Carnaval de Belo Horizonte deve atrair público de 6,5 milhões de foliões

A proximidade do Carnaval de 2026 já começa a impactar a hotelaria de Belo Horizonte. Logo na primeira semana de janeiro, a taxa média de ocupação dos hotéis da capital gira entre 70% e 75%. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis de Minas Gerais (ABIH-MG), estabelecimentos localizados nas áreas próximas aos principais circuitos carnavalescos apresentam níveis de reserva perto do limite. De acordo com a entidade, o quadro aponta para uma procura mais antecipada do que a registrada em anos anteriores, em sintonia com a estimativa de aumento do público do evento. Ainda é possível encontrar vagas, sobretudo em hotéis fora do hipercentro e em áreas com melhor conexão viária, o que evidencia o papel da mobilidade urbana na distribuição dos visitantes pela cidade. Conforme levantamento do Observatório do Turismo de Minas Gerais, em 2025, a ocupação média da rede hoteleira de Belo Horizonte durante o Carnaval ultrapassou 87%. Para 2026, a projeção é de novo crescimento, com chance de a taxa se aproximar de 100% em uma parcela expressiva dos meios de hospedagem. Na avaliação da Associação Brasileira de Agências de Viagens em Minas Gerais (Abav-MG), a previsão é de um aumento em torno de 10% no número de foliões em comparação ao ano anterior, com a possibilidade de o Carnaval atrair aproximadamente 6,5 milhões de participantes. “Hoje, o visitante entende que BH deixou de ser uma aposta e se tornou uma certeza no calendário do Carnaval brasileiro. A cidade conseguiu criar um modelo próprio de festa, que mistura espontaneidade, organização e forte apelo cultural. Isso atrai desde jovens em busca de grandes blocos até famílias e turistas interessados em experiências mais tranquilas”, avalia a turismóloga Ana Carolina Costa. Investimentos em mobilidade urbana e na organização dos circuitos têm ajudado a distribuir melhor o fluxo de foliões pela cidade, ampliando o impacto positivo para bairros além do hipercentro, esclarece Ana Carolina. “Quando o turista se hospeda fora da região central e consegue se deslocar com facilidade, consome em mais lugares, movimentando bares, restaurantes, comércio e serviços em diferentes pontos da capital”. Os reflexos econômicos desse movimento já são sentidos antes mesmo do início oficial da folia. Com hotéis cheios, cresce a demanda por mão de obra temporária, serviços de transporte, alimentação, produção cultural e eventos. A cadeia produtiva envolve desde costureiras e músicos até empresas de logística, segurança e limpeza urbana. “Quando milhões de pessoas chegam a Belo Horizonte, elas passam a demandar hospedagem, alimentação, transporte, lazer e serviços em geral. Isso gera um efeito imediato no faturamento de hotéis, restaurantes, bares, aplicativos de mobilidade, táxis, comércio e prestadores de serviço”, destaca o economista Carlos Mendonça. Outro impacto relevante está na geração de empregos temporários. Durante o período que antecede e inclui o Carnaval, há uma alta na contratação de trabalhadores para funções como recepção, limpeza, segurança, atendimento, produção cultural, montagem de estruturas e logística. “Essas vagas são fundamentais para complementar a renda de muitas famílias e reduzir a informalidade em um período concentrado do ano”, afirma. Além disso, muitos profissionais autônomos, como ambulantes, músicos, técnicos de som e artistas, encontram no Carnaval uma das principais oportunidades de ganho do calendário anual. Com o aumento da atividade econômica, cresce a coleta de impostos municipais, como o ISS, além de taxas e tributos ligados a eventos, hospedagem e serviços. Esses recursos, segundo Mendonça, podem ser reinvestidos em áreas essenciais. “Quando bem planejado, o Carnaval gera receita que pode retornar para a população na forma de melhorias urbanas, infraestrutura, mobilidade e políticas culturais”. Há ainda benefícios em médio e longo prazo, como a visibilidade nacional conquistada por Belo Horizonte como destino carnavalesco, que fortalece a imagem da cidade e estimula novas visitas ao longo do ano. “Muitos turistas que conhecem BH no Carnaval retornam em outros períodos, seja para eventos culturais, gastronomia ou negócios. Isso ajuda a reduzir a sazonalidade do turismo e cria um fluxo mais constante de visitantes”, conclui Ana Carolina.

