Número de casais que não possuem filhos dobra em 20 anos

Nos últimos 20 anos, o Brasil registrou um aumento expressivo no número de famílias compostas por casais sem filhos. Em 2000, esse tipo de arranjo representava 14,9% dos lares brasileiros; em 2022, a proporção alcançou 26,9%. Os dados são do suplemento Nupcialidade e Família do Censo 2022, divulgado pelo IBGE. Ao contabilizar as famílias compostas por casais sem filhos, o instituto considera tanto os domicílios habitados apenas pelos dois cônjuges quanto aqueles em que o casal vive com outros parentes que não sejam seus filhos. De acordo com o relatório, nas últimas décadas houve mudanças na estrutura familiar. “Maior participação da mulher no mercado de trabalho, baixas taxas de fecundidade e o envelhecimento da população influenciaram no aumento do percentual de casais sem filhos”, afirma o estudo. Em contrapartida, o Censo 2022 apontou que, pela primeira vez desde o ano 2000, os casais com filhos passaram a representar menos da metade das 61,2 milhões de famílias do país. No Censo de 2000, esse grupo correspondia a 63,6% dos lares; em 2010, caiu para 54,9%, e, em 2022, chegou a 45,4%. Além do aumento dos lares formados por casais sem filhos, também houve crescimento no número de moradias unipessoais (aquelas em que vive apenas uma pessoa). Em 2010, esse tipo de arranjo representava 12,2% dos domicílios brasileiros, e em 2022 passou para 19,1%. Isso significa que, atualmente, uma em cada cinco residências do país é ocupada por um único morador. Nesse intervalo de 12 anos, o total de pessoas vivendo sozinhas subiu de 4,1 milhões para 13,6 milhões. A mudança revela não apenas novas formas de organização familiar, mas também profundas transformações econômicas, sociais e culturais. “Estamos diante de um fenômeno global, mas que no Brasil ganha contornos muito particulares. Durante décadas, o modelo tradicional de família com pai, mãe e filhos predominou, agora, vemos um aumento expressivo de casais que adiam ou desistem da maternidade e da paternidade, seja por questões financeiras, de carreira, ou por uma nova compreensão sobre o que é uma vida plena”, esclarece a socióloga Andreia Lima. Entre os fatores que explicam essa transformação, o peso do custo de vida é um dos principais. Ela diz que criar um filho no Brasil pode custar centenas de milhares de reais até a vida adulta, valor que cresce ano a ano devido à inflação em setores como educação, saúde e moradia. “Os jovens adultos de hoje enfrentam um cenário econômico muito diferente do que seus pais enfrentaram. O mercado de trabalho é mais competitivo, o preço dos imóveis disparou e o custo de manter uma criança em uma boa escola privada, por exemplo, é altíssimo, tudo isso pesa na decisão de ter filhos”. A mudança no papel da mulher é central nesse fenômeno. Nas últimas décadas, mais brasileiras priorizaram estudos e carreira, alcançando independência financeira e adiando, ou renunciando, à maternidade. “O avanço da educação feminina e a entrada massiva das mulheres no mercado de trabalho mudaram completamente as dinâmicas familiares. Ter filhos, que antes era quase uma obrigação social, hoje é uma escolha, e muitas mulheres preferem adiar ou renunciar essa escolha”, explica a antropóloga Ana Luísa Furtado. O envelhecimento populacional é outro fator que interage com esse fenômeno. Com a queda da taxa de natalidade, o Brasil caminha para se tornar um país de população predominantemente idosa nas próximas décadas. “Menos filhos hoje significa menos jovens amanhã. Isso vai impactar diretamente o mercado de trabalho e o sistema previdenciário. Teremos que lidar com uma população economicamente ativa menor, o que pode comprometer o equilíbrio das contas públicas e aumentar a pressão sobre os sistemas de saúde e aposentadoria”, alerta. Mas nem tudo é uma questão econômica. Há também aspectos culturais e psicológicos em jogo. “Vivemos em uma era em que a individualidade é muito valorizada. O discurso do ‘autocuidado’ e da realização pessoal ganha força, e muitos casais preferem investir em experiências e liberdade, isso não é um sinal de egoísmo, mas sim de uma mudança de paradigma”, observa Andreia. “O país precisa de políticas que conciliem a liberdade de escolha com o incentivo à natalidade. Isso passa por creches acessíveis, licença parental ampliada, apoio a mães solo e programas de conciliação entre trabalho e família”. Ela lembra que países desenvolvidos enfrentam dilemas semelhantes e têm apostado em políticas de incentivo à natalidade, como subsídios e licenças remuneradas mais longas. “O que estamos vendo é a pluralização da ideia de família. O importante é entender que essas novas configurações não representam uma crise, mas uma evolução das relações humanas”, conclui a socióloga.

