10% dos idosos no Brasil já sofreram algum tipo de violência

Um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) analisou dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019 e revelou a gravidade da violência contra idosos no Brasil. Cerca de 10% deles relatam ter sofrido algum tipo de agressão. Entre os tipos, a psicológica foi a mais recorrente (9,63%), seguida pela física (1,56%). Os fatores mais associados à violência foram: idade entre 60 e 69 anos, viver em áreas urbanas, sintomas depressivos e presença de múltiplas doenças. A ausência de parceiro íntimo se mostrou um fator de risco para a violência entre idosas, diferindo do perfil de mulheres mais jovens. A taxa de violência entre mulheres em áreas urbanas chegou a 11,55%, frente a 7,63% nas zonas rurais. Entre os homens, essa diferença foi menor: 9,07% nas cidades e 7% no campo, indicando maior vulnerabilidade feminina em contextos urbanos. Para discutir o assunto, o Edição do Brasil conversou com a responsável pelo estudo, a pesquisadora Fabiana Martins Dias de Andrade. Você acredita que a sociedade reconhece plenamente o que é violência contra esse grupo? A sociedade ainda não reconhece plenamente o que é violência contra as pessoas idosas. Embora existam legislações, ações e ampliação do debate público sobre a temática, muitos tipos de violência ainda são invisibilizados, seja por falta de conhecimento ou até mesmo por naturalização desse evento na sociedade. Quais são os principais impactos físicos e psicológicos na vida de uma pessoa idosa que sofre agressão? A violência contra a pessoa idosa pode causar inúmeras consequências físicas e psicológicas, o que pode agravar as condições de saúde, bem-estar e qualidade de vida. Podemos destacar as lesões corporais como hematomas, fraturas, queimaduras, cortes e escoriações. Também existe o comprometimento da mobilidade (quedas provocadas por agressões ou negligência podem levar à perda de independência), além de desnutrição, desidratação e complicações médicas devido à falta de cuidados. Em relação aos efeitos psicológicos, depressão, ansiedade, baixa autoestima, isolamento social, insônia, declínio cognitivo e até mesmo ideação suicida. Como sintomas depressivos e multimorbidades contribuem para a exposição à violência? Os sintomas depressivos e as multimorbidades (presença de duas ou mais doenças crônicas em uma mesma pessoa) contribuem para o aumento significativo da vulnerabilidade da pessoa idosa à violência. A depressão causa sentimentos de isolamento e apatia, reduzindo a capacidade do idoso de reagir ou denunciar a agressão. Já as multimorbidades aumentam a dependência física e emocional de cuidadores, tornando o idoso mais vulnerável a negligências e as demais formas de violência. A subnotificação é um problema comum nesse tipo de crime? Sim, o tema da violência é estigmatizado. Os idosos têm vergonha e medo de denunciar por depender da pessoa (geralmente, o agressor é um familiar ou cuidador). Já nos serviços de saúde, os profissionais ficam com receio devido ao medo de represálias. Quais medidas concretas poderiam ser tomadas a partir dos resultados desse estudo? Diversas medidas podem ser adotadas para enfrentar a violência contra idosos, como o desenvolvimento de políticas públicas que reduzam desigualdades sociais e de gênero, além da ampliação e qualificação dos serviços de assistência social. É essencial criar centros de acolhimento temporário para vítimas em risco, implementar programas de visitas domiciliares regulares a idosos vulneráveis e promover campanhas de conscientização sobre etarismo e relações intergeracionais.

