Livro “Pelo Olhar do Meu Pai” fala da influência paterna na identidade

No livro “Pelo Olhar do Meu Pai”, lançado esse ano, Eliene Lima apresenta uma narrativa autobiográfica que ultrapassa os limites de sua experiência pessoal, propondo ao leitor uma reflexão profunda sobre os laços familiares, o papel do pai e a maneira como essas relações contribuem para a formação da identidade. A autora revisita memórias que atravessam 50 anos de sua trajetória, da infância à maturidade, e mostra como a figura paterna, suas convicções e palavras influenciaram suas decisões e sua visão de mundo. A obra tem como ponto inicial a atuação profissional da autora como psicóloga na Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG). No entanto, conforme ela retoma suas vivências, o relato ganha dimensão mais ampla, incorporando sua própria trajetória pessoal e as raízes de sua conexão com o universo militar. Ao revisitar passagens da infância e juventude, a autora expõe como a figura do pai exerceu forte influência na construção de suas convicções, tanto em relação a si mesma quanto ao papel da mulher na sociedade e às possibilidades de futuro que vislumbrava. “O autoconhecimento faz parte de minha vida desde muito cedo, às vezes orientado por profissionais de saúde mental, às vezes por meio de leituras, em um processo solitário de reflexões e questionamentos sobre meus comportamentos e minhas angústias. Ao descrever minha história, desde o início foi possível identificar que muito do que vivi faz parte da história de mulheres de minha geração e classe social, que enfrentaram os mesmos dilemas, anseios e expectativas. Assim, temas como amor, filhos, profissão, preconceito, escolhas, fazem sentido na minha história e na de tantas outras pessoas”, afirma Eliene. Ela explica que o livro fala de sua história, narrando experiências e as influências que teve na construção do psiquismo e nas escolhas que fez ao longo de 5 décadas. “Ao publicar essas vivências e as elaborações que fiz sobre elas durante anos de psicoterapia, meu intuito era incentivar meus leitores a conhecerem um pouco mais sobre sua própria história e identificar os fatos e as pessoas que contribuíram para que se tornassem a pessoa que são hoje. Eu pretendia incentivar o autoconhecimento dos meus leitores”. Relembrar experiências e traduzi-las em palavras significou para Eliene uma complementação do seu processo de autoconhecimento. “Foi como estar em sessão terapêutica a cada capítulo e a cada revisão do livro, de forma muito autêntica e emocionada. Escrever essa autobiografia foi como o fechamento de um ciclo para abertura para novos começos, arrematando elaborações que fiz sobre vivências e dores que são comuns a nós, seres humanos. E divulgá-las me exigiu muita coragem para expor minhas mazelas e para receber críticas e julgamentos”. A autora fala do olhar do pai em um duplo sentido: tanto aquele olhar que vigia quanto aquele olhar que valida. “A influência do pai na formação psíquica da menina está diretamente ligada à identificação sexual, à sua validação como uma pessoa de valor, influenciando sua autoconfiança e autoestima. No meu livro uso os exemplos de minha própria relação com meu pai para mostrar o quanto as crenças preconceituosas dele e suas falas sobre o que é ser uma mulher e seu papel na sociedade, me incentivaram a canalizar minha energia muito mais para a realização profissional que para a vida afetiva”. “Meu pai falava que as mulheres eram emocionalmente vulneráveis, tinham pouca capacidade de tomar decisões objetivas e se submetiam facilmente aos homens. Dizia que isso reduzia o seu valor perante a sociedade e limitava suas escolhas. Ouvir isso desde criança, e ver ao meu redor exemplos que confirmavam suas palavras, fez com que eu me esforçasse muito para ser vista de forma diferente pelo meu pai e alcançasse reconhecimento social, me tornando uma mulher com autonomia sobre seus atos e desejos”, destaca. A obra se apresenta como uma conexão entre a experiência pessoal e a reflexão sobre a construção da identidade. Enquanto compartilha a trajetória de uma mulher comum, incluindo suas vivências na Polícia Militar, um ambiente majoritariamente masculino, a narrativa convida o leitor a olhar para a própria história, reconsiderar suas relações familiares e refletir sobre como esses laços contribuíram para moldar quem ele é hoje.
