Dezembro Laranja alerta para a prevenção do câncer de pele

A chegada de dezembro e do verão reacende um alerta conhecido, porém, negligenciado: o risco do câncer de pele. Com a elevação das temperaturas, aumento do índice de radiação ultravioleta (UV) e maior exposição ao sol, especialistas reforçam a necessidade de cuidados intensificados. O câncer de pele não melanoma é o tipo mais frequente no Brasil (31,3% do total de casos, segundo o Inca) e, apesar de amplamente prevenível, ainda cresce devido a hábitos de exposição inadequados e falta de atenção aos sinais iniciais. De acordo com a dermatologista Helena Moura, a doença surge quando ocorre um crescimento anormal das células cutâneas, geralmente provocada pela radiação solar acumulada ao longo da vida. “Esse dano é progressivo, silencioso e cumulativo. Muitas pessoas acham que apenas queimaduras solares graves oferecem risco, mas pequenas exposições repetitivas, sem proteção, já são suficientes para desencadear mutações que levam ao câncer”. Existem dois grandes grupos da doença: o melanoma, considerado o mais agressivo, e os não melanoma, entre eles o carcinoma basocelular e o espinocelular, geralmente mais comuns e com menor probabilidade de metástase quando tratados precocemente. Os sintomas variam entre manchas, feridas que não cicatrizam e lesões pigmentadas com formatos irregulares. “O principal sinal de alerta é a mudança. Uma pinta que aumentou, uma ferida que sangra, uma mancha que coça ou dói, qualquer alteração persistente deve ser investigada”, afirma. O diagnóstico costuma ser feito por exame clínico e confirmado por biópsia, para isso, a consulta dermatológica regular é fundamental. A recomendação geral é que adultos façam avaliação anual, mas pessoas com pele muito clara, casos na família, ou longo histórico de exposição solar devem aumentar a frequência. “Nos meses de verão, principalmente em dezembro e janeiro, recebemos mais pacientes com lesões suspeitas. A luz solar é mais intensa e episódios de queimadura se tornam mais comuns, o que eleva o risco ao longo dos anos”, destaca. As causas estão relacionadas à exposição aos raios UV, porém, outros fatores podem influenciar, como predisposição genética, uso de câmaras de bronzeamento, proibidas no Brasil, mas ainda buscadas clandestinamente, e envelhecimento natural da pele. O oncologista Ricardo Fagundes reforça que o comportamento preventivo é decisivo. “Dezembro marca o início das férias e muitos brasileiros passam longos períodos ao ar livre sem qualquer proteção. Chapéu, óculos, roupas com proteção e reaplicação do protetor solar a cada duas horas são atitudes simples que salvam vidas”. O tratamento varia de acordo com o tipo e o estágio da doença. As modalidades incluem cirurgia, radioterapia, terapias alvo e imunoterapia, especialmente no caso de melanomas avançados. Segundo Fagundes, a abordagem precoce é sempre mais favorável. “Quando detectado no início, o carcinoma basocelular tem taxas altíssimas de cura com procedimentos pouco invasivos. Já o melanoma pode se espalhar rapidamente, por isso a rapidez na identificação faz toda a diferença”. Para enfrentar o verão com segurança, Fagundes recomenda evitar exposição solar entre 10h e 16h, período de maior radiação; utilizar protetor solar com fator no mínimo 30; buscar sombras sempre que possível; e proteger áreas esquecidas, como orelhas, lábios, nuca e dorso dos pés. “No Brasil, em dezembro, o índice UV frequentemente atinge níveis extremos, superiores aos observados em muitos países tropicais. Isso exige atenção redobrada, principalmente de crianças e idosos”. O método ABCDE, que avalia Assimetria, Borda, Cor, Diâmetro e Evolução das lesões, é uma ferramenta útil para identificar sinais suspeitos. “Ninguém conhece sua pele melhor do que o próprio paciente. Se notou algo diferente procure atendimento imediatamente. O câncer de pele é altamente tratável quando diagnosticado na fase inicial”, conclui.

