a comarca. Isso fragiliza a segurança jurídica e faz com que vítimas em situações semelhantes recebam tratamentos distintos dependendo da localidades. A decisão do Senado cria obstáculos ao exercício de direitos já previstos em lei? Ela não modifica formalmente o Código Penal nem a legislação de proteção à infância. No entanto, pode criar obstáculos indiretos ao exercício desses direitos. Isso ocorre quando a ausência de orientação administrativa gera demora, insegurança, exigências indevidas, recusa de atendimento ou encaminhamentos contraditórios. O maior risco não é a revogação formal das garantias legais, mas o enfraquecimento dos mecanismos que asseguram sua aplicação efetiva.
Xadrez une aprendizado e desenvolvimento emocional

Muito além de um jogo de estratégia, o xadrez vem se consolidando como uma importante ferramenta para o desenvolvimento cognitivo, emocional e social de crianças e adolescentes. Em escolas e projetos sociais, a prática tem ajudado alunos a aprimorar habilidades como concentração, memória, raciocínio lógico, autocontrole, além de contribuir para a redução da ansiedade e melhora da convivência social. No Instituto Ramacrisna, em Betim, o xadrez integra as atividades do Centro de Apoio Educacional Ramacrisna (CAER) e já apresenta impactos positivos na rotina dos estudantes. Durante as aulas, crianças e adolescentes aprendem não apenas os movimentos das peças, mas também valores ligados à disciplina, paciência e responsabilidade. Segundo a psicóloga do Instituto, Jéssica Tauane, o esporte estimula áreas importantes do cérebro relacionadas às funções cognitivas e emocionais. “O xadrez trabalha no desenvolvimento cognitivo e emocional. Ele ajuda a exercitar atenção, concentração, memória, planejamento e tomada de decisões. Como essas funções estão ligadas ao córtex pré-frontal, que também é responsável pelo controle emocional, o jogo contribui para essas questões”. Ela destaca ainda que o jogo ajuda crianças e adolescentes a lidarem melhor com frustrações e impulsos. “O xadrez ensina a ter paciência, controlar impulsos, obter autocontrole e entender que erros fazem parte do processo”. Em uma época marcada pelo excesso de telas e estímulos rápidos, atividades que exigem concentração e reflexão ganham ainda mais relevância. Para Jéssica, o xadrez funciona quase como um contraponto à dinâmica acelerada das redes sociais e vídeos curtos consumidos diariamente pelos jovens. “O excesso de telas acelera muito as crianças e adolescentes, aumentando sintomas de ansiedade. O xadrez é totalmente ao contrário disso. Durante o jogo, a criança precisa pensar antes de agir, prever consequências e criar estratégias. Isso exige paciência e ajuda muito no controle da ansiedade”, complementa. Os reflexos positivos também são percebidos dentro da sala de aula. O professor de xadrez Bruno Jacomini afirma que a prática é capaz de melhorar significativamente a concentração e o comportamento dos alunos. “Para vencer no xadrez, o enxadrista precisa desenvolver foco, respeitar regras e pensar antes de agir. Isso acaba refletindo também em outros aspectos da vida”. De acordo com o professor, cada partida estimula habilidades importantes para o desenvolvimento intelectual. “Durante o jogo, é necessário analisar o contexto, prever consequências e tomar decisões a cada lance. Isso desenvolve raciocínio lógico, planejamento estratégico e capacidade de resolver problemas”. Além dos ganhos cognitivos, o esporte também favorece a socialização, especialmente entre crianças mais tímidas. A psicóloga explica que o xadrez permite uma interação gradual, sem a pressão comum em esportes coletivos. “É um jogo individual, mas você lida com o adversário. Para crianças mais reservadas, é um espaço interessante porque existe interação social, mas de forma mais tranquila”. Jacomini reforça que o ambiente das aulas e torneios favorece a inclusão. “O xadrez aproxima alunos de diferentes perfis e incentiva respeito, convivência e cooperação. Aqueles que são tímidos conseguem ganhar mais confiança e interação social por meio do jogo”. O impacto positivo da modalidade pode acompanhar os estudantes por toda a vida. “O xadrez trabalha habilidades como planejamento, autocontrole e análise de consequências desde a infância. Isso reflete na adolescência e na vida adulta, principalmente na forma de lidar com decisões e conflitos”, conclui Jéssica.
