30% dos casos de racismo acontecem no ambiente de trabalho

Um levantamento da plataforma Jusbrasil, que analisou 4.838 decisões entre janeiro e outubro de 2025, mostrou que o ambiente de trabalho é o principal cenário de denúncias de racismo e injúria racial, concentrando 30% dos casos. Em 1.113 ocorrências havia vínculo direto entre empregado e empregador, número superado apenas pelas agressões praticadas por desconhecidos. Espaços públicos registraram 974 episódios e estabelecimentos comerciais, 805. Do total de decisões, 39,5% resultaram em condenações criminais. Esses dados, obtidos a partir de bilhões de documentos jurídicos, reforçam a gravidade do problema, também evidenciada pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, que aponta mais de 18 mil registros anuais de injúria racial e racismo. Para discutir o assunto, o Edição do Brasil conversou com o diretor de Relações Internacionais da União de Negras e Negros pela Igualdade (Unegro), Alexandre Braga. O que esses dados revelam sobre a estrutura das relações de trabalho no Brasil? Os dados mostram que o país ainda possui relações trabalhistas profundamente desiguais e racistas, refletindo uma sociedade historicamente marcada pelo machismo, homofobia e discriminação estrutural. Mesmo com práticas como ESG, compliance e outros mecanismos empresariais, essas desigualdades persistem. A diferença salarial entre trabalhadores brancos e negros que ocupam a mesma função e têm a mesma formação chega a 58,3% na região Nordeste. Entre empreendedores, a renda média é de R$ 2.700 para negros e R$ 4.202 para brancos, segundo o Ministério do Trabalho e o IBGE. Quais fatores estruturais e culturais contribuem para que vínculos formais de trabalho concentrem tantas ocorrências de racismo? As estruturas herdadas da monarquia portuguesa ainda influenciam as relações de trabalho no Brasil, onde o padrão europeu segue sendo visto como ideal, mesmo após a Constituição de 1988. A evasão escolar é alta, especialmente entre jovens negros que deixam o ensino médio para buscar renda e combater a fome, criando desigualdades antes mesmo da entrada no mercado de trabalho. Embora políticas como ProUni, bolsas de estudo, cursinhos populares e programas de permanência tenham avançado, elas ainda não superam a forte estrutura racista do país. Nas empresas, prevalece um ambiente hierárquico que desestimula denúncias por medo de retaliação, fazendo com que práticas discriminatórias sigam sem consequência. A legislação brasileira atual é suficiente para lidar com casos de racismo e injúria racial no ambiente corporativo? A legislação brasileira é ampla e relativamente avançada, no entanto, faltam instrumentos eficazes de punição: os dados de delegacias, Ministério Público e CNJ mostram que praticamente não há prisões por crimes de racismo, seja no trabalho, no esporte ou em espaços públicos. A responsabilização é branda e, muitas vezes, favorecida por estratégias jurídicas e por advogados de alto custo que conseguem livrar agressores de punições. Isso desencoraja novas denúncias, como se observa em casos de injúria racial e assédio em grandes empresas. Apesar da visibilidade proporcionada pelas redes sociais, elas ainda não garantem a efetiva responsabilização dos agressores. Qual deveria ser o protocolo mínimo de uma empresa ao receber uma denúncia de racismo entre funcionários? Há necessidade de uma esfera administrativa, em empresas públicas e privadas, que aplique punições econômicas ao agressor, como a destinação de parte do salário para reparar a vítima. Isso poderia fortalecer o combate ao racismo, já que registros na polícia ou no Ministério Público não têm reduzido os casos. O processo criminal é longo e desgastante, dificultando denúncias. Embora práticas ESG avancem na promoção de direitos humanos, ainda há uma grande lacuna: a falta de punições financeiras claras, o que acaba favorecendo a continuidade das agressões. Como fomentar ambientes de trabalho verdadeiramente inclusivos e equitativos? Há menos de vinte anos o Brasil proibiu a separação entre elevador social e de serviço e a exigência de aparência física em currículos, antes usada para discriminar negros. Apesar de avanços na valorização da cultura negra, o mercado de trabalho ainda reflete uma sociedade racista, machista, homofóbica e etarista. Enfrentar o racismo estrutural exige ações permanentes e políticas públicas articuladas. O engajamento das novas gerações é essencial para elevar a cidadania da população negra. No ano em que o Dia da Consciência Negra se tornou feriado nacional, o país avança gradualmente no reconhecimento de sua contribuição.

