Consumo de alimentos e bebidas pode bater R$ 1,1 trilhão até o final do ano

Neste ano, as famílias brasileiras devem desembolsar aproximadamente R$ 1,1 trilhão com gastos em alimentação e bebidas, tanto dentro quanto fora de casa, um aumento de 11,3% em comparação ao ano anterior. Os dados são da pesquisa IPC Maps, que há mais de três décadas analisa o potencial de consumo no país com base em informações oficiais. De acordo com o levantamento, os gastos com alimentos e bebidas consumidos em casa devem ultrapassar R$ 780 bilhões. Já as despesas com refeições feitas fora do lar estão estimadas em R$ 350,4 bilhões. Os cálculos consideram tanto os gastos com alimentos e bebidas consumidos em casa, como produtos in natura, industrializados, preparados e itens adquiridos em feiras e varejões, além de bebidas como sucos artificiais, cafés (moído e solúvel), chás, refrigerantes, cervejas, vinhos, destilados e outras bebidas alcoólicas, quanto os consumidos fora do lar, incluindo refeições, lanches, cafés da manhã, caldos, refrigerantes, cafés expressos, cervejas, chopes e similares. Entre os estados com maior volume de consumo, São Paulo lidera com R$ 284,3 bilhões destinados à alimentação. Em seguida, aparecem Minas Gerais, com R$ 123,8 bilhões; o Rio de Janeiro, com R$ 95,5 bilhões; e o Rio Grande do Sul, que ocupa a quarta posição, com R$ 71,8 bilhões em gastos das famílias nesse setor. Segundo o economista Rafael Gomes, o aumento reflete uma normalização dos hábitos de convivência e lazer. “Com a redução do desemprego e o avanço da renda média, muitos brasileiros voltaram a frequentar bares, restaurantes e lanchonetes. Isso gera uma pressão natural por mais gastos fora de casa, especialmente nos grandes centros urbanos”. O setor de alimentação e bebidas é um dos mais relevantes para a economia brasileira. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (ABIA), representa cerca de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) do país e é responsável por mais de 2 milhões de empregos formais diretos. Para Gomes, o crescimento nos gastos com alimentação deve ser interpretado como uma boa notícia para a economia, desde que acompanhado por políticas públicas que assegurem o acesso à alimentação de qualidade para todos. “O aumento nos gastos mostra que o consumo está ativo e que há movimento na cadeia produtiva, desde o campo até os pontos de venda. O desafio está em equilibrar isso com o combate à insegurança alimentar, que ainda atinge milhões de brasileiros”. O consultor de varejo e especialista em consumo, Eduardo Naves, aponta que há uma busca crescente por alimentos mais saudáveis, o que também pesa no orçamento. “Muitas famílias estão trocando alimentos ultraprocessados por itens mais naturais e orgânicos. Embora seja um movimento positivo do ponto de vista nutricional, essa escolha costuma ter um custo mais elevado”. Além disso, Naves destaca que fatores climáticos, como as recentes quebras de safra em algumas regiões do país, impactam diretamente o preço de produtos como arroz, feijão, hortaliças e frutas, pressionando o orçamento doméstico. “Outro fator relevante é a expansão do acesso a canais digitais de compra, como aplicativos de entrega, supermercados on-line e marketplaces especializados em alimentação. Com a digitalização do varejo alimentar, mais consumidores têm optado por soluções rápidas e convenientes para abastecer suas casas ou realizar refeições, o que também tem contribuído para o crescimento do setor como um todo”. A expectativa é de que o setor continue crescendo nos próximos anos, ainda que em ritmo mais moderado. O comportamento do consumidor deve seguir em transformação, com mais ênfase na qualidade, na origem dos produtos e na conveniência, especialmente nas grandes cidades. “Veremos cada vez mais o consumidor disposto a pagar mais por praticidade, sabor e saúde. O mercado de alimentação fora do lar está se adaptando rapidamente a essas novas exigências”, conclui Naves.
