
A exposição “Marlene Barros: tecitura do feminino”, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil Belo Horizonte (CCBB BH) até 1º de junho, propõe uma reflexão sobre o corpo, a memória e a condição histórica das mulheres por meio da arte têxtil. A mostra reúne 13 obras da artista maranhense e transforma práticas como bordado, crochê e costura em linguagem artística contemporânea. A entrada é gratuita e os ingressos podem ser retirados no site ccbb.com.br/bh ou na bilheteria do CCBB BH.
Com curadoria de Betânia Pinheiro, a exposição ocupa as galerias do térreo do CCBB BH e ressignifica técnicas tradicionalmente associadas ao espaço doméstico. O gesto de costurar, bordar ou tecer ganha novos significados e passa a funcionar como forma de denúncia da invisibilização histórica das mulheres no campo da arte.
Segundo Marlene Barros, seu trabalho parte justamente do deslocamento desses saberes têxteis para o universo das artes visuais. “Às vezes, práticas vistas como artesanato carregam memória e potência simbólica. Cada ponto é também uma forma de costurar pensamentos e ressignificar um trabalho que por muito tempo foi invisibilizado. Esses saberes podem falar de política, cuidado, resistência e denúncia”.
Corpo feminino e identidade
Ao reunir obras produzidas em diferentes momentos de sua trajetória, a exposição aborda temas como a coisificação do corpo feminino, os padrões estéticos impostos às mulheres e as limitações sociais associadas a elas.
Entre as peças apresentadas está “Eu tenho a tua cara”, instalação composta por 49 fotografias de mulheres nas quais olhos e bocas foram recortados, trocados e costurados. A intervenção cria um efeito de estranhamento e convida o público a refletir sobre identidade e violência de gênero.
De acordo com a artista, a obra também dialoga com dados sobre feminicídio no Brasil. “Ao trocar as bocas e os olhos, proponho uma reflexão sobre empatia e cumplicidade entre mulheres, como se pudéssemos olhar e falar umas pelas outras”, explica.
Outra obra de destaque é “Coso porque está roto”, um casaco que, ao ser visto do avesso, revela órgãos humanos bordados. Inspirada no “Manto da Apresentação”, de Arthur Bispo do Rosário, a peça é uma metáfora de interioridade e vulnerabilidade.
“À medida que bordava coração, pulmões e vísceras, pensava na forma como carregamos sentimentos difíceis de nomear. Bordar esses elementos foi uma maneira de materializar essas camadas internas”, relata Marlene.
Memória e experiência
A exposição também incorpora elementos autobiográficos. Em “Caixa Preta”, fotografias, colagens e intervenções têxteis formam um autorretrato expandido da artista, reunindo fragmentos de memória e experiências pessoais.
Já na instalação “Entre nós”, o crochê deixa de ser um objeto doméstico para ocupar o espaço expositivo e criar uma experiência imersiva. O visitante atravessa uma trama de fios e significados, refletindo sobre atividades historicamente atribuídas às mulheres e naturalizadas em contextos de submissão doméstica.
Embora as obras tenham sido produzidas em momentos distintos da carreira da artista, a curadoria buscou criar um diálogo entre elas. O percurso expositivo não segue ordem cronológica, permitindo que o público construa sua própria leitura a partir das relações entre matéria, gesto e memória.
Com mais de quatro décadas de atuação, Marlene Barros consolidou-se como referência no cenário artístico maranhense. Em “Tecitura do feminino”, a artista transforma linhas, tecidos e costuras em elementos de reflexão sobre o feminino, ampliando o debate sobre o lugar da arte produzida por mulheres e sobre o papel da criação artística como espaço de questionamento social.
Serviço:
Exposição “Marlene Barros: tecitura do feminino”
Data: até 1º de junho
Local: CCBB BH, Praça da Liberdade, 450 – Bairro Funcionários
Horário: de quarta a segunda, das 10h às 22h
Entrada gratuita