Natação combina esforço muscular com baixo impacto

A natação é uma das práticas esportivas mais completas presente em academias, clubes e projetos comunitários, porém, ainda pouco valorizada. Empurrar o corpo através da água mobiliza diversos sistemas simultaneamente, e essa combinação de esforço eficiente com baixo impacto torna a atividade singular em seus benefícios. Para a fisiologista Carla Menezes, a natação se destaca por proporcionar um trabalho muscular profundo sem gerar impacto nas articulações. “É uma das poucas modalidades que envolvem praticamente todos os grandes grupos musculares, ao mesmo tempo em que protege tendões e articulações”. Esse equilíbrio entre esforço e suavidade faz da natação um exercício viável tanto para adultos em ritmo intenso de trabalho quanto para pessoas com limitações físicas, esclarece Carla. “Indivíduos que sofrem com dores crônicas, como lombalgia e artrose, encontram na água um ambiente mais seguro para se movimentar, fortalecendo músculos de apoio e ganhando mobilidade ao longo do tratamento”. No caso das crianças, a natação é vista como aliada do desenvolvimento motor e cognitivo. Carla afirma que a modalidade contribui para a coordenação, o equilíbrio e a percepção espacial. “Quando a criança se movimenta na água, ela precisa ajustar continuamente o corpo para flutuar, respirar e avançar. Isso ativa áreas cerebrais relacionadas ao planejamento motor e à atenção”. Além disso, a prática em grupo auxilia no convívio social e na criação de rotinas saudáveis desde cedo. “O ambiente da piscina é lúdico, acolhedor e oferece uma sensação de conquista muito forte. Cada braçada que a criança aprende representa um avanço visível, e isso reforça a autoestima”, ressalta. Entre adultos, especialmente aqueles que conciliam trabalho, família e estudos, a natação tem sido procurada como válvula de escape para o estresse. O educador físico Rafael Goulart diz que a sensação de imersão e o ritmo contínuo dos movimentos ajudam a desacelerar a mente. “A água induz um estado de foco suave. A pessoa presta atenção no movimento do corpo, na respiração e no contato com o meio líquido, o que reduz a ruminação mental e favorece um tipo de meditação ativa”. Já para os idosos, a natação vem se consolidando como ferramenta preventiva e terapêutica. Goulart explica que a atividade auxilia na preservação da massa muscular e na melhora do equilíbrio, dois fatores essenciais para a autonomia na terceira idade. “A água oferece resistência natural, permitindo treinos eficazes mesmo com baixa intensidade e isso ajuda a manter força e flexibilidade, reduzindo o risco de quedas”. Ainda há um ganho adicional pouco comentado: o efeito emocional da prática em grupo. “Muitos idosos enfrentam solidão e reclusão social. A piscina, porém, vira um ponto de encontro. Conversam, riem, constroem vínculos. Esse componente social tem impacto direto na saúde mental”, relata Goulart. Em paralelo aos benefícios individuais, treinadores apontam que a natação é uma atividade democrática, acessível a diferentes perfis e necessidades. “Temos alunos que treinam para provas competitivas, outros que buscam emagrecimento, alguns que precisam de reabilitação física e muitos que só querem relaxar. Todos encontram um ritmo próprio na água”. Ele lembra que, ao contrário de esportes de impacto ou que dependem do clima, a natação pode ser praticada durante todo o ano, o que facilita a criação de uma rotina contínua. À medida que mais pessoas descobrem seus benefícios, cresce também a compreensão de que a natação não é apenas um esporte, mas uma experiência completa: trabalha o corpo, acalma a mente e conecta indivíduos. Para Carla, “nadar é, ao mesmo tempo, exercício e cuidado, esforço e leveza. Uma forma de reencontrar o próprio ritmo dentro e fora da água”.

Arte e reflexão se encontram em exposição “Pausa para o devir”

Refletir e, ao mesmo tempo, explorar novos caminhos. Esse é o propósito da exposição “Pausa para o devir”, promovida pela Fundação Torino e pela Casa Fiat de Cultura, em cartaz até 7 de dezembro de 2025. Sob curadoria de Marconi Drummond, a mostra apresenta instalações de diferentes formas e materiais criadas pela artista visual, educadora e contadora de histórias Stela Barbieri, em diálogo com produções coletivas da comunidade escolar da Fundação Torino. A iniciativa proporciona uma experiência imersiva, na qual arte e educação se conectam por meio da coparticipação entre a artista, os alunos e o público. Feitas com materiais como bambu, sementes e cabaças, as instalações convidam o público a entrar, permanecer e experimentar o ritmo da pausa, seja para descanso ou diálogo. Descrita por Stela Barbieri como uma “obra-oficina”, a exposição propõe ambientes de desaceleração que estimulam a imaginação, a atenção plena e a reflexão interior. “A exposição ‘Pausa para o devir’ é um convite para estar presente e religar o que já foi com o que está por vir, no balanço dos corpos entre a terra e o céu. Uma proposta de encontro consigo e o mundo, entre a arte e a educação”, reflete a artista. Na galeria da Casa Fiat de Cultura, grandes casulos feitos de bambu e cabaças abrigam cadeiras de balanço que estimulam momentos de pausa. Integrando elementos táteis, sensoriais e sonoros, eles despertam a imaginação e a reflexão por meio de narrativas, músicas, histórias tradicionais e composições próprias, mescladas a sons da natureza, vozes e canções. Há também casulos que podem ser colocados sobre a cabeça, preparados com sementes e cascas, permitindo aos visitantes explorar novas sonoridades a partir de seus próprios movimentos. No núcleo videográfico, os visitantes podem acompanhar o desenvolvimento das oficinas com estudantes de diferentes idades da Fundação Torino, que geraram desenhos, monotipias e objetos escultóricos. A exposição também funciona como uma obra-oficina: um espaço fértil que convida cada pessoa a criar. Entre as atividades participativas está o “Perguntatório”, uma instalação tipográfica na qual os visitantes podem enviar perguntas ao futuro. Outro recurso, em formato de lousa, estimula a criação de desenhos e narrativas sobre pausas e seus possíveis desdobramentos. Para o curador da mostra, Marconi Drummond, “mais do que interrupção, a pausa aqui é potência: usina de experiências compartilhadas e exercício de imaginação em tempos de aceleração. Pausa como ‘direito ao sossego’, como nos lembra a artista Stela Barbieri”. O título “Pausa para o devir” sintetiza a ideia central da exposição. A pausa é vista como um instante de atenção e respiro em meio à correria do dia a dia, enquanto o conceito de devir remete à mudança e ao fluxo constante. Entre esses dois princípios, a mostra propõe um espaço que convida o público a explorar novas maneiras de se relacionar com o tempo e com sua própria sensibilidade. O presidente da Casa Fiat de Cultura, Massimo Cavallo, completa, “a exposição é, portanto, um convite a entrar nos casulos de imaginação que se abrem na Casa Fiat de Cultura, a experimentar outras formas de estar presente”. “Pausa para o devir” marca os 50 anos da Fundação Torino. Além das obras de Stela Barbieri, a exposição valoriza a produção coletiva dos alunos, que contribuíram com criações gráficas, objetos e experimentações visuais. Essa participação evidencia a vocação da escola como espaço de criatividade e aprendizado constante, alinhando-se à proposta da mostra, que celebra a arte como uma prática colaborativa. “Ao completar 50 anos, a Fundação Torino convida todos a fazer uma pausa, não como interrupção, mas como gesto de presença. A exposição Pausa, que trazemos para a cidade como presente coletivo, traduz com profundidade esse momento da nossa história: um tempo de escuta, contemplação e reinvenção. Celebramos meio século de tradição e inovação propondo uma reflexão sobre o tempo, sobre a beleza do agora e sobre os futuros que desejamos construir, com consciência, sensibilidade e esperança”, afirma Márcia Naves, diretora da Fundação Torino.

