
Mesmo com um jejum de quase 24 anos sem conquistar a Copa do Mundo, a Seleção Brasileira segue mobilizando paixões, consumo e esperança entre os torcedores. É o que aponta a pesquisa “Envolvimento do Brasileiro com a Copa”, realizada pelo Centro de Estudos Aplicados de Marketing (CEAM), da ESPM-SP, com 400 entrevistados de todas as regiões do país. O levantamento mostra que 47% dos brasileiros ainda acreditam no hexa em 2026, enquanto 90% afirmam que vão torcer exclusivamente pelo Brasil durante o torneio.
Os números revelam um torcedor dividido entre o amor pela camisa e a desconfiança em relação ao atual momento da Seleção. Ao mesmo tempo em que 72% dizem sentir orgulho da história da equipe nacional, 67% acreditam que a Seleção já foi mais importante no passado. Outros 65% afirmam sentir menos emoção ao assistir aos jogos atualmente.
Para o pesquisador do CEAM ESPM, Eduardo Mesquita, o peso da tradição ainda sustenta a confiança do brasileiro. “O futebol no Brasil não é apenas esporte, é cultura, é identidade e parte da formação de quem somos. Crescemos ouvindo histórias dos títulos mundiais e vendo a Seleção como símbolo do país. Essa crença não se apaga com uma geração sem título”.
A pesquisa também mostra que a relação do torcedor com a equipe ficou mais crítica. Apenas 34% dizem confiar nas decisões da CBF, e mais da metade considera que os jogadores atuais não demonstram o mesmo comprometimento de gerações anteriores.
Segundo Mesquita, a comparação constante com os grandes times do passado ajuda a explicar essa percepção. “Minha geração viu Ronaldo Fenômeno, Romário, Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo, Kaká, Roberto Carlos, Cafu e Dunga. Jogadores que dominavam o mundo. Quando você tem essa referência, qualquer coisa abaixo parece insuficiente”.
O estudo também aponta a ausência de unanimidades no elenco atual. Neymar aparece como o jogador mais indispensável para 56% dos entrevistados, mas também registra elevada rejeição: 30,5% dizem que não o convocariam. Entre os jovens de 18 a 34 anos, o apoio ao atacante é maior, enquanto os mais velhos demonstram mais resistência.
“Quem não viu não tem saudade. As novas gerações têm Neymar como referência máxima e ele é, de fato, o único nome que chega próximo ao nível daqueles jogadores que marcaram os anos 1990 e 2000”, destaca Mesquita.
Enquanto nomes experientes enfrentam críticas, jovens como Endrick e Estevão aparecem como símbolos de renovação e esperança. O levantamento mostra que ambos possuem baixos índices de rejeição entre os torcedores. O atacante do Lyon é o caso mais emblemático: 15,5% o querem na Seleção, enquanto apenas 1,8% o rejeitam. Já o jogador do Chelsea aparece com 4,5% de aprovação e apenas 0,8% de rejeição.
Evento aquece mercado
Mesmo com críticas à equipe, a Copa do Mundo continua sendo um evento de grande impacto emocional e econômico para os brasileiros. Entre os entrevistados que afirmam gastar nos dias de jogos, quase metade estima desembolsar R$ 100 ou mais por partida. O consumo inclui alimentos, bebidas, produtos temáticos e encontros com amigos e familiares.
Na avaliação do pesquisador, a Copa é um fenômeno cultural e econômico ao mesmo tempo. “Cada jogo da Seleção é uma festa nos lares brasileiros. Quando o consumo emocional e econômico se encontram, o resultado é esse: quem gasta, gasta de verdade”.
A pesquisa revela ainda que, apesar do entusiasmo, o torcedor parece mais cauteloso em relação às chances da equipe. Mais da metade acredita que o Brasil pode ser eliminado antes da final.
Para Mesquita, o cenário atual também reflete a transformação na forma como o público acompanha o futebol. “Hoje, a informação circula mais rápido, as críticas chegam mais longe e o torcedor tem mais ferramentas para expressar sua insatisfação. Os dados capturam isso”, conclui.