84 mil novos casos de tuberculose são registrados por ano

De acordo com o Boletim Epidemiológico da Tuberculose de 2025, o número de novos diagnósticos permanece em torno de 84 mil casos. Apesar de uma leve redução entre 2023 (84.994 casos) e 2024 (84.308 casos), observa-se uma tendência de aumento desde 2020, quando foram notificados 69.681 casos. Apesar dos esforços de vigilância e tratamento gratuitos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a doença segue em níveis considerados altos, e novembro é o mês de conscientização devido ao Dia Nacional de Combate à Tuberculose, celebrado em 17 de novembro. A tuberculose é uma doença que afeta principalmente os pulmões, mas também pode atingir outros órgãos, como rins, ossos e o sistema nervoso central. “A transmissão ocorre quando uma pessoa doente tosse, fala ou espirra, liberando pequenas gotículas que contêm a bactéria. Essas partículas podem permanecer suspensas no ar por várias horas, especialmente em ambientes fechados e mal ventilados”, explica a infectologista Mariana Couto. Os sintomas, em geral, são sutis no início, o que dificulta o diagnóstico precoce. Tosse persistente por mais de três semanas, febre baixa, sudorese noturna, perda de peso e cansaço constante são sinais de alerta. “Muitas pessoas confundem os primeiros sintomas com uma gripe prolongada ou uma bronquite simples, o que atrasa a procura por atendimento médico. Quando o diagnóstico é tardio, o risco de transmissão aumenta significativamente”, acrescenta. O diagnóstico da tuberculose é feito por meio de exames clínicos, radiografia de tórax e testes laboratoriais. O pneumologista Ricardo Avelar explica que o principal exame é o baciloscópico, que detecta a presença da bactéria no escarro do paciente. “Nos últimos anos, o Brasil ampliou o uso de testes rápidos, como o GeneXpert, que identifica o DNA do Mycobacterium tuberculosis e ainda verifica se há resistência aos antibióticos de primeira linha. Esse é um avanço importante, mas ainda há desigualdade no acesso a esses testes em muitas regiões do país”. Apesar da disponibilidade do tratamento, o combate à tuberculose no Brasil enfrenta obstáculos complexos. Fatores como pobreza, más condições de moradia, desnutrição e acesso precário aos serviços de saúde criam um ambiente propício para a disseminação da doença. “A tuberculose não é apenas uma questão médica, mas também um problema social. Onde há desigualdade, há mais casos e é preciso olhar para a doença de forma integrada, com políticas que vão além da saúde”. De acordo com Mariana, o governo precisa reforçar a vigilância epidemiológica e melhorar a detecção precoce dos casos. “O Brasil tem capacidade técnica e rede de laboratórios, mas carece de mais investimentos em capacitação profissional e tecnologia. Além disso, campanhas de conscientização são essenciais para combater o estigma que ainda cerca a doença”. Prevenção A prevenção da tuberculose envolve ações que vão desde a vacinação até a melhoria das condições de vida. A vacina BCG, aplicada ainda na infância, é eficaz na proteção contra as formas mais graves da doença, embora não impeça a infecção pulmonar em adultos. “A imunização é um passo fundamental, mas sozinha não resolve o problema. Precisamos também garantir moradias ventiladas, reduzir a superlotação em presídios e abrigos, e intensificar a busca ativa por casos em comunidades vulneráveis”, explica a médica. O Brasil tem ampliado significativamente suas ações para erradicar a tuberculose como problema de saúde pública, priorizando estratégias de prevenção e a adoção de práticas inovadoras de cuidado. Em 2024, observou-se um aumento de 30% no número de tratamentos preventivos em relação a 2023, resultado da expansão do uso de terapias medicamentosas de curta duração (com três meses de tratamento) que já correspondem a 72% do total, segundo o Boletim Epidemiológico da Tuberculose 2025. “A luta contra a tuberculose é, portanto, mais do que uma questão médica: é um compromisso com a equidade e a dignidade humana. Reduzir o número de casos no Brasil requer investimento, conscientização e vontade política”, conclui Avelar.