Pagamento do 13º salário deve injetar R$ 34 bilhões na economia de Minas

O 13º salário deve movimentar cerca de R$ 34 bilhões na economia mineira até o fim do ano. Segundo levantamento do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese), esse montante representa perto de 3% do PIB de Minas Gerais, calculado em R$ 1,128 trilhão. O valor previsto para Minas representa 18,6% da quantia destinada ao Sudeste, estimada em R$ 183,2 bilhões, e corresponde a 9,2% do total calculado para todo o país, que chega a R$ 369,4 bilhões. No Estado, cerca de 10,2 milhões de pessoas devem receber o 13º salário em 2025, um valor médio de R$ 2.970 por beneficiário. De acordo com o levantamento, os trabalhadores do setor formal, sejam celetistas ou estatutários, correspondem a 58,2% dos beneficiários em Minas Gerais, totalizando 5,937 milhões de pessoas. Os aposentados e pensionistas do INSS representam 39,7% do total, cerca de 4,048 milhões, enquanto os empregados domésticos com registro em carteira somam 2,2%, ou 222 mil pessoas. Os trabalhadores formais também concentram a maior parcela dos valores a serem pagos no Estado, totalizando R$ 22,706 bilhões, equivalentes a 66,7% do montante. Já os beneficiários do INSS receberão R$ 7,243 bilhões, ou 21,3% do total. Os aposentados e pensionistas do Regime Próprio estadual somam R$ 2,522 bilhões, correspondendo a 7,4%, enquanto os do Regime Próprio municipal receberão R$ 1,202 bilhão, representando 3,5% do valor total. Para a economista Fernanda Ribeiro, esses números evidenciam não apenas a dimensão financeira, mas também o impacto social. “O 13º salário é uma ferramenta importante de injeção de liquidez na economia. Ele movimenta o comércio, estimula serviços e permite que famílias possam planejar melhor suas finanças no fim do ano”. Ela ressalta que boa parte dos recursos é direcionada a despesas essenciais, como quitação de dívidas, compras de Natal, educação e alimentação, mas também há uma parcela significativa destinada ao lazer e turismo, o que ajuda a fortalecer setores que tradicionalmente crescem nessa época. Nesse final de ano, a gratificação é crucial para a estabilidade econômica das famílias, afirma Fernanda. “Muitos trabalhadores utilizam o 13º para pagar contas que acumulam ao longo do ano ou quitar parcelas de empréstimos e financiamentos. Isso evita que dívidas se tornem impagáveis e oferece um alívio financeiro muito importante”. A profissional recomenda que parte do valor seja reservada para emergências ou investimentos de curto prazo, de forma a prolongar os benefícios da injeção de dinheiro no orçamento pessoal. A dinâmica de gastos também tem efeito direto no comércio e na economia local. Dados de anos anteriores mostram que boa parte do 13º salário é gasta em compras de bens duráveis, presentes de Natal e vestuário, além de alimentação e turismo. Na avaliação de Fernanda, essa movimentação ajuda a sustentar empregos temporários e estimula setores de serviços, que geralmente registram alta demanda nesse período. “O impacto vai muito além do consumidor final. Lojas, restaurantes, hotéis e empresas de transporte se beneficiam do aumento do consumo, o que cria um efeito multiplicador positivo na economia estadual”. Outro aspecto destacado pelos especialistas é a importância do 13º salário para a população mais vulnerável, que depende desse recurso para complementar a renda. “Para muitas famílias, o benefício é a principal oportunidade de quitar dívidas e reorganizar o orçamento. Ele traz alívio e permite um fechamento de ano mais tranquilo”, afirma o educador financeiro Ricardo Valente. A orientação do especialista é que os beneficiários planejem o uso do 13º, priorizando quitação de dívidas, poupança e investimentos que possam gerar retorno, garantindo que o efeito do benefício vá além de alguns meses e se transforme em vantagem para todo o ano seguinte. A primeira parcela do 13º salário precisa ser creditada na conta do trabalhador até 28 de novembro. Conforme a legislação trabalhista, o pagamento pode ser feito em até duas parcelas ou de forma integral, sendo que, neste último caso, o valor total também deve ser depositado até o final do mês. Se o empregador optar pelo pagamento em duas parcelas, a segunda deve ser realizada até 20 de dezembro.