Livro “Não existe acaso no inferno” explora as ambiguidades humanas

Em “Não existe acaso no inferno”, o escritor e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Vinícius Ferreira, utiliza o suspense policial para lançar um olhar crítico sobre as desigualdades sociais e os mecanismos de silêncio presentes no Brasil. Ambientado em Cataguases, na Zona da Mata mineira, o romance noir acompanha a investigação de um crime brutal que expõe as contradições de uma sociedade marcada pela omissão e pela corrupção. O livro pode ser adquirido na Amazon e também na Alta Books. A história começa quando três crianças são encontradas mortas em um galpão abandonado localizado em uma área nobre da cidade. Sem sinais aparentes de violência, os corpos carregam elementos perturbadores que levam o investigador Bartolomeu Franco e seu parceiro, Cenoura, a mergulharem em uma trama permeada por fanatismo religioso, abuso de poder e desigualdade social. Segundo Ferreira, o romance policial oferece a possibilidade de investigar não apenas o crime, mas também as estruturas que sustentam determinadas violências sociais. “A investigação policial mergulha a fundo na verdade. Ela consegue romper uma camada de narrativa que protege a mentira ou uma tentativa de distorção da verdade”. O livro também utiliza o silêncio como símbolo de um país que evita encarar os próprios problemas. Para o escritor, o cenário interiorano ajuda a representar uma realidade que ultrapassa as fronteiras da ficção. “O país tem dificuldade de se olhar no espelho, de enxergar uma imagem real. O silêncio faz parte dessa construção que busca não discutir os problemas”. Ao longo da narrativa, Bartolomeu enfrenta não apenas a pressão da investigação, mas também conflitos pessoais ligados à relação conturbada com o pai. O personagem questiona constantemente sua própria capacidade de julgamento, o que amplia a dimensão humana da trama. “Tomar decisões nunca é fácil, sobretudo quando você escolhe um caminho para julgar”, observa Ferreira. O autor explica que a construção dos personagens foi pensada justamente para evitar figuras simplificadas ou estereotipadas. “Eles não são totalmente bons ou totalmente maus. São pessoas que oscilam, que têm falhas, como todas as pessoas”. A inspiração inicial para o romance surgiu de uma história ouvida na infância. Ferreira conta que escutou o relato de um homem que encontrou um cadáver escondido dentro da parede de uma casa antiga durante uma demolição. O caso nunca foi solucionado. “Sempre me provocou uma tristeza muito grande saber que aquela pessoa jamais foi reconhecida”, lembra. Professor de Literatura e pesquisador das áreas de colonialismo e desigualdade cultural, o escritor acredita que parte dessas reflexões acadêmicas atravessa sua produção ficcional. “Talvez o principal ponto de contato seja pensar nas fissuras da sociedade criadas a partir da exploração da desigualdade”. Mais do que um romance investigativo, “Não existe acaso no inferno” busca provocar o leitor sobre as violências invisíveis presentes no cotidiano brasileiro. “É um livro feito com a intenção de ampliar a percepção que a gente tem da realidade, desse país tão desigual e de silêncios que matam”, conclui Ferreira.