Caixa lança Reforma Casa Brasil para as famílias de baixa renda

O novo programa de financiamento da Caixa Econômica Federal, o Reforma Casa Brasil, foi lançado em Minas Gerais durante audiência pública da Comissão Extraordinária de Defesa da Habitação e da Reforma Urbana da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). Ele entregará recursos para melhorar a rede elétrica, adaptar a casa, fazer reparos hidráulicos, construir novo cômodo, colocar tubulação de esgoto, instalar caixa d’água, fossas, trocar azulejos, janelas ou telhados. A audiência foi promovida pelo presidente da comissão, deputado Leleco Pimentel (PT), em parceria com o deputado Rodrigo Lopes (União) e a deputada Carol Caram (Avante). O encontro contou com a presença de representantes de movimentos sociais voltados ao direito à moradia, além de um deputado federal, vereadores e técnicos da Caixa Econômica Federal, que detalharam o funcionamento do novo programa. Ao abrir a reunião, Leleco Pimentel destacou o déficit habitacional existente na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). “De acordo com dados da Fundação João Pinheiro, temos um déficit de um milhão de moradias, apenas na metropolitana. O direito à moradia está na Declaração dos Direitos Humanos da ONU e também como direito fundamental em nossa Constituição Brasileira e deve ser respeitado”. O parlamentar avalia que o programa Reforma Brasil contribuirá para ampliar a dignidade das famílias e diminuir o déficit habitacional, ressaltando que uma moradia sem estrutura adequada pode comprometer a saúde de seus moradores. O Programa Reforma Casa Brasil, da Caixa Econômica Federal, disponibiliza uma linha de crédito de R$ 40 bilhões voltada a famílias de baixa renda que desejam realizar melhorias no imóvel onde residem, inclusive em casas alugadas. O programa é dividido em três faixas de crédito, com valores que variam de R$ 5 a R$ 30 mil por CPF, e o pagamento não pode comprometer mais de 25% da renda declarada do solicitante. A Faixa I contempla famílias com renda bruta mensal de até R$ 3.200. Já a Faixa II atende aquelas com renda entre R$ 3.200,01 e R$ 9.600. Por fim, a Faixa III é voltada a quem possui renda superior a R$ 9.600,01, sendo exigida, nesse caso, a apresentação de um imóvel como garantia. As taxas de juros variam de 1,17% a 1,95% ao mês, e o financiamento pode ser pago em um prazo que vai de 24 a 60 meses. Denise Natalícia de Jesus Pimenta Teixeira, superintendente de Habitação da Caixa, explicou que o maior diferencial do programa é a desburocratização e a facilidade de contratação. “O Reforma Casa Brasil é simplificado, a pessoa não tem que comprovar que tem imóvel em cartório para contratar, pode morar de aluguel ou em casa de terceiros. Se a família for usar apenas a renda de uma pessoa, todo o processo pode ser feito pelo site ou aplicativo da Caixa. Se houver composição de renda para a contratação, a pessoa precisa ir até uma agência”. Durante a apresentação, a superintendente ressaltou que o financiamento não é disponibilizado para moradores de áreas rurais, regiões de risco ou zonas de preservação ambiental. Além disso, pessoas com restrições de crédito, como registro no SPC ou Serasa, também não podem contratar o benefício. Todas as informações fornecidas são feitas por autodeclaração, ficando sob responsabilidade do próprio solicitante. O superintendente executivo de Habitação da Caixa, Leandro Antônio Costa, destacou a importância do programa especialmente durante o período chuvoso, quando aumenta a necessidade de reparos em telhados e em sistemas hidráulicos das residências. “A partir do momento que a pessoa teve o empréstimo aprovado, terá 90% do recurso liberado, com até 55 dias para fazer a reforma. O recurso poderá ser usado para comprar material, contratar mão de obra ou assessoria técnica, quem define isso é o morador. O solicitante deverá enviar a foto do antes e depois da reforma direto no site da Caixa, sendo que os 10% restantes do recurso serão liberados após a foto da conclusão da obra”. Maria das Graças de Souza Ferreira, coordenadora da União Estadual por Moradia Popular Minas Gerais (Uemp), acredita que o programa vai trazer benefícios para a população de baixa renda. “Esse programa é muito bem- -vindo porque as famílias que receberam seus imóveis lá nos anos 1990, quando as casas eram entregues apenas com o básico, poderão fazer as reformas necessárias, como acabamentos e rede elétrica. Isso vai ser uma injeção de ânimo nessas famílias”. Em participação virtual, o deputado federal Padre João (PT) afirmou que a frente Juntos Para Servir, coordenada por ele em parceria com Leleco Pimentel, considera o Programa Reforma Casa Brasil um passo significativo na promoção do direito à moradia. “Porque não é só o sonho da pessoa reformar a casa, é a necessidade. A nossa população está envelhecendo e muitas vezes não tem como adaptar a casa, trocar uma porta, adequar um espaço. Será um grande ganho que permitirá adequações de acessibilidade para pessoas idosas ou com necessidades especiais”.