Vendas para o Dia das Crianças devem chegar a quase R$ 10 bilhões no país

As expectativas para o Dia das Crianças indicam que o comércio deve movimentar cerca de R$ 9,96 bilhões neste ano. Isso representa um crescimento de 1,1% em comparação ao mesmo período de 2024, quando as vendas alcançaram R$ 9,85 bilhões. Se essa estimativa for alcançada, será o melhor resultado da data nos últimos 12 anos. A projeção foi divulgada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O valor estimado para este ano só é superado pelo registrado em 2014, quando o volume de vendas chegou a R$ 10,5 bilhões. Os números estão corrigidos pela inflação. O Dia das Crianças ocupa a terceira posição entre as datas mais relevantes para o varejo brasileiro, ficando atrás apenas do Natal, que movimentou R$ 72,8 bilhões em 2024, e do Dia das Mães, com R$ 14,5 bilhões em 2025. Segundo dados da CNC, o setor de roupas e calçados deve concentrar a maior parte das vendas, respondendo por 27% do total estimado. De acordo com o economista Luiz Fernando Ribeiro, o pequeno avanço nas vendas pode ser interpretado como um sinal de estabilidade no comportamento do consumidor. “O brasileiro continua valorizando datas comemorativas, mas ainda enfrenta limitações de renda e alto comprometimento do orçamento familiar. Isso leva à priorização dos gastos e a escolhas mais conscientes na hora de presentear”. Os juros elevados e o crédito mais restrito continuam sendo obstáculos importantes. “Muitas famílias estão endividadas ou com acesso limitado a linhas de crédito. Isso reduz a capacidade de consumo, mesmo diante da intenção de comprar presentes”, explica. Com base no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA-15), a CNC projeta que a cesta de 11 grupos de bens e serviços típicos do Dia das Crianças terá um aumento médio de 8,5% em comparação com 2024. Esse crescimento nos preços deve ser impulsionado principalmente por alimentos, como chocolates (alta de 24,7%), doces (13,9%) e lanches variados (10,9%). Por outro lado, produtos tradicionalmente mais procurados na data, como brinquedos e roupas, devem apresentar reajustes abaixo da média geral, com uma elevação estimada de 4,6%. Apesar das limitações, o impacto das vendas do Dia das Crianças sobre a economia não deve ser subestimado. A movimentação de quase R$ 10 bilhões ajuda a aquecer a cadeia produtiva, gera empregos temporários e eleva a arrecadação de tributos. “É uma data que mobiliza desde a indústria de brinquedos até os pequenos comércios de bairro. O aumento na circulação de dinheiro impulsiona a economia local e regional”, destaca Fabiana Moura, consultora de mercado. Ela também ressalta que muitas lojas aproveitam o período para lançar promoções e queimas de estoque, o que pode ser uma estratégia eficaz tanto para atrair consumidores quanto para se preparar para o final do ano. “O Dia das Crianças serve como termômetro para o varejo projetar o Natal. Se a resposta do consumidor for positiva, é provável que os lojistas se sintam mais confiantes para investir em estoques maiores no fim do ano”. O cenário ainda inspira cautela. “A recuperação do poder de compra depende diretamente de uma melhora no mercado de trabalho e de políticas mais efetivas de controle do endividamento das famílias. A continuidade dos juros altos também pode frear o ritmo de crescimento do consumo nos próximos meses”, explica Fabiana. Para os especialistas, o momento exige equilíbrio entre otimismo e responsabilidade financeira. “As datas comemorativas são importantes para o comércio e para a economia como um todo, mas os consumidores não podem se deixar levar pelo apelo emocional e comprometer o orçamento familiar”, alerta Ribeiro. Em meio aos desafios, o Dia das Crianças de 2025 promete movimentar o comércio e trazer algum alívio para lojistas e trabalhadores do setor. Ainda que a recuperação seja lenta, o ritmo positivo acende uma luz de esperança para o fim de ano, tradicionalmente, a temporada mais lucrativa para o varejo brasileiro.
Tempo máximo para limpeza nos hotéis é fixado em 3 horas

O Ministério do Turismo (MTur) atualizou as normas relacionadas aos horários de entrada e saída dos hóspedes em hotéis no Brasil, levando em consideração o tempo necessário para a limpeza, higienização e organização dos quartos. Segundo a nova regulamentação, a cobrança da diária deve se referir a um período de 24 horas de hospedagem. Os estabelecimentos hoteleiros têm liberdade para definir os horários de check-in e check-out, mas é obrigatório que essas informações sejam informadas de forma clara e antecipada aos hóspedes, tanto pelos próprios hotéis quanto por agências de viagens e plataformas digitais de reserva. A nova regulamentação estabelece que o tempo máximo destinado à limpeza e organização dos quartos deve ser de até 3 horas. Esse serviço não pode gerar cobrança adicional, pois já está incluído no valor da diária. Entre as atividades obrigatórias estão a limpeza completa do quarto, além da substituição das toalhas e da roupa de cama. A periodicidade da arrumação e da higienização deve estar alinhada ao perfil do meio de hospedagem, seja hotel, resort, pousada, hostel, apart-hotel ou flat. O cliente deve ser informado previamente sobre o tempo aproximado necessário para a limpeza do quarto, assim como a regularidade com que o serviço será realizado. “A atualização busca estabelecer um padrão mínimo de qualidade no atendimento e na preparação dos quartos, ao mesmo tempo em que dá segurança jurídica ao setor hoteleiro. Com a definição clara do tempo máximo de três horas para limpeza, evita-se a informalidade e se cria uma expectativa realista para os clientes”, explica o agente de viagens Vicente Brandão. Caso deseje, o hóspede pode optar por não utilizar os serviços de arrumação e higienização, desde que manifeste essa decisão de forma clara. No entanto, o estabelecimento deve assegurar que essa escolha não comprometa a higiene do ambiente nem coloque em risco a saúde e a segurança dos demais hóspedes. “Essa possibilidade de recusar a limpeza já era praticada informalmente, principalmente por quem preza pela privacidade. Agora, ganha respaldo legal, o que é um avanço, porém, cabe ao hotel assegurar que isso não afete