Consórcio imobiliário cresce 37% e movimenta R$ 74 bilhões em créditos

A busca pela casa própria e a necessidade de driblar os juros elevados dos financiamentos têm levado cada vez mais brasileiros ao consórcio imobiliário. Em 2025, o segmento registrou a venda de 1,35 milhão de cotas, alta de 36% em relação ao ano anterior, movimentando R$ 283,53 bilhões, segundo a Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (ABAC). O ritmo de expansão continua em 2026. Entre janeiro e março, foram comercializadas 390,3 mil cotas, crescimento de 37,3% em comparação com o mesmo período de 2025, com R$ 74,68 bilhões em créditos negociados. Para Fabio Martini, gestor da Mhydas Planejamento Financeiro, a mudança de percepção é evidente. Segundo ele, o consórcio deixou de ser visto apenas como uma modalidade de compra parcelada e passou a integrar estratégias mais amplas de construção patrimonial. “O crescimento da procura por consórcios está diretamente ligado ao atual cenário de juros elevados no Brasil. Com o crédito imobiliário mais caro e restritivo, muitas pessoas passaram a buscar alternativas que permitam a aquisição de patrimônio de forma planejada, sem a incidência dos juros tradicionais do financiamento”. A mesma avaliação é compartilhada por Philippe Enke Mathieu, CEO da GFX Inteligência Financeira. Ele reforça novos hábitos do consumidor brasileiro, que talvez esteja passando a pensar de forma mais estratégica e não recorrer automaticamente ao financiamento. “Mas também é muito influenciado pelas altas taxas de juros. O consórcio acaba se tornando uma opção mais viável financeiramente para o consumidor”. Embora não tenha juros, o consórcio possui taxa de administração e exige planejamento. A principal diferença é que não há garantia de acesso imediato ao crédito, já que a contemplação depende de sorteios ou da oferta de lances. Segundo Martini, é justamente essa característica que exige uma visão de longo prazo. “O consórcio não é uma modalidade de crédito imediato, mas uma ferramenta de planejamento financeiro e patrimonial. Quando bem estruturado, deve ser visto como uma solução de médio e longo prazo, e não como uma promessa de acesso instantâneo ao crédito”. Para quem deseja utilizar a modalidade para comprar a casa própria, é recomendável avaliar cuidadosamente o orçamento familiar, o prazo do grupo, as condições da administradora e a possibilidade de ofertar lances. Também é fundamental analisar se o valor da carta de crédito é compatível com o imóvel desejado e se haverá capacidade financeira para manter os pagamentos durante toda a vigência do contrato. Mathieu ressalta que a decisão deve ser tomada dentro de uma estratégia financeira mais ampla. “A conquista da casa própria não começa na assinatura do contrato, e sim no planejamento. O consórcio pode ser uma excelente ferramenta, mas a decisão certa é aquela que faz sentido dentro da vida financeira da pessoa e da família”. “Se houver desistência ou se o participante não conseguir manter os pagamentos em dia, o consórcio acaba se tornando uma experiência financeiramente desfavorável, porque pode gerar perdas ao consumidor”, acrescenta. Vantagem após a contemplação Outro atrativo é o poder de negociação obtido após a contemplação. Com a carta de crédito em mãos, o comprador pode negociar como se estivesse pagando à vista, o que aumenta as chances de obter descontos e condições mais vantajosas na aquisição do imóvel. Além de realizar o sonho da casa própria, o consórcio vem sendo utilizado por quem busca ampliar o patrimônio por meio da compra de imóveis para valorização ou geração de renda. “Quem utiliza o consórcio de forma estratégica costuma unir dois objetivos importantes: realizar o sonho da casa própria de maneira mais econômica do que em um financiamento tradicional e, ao mesmo tempo, construir patrimônio de forma sustentável”, conclui Martini.
Lesões no futebol elevam a busca por tratamentos

Às vésperas da Copa do Mundo, o futebol internacional voltou a conviver com um velho problema: as lesões que afastam atletas de grandes competições. As situações que aconteceram com Rodrygo, Éder Militão, Jack Grealish e Hugo Ekitike reacenderam o debate sobre a importância da medicina esportiva, especialmente dos exames de imagem e das terapias modernas utilizadas na recuperação física de atletas profissionais e amadores. A rotina intensa do calendário esportivo, marcada por jogos frequentes e pouco tempo de recuperação, tem elevado os índices de problemas musculares e articulares. Segundo o médico radiologista Harley De Nicola, as lesões mais comuns no futebol de alto rendimento atingem principalmente os membros inferiores. “As lesões musculares, ligamentares e tendíneas continuam sendo as mais frequentes no futebol porque envolvem estruturas submetidas a explosão, aceleração, mudança brusca de direção e contato físico constante”. Nesse cenário, os exames de imagem passaram a ter um papel fundamental não apenas no diagnóstico, mas também no acompanhamento da recuperação. Técnicas como ressonância magnética, ultrassom musculoesquelético e tomografia computadorizada permitem avaliar a gravidade das lesões, a presença de inflamações e a evolução do tratamento. De acordo com o radiologista, o monitoramento contínuo reduz o risco de retorno precoce dos atletas às atividades. “Nem sempre a melhora clínica significa cicatrização completa da estrutura lesionada. O acompanhamento por imagem auxilia na tomada de decisão e reduz