Trabalho infantil registra queda de 21,4% no país em oito anos

Entre 2016 e 2024, o Brasil apresentou uma redução de 21,4% no número de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil. O total caiu de 2,1 milhões para cerca de 1,65 milhão de pessoas entre 5 e 17 anos. Em termos proporcionais, a taxa passou de 5,2% para 4,3% nesse período, considerando a diminuição da população nessa faixa etária de 40,6 milhões para 37,9 milhões. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua. No entanto, a desigualdade racial ainda é um fator marcante nesse cenário. Crianças e adolescentes pretos ou pardos, que representam 59,7% da população de 5 a 17 anos, concentram 66,6% dos casos de trabalho infantil. Já os brancos, que compõem 39,4% dessa faixa etária, estão presentes em 32,8% dos registros. Esses números evidenciam as desigualdades estruturais que ainda persistem no país. Para discutir o assunto, o Edição do Brasil conversou com Vilson Mayrink, presidente da Fundação CDL-BH, entidade voltada para a promoção dos direitos dos jovens. Quais os principais fatores que ainda mantêm esse número alto? Os motivos estão ligados à desigualdade social, à baixa escolaridade das famílias e a uma cultura que ainda normaliza o trabalho precoce. Muitas vezes, por necessidade ou falta de informação, famílias em situação de vulnerabilidade abrem mão da infância dos filhos. No entanto, essa fase deve ser vivida com estudo, brincadeiras e desenvolvimento adequado. Iniciativas como a Lei da Aprendizagem são fundamentais, pois permitem o ingresso protegido dos jovens no mundo do trabalho, com direitos garantidos e jornada compatível com os estudos. De que forma o trabalho infantil impacta o desenvolvimento físico, psicológico e educacional das crianças? Fisicamente, há maior exposição a esforços e riscos de acidentes. Psicologicamente, o peso de responsabilidades adultas pode gerar ansiedade e perda da infância. Na educação, o desempenho diminui contribuindo para o desinteresse e posteriormente, evasão escolar. Como é o processo de identificação e encaminhamento de casos de trabalho infantil dentro da rede de proteção social? A identificação de casos de trabalho infantil pode ocorrer por meio de escolas, unidades de saúde, Cras, Creas, Conselhos Tutelares e denúncias da comunidade, pelo Disque 100. O Ministério do Trabalho e Emprego, por meio da Inspeção do Trabalho, atua na fiscalização, no afastamento imediato de crianças e adolescentes em situação irregular e no encaminhamento à rede de proteção. A Fundação CDL-BH contribui com esse trabalho em rede através do Fórum de Erradicação e Combate ao Trabalho Infantil, promovendo ações de proteção à infância e adolescência. Também recebe adolescentes encaminhados para o Programa Educação e Trabalho, que, via Lei da Aprendizagem, garante inserção segura e educativa no mercado de trabalho. Quais são os desafios que a rede de assistência social enfrenta para combater de forma mais efetiva o trabalho infantil? Um dos principais desafios da rede de assistência social é atender à alta demanda de famílias em situação de pobreza com recursos ainda escassos. A falta de integração efetiva entre os órgãos da rede também compromete o acompanhamento e a proteção integral das crianças e adolescentes. A desigualdade estrutural agrava esse cenário, empurrando menores para situações de vulnerabilidade, muitas vezes naturalizadas por uma visão cultural equivocada sobre o valor do trabalho. Embora o trabalho possa ser digno, ele deve ocorrer na fase apropriada da vida, como oportunidade de aprendizado e autonomia, sem comprometer o desenvolvimento infantil. Que caminhos você acredita serem essenciais para que o Brasil consiga erradicar o trabalho infantil? A erradicação do trabalho infantil só será possível por meio de uma ação conjunta entre governo, empresas, terceiro setor e sociedade. É essencial fortalecer ainda mais as políticas públicas, com fiscalização eficiente, geração de emprego e renda para as famílias em situação de vulnerabilidade e uma educação de qualidade que mantenha crianças e adolescentes engajados. Outro caminho fundamental é transformar a cultura que ainda enxerga o trabalho precoce como algo positivo para aqueles que são menores de idade. O trabalho pode, sim, dignificar os cidadãos, mas apenas quando acontece na fase certa da vida, como oportunidade de aprendizado e autonomia para o jovem, sem comprometer a infância.
Diploma de ensino superior pode aumentar salário em até 148%

No Brasil, obter um diploma de nível superior pode representar uma grande vantagem: além de ampliar as oportunidades de emprego, também contribui para salários significativamente mais altos, mais que o dobro dos rendimentos daqueles que concluíram apenas o ensino médio. Apesar disso, cerca de 25% dos alunos desistem da faculdade após o primeiro ano de curso. Esses dados fazem parte do relatório Education at a Glance (EaG) 2025, elaborado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), entidade que reúne as maiores economias do planeta. A edição deste ano do relatório tem como tema central o ensino superior. Segundo os dados, brasileiros entre 25 e 64 anos com diploma universitário recebem, em média, 148% a mais do que aqueles com apenas o ensino médio. Essa diferença salarial supera a média registrada nos países da OCDE, onde o ganho adicional para quem tem ensino superior é de 54%. O Brasil está entre os países com maior retorno salarial para quem conclui o ensino superior, ficando atrás apenas da Colômbia, onde o diploma universitário representa, em média, um aumento de 150% nos rendimentos, e da África do Sul, onde essa vantagem chega a 251%. Apesar disso, o acesso ao ensino superior ainda é limitado. Segundo dados de 2024 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apenas 20,5% da população brasileira com 25 anos ou mais completou esse nível de escolaridade. O relatório também destaca uma preocupação significativa: no Brasil, cerca de 24% dos jovens entre 18 e 24 anos não estão empregados nem em educação ou treinamento, grupo conhecido pela sigla em inglês NEET. Esse índice supera a média dos países da OCDE, que é de 14%. A desigualdade de gênero também é evidente, com 29% das mulheres e 19% dos homens nessa faixa etária fora do mercado de trabalho e da educação em 2024. A professora e socióloga Clara Moreira aponta que a desigualdade social no Brasil opera como um filtro seletivo silencioso. “Quem nasce em famílias de baixa renda, em áreas rurais ou periferias urbanas, quase sempre enfrenta escolas com estrutura precária, professores mal remunerados, disciplinas com defasagem, falta de material didático adequado, transporte escolar caro ou inacessível, além de pressão para trabalhar desde cedo para