Poluição do ar em BH está acima dos limites permitidos pela OMS

Uma pesquisa realizada pelo Programa de Pós-graduação em Geografia do Instituto de Geociências (IGC) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) apontou que a qualidade do ar em Belo Horizonte não atende aos padrões recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS). No período do inverno, todas as ruas avaliadas registraram concentrações de poluentes superiores ao limite de 45 microgramas por metro cúbico (µg/m³). A rua Padre Eustáquio, localizada na região Noroeste, apresentou a maior concentração de poluentes, com média de 78 µg/m³. Outras vias da cidade também registraram níveis elevados: Avenida Amazonas (65 µg/m³), Nossa Senhora do Carmo (69 µg/m³), Silva Lobo (69 µg/m³), Barão Homem de Melo (69 µg/m³), Antônio Carlos (69 µg/m³) e o Anel Rodoviário (57 µg/m³). Para o engenheiro ambiental Marcelo Dutra, os índices elevados estão diretamente ligados à combinação de fatores urbanos e climáticos típicos do inverno. “Durante essa estação, a baixa umidade e a inversão térmica contribuem para que a poluição fique retida próxima ao solo, sem dispersão natural. Além disso, o aumento do uso de veículos e a proximidade entre os edifícios e o tráfego mais lento podem dificultar a dispersão do poluente”. Ele destaca que o crescimento da frota de veículos nos últimos anos e a expansão das regiões industriais nas periferias da capital também são fatores importantes. “Belo Horizonte avançou de forma acelerada e muitas vias principais se tornaram corredores de trânsito intenso. O tráfego constante, alinhado à emissão de poluentes de indústrias e de pequenas queimas domésticas, gera um efeito cumulativo que prejudica significativamente a qualidade do ar”. A pesquisa da UFMG também evidenciou que mesmo vias consideradas menos movimentadas apresentam níveis acima do recomendado, mostrando que a poluição do ar não está restrita a corredores de tráfego intenso, mas se espalha por diferentes regiões da cidade. A solução passa por um conjunto de medidas integradas, explica Dutra. “É preciso ampliar o transporte público de qualidade, incentivar o uso de veículos elétricos e não poluentes, aumentar áreas verdes e implementar programas de monitoramento contínuo da qualidade do ar. Políticas públicas e educação ambiental também são fundamentais para que a população compreenda o impacto das ações individuais e coletivas no ar que respiramos”. Dutra lembra ainda que a legislação ambiental brasileira estabelece padrões de emissão para indústrias e veículos, mas que a fiscalização nem sempre é suficiente para garantir o cumprimento dessas normas. “Sem monitoramento rigoroso e sanções efetivas, as leis acabam sendo pouco eficazes e a população sente os efeitos, mas nem sempre consegue exigir mudanças”. O engenheiro ambiental ressalta que a concentração populacional em regiões densamente ocupadas, a ocupação de áreas verdes e a insuficiência de planejamento urbano contribuem para que poluentes fiquem concentrados, especialmente em bairros mais centrais e próximos de vias expressas. “É possível reverter o quadro com políticas públicas bem estruturadas e a conscientização da população é de grande importância nas ações de monitoramento e de transparência nos dados. Respirar é um direito básico e garantir ar limpo não é apenas uma questão ambiental, mas uma prioridade de saúde pública e de justiça social”, conclui. Graves impactos A médica pneumologista Ana Cláudia Figueiredo alerta que a exposição contínua a partículas em suspensão acima do recomendado aumenta o risco de doenças respiratórias, cardiovasculares e até mesmo problemas neurológicos. “Crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas são os mais vulneráveis. Respirar esse ar diariamente pode levar a crises de asma, bronquite, infecções respiratórias e, em casos mais graves, agravar condições cardíacas. Além disso, estudos recentes mostram que a poluição do ar pode afetar o desenvolvimento cognitivo de crianças”.

Cerca de 30% dos mineiros atrasam o aluguel por conta de apostas on-line

Uma pesquisa inédita feita pela Loft, em parceria com a Offerwise, mostra que quase um terço dos mineiros que pagam aluguel (cerca de 28%) diz ter enfrentado ou conhecido alguém que enfrentou atraso no pagamento devido a apostas ou jogos de azar virtuais. O problema é ainda mais frequente entre as classes C e D, onde o percentual chega a 38%. Entre os entrevistados que jogam, quase um terço (32%) declara investir até R$ 50 por mês em apostas, enquanto 13% desembolsam até R$ 300 mensais. O levantamento indica ainda que o hábito é novo para muitos: mais da metade (52%) começou a apostar há menos de um ano. Nos últimos 12 meses, 32% dos jogadores afirmam ter perdido até R$ 50, e 10% relatam perdas acima de R$ 500. Apenas uma pequena parcela, 13%, conseguiu não ter prejuízo. Mesmo entre quem não possui renda própria, os efeitos são visíveis: 67% perderam até R$ 50, e 33% chegaram a perder até R$ 100. Outros dados são que, em Minas Gerais, 55% dos entrevistados avaliam que as apostas on-line fazem mal à sociedade. Para 78%, elas são responsáveis por agravar o endividamento das famílias. Apesar disso, 30% acreditam que, com equilíbrio, as apostas podem servir como entretenimento, e 28% as veem como uma alternativa para complementar a renda. A maioria dos mineiros pede mais fiscalização: 83% defendem normas mais severas para o setor e 81% dizem que a maior parte dos apostadores perde dinheiro. A economista Renata Tavares destaca que a falta de regulamentação e monitoramento das plataformas é um fator que agrava o cenário. “Hoje, qualquer pessoa com um celular pode se cadastrar em um site de apostas, depositar dinheiro e começar a jogar em minutos. Não há controle efetivo sobre idade, renda ou limites de gasto. Isso cria um ambiente propício para o endividamento e, em casos extremos, para fraudes e lavagem de dinheiro”. Ela ressalta que o setor movimenta bilhões de reais por ano no Brasil, mas boa parte desse dinheiro circula em empresas sediadas no exterior, sem tributação adequada. “A ausência de fiscalização impede que o Estado arrecade impostos e também que o jogador tenha garantias. Em muitos casos, quando há suspeita de fraude ou bloqueio de valores, o consumidor fica completamente desamparado”. Para a profissional, a popularização das apostas está ligada a um contexto de incerteza econômica. “Vivemos um momento em que o custo de vida é alto e o poder de compra diminuiu. As apostas aparecem como uma ilusão de mobilidade financeira rápida, principalmente para quem tem poucas oportunidades. É um fenômeno social que mistura esperança, desespero e entretenimento”. “É uma armadilha que começa com diversão e termina com desespero, visto que o cérebro é programado para buscar recompensas rápidas e as plataformas usam mecanismos semelhantes aos das redes sociais e até de cassinos físicos para manter o jogador engajado. Quanto mais ele perde, mais sente necessidade de apostar novamente para recuperar o prejuízo”, explica. “Dinheiro fácil” Na avaliação do psicólogo Rogério Menezes, o governo precisa encarar o vício em apostas como uma questão de saúde pública. “Hoje, o acesso é irrestrito, qualquer adolescente com um celular pode criar uma conta, usar o cartão dos pais e começar a jogar. Falta uma política de conscientização e, principalmente, mecanismos de proteção, como limites de depósito e bloqueio de contas para jogadores em situação de risco”. Menezes afirma que é essencial que a população seja alertada sobre os perigos do chamado “dinheiro fácil” e defende campanhas educativas semelhantes às realizadas contra o tabagismo, com mensagens claras sobre os riscos do vício. “As pessoas precisam entender que as chances de ganho são mínimas e esses sites não são um investimento, e sim um negócio criado para lucrar com a perda do usuário. O problema não é apenas econômico, quando o jogo passa a ocupar o lugar do trabalho, do estudo ou da convivência familiar, estamos diante de um problema de saúde pública”.