BH recebe Etapa Primavera do Circuito das Estações

No dia 7 de setembro, Belo Horizonte será palco de mais uma edição do Circuito das Estações – Etapa Primavera, considerado o maior circuito de corridas de rua do planeta. A largada está marcada para às 7h, na Nova Praça da Pampulha, com três opções de trajeto: 5 km, 10 km e 18 km. Os três primeiros colocados de cada categoria, tanto no masculino quanto no feminino, serão homenageados com troféus. Além disso, todos os participantes terão a chance de avançar mais um degrau na conquista da Mandala 2025, ao completarem a terceira peça do desafio, um emblema que representa persistência, comprometimento e paixão pela corrida. Há 18 anos, o Circuito das Estações se consolidou como um dos principais nomes da corrida de rua no Brasil. Com etapas distribuídas por 21 cidades brasileiras, incluindo São Paulo, Rio de Janeiro, Belém, Curitiba e Manaus, o evento se destaca não apenas pelo seu alcance, mas também por ser considerado o maior circuito de corridas do mundo. Além da competição esportiva, também funciona como uma plataforma estratégica de conexão entre marcas e um público engajado, influente e apaixonado por esportes. Dividido em quatro etapas temáticas (Verão, Outono, Inverno e Primavera), o evento simboliza um ciclo contínuo de superação e evolução pessoal, oferecendo aos corredores uma experiência imersiva ao longo do ano. Mais do que reunir milhares de atletas amadores e profissionais, o Circuito das Estações tem como missão fomentar a prática da corrida e incentivar hábitos saudáveis de vida. A Etapa Primavera do Circuito das Estações oferecerá uma estrutura completa para garantir conforto e segurança aos participantes, incluindo pontos estratégicos de hidratação, atendimento médico, entrega de kits exclusivos aos inscritos e uma arena interativa com diversas atrações. Mais do que uma corrida, o evento proporciona um ambiente perfeito para quem deseja desafiar seus próprios limites, traçar novos objetivos e se envolver na atmosfera vibrante de um dos eventos mais tradicionais do esporte no Brasil, que há quase 20 anos inspira corredores em todo o país. Segundo Matheus Falconi, head de comunicação da Norte Marketing Esportivo, a expectativa é de um evento cheio, com cerca de 8 mil participantes. “Seguindo o que foi as outras etapas, e as tendências de corridas de rua no Brasil, onde as pessoas estão se interessando cada vez mais em participar. A mensagem é de que é uma grande experiência fazer parte do evento, sendo iniciante, intermediário ou avançado, o importante é competir e se superar”. Linha de chegada Para muitos participantes, a corrida representa muito mais do que cruzar a linha de chegada. É o caso da administradora Luciana Campos, 42 anos, que pretende completar seu primeiro percurso de 10 km. “Comecei a correr no início do ano por recomendação médica. Tinha hipertensão, vivia estressada, com sobrepeso. Hoje, nove meses depois, eliminei 12 quilos, controlei minha pressão e, o mais importante, redescobri o prazer de cuidar de mim mesma. Terminar essa prova vai ser um desafio e uma grande conquista para mim”. “Belo Horizonte vem se consolidando cada vez mais como uma cidade amiga dos corredores. Além do Circuito das Estações, a capital recebe diversas outras provas ao longo do ano, como a Volta Internacional da Pampulha e a Meia Maratona Internacional de BH. A geografia diversa, os espaços abertos e o envolvimento da comunidade fazem da cidade um cenário ideal para eventos desse porte”, destaca Luciana. As inscrições já estão abertas, mas as vagas são limitadas, por isso, é bom se antecipar para garantir a sua participação. Para se inscrever e conferir todos os detalhes, basta acessar o site www. circuitodasestacoes.com.br. Os kits estão disponíveis a partir de R$ 179,99 e prometem completar a experiência com exclusividade e qualidade. A retirada acontecerá entre os dias 4 e 6 de setembro, a partir das 10h, na loja Decathlon BH Sul (Avenida Nossa Senhora do Carmo, 1700). Para a retirada, é necessário apresentar o comprovante de inscrição e um documento oficial com foto do participante inscrito.

Virada Cultural se consolida como um dos maiores eventos urbanos do Brasil

A 10ª edição da Virada Cultural de Belo Horizonte, realizada nos dias 23 e 24 de agosto, marcou um momento significativo na trajetória do festival, reforçando sua posição como um dos principais eventos urbanos do Brasil. Com o slogan “Vem Virar BH”, a iniciativa propôs um convite à interação e ao envolvimento com a cidade. A resposta do público foi expressiva: mais de 450 mil pessoas participaram de mais de 24 horas de programação gratuita e ininterrupta. Em relação ao ano anterior, houve um aumento de 43% no número de participantes e de 70% nas atrações oferecidas. Ao todo, 391 atrações artísticas foram realizadas em 26 locais distintos da cidade. Mais de 1.500 artistas da cena local deram vida a uma programação diversa, reunindo expressões variadas como shows, performances, intervenções, celebrações populares e manifestações culturais que tomaram conta da região com muita energia. As ações foram viabilizadas por meio da colaboração de 50 entidades e instituições ligadas à arte e à cultura, incluindo Funarte, Mira, Sesc Tupinambás, Mirante Acaiaca, Feira da Afonso Pena e o cura.art (responsável por intervenções a céu aberto na Praça Raul Soares). Com um investimento direto estimado em aproximadamente R$ 5 milhões, o evento movimentou amplamente a economia da cidade, fortalecendo o setor cultural e suas cadeias produtivas. A expectativa é de que tenham sido gerados mais de 100 mil postos de trabalho, entre diretos e indiretos. Para viabilizar a realização, mais de 100 prestadores de serviços foram contratados, abrangendo áreas como som, iluminação, logística, comunicação, entre outras, o que evidencia a expressiva movimentação econômica proporcionada pela iniciativa. O produtor cultural Rafael Lacerda destacou que “a Virada Cultural se configura como uma ferramenta essencial de políticas públicas, porque leva cultura de maneira ampla, plural e gratuita para a cidade. Não se trata apenas de shows musicais, mas de ocupação criativa e democrática do espaço público, fomentando identidade, pertencimento e participação”. Já a professora de artes visuais Cecília Santana complementou que a democratização da cultura não acontece apenas pela derrubada de barreiras de acesso. “A gratuidade é um passo, mas a verdadeira democratização advém da criação de programação diversa, que atenda etnias, gerações, linguagens artísticas, tradições locais e diálogos entre o urbano e o periférico. Essa Virada Cultural foi exemplar nesse quesito”. A importância do investimento público vai além de levar cultura à população: propicia também desenvolvimento econômico, formação de novos artistas, fomento a empresas criativas e valorização das tradições locais. Cecília ressalta que o evento dinamiza a economia criativa da cidade. “Ao financiar artistas locais, técnicos, artesãos, funcionários de infraestrutura e fornecedores de serviços, o poder público atua como vetor de geração de renda”. Lacerda explica que os desafios persistem. “A circulação noturna, segurança, acessibilidade, limpeza e sinalização são alguns pontos de alerta. Ainda assim, boa parte das críticas vem acompanhada de sugestões construtivas, o que demonstra o engajamento e interesse da população”. De acordo com o profissional, essa edição da Virada Cultural 2025 escancarou, com arte, debate e ocupação, que cultura é combustível da democracia. “Quando o poder público abraça e executa uma programação cultural massiva, gratuita, descentralizada e plural como a Virada, está plantando as sementes de uma sociedade mais criativa, inclusiva e solidária”, conclui.