ajudar no sustento da casa”. Ela afirma que os fatores citados se acumulam. “Quando chega o momento do ensino médio, muitos jovens já perderam aulas, ficaram atrasados, tiveram repetência ou até abandono. Esses déficits se refletem no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), nos vestibulares e até na percepção pessoal de que ‘não sou capaz’ ou ‘não tenho condições’. A consequência é que o ensino superior permanece privilégio de quem já teve vantagens no início”. Estudantes das camadas mais favorecidas têm acesso a cursos mais prestigiados, melhores redes de contato, estágios de qualidade, idiomas, preparação privada. Aqueles que têm apenas o ensino médio, normalmente ocupam espaços onde a competitividade é menor, salários menores, menos estabilidade. Isso gera um círculo vicioso: poucas pessoas de origem pobre chegam ao topo, há pouca mobilidade social, e a desigualdade de renda se perpetua. A psicóloga educacional Mariana Costa explica que além do salário, há a questão da empregabilidade. “Quem conclui o ensino superior tem muito mais chances de conseguir emprego formal, com benefícios, com jornadas decentes, com possibilidade de crescimento. Quem fica com ensino médio, muitas vezes entra em empregos informais, com menor proteção social, jornada exaustiva, ou mesmo desemprego mais frequente. Porque em crises, quem não tem qualificações superiores é o primeiro a sofrer”. Mariana pondera ainda sobre as disparidades internas no ensino superior. “A evasão de 25% no primeiro ano mostra que muitos ingressantes enfrentam choque de realidade, tanto na qualidade do ensino como na adaptação cultural. Muitos alunos têm que manter empregos para se sustentar, o que reduz o tempo para estudar, ou dependem de transporte público precário, moradia distante e falta de alimentação adequada”. Para ampliar o acesso ao ensino superior e garantir a permanência dos estudantes, as especialistas defendem ações como o fortalecimento da educação básica, especialmente nas regiões mais pobres, com investimento em infraestrutura, formação docente e reforço escolar. Também destacam a importância de bolsas, auxílios e assistência estudantil, expansão de vagas públicas de qualidade, políticas de inclusão como cotas e pré-vestibulares comunitários, além de orientação vocacional e mentoria. Outro ponto crucial é o financiamento público sustentável, com regulação rigorosa do setor privado, e o uso responsável da tecnologia e da educação híbrida, sempre com suporte ao aluno e garantia de qualidade.
Mais de 1 bilhão de pessoas vivem com transtornos mentais

De acordo dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 1 bilhão de pessoas vivem com transtornos mentais. Distúrbios de saúde mental, como ansiedade e depressão, estão entre os mais comuns em diferentes regiões do mundo, atingindo indivíduos de todas as idades e classes sociais. Essas condições são hoje a segunda principal causa de incapacidade prolongada, impactando negativamente a qualidade de vida. Além disso, elevam os gastos com cuidados de saúde para pacientes e familiares, e geram prejuízos econômicos significativos em nível global. O suicídio permanece como uma das consequências mais trágicas dos transtornos mentais, sendo responsável por cerca de 727 mil mortes apenas em 2021. Trata-se de uma das principais causas de óbito entre jovens, independentemente do país ou da condição socioeconômica. Embora existam iniciativas globais para enfrentar o problema, os avanços ainda são insuficientes para alcançar a meta estabelecida pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, que prevê a redução em um terço das taxas de suicídio até 2030. No ritmo atual, estima-se que a diminuição chegue a apenas 12% até o fim da década. Além disso, os investimentos na área seguem estagnados. Segundo o relatório Mental Health Atlas 2024, os governos continuam destinando, em média, apenas 2% dos orçamentos nacionais à saúde mental, um percentual que permanece inalterado desde 2017. Além disso, estima-se que apenas 9% das pessoas com depressão no mundo recebam um tratamento minimamente adequado. Para muitos especialistas, o principal obstáculo para o avanço da saúde mental no mundo é a persistência do estigma. “Ainda é cercada de preconceitos, o que impede tanto a população quanto os governos de tratarem o tema com a seriedade exigida. Durante décadas, a sociedade associou transtornos mentais à fraqueza de caráter ou à loucura, criando uma barreira para o diagnóstico precoce e o tratamento adequado”, afirma a psicóloga Lara Fagundes. “Isso faz com que muitas pessoas demorem a procurar ajuda, ou sequer reconheçam que estão enfrentando um problema de saúde mental. Além disso, a falta de informação e a baixa priorização da saúde mental nas políticas públicas impedem avanços significativos na área”, completa. Ela reforça que é preciso romper com a ideia de que a saúde mental é uma questão individual. “Transtornos mentais não escolhem classe social, idade ou país. Eles impactam a produtividade, aumentam os custos com saúde, afetam o desempenho escolar e contribuem para o agravamento de outras doenças crônicas. Quando uma pessoa não tem acesso ao tratamento, o prejuízo não é só dela, mas de toda a sociedade”. O psiquiatra Marcelo Tavares defende que o primeiro passo para transformar esse cenário é integrar a saúde mental ao sistema de saúde como um todo, em vez de tratá-la como algo isolado. “Não basta ter um hospital psiquiátrico na capital. É preciso garantir que unidades básicas de saúde tenham profissionais capacitados para identificar e tratar transtornos mentais comuns, como ansiedade e depressão. A saúde mental precisa estar na atenção primária”. Os especialistas concordam que é possível reverter o atual cenário de negligência, mas isso exige ações coordenadas em diversas frentes. Entre as medidas apontadas como prioritárias estão o aumento dos investimentos públicos na área, a formação e valorização de profissionais especializados, campanhas permanentes de conscientização e combate ao estigma, e a ampliação da rede de atendimento psicossocial. “A mudança passa pela vontade política, hoje, com a tecnologia e os conhecimentos que temos, já é possível oferecer cuidados eficazes com baixo custo, especialmente para os casos mais comuns. Mas é necessário que os gestores públicos entendam que a saúde mental deve ser tratada como prioridade, não como um luxo”, explica Tavares. A psicóloga também destaca a importância da escola e do ambiente de trabalho como espaços de cuidado e prevenção. “A saúde mental deve ser promovida desde cedo, com programas que abordem habilidades socioemocionais, convivência, autoestima e manejo do estresse. Isso reduz a incidência de transtornos e melhora a qualidade de vida”.