o padrão sanitário, especialmente em épocas de maior circulação de vírus, como gripes e viroses sazonais”, ressalta. As reações às mudanças têm sido diversas no setor. Alguns empresários e profissionais da hotelaria veem a regulamentação como positiva, argumentando que ela padroniza práticas que antes variavam muito entre os estabelecimentos. Outros, porém, temem que o prazo de até 3 horas para limpeza e arrumação possa gerar dificuldades operacionais, especialmente em dias de ocupação máxima. “É um desafio logístico, principalmente para hotéis com alto volume de hóspedes entrando e saindo ao mesmo tempo. Em algumas situações, esse intervalo pode não ser suficiente para dar conta da limpeza detalhada que buscam oferecer”, diz o especialista em turismo, Frederico da Costa. Apesar disso, Costa reconhece que o novo regramento ajuda a organizar o fluxo de trabalho e deixa as responsabilidades mais claras. “Com prazos definidos, conseguimos estruturar melhor as escalas de trabalho da equipe de limpeza e também informar os hóspedes com mais precisão. É essencial que os hotéis se planejem para não sobrecarregar os funcionários da limpeza. Três horas parecem suficientes, mas não podemos esquecer que em grandes redes, muitos quartos precisam ser preparados simultaneamente. A profissionalização do setor e o investimento em equipe são fundamentais para que essa regra funcione de fato”, destaca. A regulamentação do MTur representa mais um passo na direção de um turismo mais profissionalizado e transparente no Brasil, afirma o especialista em turismo. “Para que as novas regras tragam os benefícios esperados, será preciso investimento contínuo em capacitação, tecnologia e estrutura por parte dos meios de hospedagem. A padronização das práticas é bem-vinda, mas precisa vir acompanhada de suporte técnico, treinamento e fiscalização, caso contrário, corre-se o risco de termos uma regra muito boa no papel, mas difícil de aplicar na realidade”.
Entre 5% a 17% da população mundial é acometida pela dislexia

Outubro é mundialmente reconhecido como o mês de conscientização da dislexia, um período dedicado a informar, educar e combater o estigma em torno desse transtorno de aprendizagem que afeta milhões de pessoas em todo o mundo. No Brasil, estima-se que cerca de 5% a 17% da população possa ter dislexia, de acordo com dados da Associação Brasileira de Dislexia (ABD). Embora comum, o transtorno ainda é cercado por desinformação, o que compromete o diagnóstico precoce, o tratamento adequado e, principalmente, a inclusão dos disléxicos na sociedade. A dislexia é um transtorno específico da aprendizagem de origem neurobiológica, caracterizado por dificuldades no reconhecimento preciso e/ou fluente de palavras, na habilidade de decodificação e na soletração. Essas dificuldades costumam resultar de um déficit no componente fonológico da linguagem. Segundo a neuropsicóloga Clara Nogueira, a condição não está relacionada à inteligência, mas sim à forma como o cérebro processa as informações linguísticas. “O cérebro de uma pessoa com dislexia funciona de maneira diferente quando ela precisa ler ou escrever. Não se trata de preguiça ou desatenção, como muitos ainda pensam, mas de uma diferença neurológica real. É fundamental que pais, professores e a sociedade em geral entendam isso para evitar julgamentos errôneos e promover um ambiente de aprendizagem mais acolhedor”. Embora os primeiros sinais da dislexia possam ser observados já na educação infantil, muitas crianças chegam ao ensino fundamental sem diagnóstico. A identificação precoce é crucial, pois permite intervenções mais eficazes e evita impactos negativos na autoestima e no desenvolvimento emocional da criança. “Muitas vezes, o aluno disléxico é visto como alguém preguiçoso ou desinteressado, quando na verdade ele está se esforçando o dobro dos outros para acompanhar a aula, se os sinais forem reconhecidos logo nos primeiros anos, o suporte pode ser dado de forma personalizada, respeitando o tempo e as necessidades do aluno”, explica. Entre os sintomas mais comuns da dislexia estão a troca de letras com sons parecidos (como “p” e “b”, “f” e “v”), dificuldade para reconhecer rimas ou segmentar palavras em sílabas, escrita espelhada, lentidão na leitura e dificuldade para compreender o que foi lido. No entanto, cada caso é único, e a intensidade dos sintomas pode variar. O diagnóstico é feito por uma equipe multidisciplinar, geralmente composta por psicólogo, fonoaudiólogo, psicopedagogo e, em alguns casos, neurologista. Não existe um exame laboratorial para a dislexia, o processo envolve uma análise minuciosa do histórico do indivíduo, testes cognitivos, avaliações de linguagem e observação comportamental. Apesar da doença não ter cura, ela pode ser gerenciada com sucesso por meio de intervenções profissionais, além de adaptações no ambiente escolar. O apoio da família também é crucial para garantir que a criança ou o adolescente se sinta valorizado e compreendido. “Não estamos falando de um déficit de capacidade, e sim de uma diferença na forma de aprender. Com estratégias adequadas, uso de tecnologias assistivas e reforço positivo, o disléxico pode desenvolver seu potencial ao máximo”, ressalta a fonoaudióloga Beatriz Almeida. Ela diz que entre as estratégias mais eficazes estão a utilização de métodos multissensoriais, que combinam visão, audição e tato, softwares de leitura em voz alta, audiobooks, além de atividades específicas para fortalecer a consciência fonológica. A adoção de provas orais ou com tempo ampliado também é uma prática cada vez mais comum nas escolas inclusivas. Mesmo com os avanços, ainda há muito a ser feito em termos de aceitação e compreensão. Muitas pessoas com dislexia convivem com o estigma e enfrentam dificuldades para se adaptar a sistemas educacionais e ambientes de trabalho que priorizam a leitura e a escrita de forma rígida, sem considerar as diferentes formas de aprender. “Precisamos quebrar a ideia de que há apenas uma maneira ‘correta’ de aprender e expressar conhecimento, um aluno que não lê bem pode ser brilhante em artes, matemática, música ou pensamento crítico. A escola deve ser um espaço onde essa pluralidade seja valorizada, e não punida”, conclui.