109 óbitos foram registrados em acidentes no feriado de Ano Novo

Durante o feriado de Ano Novo, acidentes registrados em rodovias federais deixaram 109 mortos e 1.315 pessoas feridas, de acordo com dados da Operação Ano Novo divulgados pela Polícia Rodoviária Federal (PRF). O balanço considera ocorrências registradas entre 30 de dezembro de 2025 e 4 de janeiro de 2026. Nesse intervalo, a PRF intensificou as ações de fiscalização e as iniciativas voltadas à prevenção de acidentes provocados por comportamentos de risco no trânsito. Na Operação Ano Novo na passagem de 2024 para 2025, entre 27 de dezembro e 1º de janeiro, houve 79 mortes e 1.339 feridos nas rodovias federais. De acordo com a PRF, na ação mais recente foram abordadas 101.118 pessoas e 74.594 veículos, e contabilizados 1.152 acidentes de trânsito. Os estados que tiveram mais acidentes foram Minas Gerais (5.040), seguido por Mato Grosso do Sul (4.885) e Santa Catarina (4.517). Segundo a PRF, foram realizados 61.426 testes de alcoolemia, que resultaram em 789 autuações por consumo de álcool. As infrações incluem desde a recusa em realizar o teste até a confirmação de presença de álcool no organismo, e qualquer pessoa que apresente sinais de embriaguez pode ser penalizada. A polícia também contabilizou 23.079 veículos trafegando acima do limite de velocidade. Os estados com mais registros foram Minas Gerais (4.105), Paraná (3.818) e Rio Grande do Sul (1.837). Outras infrações comuns nas rodovias federais incluíram ultrapassagens proibidas (3.438), não uso de cinto de segurança ou de cadeirinhas para crianças (3.470) e utilização de celular ao volante (341). “Esses números mostram que, mesmo com campanhas e fiscalização intensiva, atitudes imprudentes continuam sendo uma das principais causas de mortes no trânsito brasileiro. A velocidade excessiva reduz drasticamente o tempo de reação, aumenta a gravidade das colisões e muitas vezes torna qualquer manobra de emergência ineficaz”, explica o especialista em segurança viária e trânsito, José Carlos Souza. A imprudência não é o único fator que contribui para os acidentes. Fadiga, distração e consumo de álcool ou outras substâncias potencializam os riscos, e as consequências podem ser trágicas, principalmente em trechos longos e com grande fluxo de veículos. Para Souza, a conscientização dos motoristas deve começar antes mesmo de subirem ao volante. “Não basta apenas aplicar multas ou reforçar a fiscalização. É fundamental trabalhar a educação e o autocontrole. Campanhas que ensinem sobre os efeitos do álcool, do sono e da atenção no trânsito ajudam a mudar a mentalidade do motorista de forma duradoura”. Entre as estratégias mais eficazes, Souza aponta programas de educação contínua e campanhas preventivas que utilizem tecnologia e comunicação direta. “Uso de aplicativos que alertam sobre velocidade e condições das vias, cursos de direção defensiva e ações em escolas e empresas podem reduzir significativamente os acidentes”. O professor de direção, Leonardo Silveira, alerta que dirigir com atenção não é apenas uma responsabilidade individual, mas coletiva. “Quando cada motorista assume sua responsabilidade, o risco de acidentes graves é reduzido, principalmente em períodos de maior fluxo, como feriados e férias escolares. Planejar a viagem, respeitar limites de velocidade, fazer pausas, não usar álcool e priorizar a segurança são atitudes simples, mas capazes de evitar tragédias”. Ele destaca que a combinação de educação, fiscalização, tecnologia e hábitos conscientes pode diminuir significativamente o número de acidentes graves, mas é preciso consistência. “Não basta agir apenas em feriados, a mudança de comportamento deve ser contínua e cada motorista que dirige de forma segura contribui para um trânsito mais protegido e menos letal”.

