
O cabelo crespo carrega ancestralidade, memória e identidade. O ato de trançar vai além da estética: é também uma forma de cuidado, conexão e transmissão de saberes entre gerações. É a partir dessa perspectiva que chega à segunda edição o projeto “Trançar e Contar Histórias – Um Resgate Ancestral”, com início em 26 de setembro, em Belo Horizonte.
Realizada com recursos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte, a iniciativa segue até 12 de dezembro, reunindo rodas de conversa, história musicada, oficinas de tranças nagô e box braids, trançado coletivo e amarrações de turbantes. A proposta aborda a resistência negra a partir da valorização da ancestralidade, do conhecimento, da autoestima, dos vínculos e da criação.
Segundo Ana Paula Barbosa, comunicadora e idealizadora do projeto, esses elementos também são formas de preservar e fortalecer a experiência e a cultura negra. A aproximação dela com o tema surgiu a partir de uma experiência familiar. Graduada em Comunicação Social e mãe de Ana Beatriz, de 13 anos, e Eduardo, de 7, ela passou a enxergar nos cuidados com os cabelos crespos uma forma de fortalecer sua conexão com a ancestralidade, que mais tarde também se tornou parte de sua atuação social.
A transformação teve início quando Ana Beatriz tinha 4 anos. Ao chegar em casa, Ana encontrou a filha chorando e segurando uma tesoura. A menina havia cortado os próprios cabelos porque se incomodava com o formato dos fios, que ficavam para cima. A situação fez Ana repensar sua própria relação com o cabelo e com a maternidade, além de despertar a necessidade de apresentar à filha novas referências de beleza e identidade.
“Aquela experiência me mostrou que uma criança começa muito cedo a perceber como o mundo olha para ela. Quando encontrei minha filha chorando, com uma tesoura na mão, entendi que aquilo não era apenas uma questão de cabelo. Existiam referências de beleza, pertencimento e aceitação sendo construídas ali, e percebi também a minha responsabilidade como mãe: eu precisava aprender a cuidar daquele cabelo, mas, principalmente, ajudá-la a enxergar beleza e história nele. Esse movimento começou dentro da minha casa e depois ganhou uma dimensão muito maior”, relata Ana.
Ela salienta que não se deve ignorar o racismo e nem as dores que atravessam a experiência negra. “A resistência do povo negro também está no conhecimento que permanece, no cuidado, na criatividade, na beleza, no afeto e naquilo que conseguimos transmitir. Por isso, o projeto mistura conversa, história, música e prática. As pessoas vão aprender técnicas, mas também vão trocar experiências, olhar umas para as outras e pensar sobre o significado desses saberes. Acredito muito que a nossa força renasce no coletivo, na oralidade que é uma base de resistência do meu povo e na esperança que nos mantêm em pé”.
Para Ana, é fundamental mostrar que existe conhecimento naquele gesto. “Ao aprender a separar, preparar, trançar e cuidar do cabelo, e depois compartilhar esse saber, não se transmite apenas uma técnica, mas também memória, criatividade, cuidado e tradição. Queremos ainda valorizar referências africanas e afro- -brasileiras e mostrar que tranças e turbantes carregam uma história. O mais bonito é perceber que esse saber ancestral permanece vivo ao encontrar novas mãos e caminhos no presente”.
A primeira edição mostrou que o projeto precisava ir além da oficina de tranças. Nesta segunda, ela reforça os momentos de conversa e reflexão sobre identidade e representatividade, junto à prática. “Para mim, é importante criar espaços onde as pessoas possam aprender, falar sobre como se enxergam e compartilhar saberes. Cada participante traz uma história diferente, e essa diversidade fortalece o projeto. Foi assim que percebi que a história da Bia, minha filha, também se conecta à de muitas mulheres negras”, explica.
Serviço
Trançar e Contar Histórias Um Resgate Ancestral | 2ª edição
Período: 26 de setembro a 12 de dezembro
Horário: sábados, das 9h às 11h
Local: Centro Cultural Bairro das Indústrias
Endereço: Rua dos Industriários, 289 – Bairro das Indústrias
Programação:
26/09 – Roda de Conversa/Abertura
10/10 – História Musicada: Trança e Trança
07/11 – Oficina de Tranças Nagô
14/11 – Oficina Prática de Tranças
28/11 – Oficina de Box Braids
05/12 – Oficina de Amarrações em Turbantes
12/12 – Roda de Conversa/Encerramento