Insegurança alimentar ainda atinge mais de 25% da população

O Brasil registrou uma queda no número de pessoas com acesso insuficiente à alimentação, alcançando novamente o índice mais favorável desde 2013, segundo informações apresentadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A parcela de lares em situação de insegurança alimentar grave reduziu-se de 4,1% para 3,2% entre 2023 e 2024. Em termos absolutos, isso representa aproximadamente dois milhões de pessoas que deixaram a condição de fome nesse período. Embora tenha havido avanços em comparação a 2023, o país ainda contabilizava, em 2024, cerca de 54,7 milhões de pessoas em alguma forma de insegurança alimentar (leve, moderada ou grave), o que corresponde a aproximadamente 25,7% da população brasileira. Para discutir o assunto, o Edição do Brasil conversou com a doutora e mestre em Ciências Sociais, Naiane Loureiro. Quais fatores sociais e econômicos mais influenciam essa persistência da insegurança alimentar no país? Os principais motivos para a insegurança alimentar no Brasil são a pobreza, a renda insuficiente e a informalidade do trabalho. Famílias com baixos rendimentos e vínculos precários têm dificuldade em adquirir alimentos diante de crises, desemprego ou inflação. Segundo o Banco Mundial, 30,7% da população enfrentava insegurança alimentar moderada ou grave em 2022, reflexo da inflação de alimentos e da volatilidade de preços. A desigualdade regional também agrava o problema, especialmente em áreas do Norte e Nordeste com menor infraestrutura e acesso. Além disso, fragilidades nas redes de proteção social e políticas públicas mal desenhadas ampliam a vulnerabilidade de parte da população. Quais são as consequências sociais mais graves da insegurança alimentar prolongada para as famílias e comunidades? A insegurança alimentar afeta a saúde física, podendo causar desnutrição, deficiências nutricionais e maior risco de doenças crônicas. A desnutrição infantil precoce está ligada ao atraso no crescimento e a problemas metabólicos futuros. Também compromete a educação, pois crianças nessa condição têm pior desempenho escolar e menos oportunidades, perpetuando a pobreza. Além disso, o estresse e a insegurança aumentam conflitos familiares e reduzem o investimento em saúde e educação infantil, ampliando vulnerabilidades sociais. De que forma a alimentação precária tem impacto sobre a saúde mental e o desempenho escolar de crianças e adolescentes? Existem estudos que mostram a associação consistente entre insegurança alimentar e saúde mental, pois ela está associada a maior prevalência de ansiedade, depressão e sintomas comportamentais em crianças e adolescentes. Também vemos impactos diretos no desempenho escolar e cognição, reduzindo atenção, memória e resultados escolares; em idade precoce esses impactos podem ser duradouros. Há lacunas nas políticas atuais que precisam ser preenchidas para reduzir de forma mais consistente a insegurança alimentar? Acredito que sim, pois faltam políticas que integrem de forma efetiva as áreas de nutrição e proteção social, articulando programas de incentivo à agricultura familiar com a alimentação escolar e o Bolsa Família. E, principalmente, um programa de prevenção de crises financeiras no país, que aumentam o custo de vida e as diferenças sociais regionais, diminuindo o poder de compra. Você acredita que o poder público deveria priorizar para garantir o direito à alimentação adequada? É essencial promover programas de alimentação saudável e educação nutricional nas escolas para reduzir o consumo de ultraprocessados e formar hábitos duradouros. Também é necessário fortalecer a proteção social em crises, com planos de resposta rápida, transferências emergenciais e estoques territoriais para amparar populações vulneráveis. Além disso, o investimento em monitoramento, avaliação e participação popular é fundamental para garantir direitos e cobrar a responsabilidade do Estado.