Audiência pede legislação estadual para ampliar justiça restaurativa

Apesar de o poder público mineiro já implementar algumas iniciativas voltadas à justiça restaurativa, ainda não há uma política plenamente consolidada que garanta sua adoção de forma sistemática. A ausência de uma lei estadual que regulamente essa abordagem, centrada no diálogo e na escuta sensível entre vítima e autor do conflito, foi apontada como uma lacuna durante a audiência pública promovida pela Comissão de Participação Popular da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). Segundo Ilda de Paula, integrante da Comissão de Justiça Restaurativa da OAB-MG, órgão que motivou o deputado Ricardo Campos (PT) a propor a reunião, é fundamental avançar na criação de uma legislação estadual que trate do assunto, de modo a assegurar a implementação de uma política pública contínua. “As ações voltadas ao setor precisam contemplar não apenas a resolução de situações já ocorridas, mas igualmente medidas de caráter preventivo. É fundamental fomentar o diálogo e a escuta ativa dos envolvidos”. Nessa linha, Ricardo Campos sugeriu instituir um espaço permanente de diálogo, reunindo os diferentes setores, com o objetivo de elaborar uma proposta de legislação estadual voltada à justiça restaurativa. “Quando for criado o arcabouço legal, a justiça restaurativa se fortalecerá e terá a capacidade de aumentar seu alcance”, afirmou. O juiz auxiliar da 3ª Vice-Presidência do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), José Ricardo Freitas Veras, igualmente considerou que o assunto seja regulamentado por meio de uma lei estadual. “É necessário institucionalizar a justiça restaurativa em nível estadual para fortalecê-la, por outro lado, a adoção exige o apoio de uma grande rede de parceiros”. Gilson Teixeira, subinspetor da Guarda Civil Municipal de Belo Horizonte, ressaltou que a justiça restaurativa vem sendo utilizada no ambiente escolar para lidar com conflitos. “Ela é fundamental, pois às vezes é um problema entre famílias que se conhecem e tratando do problema na instituição, consegue-se evitar que seja judicializado”. Fernando Gonzaga Jayme, vice-presidente do Conselho Estadual dos Direitos Humanos e coordenador do Programa Ciranda de Justiça Restaurativa da UFMG, destacou a Resolução 225, que amplia a visão da justiça restaurativa e seu caráter preventivo, mas ponderou que, na prática institucional, o modelo é limitado por ser artesanal e individual, focando na compreensão das causas dos conflitos. Ele refletiu que o direito é uma expressão de poder, que por diversas vezes deixa de ser republicano e acaba marginalizando grupos mais vulneráveis. Isabela França Oliveira, delegada da Polícia Civil de Minas Gerais, mencionou iniciativas da instituição que já incorporam princípios da justiça restaurativa em suas práticas. “A Polícia Civil também passou a mediar conflitos e estabilizar a relação, evitando o agravamento das tensões e o cometimento de crimes. O programa Mediar, lançado em 2006, visa prevenir crimes de menor potencial ofensivo por meio de diálogos entre as partes para alcançar acordos. Outro exemplo é o Meditrans, voltado para conflitos de trânsito, que busca soluções sem recorrer à Justiça”. Ela mencionou ainda o programa Dialogar, criado em 2024 para homens agressores de mulheres. O projeto envolve 12 encontros semanais focados no enfrentamento do machismo estrutural e na redução da violência contra a mulher. Gabriel Rodrigues Batista, do Centro Raízes de Justiça Restaurativa e Educação Popular, destacou que é equivocado pensar que a justiça restaurativa foi criada pelo Judiciário. “Ela foi trabalhada pelos povos tradicionais há muito tempo e deve-se considerar essa essência que propõe o cuidado por toda a sociedade com a criança, o adolescente e os mais velhos”. Ele defendeu que a elaboração de uma lei estadual sobre justiça restaurativa inclua as comunidades tradicionais, que possuem conhecimento fundamental sobre o assunto. “Que a construção da legislação seja um processo realmente participativo e popular, mas fora do eixo institucional”.

Turismo de negócios registra crescimento em Belo Horizonte

Os deslocamentos corporativos com destino a Belo Horizonte registraram uma expansão expressiva em 2025, segundo um levantamento da Paytrack, plataforma especializada em gestão de viagens e despesas corporativas. Em alguns trechos, o crescimento ultrapassou 285% em relação a 2024. O aumento reflete a combinação de fatores econômicos, logísticos e estratégicos que têm reposicionado BH como um eixo relevante para negócios, inovação e eventos corporativos. O maior salto partiu de Porto Alegre, que teve uma alta surpreendente de 285,23% no número de passageiros. Em seguida aparece Joinville, com crescimento de 113,21%, e Montes Claros, que também demonstrou forte expansão, registrando 109,09%. A região Norte igualmente contribuiu para a elevação da demanda: Santarém apontou aumento de 93,33%, enquanto Carajás teve expansão de 76,26% nas viagens com destino a Belo Horizonte. Entre os grandes centros urbanos, o Rio de Janeiro, a partir do aeroporto do Galeão, apresentou alta de 51,24%. Já São Paulo, via Congonhas, teve um crescimento mais moderado, mas ainda positivo, de 9,60%. “Belo Horizonte vive um momento de fortalecimento econômico, com a chegada de novas empresas, ampliação de parques tecnológicos e maior oferta de espaços para eventos, isso aumenta naturalmente a circulação de profissionais, que viajam tanto para fechar negócios quanto para participar de treinamentos, feiras e rodadas de investimento”, explica o agente de viagens Vicente Brandão. O impacto também pode ser visto na rede hoteleira de Belo Horizonte. A Savassi segue como a área mais disputada pelos viajantes a trabalho, concentrando 36% das reservas corporativas. O bairro mantém sua posição como um dos pontos mais dinâmicos da capital, graças à presença de cafés, espaços de coworking e escritórios. Logo depois aparece a Pampulha, responsável por 24% das estadias, impulsionada pela grande variedade de hotéis voltados tanto para eventos quanto para o público executivo, além da facilidade de acesso a polos empresariais e instituições de ensino. Outras regiões vêm ampliando sua participação nesse segmento. O Cidade Jardim tem atraído profissionais que preferem se hospedar na área Centro-Sul, enquanto Caiçara e São Cristóvão se fortalecem como opções estratégicas para quem precisa de deslocamentos ágeis e boa conexão com a região Norte e com o aeroporto. Para Brandão, esse movimento tem impacto direto na economia local. “O crescimento das viagens corporativas traz benefícios que vão muito além do fluxo nos aeroportos. Ele impulsiona a rede hoteleira, os restaurantes, os serviços de transporte urbano e movimenta toda a cadeia de fornecedores ligados ao turismo de negócios”. Ele destaca ainda que, diferentemente do turismo de lazer, o corporativo tende a ser mais estável ao longo do ano e, por isso, representa uma oportunidade estratégica para a capital. A especialista em planejamento urbano e desenvolvimento regional, Carla Menezes, afirma que o dado sinaliza que BH está se tornando um hub de encontros e negociações. “O fortalecimento de espaços como o Expominas, a ampliação de centros de inovação e a expansão de coworkings estimulam as empresas a escolherem a cidade como destino. Belo Horizonte oferece infraestrutura competitiva, custo operacional mais baixo do que outras capitais e uma localização estratégica que facilita deslocamentos para todo o Sudeste e Centro-Oeste”. No entanto, Carla alerta que o crescimento exigirá atenção redobrada do poder público. “Para que esse movimento continue, a prefeitura precisa investir em mobilidade urbana, modernização de corredores de ônibus, ampliação da conexão com outras cidades da Região Metropolitana e qualificação dos serviços voltados ao turismo corporativo, além da importância de melhorias no entorno dos centros de eventos e nas áreas com grande concentração de hotéis. Ambientes bem iluminados, calçadas acessíveis e transporte eficiente fazem diferença na experiência do visitante corporativo”.