Salário de 54% dos trabalhadores não dura até o fim do mês

U ma pesquisa conduzida pela SalaryFits, empresa vinculada à Serasa Experian, revelou que neste ano, 54% dos profissionais com carteira assinada ou atuando como Pessoa Jurídica (PJ) não conseguem manter o salário até o fim do mês em sua conta bancária, evidenciando dificuldades na saúde financeira e no bem-estar dos trabalhadores brasileiros. O índice registrado em 2025 é o mais baixo desde que a pesquisa começou a ser realizada, em 2018. No ano anterior, 62% dos trabalhadores afirmavam que o salário não durava até o fim do mês, o que representa uma redução de oito pontos percentuais neste ano. Mesmo com essa melhora, a proporção de brasileiros que não consegue cobrir todas as despesas mensais com a renda ainda continua alta. O levantamento entrevistou 1.029 profissionais atuantes em empresas públicas e privadas, tanto sob o regime CLT quanto PJ, e revelou dados alarmantes. Segundo os resultados, 75% dos participantes não teriam condições financeiras de lidar com um gasto inesperado de R$ 10 mil. Além disso, 66% relataram ter enfrentado dificuldades econômicas nos últimos cinco anos, e 33% chegaram a ter o nome negativado no último ano, sendo que, entre esses, 17% ainda enfrentam pendências financeiras. De acordo com a pesquisa, a maior parte da renda dos brasileiros com o orçamento comprometido é direcionada a necessidades básicas, como alimentação (77%) e contas essenciais, como água e energia elétrica (71%). Em seguida, aparecem compromissos considerados menos urgentes, como financiamentos de imóveis e automóveis (52%), empréstimos pessoais (36%), compras de roupas e itens domésticos (33%) e despesas com educação (20%). A consultora financeira Júlia Almeida, especialista em finanças pessoais, analisa que o dado é reflexo de uma crise que vai muito além da má gestão individual. “Estamos vivendo um momento em que o salário simplesmente perdeu poder de compra. A inflação acumulada nos alimentos, no aluguel, no combustível e até nas contas básicas, como energia e água, está muito acima dos reajustes salariais dos últimos anos”. Ela afirma que muitas famílias estão entrando em um ciclo de dívidas rotativas no cartão de crédito, uso excessivo do cheque especial e empréstimos com juros altos para cobrir despesas básicas. “O trabalhador precisa se endividar para pagar o supermercado. Isso é sintomático, o problema não é só falta de educação financeira, é falta de renda suficiente para sustentar o básico”. Os profissionais que atuam como PJ, cada vez mais comuns em áreas como tecnologia, comunicação e prestação de serviços, também enfrentam dificuldades. O modelo promete flexibilidade e ganhos maiores, mas na prática, muitos desses trabalhadores não têm qualquer proteção trabalhista, como décimo terceiro salário, férias remuneradas ou fundo de garantia. Para o economista Renato Duarte, há uma romantização em torno da “liberdade” de ser PJ. “A verdade é que a pejotização é uma forma de burlar os direitos trabalhistas. O profissional se vê obrigado a aceitar condições instáveis, sem garantias, com pagamentos que muitas vezes atrasam. Isso torna o planejamento financeiro quase impossível”. “O descompasso entre renda e despesas não afeta apenas o bolso, também traz consequências para a saúde mental. Ansiedade, estresse crônico e insônia são cada vez mais comuns entre trabalhadores endividados. As pessoas se culpam por não conseguirem administrar o próprio dinheiro, mas estão fazendo milagres para sobreviver”, destaca. Júlia sugere algumas orientações para quem deseja começar a organizar melhor o orçamento. “O primeiro passo é manter um controle detalhado dos gastos, anotando todas as entradas e saídas da conta, a fim de entender para onde o dinheiro está indo. Em seguida, é importante priorizar o essencial, categorizando os gastos como indispensáveis, importantes ou supérfluos, e concentrando-se no que realmente é necessário até que as finanças estejam equilibradas”. “Criar uma reserva financeira, ainda que modesta, guardando pelo menos 5% da renda, mesmo que seja em um cofre físico, para não depender de crédito em situações emergenciais. Por fim, ficar alerta com os riscos de parcelamentos longos que podem comprometer o orçamento futuro, optando por pagamentos à vista sempre que possível, aproveitando para negociar descontos”, conclui.

