
Até 2050, metade da população global poderá ser míope, o que representaria aproximadamente 5 bilhões de pessoas, segundo estimativa publicada na revista Ophthalmology. No Brasil, levantamentos da Sociedade Brasileira de Oftalmologia apontam que o número de diagnósticos em crianças e adolescentes aumentou mais de 35% nos últimos dez anos.
Já um estudo publicado na revista JAMA Ophthalmology identificou aumento de aproximadamente 1,4 a 3 vezes na prevalência de miopia entre crianças de 6 a 8 anos durante o confinamento da pandemia de COVID-19. Os pesquisadores relacionaram o cenário às mudanças na rotina infantil, incluindo a redução das atividades ao ar livre.
O oftalmologista da Unimed-BH, Luiz Carlos Molinari Gomes, explica que a miopia está aumentando no mundo todo, especialmente entre crianças e adolescentes. “Quanto mais cedo surge e maior é o grau, cresce o risco de complicações oculares no futuro. Por isso, é importante diagnosticar e acompanhar sua progressão”.
Gomes afirma que estudos associam o excesso de atividades de perto a um risco maior. “As telas contribuem por aumentarem o tempo de visão de perto e reduzirem, muitas vezes, as atividades ao ar livre, que parecem ter efeito protetor. Portanto, a tecnologia deve ser usada com equilíbrio”.
“O uso prolongado pode causar cansaço visual digital e olho seco. Como piscamos menos diante das telas, podem surgir ressecamento, ardência, sensação de areia, lacrimejamento, visão borrada e desconforto ocular. Para pessoas que apresentam sintomas de ressecamento ocular, pode ser recomendado o uso de lágrimas artificiais (lubrificantes)”, acrescenta.
Atenção
Os primeiros sinais de miopia que os pais podem perceber no comportamento de uma criança são: apertar os olhos para enxergar de longe, aproximar-se da televisão ou dos livros, sentar perto da lousa ou reclamar de dificuldade para ver. O especialista acrescenta ainda a dor de cabeça. “Como muitas crianças não percebem ou não relatam a dificuldade, os pais devem observar seu comportamento”.
A frequência das consultas ao oftalmologista depende da idade, dos fatores de risco e da presença de alterações visuais, pontua o oftalmologista. “Jovens míopes precisam de acompanhamento periódico para verificar se o grau está aumentando. E mesmo sem sintomas, toda criança deve ter a visão avaliada durante a infância, pois pode enxergar mal sem perceber”.
A Sociedade Brasileira de Oftalmologia Pediátrica orienta que o tratamento de uma criança com miopia deve incluir não somente a correção do grau, mas também o monitoramento da progressão e do comprimento axial do olho, medida que indica seu tamanho. Esse monitoramento deve ser feito por meio de avaliações oftalmológicas periódicas.
Segundo Gomes, para controlar a progressão do erro refrativo, as opções incluem lentes específicas para óculos, lentes de contato e, em casos selecionados, baixas concentrações de atropina. “A escolha depende da idade, do grau e da velocidade de progressão. Além disso, é importante aumentar o tempo ao ar livre e evitar períodos prolongados de atividades de perto”.
Tempo de tela
A Sociedade Brasileira de Oftalmologia Pediátrica e outras entidades recomendam:
Até 2 anos: Evitar telas, exceto para videochamadas com familiares;
De 2 a 5 anos: No máximo 1 hora por dia, com conteúdo educativo e supervisão;
De 6 a 10 anos: Até 2 horas por dia, com equilíbrio entre outras atividades;
Adolescentes: Uso moderado, com intervalos regulares e priorizando atividades ao ar livre.
O especialista ainda aconselha fazer pausas, olhar para longe, manter distância adequada da tela e evitar segurar o celular muito próximo dos olhos. “É usar a regra dos 20-20-20: a cada 20 minutos de atividade diante da tela, olhar por 20 segundos para um objeto a cerca de 6 metros de distância. Uma boa iluminação do local também ajuda. O objetivo principal não é proibir a tecnologia, mas evitar o uso contínuo e excessivo da visão de perto”, finaliza.