Arbitragem do Brasileirão alcança rejeição de 65%

O estudo Atlas revelou que a arbitragem do Brasileirão 2025 enfrenta rejeição de 65% entre os brasileiros. Entre eles, 46% declararam estar muito insatisfeitos, enquanto 19% afirmaram estar apenas insatisfeitos. O levantamento aponta ainda que metade dos entrevistados considera os árbitros nada confiáveis, indicando falta de credibilidade em suas decisões. O tema, que há tempos provoca polêmicas no futebol nacional, tem gerado intensos debates nos bastidores da principal competição do país. Apenas 8% dos entrevistados disseram estar satisfeitos com a arbitragem, enquanto 2% afirmaram estar muito satisfeitos. Outros 26% se mantiveram neutros em relação à atuação dos juízes em campo. A pesquisa revelou que o principal problema apontado na arbitragem é a aplicação desigual de critérios em lances semelhantes, citado por 51% dos entrevistados. Em seguida, 50% indicaram o “possível favorecimento a determinados clubes” como ponto crítico. Outros problemas destacados incluem a “falta de preparo técnico” dos árbitros (34%), a “falta de transparência nas decisões” (32%) e uma “suposta influência de empresas de apostas” (16%). Nesta pergunta, os participantes podiam selecionar até três alternativas. Quanto ao VAR, 51% acreditam que ele “melhorou um pouco” a qualidade das decisões. Mesmo assim, 53% consideram que a arbitragem brasileira teve desempenho inferior em relação ao ano passado. Entre os árbitros mais rejeitados, estão Ramon Abatti Abel (38%), Wilton Pereira Sampaio (27%) e Anderson Daronco (25%). Curiosamente, Daronco também figura entre os mais bem avaliados, com 31% de imagem positiva. Edina Alves Batista e Raphael Claus, com 25% cada, completam o top 3 entre os árbitros mais valorizados pelo público. A pesquisa também perguntou aos participantes quais clubes seriam mais beneficiados pela arbitragem. O Palmeiras lidera a lista, apontado por 72% como o mais favorecido, seguido de perto pelo Flamengo, escolhido por 70%, coincidindo com a posição de líder e vice-líder do Brasileirão, respectivamente. “Nós não apenas percebemos erros, mas também enxergamos padrões inconsistentes. Quando lances semelhantes são julgados de maneiras diferentes ao longo do campeonato, a confiança na arbitragem cai imediatamente. Essa desigualdade de critérios é o que mais gera insatisfação, porque o público espera justiça e consistência em todas as partidas”, explica o torcedor do Atlético MG, Fernando Ribeiro. Diante desse cenário, o antropólogo do esporte Rafael Muniz sugere medidas para aumentar a confiança do público e garantir maior transparência nas decisões. “A única forma de conquistar 100% de honestidade e credibilidade é implementar mecanismos claros de fiscalização e responsabilização, como auditorias independentes, monitoramento constante das partidas e relatórios públicos sobre o desempenho de cada árbitro. A combinação de tecnologia e transparência é essencial para recuperar a confiança do torcedor”. A capacitação técnica também é crucial. “O árbitro precisa estar preparado não apenas fisicamente, mas também psicologicamente e taticamente. Treinamentos frequentes, simulações de lances complexos e uma preparação contínua para lidar com a pressão de jogos de alta visibilidade ajudam a reduzir erros e criar padrões de julgamento consistentes. Quando o público percebe que existe um esforço real de profissionalização, a credibilidade aumenta naturalmente”, ressalta Ribeiro. Ele sugere que a participação de órgãos independentes e a padronização de protocolos sejam reforçadas. “O futebol brasileiro precisa de um sistema de integridade que funcione como um check and balance. Cada lance questionável deve ser revisado, e qualquer falha grave precisa ser punida de maneira objetiva e transparente. Isso garante que a arbitragem não seja apenas eficiente, mas também percebida como justa pelos torcedores”, conclui.

