País registrou 1.148 casos de coqueluche entre janeiro e agosto

O número de casos de coqueluche entre crianças teve um crescimento alarmante de mais de 1.200% no Brasil, de acordo com dados do Observatório de Saúde na Infância. Só em 2024, foram contabilizados pelo menos 2.152 casos da infecção em crianças com menos de 5 anos, grupo considerado o mais suscetível a complicações graves. Esse total supera a soma dos casos registrados nos cinco anos anteriores. Entre as crianças afetadas, 665 precisaram de hospitalização e 14 vieram a óbito, número superior às dez mortes registradas entre 2019 e 2023. Segundo o Ministério da Saúde, mais de 90% dos bebês e 86% das gestantes foram vacinados contra a coqueluche no ano passado, superando os índices registrados em 2013. No entanto, o Observatório alerta que a meta ideal de 95% de cobertura vacinal ainda não foi alcançada. Além disso, pessoas não imunizadas, como crianças mais velhas e adultos, também podem contrair e transmitir a doença, que, embora possa afetar todas as faixas etárias, costuma ser mais grave entre os menores. Até agosto deste ano, os dados apontam uma leve redução nos números, embora os índices continuem elevados: foram contabilizados 1.148 casos, dos quais 577 resultaram em internações. A coqueluche é causada pela bactéria Bordetella pertussis. Altamente contagiosa, ela provoca uma inflamação grave das vias aéreas e pode ser especialmente perigosa para bebês e crianças com menos de um ano de idade, que ainda não completaram o esquema vacinal. “A doença já esteve sob controle por meio da vacinação. Esse aumento vertiginoso de casos reflete um acúmulo de fatores, mas a principal explicação está na queda nas coberturas vacinais nos últimos anos”, afirma a infectologista pediátrica Carla Menezes. Segundo a especialista, a coqueluche pode começar com sintomas semelhantes a um resfriado comum, febre baixa, coriza e tosse leve, mas evolui para acessos de tosse severa e prolongada, que podem levar a vômitos, dificuldade para respirar, exaustão e até convulsões. “ N o s l a c te n te s, o quadro pode ser silencioso, sem a tosse clássica, o que torna o diagnóstico mais difícil. Muitas vezes, o primeiro sinal é uma parada respiratória súbita, o que é extremamente perigoso”, completa. “A coqueluche é uma doença prevenível por vacina. Quando temos uma cobertura vacinal adequada, acima de 90%, o risco de surtos é muito baixo. Mas quando há uma queda contínua, como estamos vendo desde 2016, o risco de reemergência é alto. Infelizmente, é o que está acontecendo agora”, salienta o epidemiologista Ronaldo Vieira. Ele ressalta ainda que a proteção não é apenas individual, mas coletiva. “A vacina protege quem toma, mas também impede a circulação da bactéria na comunidade. Quando a taxa de vacinação cai, mesmo crianças vacinadas parcialmente, como bebês que ainda não completaram o esquema, ficam vulneráveis à infecção”. O diagnóstico pode ser clínico, baseado nos sintomas, mas geralmente é realizado com exames laboratoriais, como a cultura da secreção nasofaríngea ou testes de PCR. No entanto, o tempo para confirmação pode atrasar o início do tratamento, o que agrava o risco de complicações. “O ideal é iniciar o tratamento com antibióticos ainda nos primeiros dias de sintomas, quando há forte suspeita clínica. Nos casos graves, principalmente entre bebês, é necessário internamento para suporte respiratório, hidratação e monitoramento contínuo”, explica Carla. Além disso, a infectologista pediátrica reforça que o tratamento tem pouco efeito sobre os acessos de tosse uma vez que eles já se instalaram, o que reforça a importância da prevenção. “Mesmo com antibiótico, o quadro de tosse pode durar semanas. Por isso, a vacinação continua sendo nossa principal arma”. “É fundamental que a imunização na gestação seja intensificada. A vacina contra coqueluche é recomendada a partir da 20ª semana de gestação, e isso reduz drasticamente o risco de formas graves da doença no recém-nascido. A desinformação, o medo de efeitos colaterais e a negligência com o calendário vacinal estão custando vidas”, conclui Vieira.