Violência sexual faz uma menina virar mãe a cada 30 minutos

Segundo dados do DataSUS do Ministério da Saúde, entre 2014 e 2023, a cada meia hora, uma criança deu à luz no Brasil. A média foi calculada a partir da quantidade de nascimentos em que a gestante tinha de 10 a 14 anos de idade. Por ano, cerca de 20 mil meninas viraram “mães”, mas poderiam ter interrompido a gestação legalmente, por terem sido vítimas de estupro de vulnerável, como prevê o Código Penal brasileiro quando a relação sexual envolve menores de 14 anos. O projeto Meninas Mães, da Revista AzMina, traçou um levantamento inédito no Brasil, revelando que os serviços de interrupção legal da gravidez estão, em muitos casos, extremamente distantes das meninas de 10 a 14 anos que engravidam. Como consequência, nos últimos dez anos, cerca de 205 mil meninas tornaram-se mães por não conseguirem exercer o direito ao aborto após estupros presumidos. Algumas precisariam viajar até 2.500 km para alcançar uma unidade de saúde que ofereça esse tipo de atendimento. A ginecologista e obstetra Helena Moura aponta que esse fenômeno não é isolado. “As meninas engravidam como consequência direta de estupro de vulnerável, muitas vezes cometido por familiares ou pessoas de confiança. Em regiões remotas, sem estrutura de saúde ou sem conhecimento da lei, o resultado é uma gravidez imposta, sem qualquer apoio ou direito respeitado”. Na avaliação de Helena, a geografia da dor é clara: meninas negras, indígenas e pobres, especialmente no Norte e Centro-Oeste, estão entre as mais afetadas. “Nas áreas rurais e periferias, a falta de acesso à educação sexual, à saúde e à justiça potencializa o risco. Muitas vítimas sequer sabem que podem interromper a gravidez em caso de estupro, direito garantido por lei”. “Maternidade imposta a uma criança é um desastre. O corpo não está preparado, o risco de complicações obstétricas e psicológicas é enorme e há aumento de morbimortalidade, depressão profunda, retraimento social e ainda a carga insuportável de cuidar de outro ser”, adiciona. Uma pesquisa elaborada pelo Centro Internacional de Equidade em Saúde, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com apoio da organização Umane, verificou mais de 1 milhão de partos do Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos de 2020 a 2022 e constatou que meninas nessa situação têm acesso reduzido ao pré-natal, e em até 40% dos casos, o cuidado só começa após o primeiro trimestre, e isso se agrava conforme a vulnerabilidade socioeconômica. Além das consequências severas para essas vítimas, como danos emocionais, hiperexposição sexual precoce, distúrbios mentais e, posteriormente, maior risco de uso de substâncias e comportamento de risco. De acordo com a assistente social Camila Lima, seria necessário operar em três frentes ao mesmo tempo: prevenção via educação sexual acessível, acolhimento emergencial eficaz e responsabilização real. “Sem essas engrenagens funcionando, vamos apenas perpetuar essa violência”. Algumas medidas citadas pela profissional são a ampliação e divulgação da Lei do Minuto Seguinte, que garante atendimento emergencial multidisciplinar gratuito às vítimas de violência sexual. Isso inclui profilaxia, apoio psicológico e social, orientações legais, sem necessidade de boletim de ocorrência. Também a implementação em todo o país da Rede Cegonha com foco em meninas vítimas de violência, oferecendo acesso seguro ao parto ou interrupção da gestação conforme a lei, acompanhamento pré-natal, suporte psicológico e garantia de continuidade escolar e social. “Educação sexual desde a infância, com programas adequados às faixas etárias, capacitação de professores e envolvimento da família, para prevenir abusos e empoderar crianças a identificarem situações de risco, juntamente com políticas integradas nas regiões remotas, com uso de unidades móveis de atendimento (ônibus, barcos, telemedicina), para levar serviços de saúde, assistência social e jurídica onde o Estado ainda não chega”, finaliza Camila.

