Venda de veículos pode superar a marca de 3 milhões de unidades

Esse patamar não é alcançado desde 2014 / Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A projeção de vendas de autoveículos pode ultrapassar a marca de 3 milhões de unidades emplacadas em 2026, patamar que não é alcançado desde 2014. A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) revisou a projeção para cima, após o encerramento do primeiro semestre e diante do bom desempenho do mercado interno.

Caso a projeção se confirme, o aumento será de 11,7% em relação a 2025, bem acima dos 2,7% previstos no início do ano. O avanço será impulsionado principalmente pelos segmentos de automóveis e comerciais leves, cuja expectativa de crescimento passou para 12,6%. Já os segmentos de caminhões e ônibus devem encerrar o ano com retração de 6%.

O economista Gelton Pinto Coelho ressalta alguns fatores que explicam esse avanço. “O aumento da renda nos últimos três anos, do emprego e do nível de atividade demonstram potencial de expansão. Por outro lado, as fábricas instaladas no Brasil ainda mantêm preços incompatíveis com a qualidade dos carros produzidos”.

“Os descontos acima de R$ 30 mil mostram que o problema principal dos valores dos carros não era nos impostos, mas em uma margem excessiva e abusiva de preços. A concorrência trouxe veículos com melhor tecnologia e acabamento, forçando assim a redução, ainda que modesta”, pontua.

Para Coelho, a manutenção das políticas de emprego e renda apontam para um crescimento sustentável do setor. “Contudo, o mercado de apostas e os riscos do ano eleitoral sugerem cautela. Estamos vivendo uma pandemia das bets que atinge parte das pessoas que consomem automóveis. As taxas de juros são outro fator que de certa forma ainda freia um avanço mais forte e consolidado”.

Balança comercial

Depois de muitos anos, o Brasil voltou a registrar déficit na balança comercial do setor automotivo. No primeiro semestre, ingressaram no país 63 mil autoveículos a mais do que o total exportado. Entre janeiro e junho, foram emplacados 280,6 mil modelos importados, dos quais metade teve origem na China. Em apenas um ano, o volume de veículos chineses enviados ao Brasil dobrou, passando de 70 mil para 140 mil unidades.

Déficits na balança comercial do setor sempre exigem atenção, destaca o economista. “A questão tem relação com a forte entrada de veículos elétricos importados e com a retração, pela piora econômica dos países vizinhos. Apesar de ser um movimento já observado em outros períodos, é necessário que montadoras e governos atuem para amenizar os impactos”.

Exportações

As exportações deverão fechar em 2026 com queda de 12,8%, reflexo da retração do mercado argentino e da maior presença de veículos chineses e mexicanos nos principais destinos dos produtos brasileiros.

Apesar desse cenário, a produção nacional deve registrar um desempenho positivo, mas distante do potencial proporcionado pela demanda interna. O crescimento passou de 3,7% para 5,8% sobre 2025, alcançando um volume próximo de 2,8 milhões de autoveículos produzidos, o melhor resultado desde 2019.

“Por um lado, ficamos satisfeitos com o vigor do mercado nacional e com essa alta na produção, que vem se refletindo em ligeira elevação do nível de empregos”, afirma o presidente da Anfavea, Igor Calvet.

Ele lamenta que parte dessa recuperação venha sendo capturada por importações incentivadas por alíquotas abaixo da média mundial ou pela produção de eletrificados em SKD isenta de Imposto de Importação. “Algo que vem se provando desnecessário e fora de propósito, dado o bom desempenho dos modelos eletrificados no mercado”.

Consumidores

Conforme avaliação de Coelho, se no mercado de novos há promoções e corte de preços, no de usados, o ajuste de valores será forte. “Principalmente entre os SUVs, há veículos com perdas significativas e isso obviamente gera uma pressão nas fábricas. Sobre a questão do crédito, os recentes índices de inflação não sugerem uma melhora nas taxas de juros e, portanto, continuará caro financiar qualquer tipo de bem”.

O especialista ressalta ainda que há previsão de expansão do segmento nos próximos meses. “Porém, é preciso resolver a questão das garantias para a compra de veículos. A intermediação pelo setor bancário tem gerado uma retenção de possíveis compradores, já que o BNDES garante o pagamento, mesmo em caso de dificuldades financeiras de quem compra”.

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