52% dos lojistas de MG estimam um aumento de vendas no Natal

Os comerciantes mineiros estão otimistas para o Natal de 2025. É o que revela um levantamento da Fecomércio MG, indicando que 52% dos empresários do varejo esperam vender mais do que no ano passado, enquanto 19,2% projetam manter o mesmo nível de vendas de 2024 e 17,7% esperam piora nas vendas. Os dados mostram um clima de confiança no setor, impulsionado por fatores econômicos favoráveis, pela melhora da renda das famílias e pela antecipação de estratégias comerciais voltadas à retomada do consumo. Dentre os comerciantes que anseiam vender mais neste Natal, 52,3% apontam como principal motivo a confiança no período, seguida pelo valor afetivo da data (22,7%) e pelo aquecimento do comércio (19,4%). Outros fatores incluem o décimo terceiro salário (9,3%), a melhora na economia (6,9%), ações promocionais (4,6%) e iniciativas da própria loja (3,7%), enquanto 1,9% veem a redução do desemprego como incentivo ao consumo. Para os que esperam queda nas vendas, 43,8% atribuem a perspectiva ao comércio fraco e à baixa nas vendas, enquanto 27,4% citam o endividamento do consumidor e outros 27,4% apontam a situação econômica do país. Outros fatores incluem o consumidor mais cauteloso (8,2%), o preço elevado dos produtos (8,2%) e a concorrência desleal (4,1%), que também podem impactar negativamente as vendas neste Natal. Segundo a economista Cláudia Menezes, o consumidor mineiro está mais confiante, e isso faz toda a diferença nessa época do ano. “A melhora do mercado de trabalho cria condições para que as famílias se planejem e antecipem compras. O Natal captura esse movimento de maneira muito intensa”. Ela diz que linhas mais acessíveis, como crediário próprio e parcelamento sem juros, ajudam a destravar compras que haviam sido adiadas. “As lojas voltaram a negociar prazos melhores. Isso devolve ao consumidor a sensação de que é possível comprar sem comprometer o orçamento. Para o varejista, representa uma chance concreta de aumentar o tíquete médio e recuperar margens”. O pesquisador de mercado, Felipe Tavares, conta que estratégias para atrair o público são importantes. “Investimentos em kits promocionais, ampliação dos canais de venda online e treinamentos em equipe para oferecer atendimento personalizado. A ideia é facilitar a vida do cliente e transformar a compra em uma experiência agradável”. A sondagem da Fecomércio MG também revelou quais medidas os comerciantes planejam adotar para impulsionar as vendas durante o período de festas. Entre as estratégias mais citadas, 29,5% pretendem investir em promoções e liquidações, enquanto 29% apostam em um atendimento diferenciado para atrair clientes. Outras iniciativas incluem brindes, sorteios e premiações (8,1%), descontos (5,5%) e a ampliação da diversidade no mix de produtos (5,2%). Por outro lado, 7,8% dos entrevistados afirmaram que não realizarão ações específicas, enquanto 6,3% não souberam ou não responderam à questão. Os consumidores estão mais atentos a promoções, mas também valorizam qualidade, atendimento e conveniência. O lojista que consegue combinar esses elementos tende a se destacar. Tavares explica que “a competição está mais acirrada, especialmente com o fortalecimento do comércio eletrônico. As lojas que investiram em omnichannel, retirada rápida e comunicação digital eficiente estão percebendo resultados mais sólidos”. Tavares destaca que, para muitos estabelecimentos, esse é o primeiro ano em que ações estruturadas de marketing digital começaram a madurar. “Tem lojista que só agora entendeu como usar as redes sociais para gerar fluxo na loja física. Outros ampliaram catálogos e investiram em logística. Tudo isso aumenta o alcance e cria novas oportunidades de venda”, afirma. A soma de preparação, condições econômicas favoráveis e mudança no perfil de consumo cria um cenário de Natal mais promissor do que nos últimos anos. “O varejo mineiro chega ao fim de 2025 mais profissionalizado e atento às tendências, fazendo com que o otimismo não seja apenas intuitivo, mas sustentado por dados e planejamento”, conclui.