Casos de hepatite A aumentam em várias regiões brasileiras

O Brasil tem registrado uma preocupante alta nos casos de hepatite A. Dados recentes do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) mostraram que, em 2024, o número de infecções saltou 54,5% em relação ao ano anterior, passando de cerca de 1,1 para 1,7 caso por 100 mil habitantes. Em algumas regiões, como Centro-Oeste, o aumento chegou a 350%, enquanto no Sudeste foi de mais de 57%, e no Sul cerca de 50%. Apesar disso, Norte e Nordeste continuam concentrando a maioria dos casos acumulados desde 2000. Esse cenário gera preocupação entre autoridades sanitárias, principalmente porque esse aumento ocorre em um contexto em que a doença havia sido amplamente controlada na infância. Desde 2014, a vacina contra hepatite A faz parte do calendário nacional infantil, o que causou queda nos casos entre crianças, uma redução de mais de 97% entre menores de 5 anos, e de mais de 99% entre aqueles com até 9 anos. “A hepatite A é transmitida pela via fecal-oral, ou seja, ingestão de água ou alimentos contaminados e contato com ambientes ou pessoas infectadas. A falta de saneamento básico e higiene ainda é um problema sério em muitas regiões, especialmente nas periferias das grandes cidades. Além disso, em populações adultas, práticas sexuais sem proteção vêm sendo identificadas como fatores importantes de transmissão”, explica o epidemiologista Eduardo Salgado. Ele salienta que a doença costuma começar com sintomas inespecíficos, como fadiga, mal-estar, febre e dores musculares. “Podem surgir náuseas, vômito, dor abdominal, diarreia ou constipação. A urina escura costuma anteceder a icterícia (pele e olhos amarelados), o período de incubação varia entre 15 e 50 dias, e os sintomas geralmente duram menos de dois meses”. Segundo a infectologista Beatriz Menezes, o diagnóstico se dá por exame de sangue, que detecta anticorpos anti-HAV IgM, indicando infecção recente. A presença de IgG, por sua vez, sinaliza imunidade prévia (por infecção passada ou vacinação). “Não existe um tratamento específico. O foco é aliviar sintomas, manter hidratação, nutrição adequada e repouso. Hospitalização só é necessária em casos de insuficiência hepática grave, o que é raro, e é importante evitar a automedicação, especialmente com substâncias tóxicas ao fígado”. A médica destaca que a vacinação é a principal estratégia. “No Sistema Único de Saúde (SUS), a vacina é em dose única podendo ser aplicada nas crianças de 12 meses e menos de 5 anos. Adultos em grupos de risco (portadores de HIV, hepatopatias, imunossuprimidos, entre outros) podem receber duas doses nos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE) com intervalo mínimo de 6 meses”. “Além disso, o uso de preservativos, a higienização das mãos, genitália e região anal antes e depois das relações sexuais, são muito importantes para evitar contágio por via oral-anal. A higiene pessoal também é importante, lavar bem as mãos após usar o banheiro e antes de preparar alimentos; higienizar frutas, verduras e utensílios; utilizar água tratada; evitar locais com esgoto exposto ou água contaminada; e cozinhar bem mariscos, peixes e carne suína”, conclui Beatriz. Com o aumento de 54,5% nos casos em 2024, sobretudo entre adultos jovens, especialmente homens de 25 a 29 anos, e com maiores incidências no Sul, Sudeste e Centro-Oeste, as autoridades reconhecem que o comportamento humano, mudanças nos padrões de exposição e a falta de imunização em adultos são fatores-chave. Enquanto isso, idosos enfrentam risco elevado de evolução para formas graves, entre os 27 óbitos registrados em 2024, a maioria ocorreu em pessoas com 60 anos ou mais. Para combater esse aumento, as campanhas de saúde pública enfatizam a importância da vacina infantil (com baixa cobertura em algumas regiões), da ampliação da oferta vacinal nos CRIE para adultos, e da promoção de higiene básica e saneamento. “Não podemos esperar que o surto volte a ser um pesadelo infantil, precisamos ampliar a imunização adulta e urgente”, afirma Salgado.