Janeiro Branco alerta para os cuidados com a saúde mental

A campanha Janeiro Branco chega a cada início de ano convidando a sociedade a refletir sobre a saúde mental como parte essencial do bem-estar e da qualidade de vida. Criada para estimular o diálogo, reduzir estigmas e incentivar o cuidado emocional, a iniciativa aproveita o simbolismo do mês de recomeços para lembrar que a mente também precisa de atenção, planejamento e acolhimento. No Brasil, os jovens concentram o maior número de internações associadas a transtornos de saúde mental, embora sejam o grupo que menos procura os serviços da Atenção Primária à Saúde, conforme estudo elaborado por pesquisadores da Fiocruz. O sexo masculino entre 15 e 29 anos concentra 61,3% das internações relacionadas à saúde mental. Nessa faixa, o índice chega a 708,4 hospitalizações a cada 100 mil habitantes, cerca de 57% superior ao observado entre as mulheres, cuja taxa é de 450 por 100 mil. O fator predominante para essas internações entre os homens é o consumo abusivo de substâncias psicoativas, que responde por 38,4% dos casos. Dentre eles, 68,7% envolvem o uso combinado de mais de uma droga, seguido pelo consumo de cocaína (13,2%) e álcool (11,5%). Considerando a população jovem em geral, as internações se distribuem de forma semelhante entre o uso problemático de drogas (31%) e os transtornos do espectro esquizofrênico (32%). Logo após, destacam-se os transtornos do humor, responsáveis por 23% dos casos. Segundo a psicóloga Lara Fagundes, falar sobre o tema ainda é um desafio em muitas famílias e ambientes de trabalho. “Durante muito tempo, fomos ensinados a esconder emoções e a seguir em frente sem questionar o impacto disso na nossa vida. O Janeiro Branco surge como um convite coletivo para normalizar conversas sobre sentimentos, ansiedade, frustrações e expectativas, mostrando que cuidar da mente é um ato de responsabilidade consigo mesmo”. Ela destaca que emoções reprimidas podem se manifestar de diversas formas, como dificuldades de concentração, irritabilidade constante, alterações no sono e queda no rendimento escolar ou profissional, afetando diretamente a forma como a pessoa se relaciona com o mundo. Em 2025, o país pode ter ultrapassado a marca de 500 mil afastamentos do trabalho causados por transtornos mentais e comportamentais, de acordo com projeções da Caju, empresa especializada em benefícios corporativos e tecnologia voltada à gestão de pessoas. Para chegar a esse cenário, a empresa analisou e reuniu dados oficiais do INSS e do Ministério da Previdência Social. Os números indicam um crescimento de 13,7% na média mensal de afastamentos em relação a 2024 (o volume passou de 39,3 mil para 44,7 mil registros por mês). A ansiedade lidera entre os fatores que motivam o afastamento profissional, sendo responsável por cerca de 121 mil ocorrências, o equivalente a 30% do total. Na sequência aparecem a depressão, com 94 mil casos, e o transtorno bipolar, com aproximadamente 45 mil afastamentos. O psiquiatra Marcelo Tavares ressalta que o estado emocional interfere nas decisões, nos hábitos e até na saúde física. “Quando alguém vive sob estresse contínuo ou não reconhece sinais de esgotamento emocional, o corpo responde. Podem surgir dores, cansaço excessivo e maior vulnerabilidade a doenças. Por isso, olhar para a saúde mental é também uma forma de prevenção. O cuidado emocional não deve ser visto como algo pontual, mas como um processo contínuo, que envolve autoconhecimento e a construção de uma rotina mais equilibrada”. “Entre os hábitos que contribuem para a saúde mental estão a manutenção de uma rotina de sono adequada, a prática regular de atividades físicas e a alimentação equilibrada, que influenciam diretamente o humor e a disposição. Além disso, cultivar vínculos sociais positivos é fundamental. Quando as emoções se tornam difíceis de lidar ou persistem por muito tempo, buscar apoio profissional é uma atitude responsável e preventiva”, completa. Ao longo do mês, a campanha reforça que cuidar da mente é um compromisso diário e possível para todos. “Ao adotar hábitos mais conscientes, rever prioridades e permitir-se sentir, o início do ano pode se tornar uma oportunidade real de transformação, o Janeiro Branco, mais do que uma campanha, lembra que a saúde mental deve estar em pauta o ano inteiro, como base para uma vida mais equilibrada, produtiva e significativa”, conclui Lara.

4,6 milhões de pequenos negócios foram criados no Brasil em 2025

O Brasil registrou um novo recorde na abertura de pequenos negócios em 2025. Dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) apontam que, entre janeiro e novembro deste ano, foram criados 4,6 milhões de novos empreendimentos de pequeno porte em todo o país. O número já supera o resultado de todo o ano de 2024, quando foram abertas 4,1 milhões de empresas, e representa um crescimento de 19% em relação ao mesmo período do ano passado, consolidando o melhor desempenho da série histórica. Segundo o levantamento, os pequenos negócios responderam por 97% de todas as empresas abertas no Brasil em 2025, confirmando o papel central desse segmento na dinâmica econômica nacional. Do total de novos registros, 77% correspondem a microempreendedores individuais (MEIs), 19% a microempresas e 4% a empresas de pequeno porte. Em novembro, o país registrou a abertura de 350 mil novos pequenos empreendimentos, 28 mil a mais do que no mesmo mês de 2024. Até novembro, o segmento de serviços concentrou a maior parte das novas empresas formalizadas, representando 64% do total. Dentro desse grupo, o número de microempreendedores individuais apresentou um avanço de 24,5% na comparação com o mesmo intervalo de 2024. Na sequência, o comércio respondeu por 21% das aberturas, enquanto a indústria ficou com 7%. No recorte regional, São Paulo liderou a criação de pequenos negócios em 2025, com 29% dos registros, seguido por Minas Gerais, com 11%, e pelo Rio de Janeiro, com 8%. De acordo com a economista Mariana Torres, o avanço expressivo está ligado a uma combinação de fatores. “Tivemos a recuperação gradual da atividade econômica, aliada à digitalização dos serviços, que reduziu custos e facilitou o acesso ao empreendedorismo. Abrir um negócio hoje é menos burocrático do que há alguns anos, especialmente no caso do MEI”. Outro elemento é a transformação no mercado de trabalho. “Em um cenário de mudanças, com maior informalidade e rotatividade, empreender deixou de ser apenas um sonho e passou a ser uma necessidade para milhões de pessoas. O crescimento do número de MEIs mostra como o brasileiro busca alternativas para garantir renda e estabilidade”, revela Mariana. Além do impacto direto na geração de renda, os pequenos negócios têm papel fundamental na economia brasileira. Eles são responsáveis por uma parcela significativa dos empregos formais, movimentam economias locais e contribuem para a descentralização do desenvolvimento. Apesar do desempenho recorde, o consultor em empreendedorismo Carlos Menezes alerta que abrir empresas é apenas o primeiro passo, a taxa de sobrevivência dos pequenos negócios ainda é um desafio no país. “Dificuldades de acesso ao crédito, carga tributária complexa, falta de capacitação em gestão e oscilações no consumo são obstáculos recorrentes. O crescimento impressiona, mas é preciso olhar para a sustentabilidade desses empreendimentos”. Nesse contexto, o fortalecimento de políticas de apoio torna- -se essencial. Para Menezes, ampliar o acesso ao crédito com juros mais baixos, investir em educação empreendedora e simplificar ainda mais o ambiente regulatório são medidas estratégicas. “Não basta incentivar a abertura de empresas, é fundamental criar condições para que elas cresçam, inovem e permaneçam ativas”. A digitalização também é apontada como um caminho decisivo para a consolidação do setor. Plataformas de vendas on-line, meios de pagamento digitais e o uso de redes sociais como canais de marketing ampliaram o alcance de pequenos empreendedores, inclusive em regiões antes pouco integradas ao mercado nacional. “A tecnologia nivelou o jogo em muitos aspectos. Um pequeno negócio hoje pode alcançar clientes em todo o país, desde que tenha orientação e acesso às ferramentas certas”, finaliza Menezes.