30% dos casos de racismo acontecem no ambiente de trabalho

Um levantamento da plataforma Jusbrasil, que analisou 4.838 decisões entre janeiro e outubro de 2025, mostrou que o ambiente de trabalho é o principal cenário de denúncias de racismo e injúria racial, concentrando 30% dos casos. Em 1.113 ocorrências havia vínculo direto entre empregado e empregador, número superado apenas pelas agressões praticadas por desconhecidos. Espaços públicos registraram 974 episódios e estabelecimentos comerciais, 805. Do total de decisões, 39,5% resultaram em condenações criminais. Esses dados, obtidos a partir de bilhões de documentos jurídicos, reforçam a gravidade do problema, também evidenciada pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, que aponta mais de 18 mil registros anuais de injúria racial e racismo. Para discutir o assunto, o Edição do Brasil conversou com o diretor de Relações Internacionais da União de Negras e Negros pela Igualdade (Unegro), Alexandre Braga. O que esses dados revelam sobre a estrutura das relações de trabalho no Brasil? Os dados mostram que o país ainda possui relações trabalhistas profundamente desiguais e racistas, refletindo uma sociedade historicamente marcada pelo machismo, homofobia e discriminação estrutural. Mesmo com práticas como ESG, compliance e outros mecanismos empresariais, essas desigualdades persistem. A diferença salarial entre trabalhadores brancos e negros que ocupam a mesma função e têm a mesma formação chega a 58,3% na região Nordeste. Entre empreendedores, a renda média é de R$ 2.700 para negros e R$ 4.202 para brancos, segundo o Ministério do Trabalho e o IBGE. Quais fatores estruturais e culturais contribuem para que vínculos formais de trabalho concentrem tantas ocorrências de racismo? As estruturas herdadas da monarquia portuguesa ainda influenciam as relações de trabalho no Brasil, onde o padrão europeu segue sendo visto como ideal, mesmo após a Constituição de 1988. A evasão escolar é alta, especialmente entre jovens negros que deixam o ensino médio para buscar renda e combater a fome, criando desigualdades antes mesmo da entrada no mercado de trabalho. Embora políticas como ProUni, bolsas de estudo, cursinhos populares e programas de permanência tenham avançado, elas ainda não superam a forte estrutura racista do país. Nas empresas, prevalece um ambiente hierárquico que desestimula denúncias por medo de retaliação, fazendo com que práticas discriminatórias sigam sem consequência. A legislação brasileira atual é suficiente para lidar com casos de racismo e injúria racial no ambiente corporativo? A legislação brasileira é ampla e relativamente avançada, no entanto, faltam instrumentos eficazes de punição: os dados de delegacias, Ministério Público e CNJ mostram que praticamente não há prisões por crimes de racismo, seja no trabalho, no esporte ou em espaços públicos. A responsabilização é branda e, muitas vezes, favorecida por estratégias jurídicas e por advogados de alto custo que conseguem livrar agressores de punições. Isso desencoraja novas denúncias, como se observa em casos de injúria racial e assédio em grandes empresas. Apesar da visibilidade proporcionada pelas redes sociais, elas ainda não garantem a efetiva responsabilização dos agressores. Qual deveria ser o protocolo mínimo de uma empresa ao receber uma denúncia de racismo entre funcionários? Há necessidade de uma esfera administrativa, em empresas públicas e privadas, que aplique punições econômicas ao agressor, como a destinação de parte do salário para reparar a vítima. Isso poderia fortalecer o combate ao racismo, já que registros na polícia ou no Ministério Público não têm reduzido os casos. O processo criminal é longo e desgastante, dificultando denúncias. Embora práticas ESG avancem na promoção de direitos humanos, ainda há uma grande lacuna: a falta de punições financeiras claras, o que acaba favorecendo a continuidade das agressões. Como fomentar ambientes de trabalho verdadeiramente inclusivos e equitativos? Há menos de vinte anos o Brasil proibiu a separação entre elevador social e de serviço e a exigência de aparência física em currículos, antes usada para discriminar negros. Apesar de avanços na valorização da cultura negra, o mercado de trabalho ainda reflete uma sociedade racista, machista, homofóbica e etarista. Enfrentar o racismo estrutural exige ações permanentes e políticas públicas articuladas. O engajamento das novas gerações é essencial para elevar a cidadania da população negra. No ano em que o Dia da Consciência Negra se tornou feriado nacional, o país avança gradualmente no reconhecimento de sua contribuição.