Minas Gerais revisa cortes e destina verba para abastecer viaturas

Após receber críticas pelo corte no fornecimento de combustível para as viaturas policiais, o Governo de Minas Gerais resolveu revisar as medidas de contenção de despesas na Polícia Militar. Como resultado, foi anunciada a liberação de um adicional de R$ 5 milhões para garantir o abastecimento dos veículos da corporação. A informação foi divulgada pelo secretário de Estado da Fazenda, Luiz Cláudio Gomes, durante audiência pública realizada na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). A Comissão de Segurança Pública promoveu a reunião por iniciativa de seu presidente, o deputado Sargento Rodrigues (PL), que expressou críticas ao fato de a revisão dos cortes orçamentários ainda não contemplar a Polícia Civil e o Corpo de Bombeiros Militar do Estado de Minas Gerais (CBMMG). Segundo Gomes, estão em curso negociações com a Polícia Civil para analisar a possibilidade de reavaliar os cortes realizados. “Estamos em tratativas com a Polícia Civil para avaliar a real necessidade. A situação financeira do Estado não é fácil e não é à toa que fizemos esse contingenciamento de R$ 1 bilhão”. Túlio Gonzaga, superintendente central de Planejamento e Orçamento da Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão (Seplag), afirmou que, até o momento, não foi realizada nenhuma avaliação específica em relação ao Corpo de Bombeiros. “O CBMMG ainda não entrou em contato com a gente, mas se for necessário a gente vai avaliar”. “Será que não tem consciência do que isso está causando lá na ponta da linha, o estrago?”, questionou o deputado Sargento Rodrigues, destacando que a escassez de combustível compromete o desempenho das atividades investigativas da Polícia Civil. Ele acrescentou que é inaceitável que o Corpo de Bombeiros seja impedido de atender ocorrências de incêndios ou outras emergências devido à ausência de combustível. “Não dá para aceitar passivamente que o cidadão que paga imposto não tem uma viatura para atendê-lo. Isso tem influenciado o avanço das organizações criminosas em nosso Estado”. Rodrigues observou que facções criminosas vindas do Rio de Janeiro, como o Comando Vermelho, antes ausentes em Minas Gerais, atualmente exercem forte influência em várias comunidades de Belo Horizonte, entre elas Cabana do Pai Tomás, Serra e Morro das Pedras. Em 2025, o governador determinou a todas as áreas da administração estadual a adoção de um corte geral de despesas, por meio de um decreto de contingenciamento. A medida seguiu recomendação do Comitê de Orçamento e Finanças (Cofin), que atua como órgão de apoio na formulação e execução das políticas orçamentárias, financeiras, de gestão e de recursos humanos do governo. No entanto, o secretário de Estado da Fazenda, Luiz Cláudio Gomes, esclareceu que a decisão do Cofin se limitou à determinação do corte geral de despesas, cabendo a cada gestor de órgão definir como os ajustes seriam aplicados internamente. “Não temos capacidade de tratar neste nível de detalhamento”. Sargento Rodrigues afirmou que o governo deve dialogar com os responsáveis pelos órgãos de segurança para reconhecer que houve uma falha na definição das prioridades para os cortes orçamentários. “Ou o governo não conversou com eles, ou eles estão tomando uma decisão que vai colocar o governo na fogueira”. O deputado contestou o secretário da Fazenda, ressaltando que os benefícios fiscais concedidos pelo governo às grandes empresas em 2025 somam R$ 25,2 bilhões. Ele questionou Luiz Cláudio Gomes sobre a possibilidade de revisar essas isenções, ao invés de impor cortes em programas públicos fundamentais. Gomes defendeu a manutenção dos benefícios fiscais. “É uma política pública de geração de emprego e investimento no Estado, e estruturante que não deve ser modificada por falta de dinheiro. A gente não pode demonizar o benefício fiscal”. Ele ressaltou ainda que a guerra fiscal entre os estados e os benefícios associados a ela devem ser eliminados até 2032, devido à reforma tributária, destacando a importância de atrair empresas durante os próximos sete anos. “É o momento de atrair as empresas aqui para Minas Gerais, pois nós achamos que, depois que elas se estabelecem, elas ficam”.

841 toneladas de lixo foram retiradas da Lagoa da Pampulha até julho

Entre janeiro e julho deste ano, a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) recolheu 841 toneladas de resíduos da Lagoa da Pampulha. O levantamento, feito pela Secretaria Municipal de Obras e Infraestrutura (Smobi), abrange a limpeza do espelho d’água, além de serviços de roçagem, conservação do gramado na orla e manutenção das pistas destinadas a ciclistas e pedestres. Em períodos de estiagem, a quantidade de lixo flutuante na Lagoa da Pampulha costuma girar em torno de cinco toneladas diárias, podendo chegar a até dez toneladas nos meses de chuva. Somente entre janeiro e abril, cerca de 597 toneladas foram removidas do local. A quantidade de lixo recolhida é sintoma de um problema crônico que vai além da coleta de resíduos visíveis. O mau cheiro característico em determinados pontos da lagoa, especialmente durante os meses mais quentes, e o aspecto turvo da água denunciam a poluição orgânica e química acumulada ao longo das décadas, agravada por ligações clandestinas de esgoto e o escoamento de resíduos urbanos que chegam pelos afluentes da bacia da Pampulha. Para o engenheiro ambiental Marcelo Dutra, os números de resíduos retirados são alarmantes e indicam que o esforço atual é apenas paliativo. “A limpeza manual e mecânica da superfície é importante, sim, mas não resolve o cerne da questão. O que estamos vendo é um trabalho de contenção, que retira o lixo visível, mas o problema principal está no fundo da lagoa e nos córregos que a alimentam, que continuam trazendo esgoto e lixo”. A aplicação de oxigênio nas águas da Lagoa da Pampulha surge como uma possível alternativa para recuperar a qualidade ambiental. O método foi debatido recentemente na Câmara Municipal, e já foi adotado em iniciativas de despoluição do Rio Pinheiros, em São Paulo, e do Córrego Joana, no Rio de Janeiro. Moradores da região demonstram otimismo com a possibilidade de melhorias, mas especialistas alertam que, sem o fim do despejo de esgoto na lagoa, os resultados serão limitados. Dutra ressalta que a recuperação plena da Lagoa demanda ações integradas e de longo prazo. “A primeira etapa crucial seria a despoluição dos afluentes, como os córregos Ressaca e Sarandi, principais responsáveis pela carga de poluição que chega à lagoa. É preciso investir em interceptores de esgoto mais eficientes, ampliar a fiscalização das ligações irregulares e, principalmente, promover educação ambiental junto à população. A lagoa reflete o que acontece no entorno. Se o bairro joga lixo na rua, ele vai parar ali”. Além disso, a drenagem urbana inadequada e o excesso de sedimentos que chegam à Pampulha também impactam diretamente na qualidade da água. Com o passar do tempo, esses sedimentos se acumulam no fundo da lagoa, contribuindo para o assoreamento e criando condições ideais para a proliferação de algas, que, por sua vez, intensificam o mau cheiro. De acordo com a bióloga Carla Nunes, uma das estratégias mais promissoras para o médio prazo seria o uso de biorremediação, técnica que utiliza organismos vivos, como bactérias e plantas aquáticas, para degradar a matéria orgânica e reduzir os poluentes na água. “Esse tipo de intervenção pode ajudar a melhorar a qualidade da água de forma sustentável, especialmente se for combinado com dragagem dos pontos mais críticos de assoreamento”. Ela também destaca a importância de zonas de amortecimento ecológico, como faixas verdes ao redor da lagoa, que ajudam a filtrar a água das chuvas antes que ela entre diretamente na bacia. “Plantas nativas podem atuar como filtros naturais. Além disso, promovem a biodiversidade e ajudam na estética do local, tornando a lagoa mais atrativa”. É preciso um plano de recuperação ambiental sólido, com metas claras e envolvimento de toda a cidade para garantir que a lagoa não seja apenas um retrato bonito escondendo águas poluídas.