Financiamento e defasagem salarial ameaçam o funcionamento do Samu

Em audiência pública na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), organizada pela Comissão de Administração Pública, atendendo a requerimento da deputada Beatriz Cerqueira (PT), trabalhadores do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) demonstraram desesperança, indignação e o grave subfinanciamento desse serviço no Estado e no país. “Eles colocam na nossa mão uma ambulância de R$ 700 mil e querem pagar R$ 1,5 mil para a gente conduzir”, disse o condutor socorrista Marcos Vinícius Ramos. Entre outras demandas, Beatriz solicitou ao governo um comprometimento para garantir a aprovação do Projeto de Lei (PL) 441/23, de autoria do deputado Arlen Santiago (Avante), que propõe a regulamentação da função de condutor socorrista, inserindo-a na área da saúde. A proposta está em análise na Comissão de Constituição e Justiça desde abril de 2023, aguardando parecer. “Não se faz serviço público de qualidade sem a valorização dos servidores”. Em Minas Gerais, o Samu é gerido por consórcios intermunicipais, com financiamento previsto entre União (50%), Estado (25%) e municípios (25%). No entanto, conforme Ormesinda Salgado, secretária executiva da Rede de Urgência Centro Sul (Cisru), os repasses federais ficaram congelados entre 2012 e 2022, sobrecarregando os entes estaduais e municipais. Segundo Ormesinda, em 2025, a União custeou 25,9% do Samu, enquanto o Estado arcou com 47,68% e os municípios com 26,42%. Em 2023, o déficit federal chegou a 72%. A então ministra Nísia Trindade alegou restrições orçamentárias, mas autorizou um aumento de 30% no repasse. Como reação, o Estado reduziu sua contribuição na mesma proporção, alegando excesso de encargos. A falta de valorização, especialmente em relação aos condutores socorristas, foi destacada por Denys Carvalho, secretário executivo do Consórcio Intermunicipal de Saúde da Macro Sudeste (Cisdeste), sediado em Juiz de Fora. Ele citou como exemplo um concurso recente, no qual foram registradas 330 inscrições para o cargo de técnico de enfermagem, enquanto apenas 12 pessoas se candidataram à vaga de condutor socorrista. “São três anos sem nenhum tipo de recomposição a não ser por parte dos municípios. Isso é inviável. Nosso déficit é de cerca de R$ 20 milhões, fora outros consórcios”. “Não é possível imaginar um condutor socorrista, com sua jornada exaustiva, receber R$ 1,5 mil ou R$ 1,6 mil. Eles não são motoristas de ambulância, eles recebem um treinamento muito específico”, protestou a diretora do Sindicato Único dos Trabalhadores da Saúde de Minas Gerais (Sindsaúde), Núbia Dias. Ela disse que o condutor socorrista não é reconhecido como trabalhador da Saúde. “Queremos que os trabalhadores do Samu façam parte da carreira única do Ministério da Saúde”. As reivindicações não se limitam aos condutores socorristas. Técnicos de enfermagem também denunciaram o não cumprimento do piso salarial da categoria. Representantes dos profissionais solicitaram uma estrutura de financiamento mais adequada para os consórcios intermunicipais, a fim de viabilizar o pagamento de remunerações compatíveis com as exigências da função. Renan Guimarães de Oliveira, subsecretário de Acesso a Serviços de Saúde da Secretaria de Estado de Saúde, afirmou que a expansão do Samu tem sido uma prioridade desde 2019. De acordo com ele, atualmente o serviço já cobre 795 dos 853 municípios de Minas Gerais, com a meta de alcançar a totalidade até o início de 2026. “O aporte financeiro do Estado é significativo e não queremos abrir mão dele. A gente quer discutir um financiamento justo. Hoje, 40% do valor, em média, é financiado pelo Estado”. Fernando Figueira, diretor do Departamento de Atenção Hospitalar, Domiciliar e de Urgência do Ministério da Saúde, ressaltou que a recomposição do financiamento federal destinado ao Samu foi retomada durante a gestão do presidente Lula. Ele também mencionou que um projeto de lei federal, que reconhece oficialmente o condutor socorrista como profissional da área da saúde, aguarda sanção presidencial. O representante do governo federal explicou que a expansão dos investimentos por parte da União enfrenta obstáculos devido à redução do controle orçamentário do Poder Executivo, que tem sido transferido progressivamente ao Congresso Nacional. “Eu vou trazer a dureza da realidade. Estamos lutando contra um destrinchamento do orçamento onde a capacidade de investimento do Poder Executivo tem sido tensionada por forças que puxam para o Legislativo. Mas isso não significa que a gente vai se amedrontar”.