Brasileiros vão gastar mais de R$ 100 bilhões em viagens este ano

Desde o fim da pandemia de COVID-19, o turismo dentro do Brasil tem registrado crescimento significativo. Neste ano, a expectativa é que o setor movimente cerca de R$ 100,3 bilhões, o que representa um aumento de 12,1% em relação ao ano anterior, segundo dados da pesquisa IPC Maps. Os cálculos consideram diversos tipos de gastos relacionados às viagens, como alimentação, hospedagem, passagens aéreas e rodoviárias, combustível e pacotes turísticos. São Paulo lidera a lista dos estados com maior movimentação financeira no setor, concentrando R$ 31,2 bilhões em despesas. Na sequência aparecem Minas Gerais (R$ 13,8 bilhões), Rio de Janeiro (R$ 7,8 bilhões) e Paraná (R$ 6,7 bilhões). “O turismo nacional vive um momento de consolidação e redescoberta, além do desejo por viagens, há uma valorização maior dos destinos nacionais, impulsionada por questões econômicas, como o custo elevado das viagens internacionais, e também pela melhoria na infraestrutura de transporte em algumas regiões do país”, analisa o agente de viagens Vicente Brandão. Esse ramo tem um papel estratégico no desenvolvimento econômico e social do Brasil, afirma Brandão. “Segundo o Ministério do Turismo, o setor responde por cerca de 8% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, direta e indiretamente, e emprega milhões de pessoas em cadeias que vão desde o transporte até o artesanato local”. “A beleza do turismo é justamente sua capacidade de gerar renda de forma descentralizada. Um hotel em uma cidade pequena contrata funcionários, compra alimentos de produtores locais, movimenta guias turísticos, atrai investimentos em infraestrutura. O impacto é profundo e diversificado”, destaca. Para Brandão, o crescimento da movimentação turística é puxado especialmente pelas capitais e pelos grandes centros urbanos, mas também há avanço em destinos do interior, principalmente aqueles com atrativos naturais ou culturais. “Os números mostram que o brasileiro está mais disposto a investir em experiências, em lazer e em conhecer o próprio país. Mas para que essa curva continue ascendente, é fundamental haver políticas públicas coordenadas, incentivos à formalização e investimentos em qualificação profissional”. Por outro lado, o ritmo de crescimento na abertura de empresas do setor tem sido mais moderado. Conforme dados do IPC Maps, desde 2024 foram criadas 3.072 novas unidades no país, o que representa uma elevação de 3,9%, somando atualmente 81.503 estabelecimentos ativos. Esse avanço é impulsionado, em grande parte, pelas Empresas de Pequeno Porte (EPP), que responderam por 1.051 novos registros no período, um aumento de 17,3% dentro do panorama empresarial nacional. O crescimento mais moderado reflete tanto a cautela dos empresários frente à instabilidade econômica quanto os desafios estruturais enfrentados por empreendedores do setor. “O turismo é uma área altamente sensível a flutuações econômicas e a fatores externos, como câmbio, segurança pública e logística, mesmo com a demanda aquecida, muitos empreendedores ainda enfrentam dificuldade para acessar crédito, regularizar suas atividades ou obter mão de obra qualificada”, ressalta a economista Lúcia Bernardes. Ela avalia que o papel do Estado é fundamental para estimular a expansão sustentável do setor. “Programas de microcrédito, capacitação, desburocratização e estímulo à formalização podem fazer toda a diferença, principalmente para pequenos negócios em regiões menos favorecidas. É essencial investir na promoção dos destinos nacionais”. Lúcia explica que para que o turismo continue em expansão, é necessário investimentos em infraestrutura, com melhorias em estradas, aeroportos e conectividade, especialmente em regiões de difícil acesso. “Também é fundamental qualificar os profissionais do setor, fortalecer a promoção dos destinos nacionais, adotar práticas sustentáveis e garantir segurança e regulamentação adequada para proteger viajantes e prestadores de serviço”.