Número de casais que não possuem filhos dobra em 20 anos

Nos últimos 20 anos, o Brasil registrou um aumento expressivo no número de famílias compostas por casais sem filhos. Em 2000, esse tipo de arranjo representava 14,9% dos lares brasileiros; em 2022, a proporção alcançou 26,9%. Os dados são do suplemento Nupcialidade e Família do Censo 2022, divulgado pelo IBGE. Ao contabilizar as famílias compostas por casais sem filhos, o instituto considera tanto os domicílios habitados apenas pelos dois cônjuges quanto aqueles em que o casal vive com outros parentes que não sejam seus filhos. De acordo com o relatório, nas últimas décadas houve mudanças na estrutura familiar. “Maior participação da mulher no mercado de trabalho, baixas taxas de fecundidade e o envelhecimento da população influenciaram no aumento do percentual de casais sem filhos”, afirma o estudo. Em contrapartida, o Censo 2022 apontou que, pela primeira vez desde o ano 2000, os casais com filhos passaram a representar menos da metade das 61,2 milhões de famílias do país. No Censo de 2000, esse grupo correspondia a 63,6% dos lares; em 2010, caiu para 54,9%, e, em 2022, chegou a 45,4%. Além do aumento dos lares formados por casais sem filhos, também houve crescimento no número de moradias unipessoais (aquelas em que vive apenas uma pessoa). Em 2010, esse tipo de arranjo representava 12,2% dos domicílios brasileiros, e em 2022 passou para 19,1%. Isso significa que, atualmente, uma em cada cinco residências do país é ocupada por um único morador. Nesse intervalo de 12 anos, o total de pessoas vivendo sozinhas subiu de 4,1 milhões para 13,6 milhões. A mudança revela não apenas novas formas de organização familiar, mas também profundas transformações econômicas, sociais e culturais. “Estamos diante de um fenômeno global, mas que no Brasil ganha contornos muito particulares. Durante décadas, o modelo tradicional de família com pai, mãe e filhos predominou, agora, vemos um aumento expressivo de casais que adiam ou desistem da maternidade e da paternidade, seja por questões financeiras, de carreira, ou por uma nova compreensão sobre o que é uma vida plena”, esclarece a socióloga Andreia Lima. Entre os fatores que explicam essa transformação, o peso do custo de vida é um dos principais. Ela diz que criar um filho no Brasil pode custar centenas de milhares de reais até a vida adulta, valor que cresce ano a ano devido à inflação em setores como educação, saúde e moradia. “Os jovens adultos de hoje enfrentam um cenário econômico muito diferente do que seus pais enfrentaram. O mercado de trabalho é mais competitivo, o preço dos imóveis disparou e o custo de manter uma criança em uma boa escola privada, por exemplo, é altíssimo, tudo isso pesa na decisão de ter filhos”. A mudança no papel da mulher é central nesse fenômeno. Nas últimas décadas, mais brasileiras priorizaram estudos e carreira, alcançando independência financeira e adiando, ou renunciando, à maternidade. “O avanço da educação feminina e a entrada massiva das mulheres no mercado de trabalho mudaram completamente as dinâmicas familiares. Ter filhos, que antes era quase uma obrigação social, hoje é uma escolha, e muitas mulheres preferem adiar ou renunciar essa escolha”, explica a antropóloga Ana Luísa Furtado. O envelhecimento populacional é outro fator que interage com esse fenômeno. Com a queda da taxa de natalidade, o Brasil caminha para se tornar um país de população predominantemente idosa nas próximas décadas. “Menos filhos hoje significa menos jovens amanhã. Isso vai impactar diretamente o mercado de trabalho e o sistema previdenciário. Teremos que lidar com uma população economicamente ativa menor, o que pode comprometer o equilíbrio das contas públicas e aumentar a pressão sobre os sistemas de saúde e aposentadoria”, alerta. Mas nem tudo é uma questão econômica. Há também aspectos culturais e psicológicos em jogo. “Vivemos em uma era em que a individualidade é muito valorizada. O discurso do ‘autocuidado’ e da realização pessoal ganha força, e muitos casais preferem investir em experiências e liberdade, isso não é um sinal de egoísmo, mas sim de uma mudança de paradigma”, observa Andreia. “O país precisa de políticas que conciliem a liberdade de escolha com o incentivo à natalidade. Isso passa por creches acessíveis, licença parental ampliada, apoio a mães solo e programas de conciliação entre trabalho e família”. Ela lembra que países desenvolvidos enfrentam dilemas semelhantes e têm apostado em políticas de incentivo à natalidade, como subsídios e licenças remuneradas mais longas. “O que estamos vendo é a pluralização da ideia de família. O importante é entender que essas novas configurações não representam uma crise, mas uma evolução das relações humanas”, conclui a socióloga.

