
A quinta edição do levantamento “3 Coisas que Eu Quero Melhorar no Mundo” indica que, entre 419 crianças e adolescentes ouvidos, os temas mais valorizados são educação, enfrentamento à fome e o fortalecimento da empatia e do cuidado com o outro. Realizada desde 2020, a pesquisa acompanha as expectativas das novas gerações e evidencia um avanço na percepção social desse público.
No consolidado que reúne as três respostas mais citadas, “melhorar a educação e o direito de estudar” aparece na liderança, enquanto “acabar com a fome e a insegurança alimentar” surge logo em seguida. A novidade de 2025 é a subida do desejo por “mais empatia, compaixão e amor ao próximo” para o terceiro lugar, ultrapassando assuntos que historicamente figuravam entre as principais preocupações, como a desigualdade social.
Embora o combate à fome apareça como uma prioridade nacional, cada região do país revelou demandas particulares. No Norte, temas ligados ao meio ambiente ganharam destaque; no Nordeste, surgiram preocupações com economia, preconceito e racismo; no Centro-Oeste, prevaleceram questões de saúde e desigualdade; no Sul, a valorização da empatia e do bem-estar animal; e no Sudeste, o desejo por menos violência e conflitos.
O estudo registrou um avanço expressivo de 111,8% nas respostas enquadradas em “Perspectivas e Soluções”, que alcançaram seu maior índice em 2025 (18,84%), impulsionadas pela alta frequência de termos como “empatia”, “amor”, “paz” e “respeito”. Esse crescimento se deu mesmo em um período pós-pandemia, ainda permeado por impactos na saúde mental, sugerindo uma reação positiva e construtiva das crianças e jovens diante de crises sociais.
Além disso, a permanência dos temas considerados estruturais, que cresceram 133% ao longo das edições, e o destaque contínuo para “educação” e “respeito” indicam que as crianças não apenas reconhecem os desafios existentes, mas também apontam caminhos sustentados por valores que já fazem parte de sua formação.
A psicóloga Carla Silva destaca que o dado sobre empatia não deve ser interpretado como algo abstrato, e sim como um reflexo de vivências concretas. “As crianças estão observando um mundo tensionado por conflitos, violência e intolerância. Quando pedem empatia, estão revelando maturidade emocional e uma compreensão surpreendente de que mudanças profundas começam pelas relações”.
Para Carla, o fato de educação e fome liderarem a lista mostra que a geração atual enxerga com clareza os pilares que sustentam a desigualdade no país. “Uma criança que diz ‘quero que todos possam estudar’ está, sem saber, defendendo o direito básico que transforma vidas e rompe ciclos de pobreza. E quando ela fala sobre acabar com a fome, demonstra uma sensibilidade social que é rara até mesmo entre adultos”.
A socióloga Andreia Lima explica que esse engajamento não acontece à toa. “As novas gerações são mais expostas a conversas sobre cidadania e direitos humanos. Elas veem campanhas, vivenciam debates sobre preconceito, acompanham notícias sobre guerra e fome. Isso gera uma resposta afetiva mais rápida e, ao mesmo tempo, um senso de responsabilidade que não víamos com tanta força em décadas anteriores”.
Mas a questão central levantada por ambas as especialistas é: como transformar essa visão em ações concretas? Para elas, há três caminhos possíveis. O primeiro envolve participação intergeracional, ou seja, ouvir as crianças e envolvê-las em projetos sociais e decisões que afetam seu entorno. O segundo é fortalecer políticas públicas que ampliem o acesso à escola de qualidade, programas de alimentação e espaços de convivência. E o terceiro é promover, de forma ativa, a cultura do respeito e da empatia nas comunidades, escolas e famílias.
“Precisamos transformar a sensibilidade das crianças em movimento social. Se estão pedindo mais amor ao próximo, é porque o mundo está oferecendo pouco disso. Cabe aos adultos criar ambientes onde a solidariedade seja uma prática diária. Estamos diante de um grupo de jovens que não se acomoda, e enxerga problemas estruturais, mas também acredita em soluções. O mínimo que podemos fazer é escutar e agir. A infância é uma bússola ética, quando ela aponta prioridades, devemos prestar atenção”, destaca Andreia.