A participação do árbitro brasileiro Wilton Pereira Sampaio na abertura da Copa do Mundo foi histórica. Pela primeira vez, um árbitro nascido no Brasil comandou o jogo inaugural do principal torneio do futebol mundial, um reconhecimento que poucos profissionais da arbitragem alcançam em toda a carreira.
Mas bastaram alguns segundos diante do microfone para que parte da discussão deixasse o futebol e migrasse para as redes sociais. Após uma revisão do VAR, Wilton anunciou sua decisão em inglês, conforme exige o novo protocolo de comunicação da FIFA. Sua pronúncia e algumas construções linguísticas foram imediatamente transformadas em memes, comparações e piadas.
É legítimo observar que o inglês do árbitro não era perfeito. Afinal, ele não é professor de idiomas, tradutor ou diplomata. É um árbitro de futebol que, diante de um estádio lotado e de uma audiência global, precisou transmitir uma decisão técnica em uma língua que não é a sua. E conseguiu cumprir o principal objetivo da comunicação: fazer-se entender.
O episódio expôs um comportamento recorrente do brasileiro: a tendência de valorizar excessivamente o que vem de fora e ridicularizar seus próprios representantes. O chamado “complexo de vira-lata”, conceito popularizado pelo escritor e jornalista Nelson Rodrigues, aparece justamente quando transformamos um feito relevante em motivo de constrangimento nacional.
Curiosamente, enquanto muitos brasileiros concentravam suas atenções no sotaque do árbitro, analistas internacionais e comentaristas estrangeiros destacavam sua condução da partida. Houve críticas a decisões específicas, especialmente às expulsões, mas também elogios à personalidade e ao controle do jogo.
Isso não significa que Wilton esteja acima de críticas. A arbitragem faz parte do espetáculo e deve ser debatida. O próprio árbitro já foi alvo de questionamentos em competições anteriores e continua dividindo opiniões entre torcedores e especialistas.
O problema surge quando o debate abandona a análise técnica para se transformar em zombaria gratuita. Em vez de discutir a correção das decisões tomadas em campo, muitos preferiram julgar a fluência de alguém que teve a coragem de se comunicar publicamente diante de mais de um bilhão de espectadores potenciais.
A Copa do Mundo deveria servir para celebrar conquistas. E, independentemente das preferências clubísticas ou opiniões sobre sua arbitragem, a presença de Wilton Pereira Sampaio na abertura do torneio representa um reconhecimento internacional da arbitragem brasileira. Talvez esteja na hora de substituirmos o deboche automático por uma análise mais equilibrada.
Em um país que frequentemente reclama da falta de reconhecimento internacional, talvez seja contraditório ridicularizar justamente aqueles que conseguem alcançar esse espaço. Afinal, falar inglês com sotaque brasileiro não diminui a competência de ninguém. Pelo contrário: muitas vezes é apenas a prova de que alguém chegou longe sem precisar deixar de ser quem é.
Criticar quando necessário faz parte do esporte. Ridicularizar um profissional por falar uma segunda língua com sotaque é apenas mais uma demonstração de um complexo que o futebol brasileiro deveria ter superado há muito tempo.