o risco de recidiva”. Estudos nacionais e internacionais reforçam esse panorama. Pesquisa conduzida pela University of South Wales apontou que as regiões mais lesionadas em jogadores profissionais são a coxa, o tornozelo e o joelho. Já um levantamento realizado pela Unifesp também identificou predominância de lesões nos membros inferiores, especialmente musculares. Tratamentos regenerativos Além do diagnóstico por imagem, a medicina esportiva vem incorporando tratamentos regenerativos avançados para acelerar a recuperação e melhorar a condição funcional dos atletas. Um dos exemplos recentes envolve Neymar, convocado para defender a Seleção Brasileira na Copa do Mundo após meses de recuperação física. Segundo o fisioterapeuta Alexandre Alcaide, terapias como ondas de choque e PRP, técnica que utiliza plasma rico em plaquetas, contribuíram diretamente para a evolução clínica do jogador. “Esse conjunto de exercícios aliado aos recursos regenerativos avançados faz com que o tecido consiga se recuperar em plenitude. Muitas vezes, não se recupera totalmente, mas consegue entregar 100% da qualidade funcional disponível naquele momento”. Os procedimentos foram utilizados principalmente na recuperação do menisco lesionado e da sutura realizada no joelho do atleta. Conforme o especialista, as técnicas favorecem a cicatrização, ajudam no controle da dor e permitem retorno mais seguro às atividades esportivas. Os benefícios, porém, não se restringem ao esporte profissional. Alcaide destaca que os métodos também são aplicados em casos de artrose, lesões musculares, problemas no ombro e dores articulares em pacientes comuns. Atletas amadores Harley De Nicola alerta que praticantes amadores também precisam de cuidados médicos e acompanhamento adequado. Ele explica que a tentativa de reproduzir a intensidade do esporte de alto rendimento sem preparação física suficiente aumenta o risco de lesões graves. “Existe uma tendência de reprodução da intensidade do esporte de elite sem o mesmo preparo físico, recuperação ou acompanhamento médico”, finaliza.
Novas diretrizes reforçam tratamento da fibromialgia no país

A Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR) publicou novas diretrizes para o tratamento da fibromialgia no Brasil, atualizando recomendações que estavam em vigor desde 2010. O documento traz evidências científicas recentes e reforça a importância do acompanhamento contínuo, do uso racional de medicamentos e das abordagens não farmacológicas para o cuidado aos pacientes. A fibromialgia afeta entre 2,5% e 3% da população brasileira e é caracterizada por dor crônica generalizada, fadiga, distúrbios do sono, alterações cognitivas e impactos significativos na qualidade de vida. Segundo a SBR, o manejo da doença exige uma atuação interdisciplinar, envolvendo médicos, fisioterapeutas, psicólogos e educadores físicos. O presidente da SBR, José Eduardo Martinez, explica que a atualização era necessária diante do avanço das pesquisas sobre a síndrome. “As últimas recomendações já eram antigas e muita literatura internacional e nacional foi publicada desde que o nosso consenso foi apresentado. Havia a necessidade dessa atualização”. De acordo com o especialista, embora não tenham ocorrido mudanças radicais no tratamento, as novas diretrizes reforçam medidas consideradas fundamentais. “Educação em saúde e exercícios físicos são os pilares do tratamento. Estudo após estudo aponta que as abordagens não farmacológicas são as mais eficazes”. Entre as recomendações com maior nível de evidência científica estão programas de exercícios aeróbicos e fortalecimento muscular, terapias psicológicas, como a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), além de práticas complementares como acupuntura e Tai Chi Chuan. As diretrizes também passam a incluir com mais força técnicas de estimulação transcraniana para controle da dor. “Nós temos uma literatura suficiente para recomendar modalidades que combinam exercício físico e também combate ao estresse, como o Tai Chi Chuan, que vem aparecendo de forma evidente nos estudos”, explicou Martinez. Outro destaque do documento é a recomendação do uso de instrumentos padronizados para monitorar a evolução clínica dos pacientes, como o Revised Fibromyalgia Impact Questionnaire (FIQR) e o Fibromyalgia Survey Questionnaire (FSQ). Segundo analisa o presidente da SBR, essas ferramentas ajudam a fazer uma avaliação se o paciente está melhorando, piorando ou permanecendo estável ao longo de todo o tratamento. Remédios As novas diretrizes também fazem alertas importantes sobre medicamentos frequentemente utilizados sem respaldo científico. Conforme Martinez, o documento não recomenda o uso rotineiro de opioides, anti-inflamatórios, benzodiazepínicos e canabinoides para o tratamento da fibromialgia. “Os opioides não só não têm eficácia como trazem efeitos colaterais significativos, como risco de dependência, problemas psiquiátricos e risco de quedas em idosos”, ressalta. Sobre os canabinoides, o médico afirma que ainda faltam evidências conclusivas. “Os estudos científicos são conflitantes. Alguns mostram benefício, outros não. Ainda não há dados para que se recomende o uso dos canabinoides”. A SBR também tenta combater informações incorretas sobre a doença. O presidente da entidade reforça que a fibromialgia não é uma doença autoimune nem puramente emocional. “Ela pode ser influenciada por questões emocionais, mas não é uma doença inflamatória”, conclui.
