
Em 2025, o Brasil registrou o maior número de afastamentos do trabalho por transtornos mentais e comportamentais dos últimos anos. Dados da Previdência Social apontam a concessão de 546.254 benefícios por incapacidade temporária relacionados a essas condições, um aumento de 15,6% em comparação com 2024.
A psicóloga e especialista em saúde mental no trabalho, Janaina Fidelis, avalia que os números revelam uma mudança importante na forma como o tema é encarado pela sociedade. “Quando mais de meio milhão de afastamentos acontecem em um ano, não estamos falando apenas de fragilidades individuais. Esse volume também mostra a necessidade de discutir como o trabalho está sendo organizado e quais fatores estão contribuindo para o sofrimento das pessoas”.
Segundo Janaina, os sinais de adoecimento costumam aparecer antes do afastamento. Alterações no sono, irritabilidade frequente, dificuldade de concentração, queda de produtividade, isolamento e sensação constante de esgotamento podem indicar que algo não vai bem. “Muitas pessoas acreditam que é apenas uma fase difícil ou que precisam suportar mais um pouco. Mas quando esses sintomas persistem e começam a comprometer a rotina, é fundamental procurar ajuda especializada”.
Ambiente influencia o adoecimento
Estudos recentes da Fundacentro e da Fundação Getúlio Vargas apontam que a saúde mental no trabalho é um fenômeno multifatorial, envolvendo aspectos individuais, organizacionais e sociais. Ambientes marcados por metas excessivas, baixa autonomia, falta de reconhecimento e relações autoritárias tendem a aumentar o risco de sofrimento psíquico.
Na avaliação de Janaina, a responsabilidade pela prevenção não pode recair exclusivamente sobre o trabalhador. “É preciso que as empresas criem ambientes psicologicamente seguros, onde as pessoas possam falar sobre dificuldades sem medo de julgamento ou de prejuízos profissionais. A saúde mental é uma construção coletiva”.
Ela também chama atenção para o retorno ao trabalho após um afastamento. “Se as causas que contribuíram para o adoecimento não forem identificadas e corrigidas, as chances de recaída permanecem elevadas. Não basta apenas esperar a recuperação. É necessário avaliar a carga de trabalho, as relações profissionais, a liderança e os riscos psicossociais”.
Reflexos aos trabalhadores
Além dos impactos emocionais e profissionais, o afastamento por transtornos mentais também pode produzir efeitos na vida previdenciária dos trabalhadores. A advogada previdenciária Débora Knust explica que os períodos em benefício por incapacidade podem ser considerados para fins de aposentadoria, desde que sejam observadas as regras previstas na legislação. “Pouca gente pensa nisso durante o tratamento, porque a prioridade naquele momento é recuperar a saúde. Mas o período de afastamento pode ter reflexos futuros e merece atenção”.
Trabalhadores autônomos, microempreendedores individuais (MEIs) e contribuintes facultativos precisam ficar atentos à retomada das contribuições após a alta médica, alerta a advogada. “Em muitos casos, uma única contribuição depois do retorno já pode fazer diferença para o reconhecimento daquele período no futuro”.
De acordo com Débora, acompanhar regularmente o Cadastro Nacional de Informações Sociais (CNIS) também é uma medida importante para evitar problemas na hora de solicitar a aposentadoria. “Quanto antes a pessoa verifica se sua trajetória contributiva está registrada corretamente, maiores são as chances de corrigir eventuais inconsistências”.
Para ambas, o crescimento dos afastamentos mostra que a saúde mental deixou de ser uma questão individual para se tornar um desafio coletivo. “O Setembro Amarelo é importante porque abre espaço para a conversa, mas a prevenção precisa acontecer todos os dias. Falar sobre saúde mental é importante. Transformar os ambientes de trabalho em espaços mais saudáveis é indispensável”, conclui Janaina.