Taxa das blusinhas ajudou a preservar R$ 19,7 bilhões e manter 135,8 mil empregos

Pesquisa aponta que a iniciativa inibiu a importação / Foto: Iano Andrade-CNI

A “taxa das blusinhas” ajudou a preservar R$ 19,7 bilhões na economia, além de manter mais de 135,8 mil empregos. Esses dados constam em nota técnica elaborada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), que também aponta que a medida impediu a entrada de R$ 4,5 bilhões em produtos importados no Brasil. A CNI calculou os efeitos do Imposto de Importação com base no valor médio das remessas no ano passado.

Em 2024, 179,1 milhões de remessas de mercadorias chegaram ao país por meio do programa. Já em 2025, houve uma retração de 10,9%, passando para 159,6 milhões. Segundo a projeção da CNI, no entanto, 205,9 milhões de pacotes entrariam no Brasil, no ano passado, sem a “taxa das blusinhas”, o que representaria 46,3 milhões de unidades a mais do que o registrado. A arrecadação federal com o tributo saltou de R$ 1,4 bilhão para R$ 3,5 bilhões, no primeiro ano completo de vigência. A tarifa passou a valer em agosto de 2024 e faz parte do Programa Remessa Conforme.

O superintendente de Economia da CNI, Márcio Guerra, afirma que o objetivo principal da “taxa das blusinhas” não é apenas fazer a tributação do consumidor, mas proteger a economia. “Tornar a indústria brasileira competitiva é primordial para manter empregos e gerar renda. Ninguém aqui é contra as importações. Elas são bem-vindas, aumentam a competitividade, mas é preciso que entrem no Brasil em condições de igualdade”.

“O Remessa Conforme reduziu o desequilíbrio das condições de concorrência dos produtos nacionais com os importados e contribuiu para moderar o ritmo das importações que se beneficiavam do tratamento tributário desigual”, complementa.

Já a especialista financeira, Karen Freitas, ressalta que a redução das importações gera efeitos ambíguos sobre o mercado interno. “Por um lado, diminui a concorrência direta de produtos estrangeiros, o que pode preservar parte da demanda para o varejo e a indústria nacional. Por outro, trata-se de uma estimativa institucional e ainda não há consenso sobre o efeito líquido na geração de emprego e renda. Além disso, há impacto direto no consumo”.

A tributação reduz distorções, já que empresas brasileiras operam com custos estruturais elevados, destaca Karen. “No entanto, a medida não resolve o problema estrutural da competitividade brasileira. Questões como custo do crédito, complexidade tributária e baixa produtividade continuam sendo determinantes. Assim, a taxação funciona como um mecanismo de ajuste no curto prazo, contudo, não substitui reformas necessárias para equilibrar a competitividade no longo prazo”.

Ela observa que a redução da concorrência internacional pode gerar acomodação em parte das empresas. “Sem essa pressão, há risco de: redução de investimentos em tecnologia e modernização; manutenção de estruturas de custo ineficientes; aumento de preços ao consumidor; e perda de competitividade internacional. No longo prazo, isso pode tornar o setor produtivo mais vulnerável quando a concorrência externa voltar a se intensificar”.

Poder de compra

A especialista pontua que o impacto da medida sobre o poder de compra é mais significativo nas famílias de menor renda. “Esse grupo é mais sensível a preço e utilizava plataformas internacionais como alternativa de consumo acessível, sobretudo para vestuário e bens de menor valor”.

“Com a taxação, esses produtos se tornam mais caros, reduzindo o acesso e comprimindo o orçamento familiar. Assim, embora a política possa beneficiar a produção interna, ela também impõe um custo social relevante ao limitar o consumo de bens mais baratos por parte da população de menor renda”, acrescenta.

Karen explica ainda os impactos sobre uma possível revogação da medida. “Na arrecadação, tem a redução da receita obtida com a tributação de encomendas internacionais; no consumo, o aumento do acesso a produtos importados de baixo custo, beneficiando consumidores; e na competitividade interna, aumento da pressão sobre varejo e indústria nacional”.

“A retirada da taxa favorece o consumidor no curto prazo, mas poderia gerar maior concorrência para empresas brasileiras. Já a manutenção da política protege o mercado interno, contudo, com custo maior para o consumidor. O desafio econômico está em equilibrar proteção produtiva com acesso ao consumo”, finaliza.

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