84 mil novos casos de tuberculose são registrados por ano

De acordo com o Boletim Epidemiológico da Tuberculose de 2025, o número de novos diagnósticos permanece em torno de 84 mil casos. Apesar de uma leve redução entre 2023 (84.994 casos) e 2024 (84.308 casos), observa-se uma tendência de aumento desde 2020, quando foram notificados 69.681 casos. Apesar dos esforços de vigilância e tratamento gratuitos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a doença segue em níveis considerados altos, e novembro é o mês de conscientização devido ao Dia Nacional de Combate à Tuberculose, celebrado em 17 de novembro. A tuberculose é uma doença que afeta principalmente os pulmões, mas também pode atingir outros órgãos, como rins, ossos e o sistema nervoso central. “A transmissão ocorre quando uma pessoa doente tosse, fala ou espirra, liberando pequenas gotículas que contêm a bactéria. Essas partículas podem permanecer suspensas no ar por várias horas, especialmente em ambientes fechados e mal ventilados”, explica a infectologista Mariana Couto. Os sintomas, em geral, são sutis no início, o que dificulta o diagnóstico precoce. Tosse persistente por mais de três semanas, febre baixa, sudorese noturna, perda de peso e cansaço constante são sinais de alerta. “Muitas pessoas confundem os primeiros sintomas com uma gripe prolongada ou uma bronquite simples, o que atrasa a procura por atendimento médico. Quando o diagnóstico é tardio, o risco de transmissão aumenta significativamente”, acrescenta. O diagnóstico da tuberculose é feito por meio de exames clínicos, radiografia de tórax e testes laboratoriais. O pneumologista Ricardo Avelar explica que o principal exame é o baciloscópico, que detecta a presença da bactéria no escarro do paciente. “Nos últimos anos, o Brasil ampliou o uso de testes rápidos, como o GeneXpert, que identifica o DNA do Mycobacterium tuberculosis e ainda verifica se há resistência aos antibióticos de primeira linha. Esse é um avanço importante, mas ainda há desigualdade no acesso a esses testes em muitas regiões do país”. Apesar da disponibilidade do tratamento, o combate à tuberculose no Brasil enfrenta obstáculos complexos. Fatores como pobreza, más condições de moradia, desnutrição e acesso precário aos serviços de saúde criam um ambiente propício para a disseminação da doença. “A tuberculose não é apenas uma questão médica, mas também um problema social. Onde há desigualdade, há mais casos e é preciso olhar para a doença de forma integrada, com políticas que vão além da saúde”. De acordo com Mariana, o governo precisa reforçar a vigilância epidemiológica e melhorar a detecção precoce dos casos. “O Brasil tem capacidade técnica e rede de laboratórios, mas carece de mais investimentos em capacitação profissional e tecnologia. Além disso, campanhas de conscientização são essenciais para combater o estigma que ainda cerca a doença”. Prevenção A prevenção da tuberculose envolve ações que vão desde a vacinação até a melhoria das condições de vida. A vacina BCG, aplicada ainda na infância, é eficaz na proteção contra as formas mais graves da doença, embora não impeça a infecção pulmonar em adultos. “A imunização é um passo fundamental, mas sozinha não resolve o problema. Precisamos também garantir moradias ventiladas, reduzir a superlotação em presídios e abrigos, e intensificar a busca ativa por casos em comunidades vulneráveis”, explica a médica. O Brasil tem ampliado significativamente suas ações para erradicar a tuberculose como problema de saúde pública, priorizando estratégias de prevenção e a adoção de práticas inovadoras de cuidado. Em 2024, observou-se um aumento de 30% no número de tratamentos preventivos em relação a 2023, resultado da expansão do uso de terapias medicamentosas de curta duração (com três meses de tratamento) que já correspondem a 72% do total, segundo o Boletim Epidemiológico da Tuberculose 2025. “A luta contra a tuberculose é, portanto, mais do que uma questão médica: é um compromisso com a equidade e a dignidade humana. Reduzir o número de casos no Brasil requer investimento, conscientização e vontade política”, conclui Avelar.