Estudo indica que tarifa zero em BH pode pressionar reajuste da passagem

Um levantamento realizado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, Administrativas e Contábeis de Minas Gerais (Ipead) indica que as despesas geradas pela oferta de transporte público gratuito aos domingos e feriados em Belo Horizonte tendem a ser consideradas no cálculo do reajuste anual da tarifa. O estudo avalia os eventuais efeitos positivos e negativos da medida de gratuidade no sistema de transporte da capital mineira, anunciada pelo prefeito Álvaro Damião (União Brasil). Segundo o instituto, “provavelmente, esse valor gratuito vai ser rateado pela população com um possível aumento de preço, nas revisões tarifárias anuais, que pode ser acima do esperado”. A tarifa do transporte coletivo passou por seu reajuste mais recente em 1º de janeiro de 2025, quando houve um acréscimo de R$ 0,50, elevando o valor base para R$ 5,75 e colocando Belo Horizonte no topo do ranking entre as capitais da região Sudeste. Apesar disso, a Superintendência de Mobilidade (Sumob) esclareceu que os custos relacionados à gratuidade serão assumidos pela Prefeitura de Belo Horizonte, por meio do mecanismo de remuneração complementar. Para o economista Renato Duarte, “a gratuidade representa um ganho social importante, mas seu impacto orçamentário não pode ser ignorado. Se a prefeitura não ampliar outras fontes de receita, há uma tendência real de que o valor da tarifa em dias úteis aumente, para equilibrar as contas do sistema”. Pontos positivos O estudo do Ipead destaca dois aspectos favoráveis da iniciativa. A população de menor renda passa a ter acesso ao transporte coletivo sem comprometer o orçamento doméstico. Além disso, a medida beneficia trabalhadores autônomos, que deixam de assumir os custos de locomoção aos domingos e feriados em Belo Horizonte. O levantamento ainda projeta que a iniciativa pode alcançar mais de 12,652 milhões de usuários, quantidade correspondente às pessoas que utilizaram o transporte coletivo nos dias em que houve gratuidade ao longo de um período de doze meses. O relatório levou em conta dados da Prefeitura de Belo Horizonte de novembro de 2024 a outubro deste ano. A socióloga Andreia Lima vê a gratuidade como um avanço social significativo. “Reduzir o gasto das famílias com transporte, mesmo que só aos domingos e feriados, é um grande alívio para quem vive com orçamento apertado. Significa mais acesso a atividades culturais, visitas a familiares, oportunidades de emprego informal e lazer, o que pode gerar efeitos positivos na economia local”. Financiamento Duarte acredita que existem alternativas além do reajuste direto da tarifa. “Podemos ampliar incentivos fiscais para empresas que investirem em tecnologia e eficiência do sistema de ônibus. Também é possível explorar outras fontes de financiamento, como parcerias público-privadas, receitas de publicidade em ônibus e terminais, e até fundos setoriais que não onerem diretamente o usuário”. Outra possibilidade em discussão é ampliar a remuneração complementar paga pela prefeitura, ou seja, um subsídio mais robusto ao transporte coletivo. “Essa estratégia poderia evitar que o sistema transfira integralmente os custos para os passageiros, embora isso dependa diretamente da capacidade fiscal do município e do apoio de outras esferas governamentais”, ressalta. O diálogo entre governo, setor privado e sociedade civil será fundamental, afirma Duarte. “O transporte gratuito aos domingos e feriados tem um potencial enorme de inclusão e justiça social, mas sua sustentabilidade financeira requer criatividade. Modelos de financiamento mistos, que equilibrem subsídios públicos com eficiência operacional, podem ser o caminho para que o benefício não se transforme em um peso insustentável para a população”.