Intenção de consumo das famílias tem nova alta em maio

A intenção de consumo das famílias brasileiras atingiu em maio o maior patamar registrado em 11 anos. Segundo levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o Índice de Intenção de Consumo das Famílias (ICF) alcançou 106,6 pontos, após avançar 1,6% em relação a abril e acumular a sétima alta mensal consecutiva. O resultado é o mais elevado desde março de 2015. A pesquisa mostra que a melhora foi impulsionada pela maior disposição das famílias em adquirir bens duráveis, como eletrodomésticos e eletrônicos. Na comparação anual, esse indicador disparou 18,5%, influenciado pela desaceleração da inflação desses produtos e pela percepção de estabilidade no mercado de trabalho. Na avaliação da economista da CNC, Catarina Carneiro, o ambiente econômico mais favorável ajudou a fortalecer a confiança do consumidor. “A principal influência deste mês foi o comportamento altamente favorável do mercado de trabalho, que gerou um avanço generalizado na confiança das famílias e elevou simultaneamente todos os sete componentes que integram a nossa pesquisa”. Ela destaca ainda que a desaceleração da inflação sobre os bens duráveis ampliou o poder de compra da população. “Com os preços desacelerando, a renda do consumidor passa a poder adquirir mais. Esses bens tornam-se cada vez mais acessíveis para a população”. De acordo com a CNC, enquanto o IPCA geral acumulou alta de 4,39% em 12 meses até abril, os bens duráveis tiveram inflação de apenas 0,68% no mesmo período. Em abril, o IPCA subiu 0,67%, contra apenas 0,45% dos produtos duráveis. Juros ainda preocupam Apesar do cenário positivo, a entidade alerta que os juros elevados continuam limitando uma expansão ainda mais consistente do consumo. O presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, afirma que a taxa de juros segue pressionando a atividade econômica, drenando a capacidade de venda das empresas e sufocando a retomada do crescimento. “Não podemos ignorar que a Selic permanece em patamar excessivamente elevado, atuando como freio na economia ao encarecer o crédito e limitar o poder de consumo imediato das famílias”. A cautela também aparece no comportamento das famílias em relação ao futuro profissional. Embora o indicador de emprego atual tenha alcançado o maior patamar em 12 meses, a perspectiva profissional registrou retração anual de 5,9%. Conforme Catarina, o consumidor ainda demonstra uma preocupação diante do cenário econômico de médio prazo. “A estabilidade e a segurança no emprego atual são os verdadeiros pilares de sustentação de toda a engrenagem do consumo. Quando o trabalhador sente que sua vaga está resguardada, ganha a previsibilidade financeira para assumir compromissos monetários e consumir”. Ela pondera que os sinais recentes de aumento da taxa de desocupação ajudam a explicar parte da cautela dos brasileiros. “Tanto que o índice ‘Perspectiva Profissional’ registrou retração anual de 5,9%, puxado diretamente pelo fato de a taxa de desocupação geral ter apresentado ligeiros incrementos ao longo dos últimos três meses”. Outro destaque do levantamento foi o desempenho das famílias com renda de até 10 salários mínimos, que lideraram o avanço da intenção de consumo, com crescimento anual de 3,9%. Esse grupo foi beneficiado tanto pela melhora do mercado de trabalho quanto pela inflação mais baixa percebida pelas famílias de menor renda. “Com a melhora no emprego e nos preços, o poder de compra real desse público cresceu em maior proporção, transformando essas famílias nas grandes propulsoras da recuperação do consumo atual”, conclui a economista.