76,6% das empresas mineiras possuem presença na internet

De acordo com a pesquisa E-commerce 2025, a participação do comércio no ambiente digital tem crescido continuamente ao longo dos anos. Em 2023, 57,1% das empresas já marcavam presença no virtual. Esse número subiu para 64,3% em 2024 e, em julho de 2025, atingiu 76,6%. Das empresas com presença na internet, 59,5% utilizam esse canal para realizar vendas, enquanto 33,8% estão apenas presentes on-line, sem efetivar transações comerciais. A adesão ao comércio eletrônico é explicada, principalmente, por seguir uma tendência de mercado (58,9%) ou por atender à demanda dos consumidores (48,1%). Em relação ao tempo de atuação, a maioria comercializa on-line há entre 3 e 5 anos (43,8%), e uma parcela menor, de 5,9%, está nesse segmento há mais de uma década. A maior parte das empresas faz uso do WhatsApp Business, com 75,1% utilizando a ferramenta tanto para presença digital quanto para realizar vendas. Por outro lado, apenas 2,2% usam o aplicativo apenas como canal de contato, sem efetuar vendas por meio dele. Cerca de 61,5% das empresas utilizam o WhatsApp como canal principal para concluir vendas, embora o pagamento seja realizado por outros meios. Já 34,3% dos estabelecimentos aproveitam o recurso de catálogo do aplicativo para exibir seus produtos e respectivos preços. O Instagram é a rede social mais utilizada pelas empresas com presença digital, estando presente em 99,3% delas, e servindo como canal de vendas para 96,5%. Já o Facebook tem uma participação menor: 36,6% das empresas do comércio estão na plataforma, e 23% efetivam vendas por meio dela. No total, 61,1% dos negócios comercializam seus produtos pelas redes sociais, sendo que 72,8% oferecem a opção de retirada na loja física. Segundo o economista Renato Duarte, o avanço no índice de presença on-line é reflexo de uma transformação estrutural nas formas de consumo. “A pandemia acelerou a digitalização, mas mesmo com o fim dela, o comportamento do consumidor mudou. Hoje, estar na internet não é mais um diferencial, é uma exigência básica de sobrevivência no mercado”. O crescimento da presença on-line do comércio local também está ligado à maior acessibilidade de ferramentas digitais, reforça Duarte. “Hoje é muito mais fácil e barato criar um site, configurar uma loja em marketplace ou anunciar nas redes sociais. Além disso, existem cursos e tutoriais gratuitos que capacitam pequenos empreendedores a se digitalizarem com mais autonomia”. “A internet permite ao empresário entender melhor o comportamento do consumidor, segmentar campanhas e ampliar o alcance da sua marca. Na loja física, o público é limitado à vizinhança. No ambiente digital, uma papelaria de Montes Claros pode vender para um cliente em São Paulo ou até no exterior, dependendo da estratégia”, explica. A especialista em marketing digital Letícia Menezes destaca que “o cliente está cada vez mais multicanal. Ele pesquisa no celular, compara no marketplace, tira dúvidas no WhatsApp e só depois decide onde vai comprar. Se a empresa não estiver nesses canais, perde o cliente para a concorrência”. Entre as empresas que planejam começar a vender pela internet, 60% demonstraram interesse em receber algum tipo de suporte, enquanto os 40% restantes preferem seguir sem auxílio. Já os empreendedores que ainda não ingressaram no comércio eletrônico, mas têm intenção de fazê-lo, apontam como principais obstáculos a ausência de planejamento (62,5%) e a falta de tempo (43,8%). Outros fatores mencionados incluem o porte reduzido da empresa (18,8%), carência de profissionais qualificados (12,5%) e o fato de o negócio ser recente (6,3%). No entanto, apenas estar presente na internet não basta. “É preciso investir em relacionamento com o cliente, construção de marca e, principalmente, em experiência de compra. O consumidor quer ser bem atendido em qualquer canal. Isso exige que o lojista tenha uma linguagem adequada, tempo de resposta rápido, imagens de qualidade e meios de pagamento diversificados”, salienta Letícia. Ela reforça que uma das estratégias mais eficazes é a personalização da comunicação. “Plataformas como Instagram e Facebook permitem segmentar anúncios por idade, localização, interesses e até comportamento de compra. Isso aumenta as chances de conversão e reduz o custo da publicidade”. Outra dica é o uso de ferramentas de automação, como chatbots, e-mail marketing e Customer Relationship Management (CRM), que ajudam a organizar o relacionamento com os clientes e promover campanhas mais assertivas. “Com um bom CRM, você sabe quando o cliente comprou, o que comprou, e pode enviar uma promoção personalizada na hora certa. Isso fideliza e aumenta o ticket médio”, conclui.