Sisema pode integrar o sistema de segurança do Estado de Minas

Durante uma audiência pública realizada pela Comissão de Administração Pública, a secretária de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Marília Carvalho de Melo, declarou o apoio do Executivo à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 43/24. A medida busca incluir os órgãos e entidades que compõem o Sistema Estadual de Meio Ambiente (Sisema) no rol das instituições de segurança pública previsto no artigo 136 da Constituição Estadual. “Conversei com o governador e o vice-governador sobre isso e vim aqui hoje declarar publicamente o apoio integral do Governo de Minas a essa PEC. Essa decisão veio a partir da sensibilidade deles quanto à importância da nossa carreira”, afirmou Marília. A declaração foi antecedida por uma explanação sobre a complexidade das funções exercidas pelos órgãos que compõem o Sisema, o que, segundo ela, justificaria a elevação do status dessas instituições. Ela também reconheceu a defasagem nos quadros do Sisema, ressaltando que, desde 1992, apenas três concursos públicos foram realizados, o mais recente em 2013, ano em que ela mesma foi nomeada. “Estamos há 12 anos sem recomposição dos nossos quadros. Temos atualmente 1.817 servidores efetivos, de recrutamento amplo e contratados, insuficiente para nossas competências, que são muito amplas. Temos 461 cargos em aberto”. Embora não seja classificado formalmente como um órgão de segurança pública, o Sisema desempenha diversas funções com caráter fiscalizador, coercitivo e voltado à proteção do interesse coletivo. O sistema é formado pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), pela Fundação Estadual de Meio Ambiente (Feam), pelo Instituto Estadual de Florestas (IEF) e pelo Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam). Em meio a uma paralisação por reajuste salarial e melhorias nas condições de trabalho, diversos servidores dos órgãos integrantes do Sisema compareceram em peso ao evento, acompanhando o debate e celebrando as declarações da secretária. A audiência foi realizada a partir de uma solicitação da deputada Beatriz Cerqueira (PT), que defende que a inclusão do Sisema entre as instituições de segurança pública pode abrir caminho para avanços como a elaboração de um plano de carreira e a realização de novos concursos para a área ambiental. A PEC 43/24, de autoria principal do líder do Governo, deputado João Magalhães (MDB), propõe inicialmente a inclusão do Departamento de Edificações e Estradas de Rodagem de Minas Gerais (DER-MG) entre os órgãos de segurança pública. Caso o texto seja aprovado com as alterações discutidas durante a audiência pública, tanto o DER quanto as instituições que compõem o Sisema passarão a integrar oficialmente o conjunto de órgãos de segurança pública do Estado, ao lado das polícias Civil, Militar e Penal, além do Corpo de Bombeiros Militar. Emocionado, Wallace Alves de Oliveira Silva, presidente do Sindicato dos Servidores Públicos do Meio Ambiente de Minas Gerais (Sindsema/MG), descreveu a possível inclusão do Sisema no rol das instituições de segurança pública como um marco histórico. “Essa conquista anunciada aqui é como uma carta de amor com o nosso legado para o futuro do Sisema. O que nós conseguimos vai muito além dos benefícios para os servidores. Nossa luta vai entregar muito mais para o futuro da sociedade mineira ao reforçar a defesa do meio ambiente”. “Exatamente hoje completamos 30 dias de greve geral. A gente vence uma batalha a cada 100 lutas, mas quando se ganha é essa emoção que estamos vendo nessa audiência. Isso vai mudar o Sisema daqui pra frente porque vai possibilitar a incorporação de uma nova geração de servidores”, definiu. No entanto, de acordo com o sindicalista, a paralisação deve permanecer enquanto a medida não for oficialmente implementada e não houver avanços concretos na valorização dos servidores. “Estamos de prontidão aqui na Assembleia desde março e vamos continuar acompanhando até essa PEC ser aprovada”. Responsável pelo requerimento que viabilizou a realização da audiência, a deputada Beatriz Cerqueira celebrou o posicionamento favorável do Executivo à PEC 43/24. Contudo, ressaltou que essa manifestação representa apenas o primeiro passo para reparar uma dívida histórica com os profissionais da área ambiental. “Não existe serviço público fortalecido sem servidores valorizados. Nos momentos de tragédia, de crimes oriundos da ganância de empreendimentos minerários, foi o servidor público que nos resgatou”.