Natação combina esforço muscular com baixo impacto

A natação é uma das práticas esportivas mais completas presente em academias, clubes e projetos comunitários, porém, ainda pouco valorizada. Empurrar o corpo através da água mobiliza diversos sistemas simultaneamente, e essa combinação de esforço eficiente com baixo impacto torna a atividade singular em seus benefícios. Para a fisiologista Carla Menezes, a natação se destaca por proporcionar um trabalho muscular profundo sem gerar impacto nas articulações. “É uma das poucas modalidades que envolvem praticamente todos os grandes grupos musculares, ao mesmo tempo em que protege tendões e articulações”. Esse equilíbrio entre esforço e suavidade faz da natação um exercício viável tanto para adultos em ritmo intenso de trabalho quanto para pessoas com limitações físicas, esclarece Carla. “Indivíduos que sofrem com dores crônicas, como lombalgia e artrose, encontram na água um ambiente mais seguro para se movimentar, fortalecendo músculos de apoio e ganhando mobilidade ao longo do tratamento”. No caso das crianças, a natação é vista como aliada do desenvolvimento motor e cognitivo. Carla afirma que a modalidade contribui para a coordenação, o equilíbrio e a percepção espacial. “Quando a criança se movimenta na água, ela precisa ajustar continuamente o corpo para flutuar, respirar e avançar. Isso ativa áreas cerebrais relacionadas ao planejamento motor e à atenção”. Além disso, a prática em grupo auxilia no convívio social e na criação de rotinas saudáveis desde cedo. “O ambiente da piscina é lúdico, acolhedor e oferece uma sensação de conquista muito forte. Cada braçada que a criança aprende representa um avanço visível, e isso reforça a autoestima”, ressalta. Entre adultos, especialmente aqueles que conciliam trabalho, família e estudos, a natação tem sido procurada como válvula de escape para o estresse. O educador físico Rafael Goulart diz que a sensação de imersão e o ritmo contínuo dos movimentos ajudam a desacelerar a mente. “A água induz um estado de foco suave. A pessoa presta atenção no movimento do corpo, na respiração e no contato com o meio líquido, o que reduz a ruminação mental e favorece um tipo de meditação ativa”. Já para os idosos, a natação vem se consolidando como ferramenta preventiva e terapêutica. Goulart explica que a atividade auxilia na preservação da massa muscular e na melhora do equilíbrio, dois fatores essenciais para a autonomia na terceira idade. “A água oferece resistência natural, permitindo treinos eficazes mesmo com baixa intensidade e isso ajuda a manter força e flexibilidade, reduzindo o risco de quedas”. Ainda há um ganho adicional pouco comentado: o efeito emocional da prática em grupo. “Muitos idosos enfrentam solidão e reclusão social. A piscina, porém, vira um ponto de encontro. Conversam, riem, constroem vínculos. Esse componente social tem impacto direto na saúde mental”, relata Goulart. Em paralelo aos benefícios individuais, treinadores apontam que a natação é uma atividade democrática, acessível a diferentes perfis e necessidades. “Temos alunos que treinam para provas competitivas, outros que buscam emagrecimento, alguns que precisam de reabilitação física e muitos que só querem relaxar. Todos encontram um ritmo próprio na água”. Ele lembra que, ao contrário de esportes de impacto ou que dependem do clima, a natação pode ser praticada durante todo o ano, o que facilita a criação de uma rotina contínua. À medida que mais pessoas descobrem seus benefícios, cresce também a compreensão de que a natação não é apenas um esporte, mas uma experiência completa: trabalha o corpo, acalma a mente e conecta indivíduos. Para Carla, “nadar é, ao mesmo tempo, exercício e cuidado, esforço e leveza. Uma forma de reencontrar o próprio ritmo dentro e fora da água”.

Arte e reflexão se encontram em exposição “Pausa para o devir”

