Durante um longo tempo, dediquei parte da minha vida profissional à redação do jornal Estado de Minas. Tive oportunidade de dividir horas com grandes nomes do jornalismo brasileiro, muitos se tornaram amigos e ainda hoje temos convivência. Entre as experiências vividas, uma me voltou à memória nos últimos dias.
Depois da informatização da redação, quando o futuro tecnológico ameaçava acabar com o chamado romantismo do jornalismo, vivíamos horas em seminários, encontros e congressos pelo Brasil afora. Na verdade, o tal novo aprendizado não conseguia apagar a forma arcaica e correta que fazíamos diariamente. Era uma coisa teórica e que gerava debates acalorados, terminando nas mesas diplomáticas do Bar do Chico ou na Cantina Goiás.
Certa vez, fomos apresentados a um guru espanhol, com credenciais da Universidade de Navarra, fundada em Pamplona, na Espanha. Hoje, ela oferece 27 titulações oficiais e mais de 300 programas de pós-graduação. O seu lema é formar jornalistas comprometidos que buscam transmitir a verdade e combater a desinformação. Foi uma parceria feita entre jornais brasileiros e a universidade, até então, uma das mais importantes na formação de profissionais de imprensa.
A tese defendida na época e que tentaram implantar entre os profissionais brasileiros era a do periodista total. Queriam que a gente assoviasse, chupasse cana e urinasse ao mesmo tempo. Ideal de um jornalista completo, que acompanhasse de perto o caminho de sua matéria. Com o aprimoramento tecnológico, foi nos mostrado à época, que o repórter sairia de casa pela manhã, iria ao encontro do fato, escreveria o texto, faria as fotos e ele mesmo editaria, já colocando em uma página predeterminada à sua disposição no seu laptop. Putz! Parecia ser o máximo! Um sonho! Mas, essa tese colocada em nossas cabeças o tempo todo estava virando um pesadelo.
A incerteza causada pelo avanço tecnológico era uma ameaça. Acabaria com as diversas áreas para a confecção do produto final, o jornal impresso. Ao reconhecer que o futuro estava logo ali, sabíamos que custaria bem caro. Pelo preço dos equipamentos e pela redução dos cargos da redação. O “jornalista completo” absorveria as funções que giravam em torno de um repórter: copy, revisor, diagramador e fotógrafo. Seria o fim.
Esse projeto foi afastado na época e não vingou em várias redações, mas logo o futuro atingiu em cheio o jornal impresso, hoje raro. Quando existe, está em tamanho menor, com menos informações. O eletrônico é mais rápido e, com as mídias sociais da internet, todo mundo pode ser um repórter e a prova anda correndo por aí.
A tese de Navarra serviu para aqueles que são lobos solitários da informação, como o documentarista Gabriel Chaim. Paraense de nascença, cidadão do mundo, premiado por suas coberturas de conflitos em todos os cantos deste planeta. Ele cuida de seu transporte e leva sua tralha toda. Grava imagens, faz fotos e textos, edita e entrega a quem o contratou. Ele é apenas um dos inúmeros profissionais que usam da tecnologia para se tornar um profissional completo.
Enquanto isso, donos de empresas de jornalismo aproveitam a tese de periodista total para explorar seus funcionários, obrigando-os a desempenhar funções duplas ou triplas em suas jornadas de trabalho. Rodrigo Lapa, 49 anos, cinegrafista da Band, morreu juntamente com a repórter Alice Ribeiro, 35 anos, em um acidente na 381, quando dirigia o carro da emissora. Nos planos e teses de Navarra, não constava a absorção do motorista pelo profissional de imprensa. Lamentável.
Pitaco 1: Meu companheiro de redação, saudoso Rogério Perez, criou um bordão em suas publicações nas mídias sociais. Sempre crítico das modernidades tecnológicas, escrevia: “O que estão fazendo com o jornalismo?”.
Pitaco 2: Recentemente, a Globonews ouviu e citou como fonte de informações um cidadão brasileiro que mora nos Estados Unidos, neto do ex-presidente Figueiredo, denunciado pelo STF. Sei não.
Pitaco 3: Na área esportiva, todo mundo virou comentarista. Em Minas, Rio de Janeiro e São Paulo, ex-jogadores assumiram os cargos. A Associação Mineira de Cronistas Esportivos não fala nada.
Pitaco 4: Sou signatário do documento que pede de volta a AMI para os jornalistas. A luta é brava e estamos juntos.