Participação feminina na política brasileira ainda permanece desigual

Foto: Waldemir Barreto/Agência Senado

As mulheres representam 34,8% das candidaturas registradas para as eleições de 2026. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), foram considerados 20.560 registros, sendo 7.165 de mulheres. A participação feminina era de 33,8% nas eleições gerais de 2022. O número de candidaturas femininas para a Câmara dos Deputados caiu 24% em relação à última eleição geral, passando de 3.717 para 2.820. Nas eleições majoritárias, 34 mulheres disputam os governos estaduais e o Distrito Federal, em um universo de 198 concorrentes. Em 2022, foram 38. Para debater a representatividade na política, o Edição do Brasil conversou com o professor de Ciências Sociais do Centro Universitário Arnaldo, de Belo Horizonte, Luciano Gomes dos Santos.

Como você avalia a representatividade das mulheres na política brasileira atualmente?

A presença das mulheres na política avançou, porém, ainda está muito distante de representar a composição da sociedade. Os dados demonstram que as mulheres estão ocupando cada vez mais o espaço eleitoral, mas a participação nas estruturas de poder continua desproporcional. O problema, portanto, não é apenas conseguir que sejam candidatas, mas garantir condições reais para que possam disputar, vencer e exercer seus mandatos. A sub-representação feminina revela que ainda existem diversas barreiras.

Quais são hoje as principais barreiras para que mais mulheres entrem na disputa eleitoral?

As barreiras são múltiplas e se reforçam mutuamente. Podemos destacar a dificuldade de acesso a recursos financeiros, a menor inserção nas estruturas partidárias, a violência política de gênero, a exposição a ataques nas redes sociais e os estereótipos que ainda questionam a capacidade das mulheres para exercer liderança. Também precisamos considerar as desigualdades de raça, classe, território e orientação sexual, que fazem com que determinadas mulheres enfrentem obstáculos ainda maiores.

Por que o aumento das candidaturas femininas, ao longo das últimas décadas, não acompanhou, na mesma proporção, o número de mulheres eleitas?

Porque ser candidata não significa necessariamente ter uma candidatura competitiva. A legislação ampliou a participação feminina e estabeleceu mecanismos de incentivo, mas ainda existem diferenças importantes nas condições oferecidas pelos partidos, no financiamento, no tempo de propaganda, na estrutura de campanha e na visibilidade pública. Em alguns casos, inclusive, mulheres são lançadas apenas para cumprir formalmente as exigências legais, sem receber estrutura equivalente destinada às candidaturas consideradas prioritárias. A democracia eleitoral precisa avançar da igualdade formal para a igualdade material, ou seja, para condições concretas de competição.

A baixa presença de mulheres nos espaços de poder pode influenciar a forma como determinadas pautas sociais são discutidas?

Sim. Isso não significa afirmar que todas as mulheres possuem necessariamente as mesmas posições políticas, mas significa reconhecer que experiências sociais diferentes podem ampliar o repertório de problemas percebidos pela política. Temas como violência contra as mulheres, cuidado, maternidade, saúde, educação, desigualdade salarial, creches, pobreza e políticas de proteção social podem ganhar maior visibilidade quando existe diversidade nos espaços decisórios. O mesmo vale para mulheres negras, indígenas, periféricas e outros grupos historicamente sub-representados.

O que precisaria acontecer para que a representação feminina na política brasileira se aproximasse mais da composição da própria sociedade?

Precisamos transformar a participação feminina em uma política permanente de democratização do poder. Isso envolve partidos políticos mais comprometidos com a formação e promoção de lideranças femininas, distribuição transparente e efetiva dos recursos eleitorais e mecanismos rigorosos de fiscalização. É necessário também combater a violência política de gênero, além de investir em educação política desde a escola, estimular a participação cidadã e romper com estereótipos sobre liderança feminina.

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