Caixa lança Reforma Casa Brasil para as famílias de baixa renda

O novo programa de financiamento da Caixa Econômica Federal, o Reforma Casa Brasil, foi lançado em Minas Gerais durante audiência pública da Comissão Extraordinária de Defesa da Habitação e da Reforma Urbana da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). Ele entregará recursos para melhorar a rede elétrica, adaptar a casa, fazer reparos hidráulicos, construir novo cômodo, colocar tubulação de esgoto, instalar caixa d’água, fossas, trocar azulejos, janelas ou telhados. A audiência foi promovida pelo presidente da comissão, deputado Leleco Pimentel (PT), em parceria com o deputado Rodrigo Lopes (União) e a deputada Carol Caram (Avante). O encontro contou com a presença de representantes de movimentos sociais voltados ao direito à moradia, além de um deputado federal, vereadores e técnicos da Caixa Econômica Federal, que detalharam o funcionamento do novo programa. Ao abrir a reunião, Leleco Pimentel destacou o déficit habitacional existente na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). “De acordo com dados da Fundação João Pinheiro, temos um déficit de um milhão de moradias, apenas na metropolitana. O direito à moradia está na Declaração dos Direitos Humanos da ONU e também como direito fundamental em nossa Constituição Brasileira e deve ser respeitado”. O parlamentar avalia que o programa Reforma Brasil contribuirá para ampliar a dignidade das famílias e diminuir o déficit habitacional, ressaltando que uma moradia sem estrutura adequada pode comprometer a saúde de seus moradores. O Programa Reforma Casa Brasil, da Caixa Econômica Federal, disponibiliza uma linha de crédito de R$ 40 bilhões voltada a famílias de baixa renda que desejam realizar melhorias no imóvel onde residem, inclusive em casas alugadas. O programa é dividido em três faixas de crédito, com valores que variam de R$ 5 a R$ 30 mil por CPF, e o pagamento não pode comprometer mais de 25% da renda declarada do solicitante. A Faixa I contempla famílias com renda bruta mensal de até R$ 3.200. Já a Faixa II atende aquelas com renda entre R$ 3.200,01 e R$ 9.600. Por fim, a Faixa III é voltada a quem possui renda superior a R$ 9.600,01, sendo exigida, nesse caso, a apresentação de um imóvel como garantia. As taxas de juros variam de 1,17% a 1,95% ao mês, e o financiamento pode ser pago em um prazo que vai de 24 a 60 meses. Denise Natalícia de Jesus Pimenta Teixeira, superintendente de Habitação da Caixa, explicou que o maior diferencial do programa é a desburocratização e a facilidade de contratação. “O Reforma Casa Brasil é simplificado, a pessoa não tem que comprovar que tem imóvel em cartório para contratar, pode morar de aluguel ou em casa de terceiros. Se a família for usar apenas a renda de uma pessoa, todo o processo pode ser feito pelo site ou aplicativo da Caixa. Se houver composição de renda para a contratação, a pessoa precisa ir até uma agência”. Durante a apresentação, a superintendente ressaltou que o financiamento não é disponibilizado para moradores de áreas rurais, regiões de risco ou zonas de preservação ambiental. Além disso, pessoas com restrições de crédito, como registro no SPC ou Serasa, também não podem contratar o benefício. Todas as informações fornecidas são feitas por autodeclaração, ficando sob responsabilidade do próprio solicitante. O superintendente executivo de Habitação da Caixa, Leandro Antônio Costa, destacou a importância do programa especialmente durante o período chuvoso, quando aumenta a necessidade de reparos em telhados e em sistemas hidráulicos das residências. “A partir do momento que a pessoa teve o empréstimo aprovado, terá 90% do recurso liberado, com até 55 dias para fazer a reforma. O recurso poderá ser usado para comprar material, contratar mão de obra ou assessoria técnica, quem define isso é o morador. O solicitante deverá enviar a foto do antes e depois da reforma direto no site da Caixa, sendo que os 10% restantes do recurso serão liberados após a foto da conclusão da obra”. Maria das Graças de Souza Ferreira, coordenadora da União Estadual por Moradia Popular Minas Gerais (Uemp), acredita que o programa vai trazer benefícios para a população de baixa renda. “Esse programa é muito bem- -vindo porque as famílias que receberam seus imóveis lá nos anos 1990, quando as casas eram entregues apenas com o básico, poderão fazer as reformas necessárias, como acabamentos e rede elétrica. Isso vai ser uma injeção de ânimo nessas famílias”. Em participação virtual, o deputado federal Padre João (PT) afirmou que a frente Juntos Para Servir, coordenada por ele em parceria com Leleco Pimentel, considera o Programa Reforma Casa Brasil um passo significativo na promoção do direito à moradia. “Porque não é só o sonho da pessoa reformar a casa, é a necessidade. A nossa população está envelhecendo e muitas vezes não tem como adaptar a casa, trocar uma porta, adequar um espaço. Será um grande ganho que permitirá adequações de acessibilidade para pessoas idosas ou com necessidades especiais”.