32,4% dos brasileiros não se interessam pela seleção

Uma nova pesquisa realizada pelo Ipsos-Ipec/O Globo aponta que 32,4% dos brasileiros não demonstram interesse pela seleção brasileira de futebol. O levantamento, feito entre os dias 5 e 9 de junho de 2025, ouviu 2 mil pessoas em 132 cidades do país. Os participantes foram convidados a avaliar seu nível de entusiasmo pela seleção em uma escala de 0 a 10. Apenas 15,9% atribuíram notas elevadas (9 ou 10), enquanto 48,5% deram notas baixas (entre 0 e 4). A nota 0 foi a mais frequentemente escolhida. O estudo revelou que os maiores entusiastas da seleção brasileira são, em sua maioria, homens jovens, com baixa escolaridade, moradores de cidades pequenas do interior, principalmente nas regiões Nordeste, Norte e Centro-Oeste, e com renda de até um salário mínimo. Entre as mulheres, 14,1% se consideram fãs fervorosas da seleção, número inferior ao dos homens, que alcançou 17,7%. A pesquisa ainda indicou que 33,3% dos participantes deram notas 9 ou 10 quando avaliados em relação ao seu nível de paixão pelos clubes de futebol. Os resultados mostram uma tendência de desinteresse crescente, que já vinha sendo observada em Copas anteriores, mas agora se consolida com mais força. Para a socióloga Mariana Tavares, o Brasil, conhecido historicamente como “o país do futebol”, parece estar se distanciando emocionalmente da seleção que por décadas foi motivo de orgulho nacional. “O fenômeno levanta uma série de questionamentos sobre os motivos desse afastamento e sobre o que poderia ser feito para resgatar o vínculo entre a população e a seleção”. Na avaliação da socióloga, o desinteresse é reflexo de um desgaste emocional acumulado. “A seleção brasileira deixou de representar o povo de forma autêntica. Muitos torcedores não se veem mais refletidos na postura, nos discursos e até no estilo de jogo do time. A elitização do futebol, a perda de identidade e a sensação de distanciamento entre os jogadores e o torcedor comum contribuem diretamente para essa crise de afeto”. Além da falta de identificação, há também um cansaço com os resultados recentes. Desde a vitória na Copa América de 2019, o Brasil acumula eliminações frustrantes em Copas do Mundo e torneios continentais. A derrota para a Croácia nas quartas de final da Copa de 2022, somada à ausência de títulos expressivos em anos seguintes, abalou ainda mais a confiança do torcedor. “Quando a seleção não entrega resultados nem oferece um futebol bonito de se ver, é natural que o encantamento do público vá diminuindo”, analisa o antropólogo do esporte, Rafael Muniz. Outro fator relevante é a concorrência direta com os clubes, a pesquisa revelou um percentual mais alto que o de fanatismo pela seleção. Para Muniz isso reflete uma mudança no eixo emocional do torcedor. “Com a globalização e o fortalecimento das ligas nacionais e internacionais, os clubes passaram a ocupar um espaço muito maior na vida do torcedor. As pessoas acompanham seus times com frequência semanal, se identificam com os jogadores, vivem o cotidiano do clube. Já a seleção aparece de forma pontual, desconectada dessa rotina”. Mas há caminhos possíveis para resgatar a paixão do torcedor. Para os especialistas, a solução passa por uma série de mudanças, tanto dentro quanto fora de campo. Uma delas é o fortalecimento da identidade cultural da seleção. “É fundamental que a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) pare de tratar a seleção como uma marca internacional e passe a enxergá-la como patrimônio do povo brasileiro. Investir em projetos de base, promover a diversidade regional e escutar o torcedor são passos essenciais para reconstruir essa ponte”, defende Mariana. Outro ponto seria uma maior transparência e profissionalismo na gestão do futebol brasileiro. “Escândalos envolvendo dirigentes da CBF, decisões controversas na convocação de jogadores e a sensação de que há interesses comerciais por trás de muitas escolhas minam a confiança do torcedor. As pessoas querem acreditar que a seleção representa o melhor que temos, não um jogo de interesses”, diz Muniz. Por fim, o retorno a um futebol mais ofensivo e criativo, com mais “ginga”, também é visto como uma forma de reconquistar o público. “O brasileiro sente saudade do futebol arte, do improviso, da alegria em campo, resgatar isso pode ser um primeiro passo para reacender o amor pela seleção”, conclui.