48,8% das mulheres já sofreram algum tipo de violência on-line

Dados de uma pesquisa recente da KPMG indicam que quase metade das mulheres entrevistadas (48,8%) já foi vítima direta ou testemunha de episódios de violência em ambientes digitais, sendo 17,1% como alvo e 31,7% como observadoras. Entre as práticas mais recorrentes estão a criação de perfis falsos ou personificação indevida (55%), manifestações de ódio (45%) e difamação (35%), praticadas majoritariamente por desconhecidos (76,5%), mas também por colegas de trabalho (41,2%) e conhecidos ocasionais (29,4%). Concluído neste ano, o estudo revelou ainda que 57,1% delas optaram por bloquear o agressor, enquanto 28,6% formalizaram denúncia junto às plataformas. Quanto aos impactos emocionais, cerca de 60% relataram estresse, 42,9% desconforto e 28,6% sintomas de ansiedade. Para discutir o assunto, o Edição do Brasil conversou com Chayana de Rezende, advogada especialista em direito digital. A legislação brasileira atual é suficiente para proteger mulheres contra a violência digital? O Brasil avançou significativamente ao criar leis que alcançam diversas formas de violência digital, como perseguição on-line, ameaças e exposição de imagens íntimas sem consentimento. O principal problema, contudo, não é mais a falta de normas, mas a dificuldade de torná-las eficazes de forma rápida. Como a violência digital se espalha velozmente e gera danos profundos em pouco tempo, respostas tardias do Estado ou das plataformas tornam a proteção insuficiente. Onde estão as principais lacunas legais e o que poderia ser aprimorado? As principais lacunas são operacionais, sobretudo na demora para remoção de conteúdos ilícitos, na falta de protocolos para preservação de provas digitais e nos desafios trazidos por tecnologias como deepfakes, que evoluem mais rápido que a lei. Por isso, o avanço depende mais de procedimentos urgentes eficazes, cooperação das plataformas e atualização constante das normas do que da criação de novos crimes. Algoritmos e redes sociais contribuem, direta ou indiretamente, para esse tipo de violência? Contribuem de forma indireta, visto que os algoritmos não praticam violência, mas podem amplificá-la. Conteúdos ofensivos, humilhantes ou sensacionalistas tendem a gerar mais engajamento e são mais distribuídos. Isso cria um efeito perverso: a violência se torna mais visível, mais duradoura e mais lucrativa. Por essa razão, o debate jurídico atual não se limita a punir o agressor individual, mas discute também o papel das plataformas na prevenção, contenção e não amplificação desse tipo de conteúdo. Quais são os maiores desafios para investigar e responsabilizar agressores digitais? O principal desafio é a identificação do agressor. Perfis falsos, uso de tecnologias de ocultação de identidade e circulação internacional de dados dificultam a investigação. Além disso, há problemas recorrentes na preservação de provas, já que conteúdos podem ser apagados ou replicados rapidamente. Outro obstáculo é o tempo, pois enquanto o processo investigativo corre lentamente, a violência acontece em tempo real. Isso exige autoridades capacitadas, cooperação técnica das plataformas e decisões judiciais rápidas. O que as mulheres podem fazer para se proteger, sem cair na lógica de “culpabilização da vítima”? É fundamental afirmar que a responsabilidade pela violência nunca é da vítima, e falar em proteção não significa impor comportamentos, mas oferecer estratégias de redução de danos, como documentar adequadamente o conteúdo ofensivo, evitar respostas públicas que ampliem a exposição, buscar apoio jurídico especializado e acionar canais formais de denúncia e preservação de provas. O que seria necessário para reduzir de forma significativa a violência digital contra mulheres no Brasil? A redução efetiva da violência digital exige uma abordagem integrada, que combine respostas rápidas e eficazes, investigação técnica qualificada, cooperação real das plataformas digitais, educação digital estruturada e aplicação rigorosa das leis já existentes. A mensagem central é clara: mulheres não precisam sair da internet para estarem seguras; o que precisa mudar é a forma como o Estado, as plataformas e a sociedade enfrentam a violência no ambiente digital.

