Eleição pode travar R$ 62 bilhões no varejo

Indefinição econômica faz consumidor adiar a troca do veículo – Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

A proximidade de uma eleição presidencial altamente acirrada pode adiar até R$ 62 bilhões em vendas do varejo brasileiro no trimestre das urnas, entre agosto e outubro. O alerta vem de um levantamento do IBEVAR-FIA Business School, que analisou duas décadas de vendas do setor cruzadas com a atividade econômica geral. O estudo aponta que 2026 reúne o maior nível de incerteza de política econômica: 238 pontos, o maior registrado no início de um ano eleitoral.

O presidente do IBEVAR e professor da FIA Business School, Claudio Felisoni, explica a reação do consumidor diante do cenário indefinido. “A decisão de compra de um bem durável embute uma aposta sobre o futuro como juros, câmbio, regras tributárias, política de crédito. Quando o resultado está indefinido, o consumidor não sabe qual política econômica vigorará em janeiro e prefere esperar a urna decidir por ele”.

Historicamente, os anos de disputa presidencial costumam favorecer o comércio devido a estímulos governamentais. Contudo, esse padrão se inverteu nas duas únicas eleições decididas por menos de cinco pontos percentuais no segundo turno (2014 e 2022). Nesses cenários de empate técnico, o varejo ampliado rodou 5,8 pontos percentuais abaixo do seu desempenho esperado em relação à economia, gerando a perda potencial de até R$ 62 bilhões em faturamento acumulado no período.

Sobre esse montante, Felisoni detalha a dimensão do impacto. “Na prática, é uma demanda que não desaparece, mas se desloca no tempo. Parte é recuperada no trimestre seguinte após as eleições. Mas parte fica perdida, em 2014 e 2022 esse rebote ficou abaixo do padrão histórico. Para a economia, é um trimestre de atividade mais fraca na reta final do ano, pressionando emprego no comércio, giro de estoque e arrecadação em um período que deveria puxar o resultado anual”.

Os segmentos mais afetados pela cautela do consumidor são os de bens duráveis, veículos, motos e peças (-12,8 pontos percentuais), móveis e eletrodomésticos (-11,2 pontos percentuais) e material de construção (-7,4 pontos percentuais). Já no varejo de bens essenciais, do dia a dia, houve queda de 2,4 pontos percentuais.

“Esses três setores têm em comum tíquete alto, financiamento longo e possibilidade de adiamento sem custo imediato. Ninguém deixa de comprar arroz, mas pode adiar a troca do carro por três meses sem prejuízo prático”, ressalta o professor.

Em 2026, o setor de material de construção já dá sinais de desaceleração adiantada, rodando 2,7 pontos percentuais atrás da economia no acumulado do ano. “Ver o mesmo setor descolar do padrão antes mesmo da campanha eleitoral entrar em ritmo de disputa sugere que o mercado já está precificando a incerteza”, analisa Felisoni.

A situação ganha complexidade pelo calendário de 2026, já que um eventual segundo turno ocorrerá muito próximo da Black Friday e do Natal, consideradas as principais datas do comércio. Para Felisoni, o lojista precisará antecipar estratégias. “O calendário de 2026 é o mais desfavorável possível, pois um eventual segundo turno em 25 de outubro termina direto nas duas datas que mais pesam no ano do varejo, dando pouco tempo para o ‘alívio pós-eleição’ se converter em vendas antes dessas datas”.

“A resposta indicada pelo próprio estudo é antecipar a operação. Adiantando estoque, crédito pré-aprovado e campanha prontos antes do resultado. Porque quem esperar para reagir corre o risco de perder as duas datas mais importantes do ano”, conclui.

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