
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) alertou que o fim da “taxa das blusinhas” pode levar à perda de 109 mil empregos e reduzir em R$ 21,8 bilhões a produção nacional em 2026. A estimativa consta em nota técnica divulgada em agosto, que analisou os efeitos da retirada do imposto de importação sobre compras internacionais de até US$ 50.
A CNI estima que 249,5 milhões de encomendas de pequeno valor sejam importadas pelo Programa Remessa Conforme (PRC) em 2026, alta de 56,3% ante 2025. Com a cobrança do imposto, o volume seria menor, chegando a 194,9 milhões de remessas. Ainda assim, o número representaria crescimento de 22,1% na comparação anual. Segundo a entidade, o fim da “taxa das blusinhas” pode elevar em 28% a entrada dessas encomendas no país.
Em termos financeiros, a CNI estima que as importações pelo Programa Remessa Conforme somem R$ 23,6 bilhões em 2026, alta de 65,7% sobre 2025. Se a taxação fosse mantida, o valor chegaria a R$ 16,6 bilhões, avanço de 16,2%. Com o fim da cobrança, portanto, o montante das compras internacionais de pequeno valor deve crescer 42,3%.
Segundo a nota técnica, cada R$ 1 em compras realizadas pelo Programa Remessa Conforme representa uma redução de R$ 3,11 na geração de valor ao longo das cadeias produtivas nacionais.
A indústria de transformação seria a mais afetada. Isso ocorre porque produtos como eletrônicos, roupas e outros bens de consumo importados pelo programa competem com mercadorias produzidas no país. Por isso, cerca de dois terços do impacto estimado pela CNI se concentram nesse setor.
Para a economista Paula Tavares, o efeito sobre o mercado interno depende da intensidade com que as pessoas substituem artigos nacionais pelos importados. “Quando o produto estrangeiro fica mais barato, o consumidor ganha poder de compra no curto prazo. O problema é que essa vantagem pode vir acompanhada de uma redução nas vendas das empresas brasileiras, especialmente nos setores que disputam diretamente esse mercado”.
Ainda segundo Paula, a maior concorrência pode obrigar empresas nacionais a reduzir preços, elevar a produtividade e buscar maior eficiência. “Esse movimento, em determinadas circunstâncias, pode beneficiar os consumidores. Por outro lado, a entrada acelerada de produtos importados pode dificultar a sobrevivência de empresas menos competitivas e afetar investimentos e empregos. Há um ganho imediato para quem compra, mas também existe um possível custo para a produção doméstica. O desafio é encontrar um ponto de equilíbrio”.
O economista Rafael Campos avalia que a decisão sobre a taxa não deve considerar apenas o preço pago pelo consumidor. “É preciso olhar para os dois lados. A redução do imposto pode melhorar o bem- -estar de quem compra e aumentar a concorrência, mas uma política que favoreça excessivamente a importação pode enfraquecer setores produtivos estratégicos e reduzir a capacidade de geração de emprego no país”.
Na avaliação de Campos, manter a cobrança pode funcionar como uma forma de equilibrar a concorrência entre produtos nacionais e estrangeiros, desde que a tributação não seja elevada a ponto de restringir o acesso da população a bens de consumo. “O cliente não deveria ser colocado diante de uma escolha entre pagar caro por um produto nacional ou comprar barato do exterior. O ideal seria tornar a produção brasileira mais competitiva”.
Para Paula, a melhor solução não seria simplesmente eliminar ou manter a cobrança sem mudanças. “Uma política equilibrada precisa proteger a produção nacional. O caminho mais sustentável é combinar uma tributação razoável com redução de custos, investimentos e aumento de produtividade”.