Poluição do ar em BH está acima dos limites permitidos pela OMS

Uma pesquisa realizada pelo Programa de Pós-graduação em Geografia do Instituto de Geociências (IGC) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) apontou que a qualidade do ar em Belo Horizonte não atende aos padrões recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS). No período do inverno, todas as ruas avaliadas registraram concentrações de poluentes superiores ao limite de 45 microgramas por metro cúbico (µg/m³). A rua Padre Eustáquio, localizada na região Noroeste, apresentou a maior concentração de poluentes, com média de 78 µg/m³. Outras vias da cidade também registraram níveis elevados: Avenida Amazonas (65 µg/m³), Nossa Senhora do Carmo (69 µg/m³), Silva Lobo (69 µg/m³), Barão Homem de Melo (69 µg/m³), Antônio Carlos (69 µg/m³) e o Anel Rodoviário (57 µg/m³). Para o engenheiro ambiental Marcelo Dutra, os índices elevados estão diretamente ligados à combinação de fatores urbanos e climáticos típicos do inverno. “Durante essa estação, a baixa umidade e a inversão térmica contribuem para que a poluição fique retida próxima ao solo, sem dispersão natural. Além disso, o aumento do uso de veículos e a proximidade entre os edifícios e o tráfego mais lento podem dificultar a dispersão do poluente”. Ele destaca que o crescimento da frota de veículos nos últimos anos e a expansão das regiões industriais nas periferias da capital também são fatores importantes. “Belo Horizonte avançou de forma acelerada e muitas vias principais se tornaram corredores de trânsito intenso. O tráfego constante, alinhado à emissão de poluentes de indústrias e de pequenas queimas domésticas, gera um efeito cumulativo que prejudica significativamente a qualidade do ar”. A pesquisa da UFMG também evidenciou que mesmo vias consideradas menos movimentadas apresentam níveis acima do recomendado, mostrando que a poluição do ar não está restrita a corredores de tráfego intenso, mas se espalha por diferentes regiões da cidade. A solução passa por um conjunto de medidas integradas, explica Dutra. “É preciso ampliar o transporte público de qualidade, incentivar o uso de veículos elétricos e não poluentes, aumentar áreas verdes e implementar programas de monitoramento contínuo da qualidade do ar. Políticas públicas e educação ambiental também são fundamentais para que a população compreenda o impacto das ações individuais e coletivas no ar que respiramos”. Dutra lembra ainda que a legislação ambiental brasileira estabelece padrões de emissão para indústrias e veículos, mas que a fiscalização nem sempre é suficiente para garantir o cumprimento dessas normas. “Sem monitoramento rigoroso e sanções efetivas, as leis acabam sendo pouco eficazes e a população sente os efeitos, mas nem sempre consegue exigir mudanças”. O engenheiro ambiental ressalta que a concentração populacional em regiões densamente ocupadas, a ocupação de áreas verdes e a insuficiência de planejamento urbano contribuem para que poluentes fiquem concentrados, especialmente em bairros mais centrais e próximos de vias expressas. “É possível reverter o quadro com políticas públicas bem estruturadas e a conscientização da população é de grande importância nas ações de monitoramento e de transparência nos dados. Respirar é um direito básico e garantir ar limpo não é apenas uma questão ambiental, mas uma prioridade de saúde pública e de justiça social”, conclui. Graves impactos A médica pneumologista Ana Cláudia Figueiredo alerta que a exposição contínua a partículas em suspensão acima do recomendado aumenta o risco de doenças respiratórias, cardiovasculares e até mesmo problemas neurológicos. “Crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas são os mais vulneráveis. Respirar esse ar diariamente pode levar a crises de asma, bronquite, infecções respiratórias e, em casos mais graves, agravar condições cardíacas. Além disso, estudos recentes mostram que a poluição do ar pode afetar o desenvolvimento cognitivo de crianças”.

Cerca de 30% dos mineiros atrasam o aluguel por conta de apostas on-line

Uma pesquisa inédita feita pela Loft, em parceria com a Offerwise, mostra que quase um terço dos mineiros que pagam aluguel (cerca de 28%) diz ter enfrentado ou conhecido alguém que enfrentou atraso no pagamento devido a apostas ou jogos de azar virtuais. O problema é ainda mais frequente entre as classes C e D, onde o percentual chega a 38%. Entre os entrevistados que jogam, quase um terço (32%) declara investir até R$ 50 por mês em apostas, enquanto 13% desembolsam até R$ 300 mensais. O levantamento indica ainda que o hábito é novo para muitos: mais da metade (52%) começou a apostar há menos de um ano. Nos últimos 12 meses, 32% dos jogadores afirmam ter perdido até R$ 50, e 10% relatam perdas acima de R$ 500. Apenas uma pequena parcela, 13%, conseguiu não ter prejuízo. Mesmo entre quem não possui renda própria, os efeitos são visíveis: 67% perderam até R$ 50, e 33% chegaram a perder até R$ 100. Outros dados são que, em Minas Gerais, 55% dos entrevistados avaliam que as apostas on-line fazem mal à sociedade. Para 78%, elas são responsáveis por agravar o endividamento das famílias. Apesar disso, 30% acreditam que, com equilíbrio, as apostas podem servir como entretenimento, e 28% as veem como uma alternativa para complementar a renda. A maioria dos mineiros pede mais fiscalização: 83% defendem normas mais severas para o setor e 81% dizem que a maior parte dos apostadores perde dinheiro. A economista Renata Tavares destaca que a falta de regulamentação e monitoramento das plataformas é um fator que agrava o cenário. “Hoje, qualquer pessoa com um celular pode se cadastrar em um site de apostas, depositar dinheiro e começar a jogar em minutos. Não há controle efetivo sobre idade, renda ou limites de gasto. Isso cria um ambiente propício para o endividamento e, em casos extremos, para fraudes e lavagem de dinheiro”. Ela ressalta que o setor movimenta bilhões de reais por ano no Brasil, mas boa parte desse dinheiro circula em empresas sediadas no exterior, sem tributação adequada. “A ausência de fiscalização impede que o Estado arrecade impostos e também que o jogador tenha garantias. Em muitos casos, quando há suspeita de fraude ou bloqueio de valores, o consumidor fica completamente desamparado”. Para a profissional, a popularização das apostas está ligada a um contexto de incerteza econômica. “Vivemos um momento em que o custo de vida é alto e o poder de compra diminuiu. As apostas aparecem como uma ilusão de mobilidade financeira rápida, principalmente para quem tem poucas oportunidades. É um fenômeno social que mistura esperança, desespero e entretenimento”. “É uma armadilha que começa com diversão e termina com desespero, visto que o cérebro é programado para buscar recompensas rápidas e as plataformas usam mecanismos semelhantes aos das redes sociais e até de cassinos físicos para manter o jogador engajado. Quanto mais ele perde, mais sente necessidade de apostar novamente para recuperar o prejuízo”, explica. “Dinheiro fácil” Na avaliação do psicólogo Rogério Menezes, o governo precisa encarar o vício em apostas como uma questão de saúde pública. “Hoje, o acesso é irrestrito, qualquer adolescente com um celular pode criar uma conta, usar o cartão dos pais e começar a jogar. Falta uma política de conscientização e, principalmente, mecanismos de proteção, como limites de depósito e bloqueio de contas para jogadores em situação de risco”. Menezes afirma que é essencial que a população seja alertada sobre os perigos do chamado “dinheiro fácil” e defende campanhas educativas semelhantes às realizadas contra o tabagismo, com mensagens claras sobre os riscos do vício. “As pessoas precisam entender que as chances de ganho são mínimas e esses sites não são um investimento, e sim um negócio criado para lucrar com a perda do usuário. O problema não é apenas econômico, quando o jogo passa a ocupar o lugar do trabalho, do estudo ou da convivência familiar, estamos diante de um problema de saúde pública”.