Muay thai é treino completo para corpo e mente

O muay thai, tradicional arte marcial tailandesa conhecida como a “arte das oito armas”, tem ganhado força no Brasil não apenas como modalidade esportiva, mas como ferramenta de saúde e bem-estar. De acordo com profissionais da área, trata-se de uma atividade democrática, acessível a diferentes idades e níveis de condicionamento físico, e que vai muito além do imaginário de luta ou competição. Segundo o mestre de muay thai Rafael Nogueira, o esporte oferece um conjunto raro de estímulos físicos. “Trabalha resistência, força, coordenação motora, mobilidade e agilidade ao mesmo tempo. Em uma única aula, a pessoa faz exercícios aeróbicos, anaeróbicos e ainda aprende técnica. É um treino extremamente completo e eficiente”. Por envolver socos, chutes, joelhadas e cotoveladas, a modalidade utiliza grandes grupos musculares e estimula o corpo inteiro, o que resulta em gasto calórico elevado e melhora da composição corporal ao longo do tempo. Para iniciantes, entretanto, o receio de que a prática seja agressiva ainda é comum. Ele reforça que o treino básico é seguro e adaptado para diferentes perfis. “Quem começa não precisa lutar ou trocar golpes com outra pessoa. Os treinos iniciais focam em técnica, postura, condicionamento e movimentos básicos. A intensidade cresce conforme o aluno se sente confortável”. Em relação à saúde, Nogueira afirma que a prática regular contribui para melhorar o condicionamento cardiovascular, fortalecer ossos e músculos, reduzir níveis de estresse e auxiliar no emagrecimento. “Vejo alunos que chegam tímidos, com dores na lombar por falta de fortalecimento, ou com autoestima baixa. Depois de algumas semanas, começam a se mover melhor, a perceber evolução técnica e a ficar mais confiantes. O esporte melhora também a capacidade pulmonar e pode ser adaptado para quem busca apenas condicionamento”. Alguns cuidados Quase todo mundo pode praticar a atividade, porém, com uma orientação adequada. O educador físico Ricardo Menezes ressalta a importância de uma avaliação inicial. “É necessário que a pessoa informe ao professor eventuais limitações, como problemas articulares ou condições cardíacas. Com isso, as aulas podem ser ajustadas. O acompanhamento médico é recomendado para quem está iniciando qualquer prática física mais intensa”. Menezes lembra que a modalidade é indicada inclusive para idosos, desde que com acompanhamento personalizado. “Adaptando a altura dos chutes, o ritmo da aula e a carga dos exercícios, é possível a realização do treino. Já para crianças, as aulas ajudam no gasto de energia, na disciplina, no respeito aos colegas e no desenvolvimento motor”. Para quem deseja começar, o educador físico indica buscar academias com instrutores certificados e ambientes estruturados. “O ideal é fazer uma aula experimental, observar se o professor corrige postura, se explica detalhadamente os movimentos e se há preocupação real com a segurança dos alunos. A evolução no muay thai é individual e cada um tem seu ritmo”, conclui.

Presépio Colaborativo destaca comunidades ribeirinhas e natureza

A Casa Fiat de Cultura abriu ao público o 11º Presépio Colaborativo, já consolidado como uma das tradições natalinas de Belo Horizonte e destaque do Natal na Praça da Liberdade. Neste ano, a montagem presta tributo às comunidades ribeirinhas do interior do país, cuja vida está intimamente ligada às águas, à floresta e aos ciclos naturais. A curadoria é assinada pelo artista plástico Leo Piló, e a obra, confeccionada com materiais reaproveitados, conta com a colaboração dos visitantes. A entrada é gratuita, com visitação até 6 de janeiro de 2026. O 11º Presépio Colaborativo da Casa Fiat de Cultura recria elementos do dia a dia das populações ribeirinhas, que habitam palafitas, utilizam os rios como vias de deslocamento e fonte de subsistência, e preservam tradições ancestrais. No centro da galeria, surge uma espécie de “ilha brasileira”: uma instalação em papelão que reúne moradia, vegetação, barcos, peixes e aves, formando um cenário que representa a convivência constante entre a terra e as águas. Os personagens clássicos do presépio foram reinterpretados a partir do contexto ribeirinho. José é apresentado como o Caboclo Paraoara, figura que reúne influências indígenas, amazônicas e ribeirinhas, simbolizando força e ancestralidade. Maria é retratada como Santa Maria de Belém do Grão-Pará, em referência às manifestações religiosas e culturais que cercam a família. Já o Menino Jesus aparece na forma de Irin-Magé, representando encanto, renovação e nascimento. Em torno deles, os Três Reis Magos ganham novas significações. Cada um passa a personificar conhecimentos tradicionais, práticas medicinais e espiritualidades das florestas brasileiras. Em vez de ouro, incenso e mirra, carregam ervas, aromas e alimentos. Acima da cena, o Anjo Pescador, guardião das águas e de quem delas vive, conduz a narrativa, evocando histórias de fé e resistência presentes no cotidiano das comunidades ribeirinhas. “Neste Presépio, quis celebrar a relação profunda entre o ser humano, a natureza e a espiritualidade. O papelão reciclado se transforma em floresta, palafitas, animais e personagens que habitam essa ‘ilha’ inspirada na mata equatorial. Acredito que a Terra é um grande ente vivo, sempre gerando vida, e cada elemento aqui carrega esse sentido sagrado. É um convite para olharmos para a natureza com reverência e renovarmos nosso vínculo com ela”, explica Leo Piló. O Presépio Colaborativo da Casa Fiat de Cultura convida à reflexão sobre a preservação ambiental. O papelão, material presente em grande parte do lixo urbano, assume nova função ao ser transformado em arte. Em um país que gera 82 milhões de toneladas de resíduos anualmente, a instalação estimula o público a reconsiderar seus hábitos, compreender os efeitos de suas escolhas e perceber que, com criatividade e responsabilidade, é possível dar um novo destino ao que normalmente chamamos de lixo. Toda a cenografia do 11º Presépio Colaborativo foi criada a partir de papelão reciclado, técnica central na obra de Leo Piló. O material passou por etapas de corte, dobra, papietagem, pintura e montagem, adquirindo relevo, textura e profundidade. Casas em palafitas, raízes, troncos, barcos, peixes de várias espécies, aves ornamentadas, flores e folhagens ganharam forma com a participação do público. Nos meses de outubro e novembro, mais de 700 pessoas, entre crianças, jovens, adultos, famílias e grupos escolares, contribuíram nas oficinas abertas da Casa Fiat de Cultura. Cada participante deixou sua marca ao criar um elemento, transformando o Presépio em um verdadeiro mosaico de colaboração e criatividade coletiva. “Nesta edição, ao olharmos para as comunidades ribeirinhas, reconhecemos um ensinamento poderoso: a convivência harmoniosa com a natureza. O trabalho do Leo Piló e do público que participou das oficinas transforma esses valores em forma e matéria. Cada peça feita de material reciclado revela a beleza do coletivo e a capacidade que temos de repensar, reduzir e reutilizar. Neste fim de ano, desejo que essa obra inspire em todos nós um olhar mais atento para o que sustenta a vida e para a força silenciosa dos recomeços”, reflete o presidente da Casa Fiat de Cultura, Massimo Cavallo.