Refletir e, ao mesmo tempo, explorar novos caminhos. Esse é o propósito da exposição “Pausa para o devir”, promovida pela Fundação Torino e pela Casa Fiat de Cultura, em cartaz até 7 de dezembro de 2025. Sob curadoria de Marconi Drummond, a mostra apresenta instalações de diferentes formas e materiais criadas pela artista visual, educadora e contadora de histórias Stela Barbieri, em diálogo com produções coletivas da comunidade escolar da Fundação Torino. A iniciativa proporciona uma experiência imersiva, na qual arte e educação se conectam por meio da coparticipação entre a artista, os alunos e o público. Feitas com materiais como bambu, sementes e cabaças, as instalações convidam o público a entrar, permanecer e experimentar o ritmo da pausa, seja para descanso ou diálogo. Descrita por Stela Barbieri como uma “obra-oficina”, a exposição propõe ambientes de desaceleração que estimulam a imaginação, a atenção plena e a reflexão interior. “A exposição ‘Pausa para o devir’ é um convite para estar presente e religar o que já foi com o que está por vir, no balanço dos corpos entre a terra e o céu. Uma proposta de encontro consigo e o mundo, entre a arte e a educação”, reflete a artista. Na galeria da Casa Fiat de Cultura, grandes casulos feitos de bambu e cabaças abrigam cadeiras de balanço que estimulam momentos de pausa. Integrando elementos táteis, sensoriais e sonoros, eles despertam a imaginação e a reflexão por meio de narrativas, músicas, histórias tradicionais e composições próprias, mescladas a sons da natureza, vozes e canções. Há também casulos que podem ser colocados sobre a cabeça, preparados com sementes e cascas, permitindo aos visitantes explorar novas sonoridades a partir de seus próprios movimentos. No núcleo videográfico, os visitantes podem acompanhar o desenvolvimento das oficinas com estudantes de diferentes idades da Fundação Torino, que geraram desenhos, monotipias e objetos escultóricos. A exposição também funciona como uma obra-oficina: um espaço fértil que convida cada pessoa a criar. Entre as atividades participativas está o “Perguntatório”, uma instalação tipográfica na qual os visitantes podem enviar perguntas ao futuro. Outro recurso, em formato de lousa, estimula a criação de desenhos e narrativas sobre pausas e seus possíveis desdobramentos. Para o curador da mostra, Marconi Drummond, “mais do que interrupção, a pausa aqui é potência: usina de experiências compartilhadas e exercício de imaginação em tempos de aceleração. Pausa como ‘direito ao sossego’, como nos lembra a artista Stela Barbieri”. O título “Pausa para o devir” sintetiza a ideia central da exposição. A pausa é vista como um instante de atenção e respiro em meio à correria do dia a dia, enquanto o conceito de devir remete à mudança e ao fluxo constante. Entre esses dois princípios, a mostra propõe um espaço que convida o público a explorar novas maneiras de se relacionar com o tempo e com sua própria sensibilidade. O presidente da Casa Fiat de Cultura, Massimo Cavallo, completa, “a exposição é, portanto, um convite a entrar nos casulos de imaginação que se abrem na Casa Fiat de Cultura, a experimentar outras formas de estar presente”. “Pausa para o devir” marca os 50 anos da Fundação Torino. Além das obras de Stela Barbieri, a exposição valoriza a produção coletiva dos alunos, que contribuíram com criações gráficas, objetos e experimentações visuais. Essa participação evidencia a vocação da escola como espaço de criatividade e aprendizado constante, alinhando-se à proposta da mostra, que celebra a arte como uma prática colaborativa. “Ao completar 50 anos, a Fundação Torino convida todos a fazer uma pausa, não como interrupção, mas como gesto de presença. A exposição Pausa, que trazemos para a cidade como presente coletivo, traduz com profundidade esse momento da nossa história: um tempo de escuta, contemplação e reinvenção. Celebramos meio século de tradição e inovação propondo uma reflexão sobre o tempo, sobre a beleza do agora e sobre os futuros que desejamos construir, com consciência, sensibilidade e esperança”, afirma Márcia Naves, diretora da Fundação Torino.

Pagamento do 13º salário deve injetar R$ 34 bilhões na economia de Minas

O 13º salário deve movimentar cerca de R$ 34 bilhões na economia mineira até o fim do ano. Segundo levantamento do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese), esse montante representa perto de 3% do PIB de Minas Gerais, calculado em R$ 1,128 trilhão. O valor previsto para Minas representa 18,6% da quantia destinada ao Sudeste, estimada em R$ 183,2 bilhões, e corresponde a 9,2% do total calculado para todo o país, que chega a R$ 369,4 bilhões. No Estado, cerca de 10,2 milhões de pessoas devem receber o 13º salário em 2025, um valor médio de R$ 2.970 por beneficiário. De acordo com o levantamento, os trabalhadores do setor formal, sejam celetistas ou estatutários, correspondem a 58,2% dos beneficiários em Minas Gerais, totalizando 5,937 milhões de pessoas. Os aposentados e pensionistas do INSS representam 39,7% do total, cerca de 4,048 milhões, enquanto os empregados domésticos com registro em carteira somam 2,2%, ou 222 mil pessoas. Os trabalhadores formais também concentram a maior parcela dos valores a serem pagos no Estado, totalizando R$ 22,706 bilhões, equivalentes a 66,7% do montante. Já os beneficiários do INSS receberão R$ 7,243 bilhões, ou 21,3% do total. Os aposentados e pensionistas do Regime Próprio estadual somam R$ 2,522 bilhões, correspondendo a 7,4%, enquanto os do Regime Próprio municipal receberão R$ 1,202 bilhão, representando 3,5% do valor total. Para a economista Fernanda Ribeiro, esses números evidenciam não apenas a dimensão financeira, mas também o impacto social. “O 13º salário é uma ferramenta importante de injeção de liquidez na economia. Ele movimenta o comércio, estimula serviços e permite que famílias possam planejar melhor suas finanças no fim do ano”. Ela ressalta que boa parte dos recursos é direcionada a despesas essenciais, como quitação de dívidas, compras de Natal, educação e alimentação, mas também há uma parcela significativa destinada ao lazer e turismo, o que ajuda a fortalecer setores que tradicionalmente crescem nessa época. Nesse final de ano, a gratificação é crucial para a estabilidade econômica das famílias, afirma Fernanda. “Muitos trabalhadores utilizam o 13º para pagar contas que acumulam ao longo do ano ou quitar parcelas de empréstimos e financiamentos. Isso evita que dívidas se tornem impagáveis e oferece um alívio financeiro muito importante”. A profissional recomenda que parte do valor seja reservada para emergências ou investimentos de curto prazo, de forma a prolongar os benefícios da injeção de dinheiro no orçamento pessoal. A dinâmica de gastos também tem efeito direto no comércio e na economia local. Dados de anos anteriores mostram que boa parte do 13º salário é gasta em compras de bens duráveis, presentes de Natal e vestuário, além de alimentação e turismo. Na avaliação de Fernanda, essa movimentação ajuda a sustentar empregos temporários e estimula setores de serviços, que geralmente registram alta demanda nesse período. “O impacto vai muito além do consumidor final. Lojas, restaurantes, hotéis e empresas de transporte se beneficiam do aumento do consumo, o que cria um efeito multiplicador positivo na economia estadual”. Outro aspecto destacado pelos especialistas é a importância do 13º salário para a população mais vulnerável, que depende desse recurso para complementar a renda. “Para muitas famílias, o benefício é a principal oportunidade de quitar dívidas e reorganizar o orçamento. Ele traz alívio e permite um fechamento de ano mais tranquilo”, afirma o educador financeiro Ricardo Valente. A orientação do especialista é que os beneficiários planejem o uso do 13º, priorizando quitação de dívidas, poupança e investimentos que possam gerar retorno, garantindo que o efeito do benefício vá além de alguns meses e se transforme em vantagem para todo o ano seguinte. A primeira parcela do 13º salário precisa ser creditada na conta do trabalhador até 28 de novembro. Conforme a legislação trabalhista, o pagamento pode ser feito em até duas parcelas ou de forma integral, sendo que, neste último caso, o valor total também deve ser depositado até o final do mês. Se o empregador optar pelo pagamento em duas parcelas, a segunda deve ser realizada até 20 de dezembro.