MG tem recorde de presos inscritos em exame para conclusão do ensino médio

Em 2025, o Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos para Pessoas Privadas de Liberdade (Encceja PPL) ou sob medida socioeducativa que inclua privação de liberdade bateu recorde histórico de inscritos das unidades prisionais e centros socioeducativos de Minas Gerais. No total, 13.201 presos e 297 adolescentes sob medida socioeducativa prestaram a avaliação, em busca dos certificados de conclusão do primeiro e segundo graus escolares. As inscrições tiveram um crescimento significativo entre 2020 e 2025, passando de 9.747 para 13.201 participantes, o que equivale a um aumento de mais de 35,44%. Esses números não só refletem o êxito das iniciativas educacionais no sistema, como também indicam novos caminhos que o Departamento Penitenciário de Minas Gerais (Depen-MG) oferece aos indivíduos sob regime fechado. A taxa de aprovação no Encceja PPL entre 2020 e 2024 aumentou de 16,27% para 25,74%. Esse crescimento evidencia não só uma participação mais ampla no exame, mas também um aprimoramento no nível de preparação dos candidatos. Os dados apontam para um progresso constante na qualidade dos resultados. Para 2025, espera- -se que o número de aprovações seja ainda mais significativo. Esse avanço sinaliza não apenas uma ampliação do acesso à educação para a população carcerária, mas também uma melhoria efetiva nos índices de desempenho educacional dentro das unidades prisionais. Especialistas apontam que esse movimento é resultado de um esforço conjunto entre o Estado, instituições de ensino e organizações da sociedade civil para garantir que o direito à educação seja respeitado, mesmo em contextos de privação de liberdade. Para a professora Helena Moura, o crescimento dos índices do Encceja PPL é reflexo de um trabalho silencioso, porém eficaz, realizado nos bastidores das penitenciárias brasileiras. “Estamos colhendo os frutos de ações que começaram a ser fortalecidas há cerca de uma década, com a ampliação das salas de aula dentro dos presídios, a formação de professores especializados e o incentivo à remição de pena pela via educacional. Antes, estudar na prisão era exceção, hoje, está se tornando uma possibilidade real para muitos, e isso transforma vidas”. Além disso, a pandemia da COVID-19, que impôs desafios ao ensino presencial, serviu de impulso para a adoção de novos formatos pedagógicos dentro dos presídios. A digitalização de materiais, o uso de videoaulas gravadas e o fortalecimento do ensino remoto assistido contribuíram para ampliar o alcance do conteúdo, mesmo em ambientes com limitações severas de infraestrutura. O coordenador pedagógico, Marcos Teixeira, acredita que o aumento das aprovações é um indicativo de que a educação está sendo tratada com mais seriedade dentro das unidades. “A gente percebe que o aluno em situação de cárcere tem potencial, mas muitas vezes lhe falta apoio. Quando há uma política educacional clara, com metas e estrutura, os resultados aparecem. E isso é o que os números vêm mostrando”. É fundamental que o investimento em educação prisional não se restrinja ao básico, acredita Teixeira. “Não basta apenas oferecer uma apostila. É preciso garantir formação contínua dos educadores, acesso a bibliotecas, ambiente adequado para estudo e tempo real reservado dentro da rotina carcerária para que o preso possa, de fato, se preparar para o exame”. Reinserção social Além da questão educacional, o Encceja PPL também possui implicações diretas sobre a ressocialização e a reinserção social dessas pessoas. A certificação de conclusão dos ensinos fundamental ou médio abre portas para novos caminhos no pós-cárcere, desde a continuidade dos estudos até o ingresso no mercado de trabalho formal. “Educar dentro da prisão é investir em segurança pública de longo prazo. Pessoas com acesso à educação têm menos chances de reincidência criminal”, argumenta. Contudo, o crescimento ainda esbarra em obstáculos significativos. Em muitos estados, a realidade das unidades prisionais ainda é precária: há falta de professores, escassez de materiais didáticos e ausência de espaços apropriados para o estudo. “Para que a curva de crescimento continue subindo, é necessário um compromisso orçamentário dos governos estaduais e federal, além de maior fiscalização sobre a aplicação dos recursos destinados à educação prisional”, conclui.