Mensalidades de berçários e maternais para 2026 na capital variam até 426%

O aumento previsto para 2026 nas mensalidades de berçários e maternais particulares de Belo Horizonte acende um alerta para as famílias. Uma pesquisa do site Mercado Mineiro aponta que os preços devem subir significativamente no próximo ano, reforçando uma tendência que já vem sendo observada: o encarecimento contínuo do ensino privado para a primeira infância. Segundo o estudo, os valores praticados pelos berçários no período integral vão de R$ 920 a R$ 4.841, uma diferença de 426,20% entre a mensalidade mais baixa e a mais alta. Para meio período, os preços vão de R$ 650 a R$ 2.710, variação de 316,92%. Já nos maternais, a pesquisa indica que os turnos da manhã ou tarde custam entre R$ 650 e R$ 3.024,50 (oscilação de 365%), enquanto o período integral deve ficar entre R$ 920 e R$ 4.191,70, diferença de 356%. As cobranças extras também apresentam variações significativas. No caso do maternal, a taxa de material varia entre R$ 160 e R$ 1.200, uma oscilação de cerca de 650%. O valor do lanche também muda bastante, custando de R$ 55 a R$ 418, o que representa uma variação próxima de 660%. O levantamento também identificou aumentos ao comparar as médias cobradas em 2025 e 2026. No maternal, o turno da manhã registrou elevação de R$ 1.568,59 para R$ 1.658, o que representa um acréscimo de 5,70%. Já no período da tarde, o valor médio passou de R$ 1.563,49 para R$ 1.675,03, um avanço de 7,13%. Para o horário integral, a média foi de R$ 2.386,97 para R$ 2.584,34, correspondendo a uma alta de 8,27%. No caso do berçário, o meio período apresentou o reajuste mais expressivo: a mensalidade média aumentou de R$ 1.390,30 para R$ 1.604,18, uma variação de 15,38%. No integral, os valores passaram de R$ 2.260,11 para R$ 2.426,33, crescimento de 7,35%. Para o economista Marcelo Rangel, a elevação reflete a soma de múltiplos fatores. “O ensino infantil é um dos segmentos mais caros para manter porque exige alta proporção de profissionais por criança, estrutura adequada, alimentação balanceada, materiais pedagógicos específicos e cumprimento rigoroso de normas de segurança. Com a inflação de serviços pressionando todos esses custos, as escolas não conseguem segurar os reajustes”. Ele destaca ainda que Belo Horizonte tem um mercado muito heterogêneo, com escolas de pequeno, médio e grande porte convivendo na mesma região, o que explica parte das variações expressivas. “Uma escola de bairro, com equipe reduzida, cobra valores completamente diferentes de uma instituição bilíngue que oferece alimentação completa, monitoramento por câmeras e atividades extras. Isso cria uma disparidade que assusta, mas que faz parte da estrutura de oferta atual”. O impacto desse aumento é significativo para muitos pais, sobretudo aqueles que dependem do período integral para conciliar a rotina de trabalho. “Eles precisam agir com meses de antecedência. Visitar escolas, comparar preços, analisar o que está incluso e, principalmente, verificar taxas extras. Às vezes, o valor da mensalidade é apenas parte do custo anual, que pode incluir matrícula alta, material escolar, refeições e atividades extras”. Rangel sugere que as famílias considerem alternativas que não envolvem necessariamente os estabelecimentos mais caros. “Escolas menores oferecem excelente qualidade e preços acessíveis. Além disso, vale verificar instituições cooperativas ou centros educacionais comunitários credenciados, que têm custos mais baixos, mas boa estrutura”. Outro ponto citado pelos especialistas é a possibilidade de negociar condições. O consultor financeiro Guilherme Ferraz explica que algumas instituições estão abertas a conversar, especialmente para contratos anuais ou pagamento antecipado. “Algumas escolas dão abatimentos progressivos, descontos para irmãos ou isentam taxas para fidelização. Transparência e diálogo ajudam os pais a não serem pegos de surpresa”. A expectativa é de que o cenário siga pressionado ao longo de 2026, especialmente em bairros onde a oferta é reduzida ou em regiões no qual o perfil socioeconômico é mais alto. Na visão de Ferraz, o desafio será equilibrar o orçamento familiar sem abrir mão da qualidade. “Educação infantil não é gasto, mas sim investimento. Para evitar o endividamento, as famílias devem buscar opções compatíveis com sua renda e lembrar que qualidade não é sinônimo de luxo”.