Número de casais que não possuem filhos dobra em 20 anos

Nos últimos 20 anos, o Brasil registrou um aumento expressivo no número de famílias compostas por casais sem filhos. Em 2000, esse tipo de arranjo representava 14,9% dos lares brasileiros; em 2022, a proporção alcançou 26,9%. Os dados são do suplemento Nupcialidade e Família do Censo 2022, divulgado pelo IBGE. Ao contabilizar as famílias compostas por casais sem filhos, o instituto considera tanto os domicílios habitados apenas pelos dois cônjuges quanto aqueles em que o casal vive com outros parentes que não sejam seus filhos. De acordo com o relatório, nas últimas décadas houve mudanças na estrutura familiar. “Maior participação da mulher no mercado de trabalho, baixas taxas de fecundidade e o envelhecimento da população influenciaram no aumento do percentual de casais sem filhos”, afirma o estudo. Em contrapartida, o Censo 2022 apontou que, pela primeira vez desde o ano 2000, os casais com filhos passaram a representar menos da metade das 61,2 milhões de famílias do país. No Censo de 2000, esse grupo correspondia a 63,6% dos lares; em 2010, caiu para 54,9%, e, em 2022, chegou a 45,4%. Além do aumento dos lares formados por casais sem filhos, também houve crescimento no número de moradias unipessoais (aquelas em que vive apenas uma pessoa). Em 2010, esse tipo de arranjo representava 12,2% dos domicílios brasileiros, e em 2022 passou para 19,1%. Isso significa que, atualmente, uma em cada cinco residências do país é ocupada por um único morador. Nesse intervalo de 12 anos, o total de pessoas vivendo sozinhas subiu de 4,1 milhões para 13,6 milhões. A mudança revela não apenas novas formas de organização familiar, mas também profundas transformações econômicas, sociais e culturais. “Estamos diante de um fenômeno global, mas que no Brasil ganha contornos muito particulares. Durante décadas, o modelo tradicional de família com pai, mãe e filhos predominou, agora, vemos um aumento expressivo de casais que adiam ou desistem da maternidade e da paternidade, seja por questões financeiras, de carreira, ou por uma nova compreensão sobre o que é uma vida plena”, esclarece a socióloga Andreia Lima. Entre os fatores que explicam essa transformação, o peso do custo de vida é um dos principais. Ela diz que criar um filho no Brasil pode custar centenas de milhares de reais até a vida adulta, valor que cresce ano a ano devido à inflação em setores como educação, saúde e moradia. “Os jovens adultos de hoje enfrentam um cenário econômico muito diferente do que seus pais enfrentaram. O mercado de trabalho é mais competitivo, o preço dos imóveis disparou e o custo de manter uma criança em uma boa escola privada, por exemplo, é altíssimo, tudo isso pesa na decisão de ter filhos”. A mudança no papel da mulher é central nesse fenômeno. Nas últimas décadas, mais brasileiras priorizaram estudos e carreira, alcançando independência financeira e adiando, ou renunciando, à maternidade. “O avanço da educação feminina e a entrada massiva das mulheres no mercado de trabalho mudaram completamente as dinâmicas familiares. Ter filhos, que antes era quase uma obrigação social, hoje é uma escolha, e muitas mulheres preferem adiar ou renunciar essa escolha”, explica a antropóloga Ana Luísa Furtado. O envelhecimento populacional é outro fator que interage com esse fenômeno. Com a queda da taxa de natalidade, o Brasil caminha para se tornar um país de população predominantemente idosa nas próximas décadas. “Menos filhos hoje significa menos jovens amanhã. Isso vai impactar diretamente o mercado de trabalho e o sistema previdenciário. Teremos que lidar com uma população economicamente ativa menor, o que pode comprometer o equilíbrio das contas públicas e aumentar a pressão sobre os sistemas de saúde e aposentadoria”, alerta. Mas nem tudo é uma questão econômica. Há também aspectos culturais e psicológicos em jogo. “Vivemos em uma era em que a individualidade é muito valorizada. O discurso do ‘autocuidado’ e da realização pessoal ganha força, e muitos casais preferem investir em experiências e liberdade, isso não é um sinal de egoísmo, mas sim de uma mudança de paradigma”, observa Andreia. “O país precisa de políticas que conciliem a liberdade de escolha com o incentivo à natalidade. Isso passa por creches acessíveis, licença parental ampliada, apoio a mães solo e programas de conciliação entre trabalho e família”. Ela lembra que países desenvolvidos enfrentam dilemas semelhantes e têm apostado em políticas de incentivo à natalidade, como subsídios e licenças remuneradas mais longas. “O que estamos vendo é a pluralização da ideia de família. O importante é entender que essas novas configurações não representam uma crise, mas uma evolução das relações humanas”, conclui a socióloga.