Insegurança alimentar ainda atinge mais de 25% da população

O Brasil registrou uma queda no número de pessoas com acesso insuficiente à alimentação, alcançando novamente o índice mais favorável desde 2013, segundo informações apresentadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A parcela de lares em situação de insegurança alimentar grave reduziu-se de 4,1% para 3,2% entre 2023 e 2024. Em termos absolutos, isso representa aproximadamente dois milhões de pessoas que deixaram a condição de fome nesse período. Embora tenha havido avanços em comparação a 2023, o país ainda contabilizava, em 2024, cerca de 54,7 milhões de pessoas em alguma forma de insegurança alimentar (leve, moderada ou grave), o que corresponde a aproximadamente 25,7% da população brasileira. Para discutir o assunto, o Edição do Brasil conversou com a doutora e mestre em Ciências Sociais, Naiane Loureiro. Quais fatores sociais e econômicos mais influenciam essa persistência da insegurança alimentar no país? Os principais motivos para a insegurança alimentar no Brasil são a pobreza, a renda insuficiente e a informalidade do trabalho. Famílias com baixos rendimentos e vínculos precários têm dificuldade em adquirir alimentos diante de crises, desemprego ou inflação. Segundo o Banco Mundial, 30,7% da população enfrentava insegurança alimentar moderada ou grave em 2022, reflexo da inflação de alimentos e da volatilidade de preços. A desigualdade regional também agrava o problema, especialmente em áreas do Norte e Nordeste com menor infraestrutura e acesso. Além disso, fragilidades nas redes de proteção social e políticas públicas mal desenhadas ampliam a vulnerabilidade de parte da população. Quais são as consequências sociais mais graves da insegurança alimentar prolongada para as famílias e comunidades? A insegurança alimentar afeta a saúde física, podendo causar desnutrição, deficiências nutricionais e maior risco de doenças crônicas. A desnutrição infantil precoce está ligada ao atraso no crescimento e a problemas metabólicos futuros. Também compromete a educação, pois crianças nessa condição têm pior desempenho escolar e menos oportunidades, perpetuando a pobreza. Além disso, o estresse e a insegurança aumentam conflitos familiares e reduzem o investimento em saúde e educação infantil, ampliando vulnerabilidades sociais. De que forma a alimentação precária tem impacto sobre a saúde mental e o desempenho escolar de crianças e adolescentes? Existem estudos que mostram a associação consistente entre insegurança alimentar e saúde mental, pois ela está associada a maior prevalência de ansiedade, depressão e sintomas comportamentais em crianças e adolescentes. Também vemos impactos diretos no desempenho escolar e cognição, reduzindo atenção, memória e resultados escolares; em idade precoce esses impactos podem ser duradouros. Há lacunas nas políticas atuais que precisam ser preenchidas para reduzir de forma mais consistente a insegurança alimentar? Acredito que sim, pois faltam políticas que integrem de forma efetiva as áreas de nutrição e proteção social, articulando programas de incentivo à agricultura familiar com a alimentação escolar e o Bolsa Família. E, principalmente, um programa de prevenção de crises financeiras no país, que aumentam o custo de vida e as diferenças sociais regionais, diminuindo o poder de compra. Você acredita que o poder público deveria priorizar para garantir o direito à alimentação adequada? É essencial promover programas de alimentação saudável e educação nutricional nas escolas para reduzir o consumo de ultraprocessados e formar hábitos duradouros. Também é necessário fortalecer a proteção social em crises, com planos de resposta rápida, transferências emergenciais e estoques territoriais para amparar populações vulneráveis. Além disso, o investimento em monitoramento, avaliação e participação popular é fundamental para garantir direitos e cobrar a responsabilidade do Estado.