Consumo de alimentos e bebidas pode bater R$ 1,1 trilhão até o final do ano

Neste ano, as famílias brasileiras devem desembolsar aproximadamente R$ 1,1 trilhão com gastos em alimentação e bebidas, tanto dentro quanto fora de casa, um aumento de 11,3% em comparação ao ano anterior. Os dados são da pesquisa IPC Maps, que há mais de três décadas analisa o potencial de consumo no país com base em informações oficiais. De acordo com o levantamento, os gastos com alimentos e bebidas consumidos em casa devem ultrapassar R$ 780 bilhões. Já as despesas com refeições feitas fora do lar estão estimadas em R$ 350,4 bilhões. Os cálculos consideram tanto os gastos com alimentos e bebidas consumidos em casa, como produtos in natura, industrializados, preparados e itens adquiridos em feiras e varejões, além de bebidas como sucos artificiais, cafés (moído e solúvel), chás, refrigerantes, cervejas, vinhos, destilados e outras bebidas alcoólicas, quanto os consumidos fora do lar, incluindo refeições, lanches, cafés da manhã, caldos, refrigerantes, cafés expressos, cervejas, chopes e similares. Entre os estados com maior volume de consumo, São Paulo lidera com R$ 284,3 bilhões destinados à alimentação. Em seguida, aparecem Minas Gerais, com R$ 123,8 bilhões; o Rio de Janeiro, com R$ 95,5 bilhões; e o Rio Grande do Sul, que ocupa a quarta posição, com R$ 71,8 bilhões em gastos das famílias nesse setor. Segundo o economista Rafael Gomes, o aumento reflete uma normalização dos hábitos de convivência e lazer. “Com a redução do desemprego e o avanço da renda média, muitos brasileiros voltaram a frequentar bares, restaurantes e lanchonetes. Isso gera uma pressão natural por mais gastos fora de casa, especialmente nos grandes centros urbanos”. O setor de alimentação e bebidas é um dos mais relevantes para a economia brasileira. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (ABIA), representa cerca de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) do país e é responsável por mais de 2 milhões de empregos formais diretos. Para Gomes, o crescimento nos gastos com alimentação deve ser interpretado como uma boa notícia para a economia, desde que acompanhado por políticas públicas que assegurem o acesso à alimentação de qualidade para todos. “O aumento nos gastos mostra que o consumo está ativo e que há movimento na cadeia produtiva, desde o campo até os pontos de venda. O desafio está em equilibrar isso com o combate à insegurança alimentar, que ainda atinge milhões de brasileiros”. O consultor de varejo e especialista em consumo, Eduardo Naves, aponta que há uma busca crescente por alimentos mais saudáveis, o que também pesa no orçamento. “Muitas famílias estão trocando alimentos ultraprocessados por itens mais naturais e orgânicos. Embora seja um movimento positivo do ponto de vista nutricional, essa escolha costuma ter um custo mais elevado”. Além disso, Naves destaca que fatores climáticos, como as recentes quebras de safra em algumas regiões do país, impactam diretamente o preço de produtos como arroz, feijão, hortaliças e frutas, pressionando o orçamento doméstico. “Outro fator relevante é a expansão do acesso a canais digitais de compra, como aplicativos de entrega, supermercados on-line e marketplaces especializados em alimentação. Com a digitalização do varejo alimentar, mais consumidores têm optado por soluções rápidas e convenientes para abastecer suas casas ou realizar refeições, o que também tem contribuído para o crescimento do setor como um todo”. A expectativa é de que o setor continue crescendo nos próximos anos, ainda que em ritmo mais moderado. O comportamento do consumidor deve seguir em transformação, com mais ênfase na qualidade, na origem dos produtos e na conveniência, especialmente nas grandes cidades. “Veremos cada vez mais o consumidor disposto a pagar mais por praticidade, sabor e saúde. O mercado de alimentação fora do lar está se adaptando rapidamente a essas novas exigências”, conclui Naves.
Trabalho infantil registra queda de 21,4% no país em oito anos

Entre 2016 e 2024, o Brasil apresentou uma redução de 21,4% no número de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil. O total caiu de 2,1 milhões para cerca de 1,65 milhão de pessoas entre 5 e 17 anos. Em termos proporcionais, a taxa passou de 5,2% para 4,3% nesse período, considerando a diminuição da população nessa faixa etária de 40,6 milhões para 37,9 milhões. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua. No entanto, a desigualdade racial ainda é um fator marcante nesse cenário. Crianças e adolescentes pretos ou pardos, que representam 59,7% da população de 5 a 17 anos, concentram 66,6% dos casos de trabalho infantil. Já os brancos, que compõem 39,4% dessa faixa etária, estão presentes em 32,8% dos registros. Esses números evidenciam as desigualdades estruturais que ainda persistem no país. Para discutir o assunto, o Edição do Brasil conversou com Vilson Mayrink, presidente da Fundação CDL-BH, entidade voltada para a promoção dos direitos dos jovens. Quais os principais fatores que ainda mantêm esse número alto? Os motivos estão ligados à desigualdade social, à baixa escolaridade das famílias e a uma cultura que ainda normaliza o trabalho precoce. Muitas vezes, por necessidade ou falta de informação, famílias em situação de vulnerabilidade abrem mão da infância dos filhos. No entanto, essa fase deve ser vivida com estudo, brincadeiras e desenvolvimento adequado. Iniciativas como a Lei da Aprendizagem são fundamentais, pois permitem o ingresso protegido dos jovens no mundo do trabalho, com direitos garantidos e jornada compatível com os estudos. De que forma o trabalho infantil impacta o desenvolvimento físico, psicológico e educacional das crianças? Fisicamente, há maior exposição a esforços e riscos de acidentes. Psicologicamente, o peso de responsabilidades adultas pode gerar ansiedade e perda da infância. Na educação, o desempenho diminui contribuindo para o desinteresse e posteriormente, evasão escolar. Como é o processo de identificação e encaminhamento de casos de trabalho infantil dentro da rede de proteção social? A identificação de casos de trabalho infantil pode ocorrer por meio de escolas, unidades de saúde, Cras, Creas, Conselhos Tutelares e denúncias da comunidade, pelo Disque 100. O Ministério do Trabalho e Emprego, por meio da Inspeção do Trabalho, atua na fiscalização, no afastamento imediato de crianças e adolescentes em situação irregular e no encaminhamento à rede de proteção. A Fundação CDL-BH contribui com esse trabalho em rede através do Fórum de Erradicação e Combate ao Trabalho Infantil, promovendo