32% dos profissionais levam até 1 hora para chegar ao trabalho

De acordo com dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em Belo Horizonte, 32% dos profissionais levam entre 30 minutos e 1 hora para chegar ao local de trabalho. Já 17% enfrentam um tempo de deslocamento que varia de 1 a 2 horas diariamente. O levantamento também revela que uma parte significativa da população ativa tem um trajeto mais curto: cerca de 28% dos trabalhadores completam o percurso entre 15 e 30 minutos. No extremo, 1% dos trabalhadores enfrenta viagens de mais de duas a quatro horas. Para o engenheiro de transportes e especialista em mobilidade urbana, Leonardo Duarte, a realidade enfrentada por milhares de trabalhadores de BH é reflexo de anos de planejamento urbano insuficiente. “Temos uma cidade que cresceu de forma horizontalizada, com áreas residenciais se espalhando para a periferia sem que houvesse uma contrapartida proporcional na oferta de transporte público de qualidade. Resultado: a população está cada vez mais dependente do carro ou de sistemas de transporte coletivo que não dão conta da demanda”. De acordo com Duarte, Belo Horizonte possui atualmente uma frota de mais de 2 milhões de veículos circulando diariamente, número que só cresce. “O excesso de carros individuais, combinado com uma malha viária limitada e um transporte coletivo pouco eficiente, gera gargalos nos horários de pico. Isso afeta diretamente o tempo de deslocamento, além de aumentar os índices de poluição e acidentes de trânsito”. Outro ponto crítico apontado é a crise do sistema de transporte público. A cidade enfrenta há anos a insatisfação de usuários com relação à qualidade dos serviços prestados, à frequência dos ônibus e ao custo elevado das tarifas. Para a urbanista Fernanda Bastos, a falta de investimentos contínuos é uma das principais razões da estagnação do setor. “Os ônibus operam em condições precárias em muitas regiões da cidade, com itinerários longos e pouco eficientes. A ausência de corredores exclusivos em boa parte das vias atrasa os trajetos e desestimula a população a usar o transporte coletivo, além do metrô que atende pouquíssimas pessoas”. Diante da atual situação da mobilidade urbana em Belo Horizonte, é fundamental que sejam adotadas medidas estruturais e urgentes para reverter o cenário e melhorar os indicadores da cidade. “Um dos primeiros passos é investir na ampliação e modernização do transporte coletivo, dando prioridade ao transporte por ônibus e metrô. Isso inclui o aumento da frota, a renovação dos veículos em circulação e a requalificação de estações e pontos de parada, que muitas vezes não oferecem sequer o mínimo de conforto ou acessibilidade para os usuários”, destaca Fernanda. Ela ressalta que é essencial que a cidade invista na criação de mais corredores exclusivos para ônibus. “Essa medida, que já mostrou resultados positivos em outras capitais, reduz significativamente o tempo de viagem e torna o transporte público mais eficiente e atrativo para a população. A mobilidade também precisa ser pensada para além dos veículos motorizados. Ampliar a malha cicloviária com ciclovias e ciclofaixas bem sinalizadas e seguras é outro ponto-chave, principalmente se queremos incentivar o uso da bicicleta como meio de transporte diário”. Para Duarte, a cidade precisa aproximar quem mora mais distante das áreas comerciais e de serviço. “Isso significa levar infraestrutura, oportunidades e transporte eficiente para essas regiões, reduzindo a necessidade de longos deslocamentos diários. Sem esse olhar mais amplo e inclusivo, continuaremos empurrando o problema com a barriga e penalizando justamente quem mais depende do transporte público para viver”.

Estado registra abertura de cerca de 88 mil novos empreendimentos

Minas Gerais está prestes a alcançar um marco histórico na criação de empresas. De janeiro a setembro deste ano, foram formalizados 87.913 novos empreendimentos no Estado, um crescimento de 17,95% em relação ao mesmo período de 2024, quando foram registrados 74.536 negócios. Apenas em setembro, 9.255 empresas foram abertas, o que equivale a mais de 300 novos registros por dia. As informações fazem parte do relatório mensal de registros mercantis divulgado pela Junta Comercial do Estado de Minas Gerais (Jucemg). As regiões dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri lideraram em termos de crescimento proporcional, com aumento de 28,80% no acumulado do ano. Na sequência, destacam-se as regiões Central (20,02%), Norte de Minas (19,86%), Centro-Oeste (18,28%), Zona da Mata (16,94%), Triângulo (14,26%), Sul de Minas (13,62%), Alto Paranaíba (13,12%) e Noroeste (8,65%). Ao analisar os dados por setor, os serviços lideram o crescimento no acumulado do ano, com 65.377 novos empreendimentos formalizados, uma elevação de 20,64% em relação aos primeiros nove meses de 2024. O comércio vem logo depois, com 18.515 registros e aumento de 10,80%, seguido pela indústria, que contabilizou 4.020 novas empresas, representando uma alta de 10,74%. Em 2025, Belo Horizonte já contabiliza 21.495 empresas formalizadas, o que representa um crescimento de 7,94% em comparação ao mesmo período de 2024, quando foram registradas 19.913 aberturas. Apenas no mês de setembro, foram criados 2.573 novos negócios na capital mineira, um aumento de 15,95% em relação a setembro do ano anterior, que teve 2.219 registros. Para o consultor de mercado Fernando Lage, o cenário atual é resultado direto de uma maior confiança dos empreendedores e da simplificação dos processos burocráticos nos últimos anos. “A abertura de empresas em Minas tem sido cada vez mais rápida e menos custosa. A digitalização dos serviços da Junta Comercial, aliada a políticas municipais e estaduais de estímulo ao empreendedorismo, tem feito uma diferença considerável, hoje, o empresário consegue abrir seu negócio com muito mais agilidade e segurança jurídica”. Outro fator determinante para esse avanço, segundo os especialistas, é o fortalecimento da cultura empreendedora no Estado, especialmente após os impactos provocados pela pandemia. “Muita gente perdeu o emprego ou repensou sua vida profissional nos últimos anos, e viu no empreendedorismo uma forma de retomar o controle da própria renda”, analisa Lage. Ele observa que, embora muitos desses empreendimentos surjam da necessidade, há cada vez mais casos de empresas bem planejadas, estruturadas e com boas chances de prosperar. “A gente nota que o perfil do empreendedor está mudando. As pessoas estão mais preocupadas em entender seu público, usar ferramentas digitais, cuidar do marketing e buscar capacitação. Isso é extremamente positivo”. Desafios Apesar dos números positivos, a economista Camila Ribeiro alerta que o desafio agora é garantir que essas novas empresas sobrevivam e prosperem. O índice de mortalidade de empresas nos primeiros anos de atividade ainda é alto no Brasil, especialmente entre os microempreendedores individuais (MEIs) e os pequenos negócios, que costumam enfrentar dificuldades de gestão, acesso a crédito e capacitação. “O número de aberturas é animador, mas é preciso garantir sustentabilidade a médio e longo prazo. Para isso, o apoio técnico é fundamental. Políticas públicas devem estar voltadas não apenas à abertura, mas também à manutenção dos negócios”, alerta. Camila também destaca que o acesso a linhas de financiamento e crédito com juros acessíveis precisa ser ampliado. “Muitos empreendedores iniciam seus negócios com recursos próprios ou empréstimos informais. Se houver mais linhas de crédito específicas para capital de giro, inovação e expansão, a chance de crescimento dessas empresas será muito maior”. Para que Minas Gerais siga atraindo e desenvolvendo novos negócios, algumas ações são fundamentais, segundo Camila. “A principal delas é manter e ampliar as políticas de desburocratização, garantindo mais agilidade e redução de custos para quem empreende. Também é essencial investir na capacitação técnica dos novos empresários, com apoio de instituições como Sebrae, Senac e universidades”. Outro ponto importante é o incentivo à inovação e à digitalização, sobretudo para quem atua nos setores de tecnologia, e-commerce e serviços digitais.