Reservas internacionais em Minas têm alta de 74% este final de ano

Minas Gerais vive um momento histórico no setor turístico. Dados recentes divulgados pela Secretaria de Estado de Cultura e Turismo (Secult-MG) mostram que as reservas internacionais para o período de outubro a dezembro de 2025 registram uma alta impressionante de 74% em relação ao mesmo período do ano anterior. O crescimento consolida o Estado como um dos maiores centros de expansão turística das Américas, especialmente nos segmentos de cultura, natureza e bem-estar. O desempenho internacional sem precedentes de Minas Gerais em 2025 resulta de fatores estruturais e estratégicos, com destaque para os produtos turísticos e a identidade cultural do Estado. O reconhecimento de Belo Horizonte como Cidade Criativa da Gastronomia pela Unesco, o Queijo Minas Artesanal como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade e a hospitalidade tradicional reforçam a autenticidade do destino. Além disso, políticas de promoção e qualificação ampliam a presença de Minas no exterior. A participação em feiras especializadas, press trips, integração de roteiros culturais e naturais, e o trabalho do Observatório do Turismo garantem ações mais estratégicas e orientadas por dados. Para a turismóloga Ana Carolina Costa, a alta de 74% não é fruto do acaso. “Minas Gerais soube alinhar a tradição cultural com inovação no turismo. A divulgação internacional, os investimentos em infraestrutura e a criação de roteiros diversificados foram determinantes para atrair turistas estrangeiros. Além disso, a experiência de bem-estar e natureza passou a ser um diferencial cada vez mais valorizado pelo público internacional”. Ainda conforme Ana Carolina, a maioria dos turistas internacionais que visitam o Estado busca experiências que combinam cultura, natureza e bem-estar, como passeios em parques naturais, visitas guiadas a cidades históricas, imersão em festivais culturais e programas de relaxamento em spas e hotéis especializados. “Quando falamos de turismo cultural e de natureza, não estamos apenas falando de passeios. Trata- -se de um setor que gera emprego, movimenta a rede hoteleira, a gastronomia e serviços de transporte. A alta de reservas internacionais significa mais renda circulando no Estado e mais oportunidades para pequenos e médios empreendedores”. O índice de ocupação em hotéis e pousadas nos principais polos turísticos do estado deve crescer significativamente entre outubro e dezembro. “É um efeito cascata: o turista que tem uma boa experiência em Minas não apenas retorna em outra ocasião, como se torna um promotor espontâneo do destino em seu país de origem”, acrescenta o agente de viagens Vicente Brandão. Ele ressalta que outro fator que contribuiu para o crescimento das reservas internacionais é o investimento em marketing digital e parcerias internacionais. “Os turistas de hoje buscam experiências únicas e completas. Minas conseguiu unir história, natureza, gastronomia e conforto em roteiros que agradam tanto ao público europeu quanto ao americano e latino-americano. Esse alinhamento estratégico explica grande parte do aumento de reservas”. O levantamento aponta ainda uma alteração importante no perfil dos turistas que visitam Minas Gerais. Enquanto São Paulo sempre foi responsável por mais de 40% dos visitantes, em 2025 sua participação caiu para 26%, mantendo-se como o principal mercado emissor, mas indicando uma maior diversificação geográfica e o amadurecimento do turismo no Estado. Para o futuro, Ana Carolina afirma que Minas Gerais tem potencial para consolidar sua posição como um dos destinos turísticos mais importantes das Américas. O desafio, será manter a qualidade dos serviços e a diversidade de roteiros, garantindo que a experiência do visitante seja sempre diferenciada. “O crescimento é um dado extraordinário, mas ele precisa ser sustentado por planejamento contínuo, investimento em infraestrutura, capacitação de profissionais e inovação nos produtos turísticos. Minas tem todos os elementos para se tornar referência global em turismo de cultura, natureza e bem-estar”, conclui.

Setor supermercadista projeta uma expansão de 6,8% no último trimestre

O setor de supermercados em Minas Gerais entra em ritmo de otimismo para o último trimestre de 2025. Dados divulgados recentemente pela Associação Mineira de Supermercados (AMIS) apontam que as vendas desse período devem crescer aproximadamente 6,8% em relação ao mesmo período do ano anterior. Esse índice, se confirmado, representa um avanço significativo e indica que o segmento está preparado para ultrapassar as expectativas iniciais. Segundo o levantamento, a estimativa para o ano como um todo era de um crescimento mais modesto, cerca de 3,3% frente a 2024. Entretanto, o bom desempenho acumulado, com alta em torno de 2,98% no período de janeiro a agosto, já sinalizava que o segmento poderia terminar o ano além da projeção inicial. Entre os fatores que sustentam essa previsão de crescimento estão a queda da taxa de desemprego no Estado, a melhora gradual da renda das famílias mineiras e a retomada do consumo. A AMIS aponta que esse conjunto cria um ambiente favorável para o varejo supermercadista em Minas Gerais. Para a economista Cláudia Menezes, o setor supermercadista mineiro chega ao fim de 2025 mais forte e confiante. “O consumidor está voltando às compras com mais segurança, e os supermercados estão preparados para atender a essa demanda com sortimento, preço competitivo e qualidade no atendimento. As vendas de Natal e Ano Novo devem representar o ponto alto desse crescimento, impulsionadas por produtos típicos de fim de ano, como panetones, vinhos e frutas frescas”. As estimativas indicam um aumento na procura por diversos produtos que compõem a tradicional cesta de compras do fim de ano. As frutas frescas, por exemplo, devem registrar crescimento de 8,6% na demanda. O consumo de vinhos tende a subir 7,8%, enquanto os panetones apresentam expectativa de alta de 6,7%, segundo as projeções dos entrevistados. No grupo das bebidas geladas, as cervejas devem ter avanço de 7,9% no consumo. Já os sucos apontam para um crescimento de 6,1%, e os refrigerantes, de 5,8% em relação ao mesmo período do ano anterior. Entre os destaques, as cervejas sem álcool continuam em expansão, com previsão de aumento de 9,3% nas vendas. Cláudia explica que o otimismo do setor está diretamente ligado à recuperação gradual da economia mineira e ao aumento do poder de compra das famílias. “Minas Gerais vive um momento de estabilidade econômica, com inflação mais controlada e melhora na taxa de ocupação do mercado de trabalho. Isso se reflete no bolso do consumidor, que volta a consumir produtos de maior valor agregado, especialmente em períodos festivos”. Para o pesquisador de mercado Felipe Tavares, a diversificação do consumo também é um dos pilares desse crescimento. “O mineiro tem valorizado mais a qualidade e a conveniência. Há um aumento nas compras de produtos premium, vinhos, itens regionais e alimentos prontos. Essa mudança de comportamento é percebida por toda a cadeia varejista e reforça a importância da adaptação dos supermercados às novas demandas do público”. “Os supermercados têm investido em estratégias de inovação, digitalização e eficiência operacional. A aposta em programas de fidelidade, aplicativos de descontos personalizados e integração entre loja física e e-commerce tem se mostrado essencial para ampliar as vendas e manter a competitividade. Além disso, a personalização da experiência de compra e a oferta de produtos regionais têm se destacado como diferenciais”, explica. De acordo com a pesquisa, aproximadamente 8.200 profissionais deverão ser contratados temporariamente pelo setor. O estudo também aponta que 59,4% das empresas pretendem realizar contratações sazonais, enquanto 40,6% dos supermercadistas afirmaram não adotar esse tipo de contratação. Cerca de 21,5% dos trabalhadores temporários acabam sendo efetivados ao término do contrato. Por outro lado, 39% dos participantes da pesquisa informaram que as contratações ocorrem apenas para suprir a demanda extra do período de fim de ano. “Os últimos meses são um momento de pico no consumo e exige agilidade no atendimento. As contratações temporárias garantem que as lojas mantenham a qualidade no serviço mesmo com o aumento da movimentação. Essas vagas são uma porta de entrada para quem busca recolocação ou o primeiro emprego e a efetivação depende muito do desempenho e da necessidade da loja após o período sazonal”, ressalta Tavares.

