
OBrasil deverá registrar 7.560 novos diagnósticos de câncer em crianças e adolescentes por ano entre 2026 e 2028, de acordo com os dados da Estimativa do Instituto Nacional de Câncer (INCA). Desse total, aproximadamente 3.960 ocorrerão em meninos (52,4%) e 3.600 em meninas (47,6%), representando um risco médio de 136,33 casos por milhão de crianças e adolescentes de 0 a 19 anos.
O médico clínico Saulo Vianna Amador dos Santos explica que esse número mostra que, embora o câncer infantojuvenil seja considerado raro quando comparado aos tumores em adultos (representando cerca de 1% a 3% de todos os casos de câncer), ele é uma realidade significativa de saúde pública. “O foco deve ser sempre a conscientização de pais e pediatras para que esses 7,5 mil casos anuais sejam identificados o mais rápido possível, garantindo as altas taxas de cura que a ciência hoje permite”, pontua o profissional.
Segundo Santos, a maior dificuldade do diagnóstico precoce é que o câncer infantojuvenil não tem uma causa clara e não pode ser prevenido, e seus sinais iniciais são parecidos com os de doenças muito comuns na infância.
“Um jovem com leucemia, por exemplo, pode apresentar febre, cansaço e manchas roxas, sintomas que frequentemente são confundidos com viroses, infecções simples ou até mesmo tombos normais da idade. Além disso, crianças menores têm dificuldade de explicar exatamente o que estão sentindo. Isso faz com que as famílias frequentem vários consultórios antes que a suspeita de câncer seja levantada”, acrescenta.
Para o especialista, a demora na descoberta é prejudicial. “Os tumores infantis costumam crescer de forma acelerada. Um atraso de poucas semanas pode ser a diferença entre um tumor localizado e uma doença que já se espalhou para outras partes do corpo. Quando o diagnóstico é tardio, a equipe médica precisa recorrer a tratamentos mais agressivos, o que não só diminui as chances estatísticas de cura, como também aumenta bastante o risco de sequelas graves”.
Em 2023, foram registradas 2.326 mortes pela enfermidade. Atualmente, o câncer é a principal causa de óbitos por doença entre crianças e adolescentes de 1 a 19 anos no país, conforme o INCA.
Diferenças regionais
A incidência estimada de câncer infantojuvenil varia entre as regiões brasileiras. Entre os meninos, o Sul apresenta a maior taxa, com 165,96 casos por milhão, seguido pelo Sudeste (147,37), Nordeste (136,74), Centro-Oeste (119,77) e Norte (102,20). Entre as meninas, a maior incidência também está no Sul, com 181,09 casos por milhão, seguido pelo Sudeste (142,73), Centro-Oeste (117,26), Nordeste (115,81) e Norte (91,29).
Isso reflete a desigualdade na estrutura de saúde, afirma Santos. “Regiões como Sul e Sudeste costumam apresentar taxas de incidência maiores porque possuem mais centros de diagnóstico e sistemas de registro de dados mais eficientes. No Norte e Nordeste, infelizmente, muitas crianças podem vir a falecer sem sequer terem recebido o diagnóstico correto ou antes de seus dados entrarem para as estatísticas oficiais”.
Desafios
O profissional destaca que o principal desafio clínico é o impacto do tratamento em um corpo que está em pleno desenvolvimento. “A quimioterapia e a radioterapia são tratamentos tóxicos. Sendo assim, encontrar o equilíbrio entre destruir as células doentes e proteger os órgãos saudáveis em crescimento é muito complexo”.
“Além disso, há um desafio estrutural e logístico grave: o tratamento exige centros altamente especializados e equipes multidisciplinares. Muitas famílias precisam abandonar suas cidades e se mudar temporariamente para grandes capitais para conseguir tratamento, o que gera um desgaste financeiro e emocional profundo”, complementa.
“O câncer em uma criança é assustador, mas a oncologia pediátrica avançou de forma extraordinária nas últimas décadas. Hoje, a maioria dos cânceres infantojuvenis é curável, desde que tratada em centros de referência. O conhecimento e a atenção dos pais são as melhores ferramentas para o diagnóstico precoce”, finaliza.