“Lista suja” do trabalho escravo tem nomes de 159 empregadores

O Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) divulgou uma atualização no cadastro de empregadores envolvidos na exploração de trabalho em condições análogas à escravidão, conhecido como a “lista suja”. Com a nova atualização, a lista passou a incluir 159 nomes, sendo 101 referentes a pessoas físicas e 58 a pessoas jurídicas. Segundo o MTE, isso representa um aumento de 20% em relação à versão anterior da lista. Entre os anos de 2020 e 2025, um total de 1.530 trabalhadores foram retirados de situações que configuram esse tipo de violação. Os estados que mais registraram ocorrências foram Minas Gerais (33), São Paulo (19), Mato Grosso do Sul (13) e Bahia (12). As principais atividades econômicas associadas aos empregadores listados incluem a pecuária voltada para o corte de bovinos (20 registros), o trabalho doméstico (15), o cultivo de café (9) e a construção civil (8). Para discutir o assunto, o Edição do Brasil conversou com a advogada trabalhista, Vera Lúcia Rodrigues. Conforme a lei, o que pode ser caracterizado como trabalho análogo à escravidão? O trabalho análogo à escravidão está previsto no artigo 149 do Código Penal Brasileiro e ocorre quando o trabalhador é submetido a condições degradantes, jornadas exaustivas, restrição de locomoção por dívida ou vigilância constante e seguida de ameaça. Como a legislação brasileira pune esse tipo de situação? A legislação dispõe que quem induz alguém à condição análoga à de escravo comete crime e pode ser condenado a reclusão de 2 a 8 anos, além de multa, podendo ser majoradas se o crime for praticado contra crianças e adolescentes. Além disso, na esfera criminal, o empregador também pode ser incluído na chamada “lista suja” do Ministério do Trabalho e responder por danos morais individuais e coletivos na Justiça do Trabalho. Quais são os tipos de compensação ou reparação disponíveis para trabalhadores que foram vítimas de trabalho análogo à escravidão? Esses trabalhadores ao serem resgatados, passam a ter direito a receber todas as verbas trabalhistas que lhes foram negadas, como salários, férias e FGTS, além de indenização por dano moral. O Estado oferece ainda programas de proteção, acolhimento e reinserção social, buscando restituir não apenas os direitos econômicos, mas também a dignidade dessas pessoas. Quais fatores permitem a perpetuação desse ato em dias atuais? Infelizmente, fatores estruturais ainda sustentam esse tipo de exploração. A desigualdade social, a pobreza extrema, a falta de acesso à educação e a informalidade no trabalho. Além disso, a fiscalização é limitada, especialmente em áreas rurais e remotas, e as cadeias produtivas longas dificultam a identificação de quem realmente explora o trabalhador. A falta de número suficiente de fiscalização além dos pontos acima pontuados, cria um terreno fértil para a perpetuação do trabalho escravo contemporâneo. O que o estado brasileiro pode fazer para melhorar a fiscalização e repreensão desses casos? É essencial fortalecer a atuação dos auditores-fiscais do trabalho, ampliar os recursos e investir em tecnologia para rastrear as cadeias produtivas. O Estado também tem o dever de garantir a proteção das vítimas e das testemunhas, além de promover campanhas educativas para conscientizar a sociedade sobre o tema, fortalecer os canais de denúncias. E, claro, valorizar o papel do Ministério Público do Trabalho e da Justiça do Trabalho, que são pilares fundamentais no combate e na reparação desses casos. Atualmente, quais são os mecanismos e instrumentos de combate ao trabalho escravo? Entre os principais instrumentos estão o Grupo Especial de Fiscalização Móvel, o Cadastro de Empregadores (lista suja), o Programa de Erradicação do Trabalho Escravo e as parcerias entre o Ministério do Trabalho, a Polícia Federal e a Justiça do Trabalho, existem ainda canais de denúncia como o Disque 100, que funciona 24 horas, e o Sistema Ipê, que é um sistema para coleta, concentração e tratamento das denúncias de trabalho em condições análogas às de escravo no território brasileiro, que permitem à população participar ativamente no enfrentamento a essa grave violação dos direitos humanos.