MG registrou 153 mil casos de violência doméstica em 2024

Na última semana, a Lei Maria da Penha completou 19 anos, porém, os números da violência contra a mulher ainda são preocupantes. Em 2024, mais de 1.400 mulheres foram assassinadas em casos de feminicídio no país, uma média de quatro mortes por dia. De acordo com o 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, mais da metade desses crimes aconteceu na residência da vítima e teve como autor o parceiro ou ex-parceiro. Minas Gerais contabilizou 153 mil casos de violência doméstica e familiar contra mulheres, o equivalente a 420 ocorrências diárias. Além disso, entre janeiro e maio deste ano, foram contabilizados uma média de 169 pedidos diários de medidas protetivas no Estado, somando mais de 25 mil solicitações no total. Para falar sobre o assunto, o Edição do Brasil conversou com a pesquisadora do Centro de Estudos de Criminalidade da UFMG, Ludmila Ribeiro. O que mudou na percepção da sociedade brasileira sobre a violência doméstica desde a sanção da Lei Maria da Penha? Acredito que as mulheres começaram a se perceber como vítimas de violência doméstica. Toda aquela ideia de que “em briga de marido e mulher não se mete a colher” mudou muito depois da sanção da Lei Maria da Penha. As novelas, por exemplo, assim como os telejornais, tiveram um papel de extrema importância, sempre noticiando situações de agressão contra a mulher e como fazer para denunciar o crime. Quais são os principais avanços conquistados nestas quase duas décadas? Um deles é a possibilidade de concessão de medidas protetivas às mulheres em situação de violência, que podem ser solicitadas ao Judiciário ou, em alguns estados, diretamente nas delegacias. Essas medidas visam prevenir agressões mais graves, incluindo afastamento do lar ou proibição de contato. O segundo avanço, ainda limitado, é a criação de juizados com competência cível e criminal, que deveriam tratar de forma integrada questões como divórcio, pensão e visitação de filhos. Na prática, essa integração é falha, e decisões cíveis muitas vezes desconsideram as medidas protetivas, expondo novamente as vítimas ao agressor. A falta de estrutura nos serviços públicos compromete a efetividade da lei? A Lei Maria da Penha tem a finalidade de prevenir, reprimir e erradicar a violência contra o sexo feminino. Precisamos de uma série de serviços que acolham a mulher e verifiquem qual é a sua vulnerabilidade. Por exemplo, a lógica da Casa da Mulher é oferecer atendimento multidisciplinar humanizado, porém, em boa parte das cidades brasileiras, os serviços são fragmentados e não se comunicam, o que termina por revitimizar a mulher. Você considera que há desigualdade no acesso à proteção garantida pela norma? Estudos mostram que as mulheres que mais recorrem à Lei Maria da Penha são as mais vulneráveis, especialmente negras e/ou moradoras de periferias, por dependerem dos serviços públicos para buscar proteção. Já brancas e/ou com maior poder aquisitivo tendem a acessar serviços privados, como advogados e psicólogos, resolvendo a situação fora da rede pública. Mulheres em relações homoafetivas, muitas vezes, não são devidamente protegidas pela lei, pois o Judiciário ainda enxerga a violência doméstica dentro de um modelo tradicional, com um homem agressor, ignorando outras dinâmicas. Quais políticas públicas poderiam complementar e fortalecer a legislação? Faltam ações educativas nas escolas, que ajudem crianças e jovens a entender desde cedo o que é violência e que homens e mulheres têm os mesmos direitos. Esse debate foi freado nos últimos anos por acusações de “ideologia de gênero”, agravando-se diante de dados que mostram que jovens são hoje mais machistas que adultos de 40 anos. Outro desafio é o foco excessivo na vítima e a pouca atenção ao agressor, que muitas vezes repete o comportamento em novos relacionamentos por não compreender que sua conduta é criminosa. Trabalhar com esses homens é essencial para interromper o ciclo de violência.