84 mil novos casos de tuberculose são registrados por ano

De acordo com o Boletim Epidemiológico da Tuberculose de 2025, o número de novos diagnósticos permanece em torno de 84 mil casos. Apesar de uma leve redução entre 2023 (84.994 casos) e 2024 (84.308 casos), observa-se uma tendência de aumento desde 2020, quando foram notificados 69.681 casos. Apesar dos esforços de vigilância e tratamento gratuitos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a doença segue em níveis considerados altos, e novembro é o mês de conscientização devido ao Dia Nacional de Combate à Tuberculose, celebrado em 17 de novembro. A tuberculose é uma doença que afeta principalmente os pulmões, mas também pode atingir outros órgãos, como rins, ossos e o sistema nervoso central. “A transmissão ocorre quando uma pessoa doente tosse, fala ou espirra, liberando pequenas gotículas que contêm a bactéria. Essas partículas podem permanecer suspensas no ar por várias horas, especialmente em ambientes fechados e mal ventilados”, explica a infectologista Mariana Couto. Os sintomas, em geral, são sutis no início, o que dificulta o diagnóstico precoce. Tosse persistente por mais de três semanas, febre baixa, sudorese noturna, perda de peso e cansaço constante são sinais de alerta. “Muitas pessoas confundem os primeiros sintomas com uma gripe prolongada ou uma bronquite simples, o que atrasa a procura por atendimento médico. Quando o diagnóstico é tardio, o risco de transmissão aumenta significativamente”, acrescenta. O diagnóstico da tuberculose é feito por meio de exames clínicos, radiografia de tórax e testes laboratoriais. O pneumologista Ricardo Avelar explica que o principal exame é o baciloscópico, que detecta a presença da bactéria no escarro do paciente. “Nos últimos anos, o Brasil ampliou o uso de testes rápidos, como o GeneXpert, que identifica o DNA do Mycobacterium tuberculosis e ainda verifica se há resistência aos antibióticos de primeira linha. Esse é um avanço importante, mas ainda há desigualdade no acesso a esses testes em muitas regiões do país”. Apesar da disponibilidade do tratamento, o combate à tuberculose no Brasil enfrenta obstáculos complexos. Fatores como pobreza, más condições de moradia, desnutrição e acesso precário aos serviços de saúde criam um ambiente propício para a disseminação da doença. “A tuberculose não é apenas uma questão médica, mas também um problema social. Onde há desigualdade, há mais casos e é preciso olhar para a doença de forma integrada, com políticas que vão além da saúde”. De acordo com Mariana, o governo precisa reforçar a vigilância epidemiológica e melhorar a detecção precoce dos casos. “O Brasil tem capacidade técnica e rede de laboratórios, mas carece de mais investimentos em capacitação profissional e tecnologia. Além disso, campanhas de conscientização são essenciais para combater o estigma que ainda cerca a doença”. Prevenção A prevenção da tuberculose envolve ações que vão desde a vacinação até a melhoria das condições de vida. A vacina BCG, aplicada ainda na infância, é eficaz na proteção contra as formas mais graves da doença, embora não impeça a infecção pulmonar em adultos. “A imunização é um passo fundamental, mas sozinha não resolve o problema. Precisamos também garantir moradias ventiladas, reduzir a superlotação em presídios e abrigos, e intensificar a busca ativa por casos em comunidades vulneráveis”, explica a médica. O Brasil tem ampliado significativamente suas ações para erradicar a tuberculose como problema de saúde pública, priorizando estratégias de prevenção e a adoção de práticas inovadoras de cuidado. Em 2024, observou-se um aumento de 30% no número de tratamentos preventivos em relação a 2023, resultado da expansão do uso de terapias medicamentosas de curta duração (com três meses de tratamento) que já correspondem a 72% do total, segundo o Boletim Epidemiológico da Tuberculose 2025. “A luta contra a tuberculose é, portanto, mais do que uma questão médica: é um compromisso com a equidade e a dignidade humana. Reduzir o número de casos no Brasil requer investimento, conscientização e vontade política”, conclui Avelar.