Mercado ilegal de bebidas alcoólicas gera perda de R$ 28 bilhões

Uma pesquisa realizada pela Euromonitor International, a pedido da Associação Brasileira de Bebidas Destiladas (ABBD), aponta que o comércio ilegal de bebidas alcoólicas no Brasil ainda representa um impacto significativo, gerando prejuízos estimados em R$ 28 bilhões para a economia e para o sistema de saúde pública. De acordo com o estudo, cerca de 28% das bebidas destiladas comercializadas no Brasil têm origem ilegal. Isso não significa, porém, que todo esse volume seja composto por produtos falsificados. Dentro desse índice, estão incluídas práticas como sonegação de impostos, contrabando, descaminho e fabricação sem registro legal. A falsificação, especificamente, responde por 1,1% do mercado total de bebidas alcoólicas e por 4,7% do setor de destilados, o mais afetado, segundo a ABBD. O levantamento aponta que as principais formas de falsificação envolvem o refil de garrafas de marcas reconhecidas utilizando produtos de baixo custo e a utilização de álcool não apropriado para consumo humano, como o metanol, na composição das bebidas. Essa prática é vantajosa para os falsificadores devido à grande diferença de preço, o que acaba atraindo consumidores, em plataformas on-line, por exemplo, o whisky falsificado pode custar até 48% menos que o autêntico. Para o toxicologista Eduardo Farias, o problema tem raízes profundas. “Estamos falando de um mercado paralelo muito bem estruturado, que atua em toda a cadeia: da produção à distribuição, muitas vezes usando rótulos e embalagens idênticas às originais. A população é enganada com facilidade e o consumo desses produtos é uma roleta-russa. A pessoa pode achar que está fazendo um bom negócio, mas está colocando a própria vida em risco”. Farias ainda aponta que o metanol é usado por falsificadores por ser mais barato e mais fácil de obter do que o etanol próprio para consumo. “É uma decisão criminosa, feita para baratear custos de forma irresponsável. Mesmo em pequenas quantidades, a ingestão de metanol pode causar prejuízos irreversíveis ao organismo”. Além dos danos à saúde, o mercado ilegal corrói a economia formal. Os produtores regulares enfrentam concorrência desleal, enquanto o Estado deixa de arrecadar bilhões em impostos. Para a economista e especialista em regulação de mercados, Camila Pontes, o problema persiste por falhas de fiscalização e pela alta tolerância à informalidade no país. “A dificuldade de fiscalização tem diversos desafios, como a grande extensão territorial do país, o avanço na organização e sofisticação das redes criminosas, além da ampla disseminação de canais informais e digitais de venda, que facilitam a distribuição e o escoamento de produtos ilegais. É um ciclo que se retroalimenta: enquanto o consumidor aceitar pagar menos por um produto sem origem clara, e o poder público não conseguir coibir com eficiência a produção e distribuição, o comércio ilegal vai continuar crescendo”, explica. Campanhas de conscientização sobre os riscos do consumo de bebidas ilegais, principalmente em eventos informais e pontos de venda não autorizados, podem ajudar a reduzir a demanda. Ao mesmo tempo, também é preciso reforçar a presença dos órgãos de controle, como a Receita Federal, a Vigilância Sanitária e as polícias estaduais. Ela também ressalta a importância de uma maior cooperação entre os setores público e privado, especialmente com os fabricantes legais de bebidas. “As empresas têm interesse direto em combater a falsificação e a concorrência desleal. Já existem tecnologias antifraude que podem ser implementadas nos rótulos, tampas e embalagens para dificultar a ação dos criminosos. O problema é que isso tem custo e, muitas vezes, as pequenas empresas não conseguem arcar sozinhas com o valor”. É preciso buscar junto ao governo federal soluções integradas para mitigar o problema, como a revisão do modelo tributário, que pode estimular a formalização de pequenos produtores e dificultar a atuação do mercado clandestino.