
O Brasil chegou a 103,5 milhões de pessoas ocupadas no trimestre encerrado em agosto, com taxa de desemprego de 5,3%. Apesar do recorde, empresas continuam enfrentando dificuldades para preencher vagas. Uma pesquisa do ManpowerGroup mostra que oito em cada dez empregadores brasileiros têm problemas para encontrar os profissionais de que precisam. O índice de 80% supera a média global, de 72%, e evidencia o descompasso entre as competências disponíveis e as exigências do mercado.
Outro levantamento, da Fundação Getúlio Vargas (FGV IBRE), mostrou que 62,3% das empresas consultadas enfrentavam dificuldades para contratar ou reter funcionários no fim de 2025, ante 58,7% em 2024. Na construção civil, cerca de sete em cada dez empresas relataram obstáculos.
Para o economista Gabriel Vaz, os números não são contraditórios, pois o mercado de trabalho é segmentado por profissão, qualificação, experiência e localização. “Uma empresa pode estar procurando um eletricista qualificado em determinada região, enquanto o trabalhador disponível possui experiência no comércio e reside em outra cidade. Portanto, existe oferta de trabalho e demanda, mas elas não necessariamente se encontram”.
Segundo Vaz, a remuneração também influencia esse cenário. “Muitas vezes, a dificuldade de contratação não decorre da inexistência de trabalhadores, e sim de encontrar profissionais dispostos a aceitar as condições oferecidas”.
Exigências e qualificação
Conforme a CEO da MBRH, Andiara Martins, parte das dificuldades está na forma como as empresas conduzem os processos seletivos. Exigências excessivas, descrições de cargos pouco realistas, salários desalinhados ao mercado e baixa flexibilidade podem afastar candidatos. “Precisamos compreender que o mercado mudou. O profissional qualificado também avalia a empresa, sua cultura, suas lideranças e suas perspectivas de desenvolvimento”.
Ela destaca que a escassez varia conforme a área. Tecnologia exige atualização constante diante da transformação digital e da inteligência artificial. Já funções de atendimento e vendas demandam, além de conhecimento técnico, comunicação, adaptabilidade e capacidade de solucionar problemas.
“Muitas organizações procuram profissionais prontos para todas as exigências, o que pode não existir. As empresas precisam decidir se continuarão procurando talentos ideais ou se começarão a desenvolver talentos com potencial real. Essa estratégia pode ampliar resultados”, pontua.
Na avaliação de Andiara, as empresas precisam avaliar se as vagas permanecem abertas por falta de qualificação ou por condições pouco competitivas. Remuneração, benefícios, jornada e exigências devem ser revistos, assim como a duração dos processos seletivos. “Uma vaga aberta durante meses não representa necessariamente falta de talentos. Pode representar falta de alinhamento entre o que a empresa exige e aquilo que está disposta a oferecer”, afirma.
A consultora defende ainda processos ágeis e seleção baseada em competências e potencial, ampliando oportunidades para jovens, profissionais acima dos 50 anos e pessoas em transição de carreira. Também considera investir no desenvolvimento dos funcionários para reduzir a rotatividade.
De acordo com Vaz, os desafios vão além de formar trabalhadores. “É preciso tornar as oportunidades compatíveis com as expectativas dos candidatos. A qualificação ajuda, mas sem condições de infraestrutura e salário equivalentes, o trabalhador qualificado escolhe outra oportunidade”, conclui.