300 mil morrem por ano no Brasil por sedentarismo

O sedentarismo é considerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) um dos maiores problemas da sociedade moderna. A inatividade física está ligada à morte de aproximadamente cinco milhões de pessoas por ano em todo o mundo, conforme estimativas da instituição. Cerca de um terço da população adulta global não pratica atividades físicas regularmente. No Brasil, o cenário é ainda mais preocupante: o país lidera o ranking de sedentarismo na América Latina e ocupa a quinta colocação entre os mais sedentários do mundo. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 47% dos adultos brasileiros não praticam exercícios físicos, percentual que sobe para 84% entre os jovens. Cerca de 300 mil mortes anuais estão relacionadas à falta de atividade física. Entre as capitais, São Paulo se destaca negativamente como a mais sedentária do país. Os dados acendem um alerta para os impactos devastadores que a inatividade física pode causar não apenas ao corpo, mas também à mente. O sedentarismo está diretamente relacionado ao aumento de casos de obesidade, doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, hipertensão, além de quadros de depressão e ansiedade. Em um país com dimensões continentais e desigualdades sociais, os desafios para reverter esse cenário são muitos. Para o cardiologista Renato Farias, a falta de movimento deve ser tratada com a mesma seriedade que outras epidemias. “Estamos diante de uma verdadeira crise de saúde pública. O sedentarismo mata silenciosamente, por meio de doenças que se desenvolvem ao longo do tempo, como infarto, AVC e insuficiência cardíaca. A maioria dessas condições poderia ser evitada com mudanças simples no estilo de vida”. A rotina urbana moderna contribui para a propagação do sedentarismo, reforça Farias. “As pessoas passam horas sentadas no trabalho, no transporte e em casa, muitas vezes diante de telas. Essa passividade é prejudicial, e infelizmente se tornou parte da normalidade para muitos brasileiros”. Farias diz que o corpo humano foi feito para se movimentar. “Ficar longos períodos sentado ou inativo prejudica diretamente o funcionamento de diversos sistemas. Mesmo pessoas que praticam atividade física esporadicamente não estão imunes aos efeitos negativos de um estilo de vida predominantemente sedentário”. Os impactos físicos são amplos: desde dores musculares crônicas até doenças mais graves. “Além disso, o sedentarismo está associado à perda de massa muscular, aumento da resistência à insulina, o que pode levar ao diabetes tipo 2, e problemas posturais que comprometem a qualidade de vida”, ressalta. O educador físico, Ricardo Menezes, destaca os efeitos na saúde óssea. “Sem estímulo regular, como caminhadas ou exercícios com peso, os ossos perdem densidade, o que eleva o risco de osteoporose e fraturas, especialmente em idosos. Pequenas mudanças, como levantar-se a cada hora ou caminhar 30 minutos por dia, já fazem diferença. O movimento precisa fazer parte do cotidiano”. Ele garante que a regularidade é mais importante do que a intensidade no início. “Não adianta fazer exercícios pesados uma vez por semana e ficar os outros dias parado. O importante é criar o hábito, mesmo que com atividades leves. O corpo vai se adaptando aos poucos, e os benefícios logo aparecem”. Entretanto, o combate ao sedentarismo não depende apenas da vontade individual. Fatores sociais, econômicos e estruturais dificultam o acesso de grande parte da população à prática regular de exercícios. Falta de segurança nas ruas, ausência de espaços públicos adequados, jornadas de trabalho exaustivas e transporte público precário são obstáculos diários enfrentados por milhões de brasileiros. “Não podemos ignorar que a realidade da maioria das pessoas não favorece a prática de atividades físicas. Políticas públicas que incentivem o uso de bicicletas, a criação de parques, ciclovias e a promoção de programas comunitários de exercícios são fundamentais para mudar esse cenário. A crise do sedentarismo no Brasil não é apenas um problema individual de saúde, mas uma questão coletiva que afeta o sistema público e os custos com tratamento de doenças crônicas”, defende o profissional.