ações de proteção à infância e adolescência. Também recebe adolescentes encaminhados para o Programa Educação e Trabalho, que, via Lei da Aprendizagem, garante inserção segura e educativa no mercado de trabalho. Quais são os desafios que a rede de assistência social enfrenta para combater de forma mais efetiva o trabalho infantil? Um dos principais desafios da rede de assistência social é atender à alta demanda de famílias em situação de pobreza com recursos ainda escassos. A falta de integração efetiva entre os órgãos da rede também compromete o acompanhamento e a proteção integral das crianças e adolescentes. A desigualdade estrutural agrava esse cenário, empurrando menores para situações de vulnerabilidade, muitas vezes naturalizadas por uma visão cultural equivocada sobre o valor do trabalho. Embora o trabalho possa ser digno, ele deve ocorrer na fase apropriada da vida, como oportunidade de aprendizado e autonomia, sem comprometer o desenvolvimento infantil. Que caminhos você acredita serem essenciais para que o Brasil consiga erradicar o trabalho infantil? A erradicação do trabalho infantil só será possível por meio de uma ação conjunta entre governo, empresas, terceiro setor e sociedade. É essencial fortalecer ainda mais as políticas públicas, com fiscalização eficiente, geração de emprego e renda para as famílias em situação de vulnerabilidade e uma educação de qualidade que mantenha crianças e adolescentes engajados. Outro caminho fundamental é transformar a cultura que ainda enxerga o trabalho precoce como algo positivo para aqueles que são menores de idade. O trabalho pode, sim, dignificar os cidadãos, mas apenas quando acontece na fase certa da vida, como oportunidade de aprendizado e autonomia para o jovem, sem comprometer a infância.
Diploma de ensino superior pode aumentar salário em até 148%

No Brasil, obter um diploma de nível superior pode representar uma grande vantagem: além de ampliar as oportunidades de emprego, também contribui para salários significativamente mais altos, mais que o dobro dos rendimentos daqueles que concluíram apenas o ensino médio. Apesar disso, cerca de 25% dos alunos desistem da faculdade após o primeiro ano de curso. Esses dados fazem parte do relatório Education at a Glance (EaG) 2025, elaborado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), entidade que reúne as maiores economias do planeta. A edição deste ano do relatório tem como tema central o ensino superior. Segundo os dados, brasileiros entre 25 e 64 anos com diploma universitário recebem, em média, 148% a mais do que aqueles com apenas o ensino médio. Essa diferença salarial supera a média registrada nos países da OCDE, onde o ganho adicional para quem tem ensino superior é de 54%. O Brasil está entre os países com maior retorno salarial para quem conclui o ensino superior, ficando atrás apenas da Colômbia, onde o diploma universitário representa, em média, um aumento de 150% nos rendimentos, e da África do Sul, onde essa vantagem chega a 251%. Apesar disso, o acesso ao ensino superior ainda é limitado. Segundo dados de 2024 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apenas 20,5% da população brasileira com 25 anos ou mais completou esse nível de escolaridade. O relatório também destaca uma preocupação significativa: no Brasil, cerca de 24% dos jovens entre 18 e 24 anos não estão empregados nem em educação ou treinamento, grupo conhecido pela sigla em inglês NEET. Esse índice supera a média dos países da OCDE, que é de 14%. A desigualdade de gênero também é evidente, com 29% das mulheres e 19% dos homens nessa faixa etária fora do mercado de trabalho e da educação em 2024. A professora e socióloga Clara Moreira aponta que a desigualdade social no Brasil opera como um filtro seletivo silencioso. “Quem nasce em famílias de baixa renda, em áreas rurais ou periferias urbanas, quase sempre enfrenta escolas com estrutura precária, professores mal remunerados, disciplinas com defasagem, falta de material didático adequado, transporte escolar caro ou inacessível, além de pressão para trabalhar desde cedo para ajudar no sustento da casa”. Ela afirma que os fatores citados se acumulam. “Quando chega o momento do ensino médio, muitos jovens já perderam aulas, ficaram atrasados, tiveram repetência ou até abandono. Esses déficits se refletem no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), nos vestibulares e até na percepção pessoal de que ‘não sou capaz’ ou ‘não tenho condições’. A consequência é que o ensino superior permanece privilégio de quem já teve vantagens no início”. Estudantes das camadas mais favorecidas têm acesso a cursos mais prestigiados, melhores redes de contato, estágios de qualidade, idiomas, preparação privada. Aqueles que têm apenas o ensino médio, normalmente ocupam espaços onde a competitividade é menor, salários menores, menos estabilidade. Isso gera um círculo vicioso: poucas pessoas de origem pobre chegam ao topo, há pouca mobilidade social, e a desigualdade de renda se perpetua. A psicóloga educacional Mariana Costa explica que além do salário, há a questão da empregabilidade. “Quem conclui o ensino superior tem muito mais chances de conseguir emprego formal, com benefícios, com jornadas decentes, com possibilidade de crescimento. Quem fica com ensino médio, muitas vezes entra em empregos informais, com menor proteção social, jornada exaustiva, ou mesmo desemprego mais frequente. Porque em crises, quem não tem qualificações superiores é o primeiro a sofrer”. Mariana pondera ainda sobre as disparidades internas no ensino superior. “A evasão de 25% no primeiro ano mostra que muitos ingressantes enfrentam choque de realidade, tanto na qualidade do ensino como na adaptação cultural. Muitos alunos têm que manter empregos para se sustentar, o que reduz o tempo para estudar, ou dependem de transporte público precário, moradia distante e falta de alimentação adequada”. Para ampliar o acesso ao ensino superior e garantir a permanência dos estudantes, as especialistas defendem ações como o fortalecimento da educação básica, especialmente nas regiões mais pobres, com investimento em infraestrutura, formação docente e reforço escolar. Também destacam a importância de bolsas, auxílios e assistência estudantil, expansão de vagas públicas de qualidade, políticas de inclusão como cotas e pré-vestibulares comunitários, além de orientação vocacional e mentoria. Outro ponto crucial é o financiamento público sustentável, com regulação rigorosa do setor privado, e o uso responsável da tecnologia e da educação híbrida, sempre com suporte ao aluno e garantia de qualidade.
