Proibição das plataformas de apostas esportivas on-line pode aquecer o consumo

Foto: Magnific.com

A proibição das plataformas de apostas esportivas on-line, conhecidas como bets, anunciada pelo governo Lula (PT), pode representar uma economia de até R$ 40 bilhões anuais para as famílias brasileiras. O cálculo considera a receita bruta registrada, ao longo de um ano, pelas empresas de apostas virtuais que estavam autorizadas a operar. Esse montante corresponde, em termos práticos, ao dinheiro gasto pelos apostadores nessas plataformas.

Segundo informações da Secretaria de Prêmios e Apostas, vinculada ao Ministério da Fazenda, o setor de apostas de quota fixa no Brasil registrou uma receita bruta (GGR, sigla em inglês para Gross Gaming Revenue) de R$ 20,2 bilhões nos primeiros seis meses deste ano. Nesse intervalo, o mercado contava com 84 empresas autorizadas a operar, responsáveis por 196 marcas comerciais em atividade. Considerando a manutenção desse ritmo ao longo de 12 meses, o volume anual estimado chegaria a R$ 40,4 bilhões, quantia que poderia ser direcionada a outros segmentos da economia.

Além disso, uma pesquisa realizada em parceria pela Universidade de São Paulo (USP) e pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) estima que o avanço das apostas provocou uma redução de R$ 120 bilhões a R$ 141 bilhões na atividade econômica do Brasil ao longo do último ano. Segundo o levantamento, esses valores representam recursos que deixaram de movimentar a economia local, com possíveis impactos sobre diferentes segmentos, como restaurantes, salões de beleza, oficinas mecânicas e pequenos estabelecimentos comerciais.

Setores essenciais

De acordo com a economista Laura Mendes, a principal oportunidade está na possibilidade de redirecionar os recursos para despesas cotidianas. “Quando uma família deixa de comprometer parte da renda com apostas, pode ganhar margem para comprar alimentos, pagar contas, adquirir roupas e contratar serviços. Esse dinheiro volta a atender necessidades concretas e pode sustentar negócios que dependem diretamente do consumo local”.

A circulação da renda também pode alcançar setores essenciais, como saúde e educação. Com maior disponibilidade financeira, famílias podem ter mais condições de comprar medicamentos, realizar consultas, adquirir material escolar e investir em cursos profissionalizantes. O efeito, porém, depende das decisões de cada consumidor e da efetiva redução dos gastos com apostas, não sendo uma transferência automática de recursos para essas áreas.

Na avaliação do consultor financeiro Ricardo Faria, a mudança pode favorecer um ciclo econômico mais distribuído. “O gasto realizado em um pequeno comércio ajuda a pagar fornecedores, salários e despesas operacionais. Parte desse dinheiro continua circulando na própria cidade, beneficiando outros negócios, se houver uma redução consistente das perdas com apostas, esse movimento poderá contribuir para fortalecer a economia dos municípios”.

Para Faria, apesar das perspectivas positivas, os resultados dependem da capacidade de impedir que os apostadores migrem para plataformas clandestinas. “Sem fiscalização eficiente, parte da demanda pode continuar direcionada a sites ilegais, que operam sem as mesmas exigências de controle e proteção ao consumidor. Nesse cenário, o dinheiro não necessariamente retornaria ao comércio ou às despesas essenciais das famílias”.

Laura explica que outro desafio é garantir que a renda liberada seja utilizada de maneira sustentável. “O pagamento de dívidas, a formação de uma reserva de emergência e a regularização de contas atrasadas também podem ser destinos importantes para os recursos, embora essas escolhas não aumentem imediatamente o consumo, elas podem reduzir a vulnerabilidade financeira e ampliar a capacidade de compra das famílias no futuro”, finaliza.

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