Livro “Pelo Olhar do Meu Pai” fala da influência paterna na identidade

No livro “Pelo Olhar do Meu Pai”, lançado esse ano, Eliene Lima apresenta uma narrativa autobiográfica que ultrapassa os limites de sua experiência pessoal, propondo ao leitor uma reflexão profunda sobre os laços familiares, o papel do pai e a maneira como essas relações contribuem para a formação da identidade. A autora revisita memórias que atravessam 50 anos de sua trajetória, da infância à maturidade, e mostra como a figura paterna, suas convicções e palavras influenciaram suas decisões e sua visão de mundo. A obra tem como ponto inicial a atuação profissional da autora como psicóloga na Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG). No entanto, conforme ela retoma suas vivências, o relato ganha dimensão mais ampla, incorporando sua própria trajetória pessoal e as raízes de sua conexão com o universo militar. Ao revisitar passagens da infância e juventude, a autora expõe como a figura do pai exerceu forte influência na construção de suas convicções, tanto em relação a si mesma quanto ao papel da mulher na sociedade e às possibilidades de futuro que vislumbrava. “O autoconhecimento faz parte de minha vida desde muito cedo, às vezes orientado por profissionais de saúde mental, às vezes por meio de leituras, em um processo solitário de reflexões e questionamentos sobre meus comportamentos e minhas angústias. Ao descrever minha história, desde o início foi possível identificar que muito do que vivi faz parte da história de mulheres de minha geração e classe social, que enfrentaram os mesmos dilemas, anseios e expectativas. Assim, temas como amor, filhos, profissão, preconceito, escolhas, fazem sentido na minha história e na de tantas outras pessoas”, afirma Eliene. Ela explica que o livro fala de sua história, narrando experiências e as influências que teve na construção do psiquismo e nas escolhas que fez ao longo de 5 décadas. “Ao publicar essas vivências e as elaborações que fiz sobre elas durante anos de psicoterapia, meu intuito era incentivar meus leitores a conhecerem um pouco mais sobre sua própria história e identificar os fatos e as pessoas que contribuíram para que se tornassem a pessoa que são hoje. Eu pretendia incentivar o autoconhecimento dos meus leitores”. Relembrar experiências e traduzi-las em palavras significou para Eliene uma complementação do seu processo de autoconhecimento. “Foi como estar em sessão terapêutica a cada capítulo e a cada revisão do livro, de forma muito autêntica e emocionada. Escrever essa autobiografia foi como o fechamento de um ciclo para abertura para novos começos, arrematando elaborações que fiz sobre vivências e dores que são comuns a nós, seres humanos. E divulgá-las me exigiu muita coragem para expor minhas mazelas e para receber críticas e julgamentos”. A autora fala do olhar do pai em um duplo sentido: tanto aquele olhar que vigia quanto aquele olhar que valida. “A influência do pai na formação psíquica da menina está diretamente ligada à identificação sexual, à sua validação como uma pessoa de valor, influenciando sua autoconfiança e autoestima. No meu livro uso os exemplos de minha própria relação com meu pai para mostrar o quanto as crenças preconceituosas dele e suas falas sobre o que é ser uma mulher e seu papel na sociedade, me incentivaram a canalizar minha energia muito mais para a realização profissional que para a vida afetiva”. “Meu pai falava que as mulheres eram emocionalmente vulneráveis, tinham pouca capacidade de tomar decisões objetivas e se submetiam facilmente aos homens. Dizia que isso reduzia o seu valor perante a sociedade e limitava suas escolhas. Ouvir isso desde criança, e ver ao meu redor exemplos que confirmavam suas palavras, fez com que eu me esforçasse muito para ser vista de forma diferente pelo meu pai e alcançasse reconhecimento social, me tornando uma mulher com autonomia sobre seus atos e desejos”, destaca. A obra se apresenta como uma conexão entre a experiência pessoal e a reflexão sobre a construção da identidade. Enquanto compartilha a trajetória de uma mulher comum, incluindo suas vivências na Polícia Militar, um ambiente majoritariamente masculino, a narrativa convida o leitor a olhar para a própria história, reconsiderar suas relações familiares e refletir sobre como esses laços contribuíram para moldar quem ele é hoje.