Setor de mercadinhos tem abertura de 29 mil novos negócios

Pequenos comércios alimentares, como minimercados, mercearias, armazéns e mercadinhos, estão em rápida expansão no Brasil. Apenas nos primeiros seis meses deste ano, mais de 29 mil novos CNPJs foram abertos nesse segmento, conforme dados da Receita Federal analisados pelo Sebrae. Isso representa, em média, 162 novas empresas por dia, quase sete a cada hora. Na comparação com o primeiro semestre de 2024, que teve a abertura de 27,1 mil negócios, houve um aumento de 8,5%. O levantamento também aponta que cerca de 70% dessas novas empresas foram formalizadas na categoria de microempreendedor individual (MEI). Esse crescimento expressivo no número de aberturas de mercadinhos está diretamente ligado a um conjunto de fatores econômicos, sociais e comportamentais que têm moldado o ambiente de negócios no país. Para especialistas, a combinação de busca por autonomia financeira e valorização do consumo local contribui significativamente para esse movimento. “Nos momentos de instabilidade econômica, como a que o Brasil enfrentou nos últimos anos, muitas pessoas optam por abrir o próprio negócio como alternativa ao desemprego ou à informalidade. O setor de mercadinhos, por ter uma barreira de entrada mais baixa e por atender uma demanda essencial, a alimentação, torna-se uma opção viável para empreender com menor risco”, explica a economista Paula Tavares. Esse crescimento também é alimentado pelo comportamento dos consumidores, que passaram a valorizar ainda mais os comércios de proximidade, salienta Paula. “Durante e após a pandemia, as pessoas redescobriram o comércio local. A ideia de comprar no mercadinho do bairro, que conhece os clientes pelo nome, passou a representar não só conveniência, mas também confiança e solidariedade. Isso criou um ambiente fértil para o surgimento de novos empreendimentos”. A alta no número de mercadinhos traz impactos diretos para a economia nacional, sobretudo na geração de empregos e na movimentação do comércio local. Cada novo ponto de venda cria oportunidades para fornecedores, transportadores, pequenos produtores e profissionais de diversos setores, como contabilidade, marketing e tecnologia. “O varejo alimentar é um dos setores mais capilarizados do Brasil. A abertura de um mercadinho movimenta toda uma cadeia produtiva, que vai desde o agricultor familiar até o entregador de aplicativo, segundo o Sebrae, micro e pequenas empresas respondem por mais de 60% das contratações no país. Estamos falando de um modelo de negócio que não só absorve a mão de obra local, mas também contribui para o desenvolvimento sustentável das comunidades”, explica Daniel Cardoso, analista de mercado. Ele destaca ainda que esses pequenos negócios têm se adaptado rapidamente às mudanças no comportamento de consumo, incorporando ferramentas digitais como maquininhas de pagamento, delivery via WhatsApp e vendas por aplicativos, mesmo em regiões mais afastadas dos grandes centros. “A digitalização desses negócios potencializa o faturamento e amplia o alcance, o que pode garantir a sobrevivência em um ambiente altamente competitivo”, afirma. Além do impacto direto nos empregos e na circulação de renda, os mercadinhos desempenham um papel social relevante, especialmente em comunidades onde o acesso a grandes redes varejistas é limitado. Em muitos casos, são os únicos pontos de venda de alimentos e produtos essenciais em determinadas regiões. Paula acredita que o desafio, a partir de agora, será garantir a longevidade desses novos empreendimentos. “Mais importante que abrir, é manter o negócio em funcionamento. Isso exige capacitação, gestão financeira eficiente, escuta ativa dos clientes e capacidade de adaptação. O Sebrae, inclusive, oferece programas específicos de apoio ao pequeno comerciante para enfrentar essas etapas”.
Violência obstétrica traz impactos para gestante e bebê

A violência obstétrica no Brasil segue como uma grave violação de direitos humanos, afetando milhares de mulheres durante a gestação, o parto e o pós-parto. Embora o termo ainda gere debate, relatos de desrespeito, negligência, intervenções desnecessárias e ausência de escuta continuam frequentes em hospitais e maternidades. Práticas como impedir a presença de acompanhantes, negar informações ou desconsiderar a dor e as escolhas da gestante refletem um modelo de cuidado autoritário e desumanizado. Apesar de políticas públicas como a Rede Cegonha e diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) que incentivam o parto humanizado, o país ainda enfrenta obstáculos para garantir um atendimento verdadeiramente centrado na mulher. Falta capacitação contínua das equipes, mecanismos de responsabilização institucional e, sobretudo, escuta ativa das usuárias do sistema de saúde. Para discutir o assunto, o Edição do Brasil conversou com a médica e membro da diretoria da Associação dos Ginecologistas e Obstetras de Minas Gerais (Sogimig), Mariana Seabra. O que pode ser considerado violência obstétrica? Prefere-se o uso da expressão “violência contra a gestante” em vez de “violência obstétrica” para enfatizar a proteção dos direitos da mulher e evitar a redução do problema a críticas profissionais. Essa terminologia amplia o debate ao reconhecer a violência como um fenômeno estrutural, relacionado a práticas institucionais que desconsideram a escuta, a singularidade e o protagonismo feminino. A violência contra a gestante inclui desrespeito, negligência e maus-tratos durante a gestação, parto e pós-parto, violando direitos humanos e afetando a saúde física e emocional da mulher. Como é possível identificar este tipo de violência? A violência contra a gestante pode ser reconhecida principalmente pelos relatos das mulheres, que expressam sofrimento, constrangimento ou falta de acolhimento durante a gestação, parto ou puerpério. Também se manifesta em práticas institucionais rígidas e despersonalizadas, que ignoram a individualidade feminina. Muitas vezes, essas situações são naturalizadas e não reconhecidas como violência, o que reforça a importância de valorizar a escuta das mulheres. Quais as consequências físicas e mentais que essa violência pode trazer? As consequências variam desde traumas físicos evitáveis até marcas emocionais