Mais de 1 bilhão de pessoas vivem com transtornos mentais

De acordo dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 1 bilhão de pessoas vivem com transtornos mentais. Distúrbios de saúde mental, como ansiedade e depressão, estão entre os mais comuns em diferentes regiões do mundo, atingindo indivíduos de todas as idades e classes sociais. Essas condições são hoje a segunda principal causa de incapacidade prolongada, impactando negativamente a qualidade de vida. Além disso, elevam os gastos com cuidados de saúde para pacientes e familiares, e geram prejuízos econômicos significativos em nível global. O suicídio permanece como uma das consequências mais trágicas dos transtornos mentais, sendo responsável por cerca de 727 mil mortes apenas em 2021. Trata-se de uma das principais causas de óbito entre jovens, independentemente do país ou da condição socioeconômica. Embora existam iniciativas globais para enfrentar o problema, os avanços ainda são insuficientes para alcançar a meta estabelecida pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, que prevê a redução em um terço das taxas de suicídio até 2030. No ritmo atual, estima-se que a diminuição chegue a apenas 12% até o fim da década. Além disso, os investimentos na área seguem estagnados. Segundo o relatório Mental Health Atlas 2024, os governos continuam destinando, em média, apenas 2% dos orçamentos nacionais à saúde mental, um percentual que permanece inalterado desde 2017. Além disso, estima-se que apenas 9% das pessoas com depressão no mundo recebam um tratamento minimamente adequado. Para muitos especialistas, o principal obstáculo para o avanço da saúde mental no mundo é a persistência do estigma. “Ainda é cercada de preconceitos, o que impede tanto a população quanto os governos de tratarem o tema com a seriedade exigida. Durante décadas, a sociedade associou transtornos mentais à fraqueza de caráter ou à loucura, criando uma barreira para o diagnóstico precoce e o tratamento adequado”, afirma a psicóloga Lara Fagundes. “Isso faz com que muitas pessoas demorem a procurar ajuda, ou sequer reconheçam que estão enfrentando um problema de saúde mental. Além disso, a falta de informação e a baixa priorização da saúde mental nas políticas públicas impedem avanços significativos na área”, completa. Ela reforça que é preciso romper com a ideia de que a saúde mental é uma questão individual. “Transtornos mentais não escolhem classe social, idade ou país. Eles impactam a produtividade, aumentam os custos com saúde, afetam o desempenho escolar e contribuem para o agravamento de outras doenças crônicas. Quando uma pessoa não tem acesso ao tratamento, o prejuízo não é só dela, mas de toda a sociedade”. O psiquiatra Marcelo Tavares defende que o primeiro passo para transformar esse cenário é integrar a saúde mental ao sistema de saúde como um todo, em vez de tratá-la como algo isolado. “Não basta ter um hospital psiquiátrico na capital. É preciso garantir que unidades básicas de saúde tenham profissionais capacitados para identificar e tratar transtornos mentais comuns, como ansiedade e depressão. A saúde mental precisa estar na atenção primária”. Os especialistas concordam que é possível reverter o atual cenário de negligência, mas isso exige ações coordenadas em diversas frentes. Entre as medidas apontadas como prioritárias estão o aumento dos investimentos públicos na área, a formação e valorização de profissionais especializados, campanhas permanentes de conscientização e combate ao estigma, e a ampliação da rede de atendimento psicossocial. “A mudança passa pela vontade política, hoje, com a tecnologia e os conhecimentos que temos, já é possível oferecer cuidados eficazes com baixo custo, especialmente para os casos mais comuns. Mas é necessário que os gestores públicos entendam que a saúde mental deve ser tratada como prioridade, não como um luxo”, explica Tavares. A psicóloga também destaca a importância da escola e do ambiente de trabalho como espaços de cuidado e prevenção. “A saúde mental deve ser promovida desde cedo, com programas que abordem habilidades socioemocionais, convivência, autoestima e manejo do estresse. Isso reduz a incidência de transtornos e melhora a qualidade de vida”.