Geração atual valoriza educação, enfrentamento à fome e empatia

A quinta edição do levantamento “3 Coisas que Eu Quero Melhorar no Mundo” indica que, entre 419 crianças e adolescentes ouvidos, os temas mais valorizados são educação, enfrentamento à fome e o fortalecimento da empatia e do cuidado com o outro. Realizada desde 2020, a pesquisa acompanha as expectativas das novas gerações e evidencia um avanço na percepção social desse público. No consolidado que reúne as três respostas mais citadas, “melhorar a educação e o direito de estudar” aparece na liderança, enquanto “acabar com a fome e a insegurança alimentar” surge logo em seguida. A novidade de 2025 é a subida do desejo por “mais empatia, compaixão e amor ao próximo” para o terceiro lugar, ultrapassando assuntos que historicamente figuravam entre as principais preocupações, como a desigualdade social. Embora o combate à fome apareça como uma prioridade nacional, cada região do país revelou demandas particulares. No Norte, temas ligados ao meio ambiente ganharam destaque; no Nordeste, surgiram preocupações com economia, preconceito e racismo; no Centro-Oeste, prevaleceram questões de saúde e desigualdade; no Sul, a valorização da empatia e do bem-estar animal; e no Sudeste, o desejo por menos violência e conflitos. O estudo registrou um avanço expressivo de 111,8% nas respostas enquadradas em “Perspectivas e Soluções”, que alcançaram seu maior índice em 2025 (18,84%), impulsionadas pela alta frequência de termos como “empatia”, “amor”, “paz” e “respeito”. Esse crescimento se deu mesmo em um período pós-pandemia, ainda permeado por impactos na saúde mental, sugerindo uma reação positiva e construtiva das crianças e jovens diante de crises sociais. Além disso, a permanência dos temas considerados estruturais, que cresceram 133% ao longo das edições, e o destaque contínuo para “educação” e “respeito” indicam que as crianças não apenas reconhecem os desafios existentes, mas também apontam caminhos sustentados por valores que já fazem parte de sua formação. A psicóloga Carla Silva destaca que o dado sobre empatia não deve ser interpretado como algo abstrato, e sim como um reflexo de vivências concretas. “As crianças estão observando um mundo tensionado por conflitos, violência e intolerância. Quando pedem empatia, estão revelando maturidade emocional e uma compreensão surpreendente de que mudanças profundas começam pelas relações”. Para Carla, o fato de educação e fome liderarem a lista mostra que a geração atual enxerga com clareza os pilares que sustentam a desigualdade no país. “Uma criança que diz ‘quero que todos possam estudar’ está, sem saber, defendendo o direito básico que transforma vidas e rompe ciclos de pobreza. E quando ela fala sobre acabar com a fome, demonstra uma sensibilidade social que é rara até mesmo entre adultos”. A socióloga Andreia Lima explica que esse engajamento não acontece à toa. “As novas gerações são mais expostas a conversas sobre cidadania e direitos humanos. Elas veem campanhas, vivenciam debates sobre preconceito, acompanham notícias sobre guerra e fome. Isso gera uma resposta afetiva mais rápida e, ao mesmo tempo, um senso de responsabilidade que não víamos com tanta força em décadas anteriores”. Mas a questão central levantada por ambas as especialistas é: como transformar essa visão em ações concretas? Para elas, há três caminhos possíveis. O primeiro envolve participação intergeracional, ou seja, ouvir as crianças e envolvê-las em projetos sociais e decisões que afetam seu entorno. O segundo é fortalecer políticas públicas que ampliem o acesso à escola de qualidade, programas de alimentação e espaços de convivência. E o terceiro é promover, de forma ativa, a cultura do respeito e da empatia nas comunidades, escolas e famílias. “Precisamos transformar a sensibilidade das crianças em movimento social. Se estão pedindo mais amor ao próximo, é porque o mundo está oferecendo pouco disso. Cabe aos adultos criar ambientes onde a solidariedade seja uma prática diária. Estamos diante de um grupo de jovens que não se acomoda, e enxerga problemas estruturais, mas também acredita em soluções. O mínimo que podemos fazer é escutar e agir. A infância é uma bússola ética, quando ela aponta prioridades, devemos prestar atenção”, destaca Andreia.