profundas, como depressão pós-parto, ansiedade, medo de futuras gestações ou mesmo transtorno de estresse pós-traumático. Além disso, a violência contra a gestante pode afastar mulheres dos serviços de saúde, comprometer a amamentação, dificultar o vínculo com o recém-nascido e perpetuar ciclos de sofrimento que afetam toda a família. Quais medidas poderiam ser tomadas para diminuir esses casos? Enfrentar a violência contra a gestante requer um compromisso coletivo e ações coordenadas em diferentes níveis do sistema de saúde. É fundamental investir em formação ética e técnica continuada das equipes de saúde, revisar os fluxos e protocolos institucionais, e fomentar uma cultura organizacional que valorize o cuidado respeitoso e centrado na mulher. É necessário ampliar espaços de escuta qualificada, garantir transparência nas denúncias e fortalecer políticas públicas baseadas em evidências, em justiça reprodutiva, mas também que assegurem condições dignas de trabalho às equipes de saúde. Você acredita que há despreparo das equipes de assistência médica ao lidar com mulheres? Em muitos contextos, ainda há insuficiência na formação em temas como comunicação empática, diversidade, escuta ativa e respeito à autonomia. Isso não significa necessariamente falta de preparo técnico, mas, algumas vezes, uma reprodução de padrões históricos e estruturais que invisibilizam as experiências das mulheres, sobretudo das que estão em situação de maior vulnerabilidade. Mais do que culpar indivíduos, é preciso transformar a lógica institucional do cuidado. Faltam ações que possam ser úteis na estruturação de políticas públicas, leis e boas práticas no Brasil? Apesar de avanços como a Rede Cegonha, o Brasil ainda enfrenta desafios na implementação de políticas que garantam um cuidado respeitoso à gestante, com falhas em monitoramento, responsabilização e escuta das usuárias. A OMS e a Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia (FIGO) alertam para a urgência de tratar essas práticas como violações de direitos humanos. É essencial fortalecer o diálogo entre áreas técnicas, políticas e sociais, colocando as experiências das mulheres no centro das decisões. O cuidado respeitoso deve ser um dever ético, clínico e institucional.
Cresce o número de acidentes com motos em Belo Horizonte

Nos últimos seis anos, Belo Horizonte registrou um crescimento de 56,18% nos acidentes envolvendo motociclistas, conforme informações do Painel de Acidentes de Trânsito da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp). Em 2018, foram contabilizadas 13.158 ocorrências, número que subiu para 20.553 em 2024, o que representa, em média, dois acidentes por hora. O único recuo no período foi observado em 2020, ano marcado pelo início da pandemia. A partir de 2021, os índices voltaram a subir significativamente, coincidindo com o início da operação de um serviço de transporte de passageiros por motocicleta via aplicativo na cidade. Em 2025, até o mês de agosto, já foram registrados 12.057 acidentes. Para o engenheiro de transportes Carlos Antunes, o aumento expressivo está diretamente ligado à intensificação do uso das motocicletas como meio de trabalho. “Com a popularização dos aplicativos de entrega e, mais recentemente, de transporte de passageiros, muitos jovens passaram a enxergar na motocicleta uma forma rápida e acessível de gerar renda. No entanto, o crescimento desse mercado não foi acompanhado por políticas públicas de capacitação, fiscalização e infraestrutura voltadas para essa categoria de condutores”. Segundo Antunes, o problema vai além do comportamento individual dos motociclistas. “Estamos falando de uma falha sistêmica. A cidade não está preparada para receber um fluxo tão intenso de motos. Falta sinalização adequada, faixas exclusivas, fiscalização de velocidade e educação no trânsito para todos os atores envolvidos, inclusive motoristas de carros e ônibus que dividem o espaço urbano com os motociclistas”. Para a ortopedista Mariana Lopes, que já atendeu vítimas de acidentes de moto, os ferimentos costumam ser graves. “Quedas em alta velocidade, colisões com carros e atropelamentos geram lesões severas, como fraturas expostas, traumatismos cranianos e amputações. Muitos desses pacientes ficam com sequelas permanentes ou, em casos mais extremos, não resistem”. Ela reforça que o uso inadequado de equipamentos de proteção ainda é um problema recorrente. “É comum vermos motociclistas com capacetes de baixa qualidade ou mal ajustados, sem luvas, jaquetas, botas ou outros itens que poderiam minimizar os impactos em caso de queda. A fiscalização precisa ser mais rigorosa, mas também é necessário investimento em campanhas educativas e em políticas que incentivem a segurança no trabalho desses profissionais”. O poder público deve buscar alternativas para conter os acidentes, destaca Antunes. “É necessário mapear os principais pontos de ocorrência de acidentes com motociclistas para implementar intervenções no trânsito, como melhorias na sinalização e na iluminação pública. Além disso, dialogar com os representantes das empresas de aplicativo para buscar soluções conjuntas, como cursos de direção defensiva e incentivos à manutenção dos veículos”. De acordo com o especialista, um dos maiores desafios é alcançar os motociclistas autônomos. “Muitos trabalham por conta própria e estão fora do radar das empresas ou dos sindicatos. Precisamos criar mecanismos que os incluam nas políticas públicas e ofereçam suporte técnico e educacional para que possam atuar com mais segurança”. Além das ações locais, Antunes defende uma política nacional voltada para os motociclistas, com regulamentação clara do transporte por aplicativo em duas rodas, linhas de financiamento para equipamentos de segurança e programas de educação no trânsito nas escolas e nos centros de formação de condutores. Essas medidas visam reduzir acidentes e valorizar a categoria. “Enquanto as soluções não chegam, o número de acidentes continua crescendo, deixando cicatrizes profundas não apenas nas vítimas e suas famílias, mas em toda a sociedade. O que antes era visto como um meio de locomoção ágil e econômico, agora se revela um dos maiores desafios para a segurança no trânsito de Belo Horizonte e de várias outras cidades brasileiras”, conclui.