Vendas para o Dia das Crianças devem chegar a quase R$ 10 bilhões no país

As expectativas para o Dia das Crianças indicam que o comércio deve movimentar cerca de R$ 9,96 bilhões neste ano. Isso representa um crescimento de 1,1% em comparação ao mesmo período de 2024, quando as vendas alcançaram R$ 9,85 bilhões. Se essa estimativa for alcançada, será o melhor resultado da data nos últimos 12 anos. A projeção foi divulgada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O valor estimado para este ano só é superado pelo registrado em 2014, quando o volume de vendas chegou a R$ 10,5 bilhões. Os números estão corrigidos pela inflação. O Dia das Crianças ocupa a terceira posição entre as datas mais relevantes para o varejo brasileiro, ficando atrás apenas do Natal, que movimentou R$ 72,8 bilhões em 2024, e do Dia das Mães, com R$ 14,5 bilhões em 2025. Segundo dados da CNC, o setor de roupas e calçados deve concentrar a maior parte das vendas, respondendo por 27% do total estimado. De acordo com o economista Luiz Fernando Ribeiro, o pequeno avanço nas vendas pode ser interpretado como um sinal de estabilidade no comportamento do consumidor. “O brasileiro continua valorizando datas comemorativas, mas ainda enfrenta limitações de renda e alto comprometimento do orçamento familiar. Isso leva à priorização dos gastos e a escolhas mais conscientes na hora de presentear”. Os juros elevados e o crédito mais restrito continuam sendo obstáculos importantes. “Muitas famílias estão endividadas ou com acesso limitado a linhas de crédito. Isso reduz a capacidade de consumo, mesmo diante da intenção de comprar presentes”, explica. Com base no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA-15), a CNC projeta que a cesta de 11 grupos de bens e serviços típicos do Dia das Crianças terá um aumento médio de 8,5% em comparação com 2024. Esse crescimento nos preços deve ser impulsionado principalmente por alimentos, como chocolates (alta de 24,7%), doces (13,9%) e lanches variados (10,9%). Por outro lado, produtos tradicionalmente mais procurados na data, como brinquedos e roupas, devem apresentar reajustes abaixo da média geral, com uma elevação estimada de 4,6%. Apesar das limitações, o impacto das vendas do Dia das Crianças sobre a economia não deve ser subestimado. A movimentação de quase R$ 10 bilhões ajuda a aquecer a cadeia produtiva, gera empregos temporários e eleva a arrecadação de tributos. “É uma data que mobiliza desde a indústria de brinquedos até os pequenos comércios de bairro. O aumento na circulação de dinheiro impulsiona a economia local e regional”, destaca Fabiana Moura, consultora de mercado. Ela também ressalta que muitas lojas aproveitam o período para lançar promoções e queimas de estoque, o que pode ser uma estratégia eficaz tanto para atrair consumidores quanto para se preparar para o final do ano. “O Dia das Crianças serve como termômetro para o varejo projetar o Natal. Se a resposta do consumidor for positiva, é provável que os lojistas se sintam mais confiantes para investir em estoques maiores no fim do ano”. O cenário ainda inspira cautela. “A recuperação do poder de compra depende diretamente de uma melhora no mercado de trabalho e de políticas mais efetivas de controle do endividamento das famílias. A continuidade dos juros altos também pode frear o ritmo de crescimento do consumo nos próximos meses”, explica Fabiana. Para os especialistas, o momento exige equilíbrio entre otimismo e responsabilidade financeira. “As datas comemorativas são importantes para o comércio e para a economia como um todo, mas os consumidores não podem se deixar levar pelo apelo emocional e comprometer o orçamento familiar”, alerta Ribeiro. Em meio aos desafios, o Dia das Crianças de 2025 promete movimentar o comércio e trazer algum alívio para lojistas e trabalhadores do setor. Ainda que a recuperação seja lenta, o ritmo positivo acende uma luz de esperança para o fim de ano, tradicionalmente, a temporada mais lucrativa para o varejo brasileiro.

Tempo máximo para limpeza nos hotéis é fixado em 3 horas

O Ministério do Turismo (MTur) atualizou as normas relacionadas aos horários de entrada e saída dos hóspedes em hotéis no Brasil, levando em consideração o tempo necessário para a limpeza, higienização e organização dos quartos. Segundo a nova regulamentação, a cobrança da diária deve se referir a um período de 24 horas de hospedagem. Os estabelecimentos hoteleiros têm liberdade para definir os horários de check-in e check-out, mas é obrigatório que essas informações sejam informadas de forma clara e antecipada aos hóspedes, tanto pelos próprios hotéis quanto por agências de viagens e plataformas digitais de reserva. A nova regulamentação estabelece que o tempo máximo destinado à limpeza e organização dos quartos deve ser de até 3 horas. Esse serviço não pode gerar cobrança adicional, pois já está incluído no valor da diária. Entre as atividades obrigatórias estão a limpeza completa do quarto, além da substituição das toalhas e da roupa de cama. A periodicidade da arrumação e da higienização deve estar alinhada ao perfil do meio de hospedagem, seja hotel, resort, pousada, hostel, apart-hotel ou flat. O cliente deve ser informado previamente sobre o tempo aproximado necessário para a limpeza do quarto, assim como a regularidade com que o serviço será realizado. “A atualização busca estabelecer um padrão mínimo de qualidade no atendimento e na preparação dos quartos, ao mesmo tempo em que dá segurança jurídica ao setor hoteleiro. Com a definição clara do tempo máximo de três horas para limpeza, evita-se a informalidade e se cria uma expectativa realista para os clientes”, explica o agente de viagens Vicente Brandão. Caso deseje, o hóspede pode optar por não utilizar os serviços de arrumação e higienização, desde que manifeste essa decisão de forma clara. No entanto, o estabelecimento deve assegurar que essa escolha não comprometa a higiene do ambiente nem coloque em risco a saúde e a segurança dos demais hóspedes. “Essa possibilidade de recusar a limpeza já era praticada informalmente, principalmente por quem preza pela privacidade. Agora, ganha respaldo legal, o que é um avanço, porém, cabe ao hotel assegurar que isso não afete o padrão sanitário, especialmente em épocas de maior circulação de vírus, como gripes e viroses sazonais”, ressalta. As reações às mudanças têm sido diversas no setor. Alguns empresários e profissionais da hotelaria veem a regulamentação como positiva, argumentando que ela padroniza práticas que antes variavam muito entre os estabelecimentos. Outros, porém, temem que o prazo de até 3 horas para limpeza e arrumação possa gerar dificuldades operacionais, especialmente em dias de ocupação máxima. “É um desafio logístico, principalmente para hotéis com alto volume de hóspedes entrando e saindo ao mesmo tempo. Em algumas situações, esse intervalo pode não ser suficiente para dar conta da limpeza detalhada que buscam oferecer”, diz o especialista em turismo, Frederico da Costa. Apesar disso, Costa reconhece que o novo regramento ajuda a organizar o fluxo de trabalho e deixa as responsabilidades mais claras. “Com prazos definidos, conseguimos estruturar melhor as escalas de trabalho da equipe de limpeza e também informar os hóspedes com mais precisão. É essencial que os hotéis se planejem para não sobrecarregar os funcionários da limpeza. Três horas parecem suficientes, mas não podemos esquecer que em grandes redes, muitos quartos precisam ser preparados simultaneamente. A profissionalização do setor e o investimento em equipe são fundamentais para que essa regra funcione de fato”, destaca. A regulamentação do MTur representa mais um passo na direção de um turismo mais profissionalizado e transparente no Brasil, afirma o especialista em turismo. “Para que as novas regras tragam os benefícios esperados, será preciso investimento contínuo em capacitação, tecnologia e estrutura por parte dos meios de hospedagem. A padronização das práticas é bem-vinda, mas precisa vir acompanhada de suporte técnico, treinamento e fiscalização, caso contrário, corre-se o risco de termos uma regra muito boa no papel, mas difícil de aplicar na realidade”.