Construção e imóveis devem alcançar R$ 417 bilhões até o final deste ano

Vivendo uma fase bastante positiva, os segmentos de construção civil e mercado imobiliário devem gerar, em conjunto, uma movimentação próxima de R$ 417 bilhões no Brasil até o fim deste ano, conforme estimativa da pesquisa IPC Maps. De acordo com o estudo, os lares brasileiros devem investir mais de R$ 287 bilhões em itens como materiais de construção e serviços de reforma. Já a compra de imóveis deve representar cerca de R$ 130 bilhões desse total. O Estado de São Paulo lidera o ranking nacional, sendo responsável por quase R$ 118,5 bilhões dos gastos no setor. Na sequência aparecem o Paraná, com R$ 48,2 bilhões, seguido por Minas Gerais, que alcança R$ 42,2 bilhões, e o Rio de Janeiro, ocupando a quarta colocação, com R$ 27,7 bilhões em despesas no segmento. Em contrapartida, o ritmo de abertura de empresas na área tem sido mais contido. Segundo dados da sondagem, entre 2024 e o momento atual, foram criadas 48.561 novas unidades, representando um crescimento de 2,2%. Com isso, o total de estabelecimentos no país chega a 2.244.855. Apesar desse avanço, chama a atenção o fechamento de empresas, especialmente entre os microempreendedores individuais (MEIs), que apresentaram uma queda de 6,5% no comércio varejista e uma retração de 0,8% no setor da construção civil. “A redução dos juros torna o crédito mais acessível à população. Com parcelas menores e condições mais flexíveis, mais pessoas conseguem realizar o sonho da casa própria. Além disso, há uma forte movimentação no setor de reformas e construções particulares, puxada pelo crescimento da renda média em algumas regiões do país”, explica a economista Cláudia Neves. Outro motor importante desse crescimento é a retomada de programas habitacionais, como o “Minha Casa, Minha Vida”, que voltou a ganhar força com subsídios ampliados e parcerias com construtoras de médio e pequeno porte. De acordo com a economista, o impacto disso é duplo. “Por um lado, ajuda famílias de baixa renda a acessar moradias dignas, por outro, gera empregos diretos e indiretos, movimentando uma extensa cadeia produtiva. Quando uma obra começa, não é só a construtora que se beneficia. A economia local se aquece: são vendidas refeições, contratados pedreiros, eletricistas, encanadores, há aumento de consumo de materiais como cimento, aço, tintas, pisos, madeira, entre outros”, ressalta. Um fenômeno observado é a descentralização do crescimento. Enquanto os grandes centros urbanos como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte continuam a atrair investimentos, as cidades médias do interior têm apresentado boas taxas de crescimento nos setores de construção e mercado imobiliário. “O custo de vida mais baixo, os incentivos fiscais locais e a qualidade de vida estão atraindo não só moradores, mas também incorporadoras e investidores. Municípios como Franca (SP), Maringá (PR), Campina Grande (PB) e Joinville (SC) estão vendo um boom de empreendimentos, tanto residenciais quanto comerciais”, destaca o especialista em mercado imobiliário, Rafael Macedo. Apesar das projeções otimistas, os especialistas alertam que manter essa curva ascendente exigirá planejamento de longo prazo, estabilidade econômica e estímulo à inovação. A burocracia, o excesso de tributos e a dificuldade de acesso ao crédito ainda são desafios estruturais que impedem o crescimento mais acelerado. Para Cláudia, é fundamental que governos e iniciativa privada caminhem juntos para promover ambientes regulatórios mais previsíveis e seguros. “O investidor precisa de confiança para aplicar seus recursos. Incentivar parcerias público- -privadas, desburocratizar licenças e ampliar o acesso a linhas de financiamento são caminhos essenciais”. A sustentabilidade nas construções é outro ponto importante citado. “Incorporadoras têm investido cada vez mais em projetos sustentáveis, com uso de energia solar, reaproveitamento de água da chuva e materiais de baixo impacto ambiental. Há um público crescente interessado em imóveis com certificações verdes. É uma tendência que agrega valor ao imóvel e ajuda a preservar o meio ambiente”, explica Macedo.