Entre 5% a 17% da população mundial é acometida pela dislexia

Outubro é mundialmente reconhecido como o mês de conscientização da dislexia, um período dedicado a informar, educar e combater o estigma em torno desse transtorno de aprendizagem que afeta milhões de pessoas em todo o mundo. No Brasil, estima-se que cerca de 5% a 17% da população possa ter dislexia, de acordo com dados da Associação Brasileira de Dislexia (ABD). Embora comum, o transtorno ainda é cercado por desinformação, o que compromete o diagnóstico precoce, o tratamento adequado e, principalmente, a inclusão dos disléxicos na sociedade. A dislexia é um transtorno específico da aprendizagem de origem neurobiológica, caracterizado por dificuldades no reconhecimento preciso e/ou fluente de palavras, na habilidade de decodificação e na soletração. Essas dificuldades costumam resultar de um déficit no componente fonológico da linguagem. Segundo a neuropsicóloga Clara Nogueira, a condição não está relacionada à inteligência, mas sim à forma como o cérebro processa as informações linguísticas. “O cérebro de uma pessoa com dislexia funciona de maneira diferente quando ela precisa ler ou escrever. Não se trata de preguiça ou desatenção, como muitos ainda pensam, mas de uma diferença neurológica real. É fundamental que pais, professores e a sociedade em geral entendam isso para evitar julgamentos errôneos e promover um ambiente de aprendizagem mais acolhedor”. Embora os primeiros sinais da dislexia possam ser observados já na educação infantil, muitas crianças chegam ao ensino fundamental sem diagnóstico. A identificação precoce é crucial, pois permite intervenções mais eficazes e evita impactos negativos na autoestima e no desenvolvimento emocional da criança. “Muitas vezes, o aluno disléxico é visto como alguém preguiçoso ou desinteressado, quando na verdade ele está se esforçando o dobro dos outros para acompanhar a aula, se os sinais forem reconhecidos logo nos primeiros anos, o suporte pode ser dado de forma personalizada, respeitando o tempo e as necessidades do aluno”, explica. Entre os sintomas mais comuns da dislexia estão a troca de letras com sons parecidos (como “p” e “b”, “f” e “v”), dificuldade para reconhecer rimas ou segmentar palavras em sílabas, escrita espelhada, lentidão na leitura e dificuldade para compreender o que foi lido. No entanto, cada caso é único, e a intensidade dos sintomas pode variar. O diagnóstico é feito por uma equipe multidisciplinar, geralmente composta por psicólogo, fonoaudiólogo, psicopedagogo e, em alguns casos, neurologista. Não existe um exame laboratorial para a dislexia, o processo envolve uma análise minuciosa do histórico do indivíduo, testes cognitivos, avaliações de linguagem e observação comportamental. Apesar da doença não ter cura, ela pode ser gerenciada com sucesso por meio de intervenções profissionais, além de adaptações no ambiente escolar. O apoio da família também é crucial para garantir que a criança ou o adolescente se sinta valorizado e compreendido. “Não estamos falando de um déficit de capacidade, e sim de uma diferença na forma de aprender. Com estratégias adequadas, uso de tecnologias assistivas e reforço positivo, o disléxico pode desenvolver seu potencial ao máximo”, ressalta a fonoaudióloga Beatriz Almeida. Ela diz que entre as estratégias mais eficazes estão a utilização de métodos multissensoriais, que combinam visão, audição e tato, softwares de leitura em voz alta, audiobooks, além de atividades específicas para fortalecer a consciência fonológica. A adoção de provas orais ou com tempo ampliado também é uma prática cada vez mais comum nas escolas inclusivas. Mesmo com os avanços, ainda há muito a ser feito em termos de aceitação e compreensão. Muitas pessoas com dislexia convivem com o estigma e enfrentam dificuldades para se adaptar a sistemas educacionais e ambientes de trabalho que priorizam a leitura e a escrita de forma rígida, sem considerar as diferentes formas de aprender. “Precisamos quebrar a ideia de que há apenas uma maneira ‘correta’ de aprender e expressar conhecimento, um aluno que não lê bem pode ser brilhante em artes, matemática, música ou pensamento crítico. A escola deve ser um espaço onde essa pluralidade seja valorizada, e não punida”, conclui.