Atendimentos relacionados ao uso do álcool crescem 157% em dez anos

Um em cada cinco adultos apresenta consumo excessivo / Foto: Agência Brasil

Os atendimentos por problemas e condições relacionados ao uso de álcool na Atenção Primária à Saúde do Sistema Único de Saúde (SUS) aumentaram 157% na última década, passando de 326,2 mil em 2016 para 840 mil em 2025, segundo dados do Ministério da Saúde. O crescimento também aparece entre adultos de 35 a 44 anos, cujo índice saltou de 17,4% para 26,3% no período, e entre as mulheres, de 7,8% para 15,7%.

Atualmente, 20,4% da população com 18 anos ou mais consome pelo menos seis doses de álcool na mesma ocasião, o que é considerado excessivo. O estudo da Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel 2025) aponta que, em quase duas décadas, houve alta do consumo por parte da população. Em 2006, esse índice era de 15,6%.

O psiquiatra Oswaldo Norbim Prado Cunha ressalta que os dados chamam a atenção. “Os atendimentos relacionados ao álcool na Atenção Primária tiveram um crescimento muito expressivo, mas precisamos ter cuidado com a interpretação. Esse dado mostra aumento de atendimentos e de casos identificados pelo sistema de saúde. Ele, sozinho, não permite afirmar que houve uma elevação de 157% no número de pessoas com transtorno por uso de álcool”.

Cunha avalia que o crescimento pode estar relacionado tanto ao aumento do consumo problemático quanto à maior capacidade de identificação dos pacientes. “Os profissionais estão mais atentos ao tema, enquanto o acesso aos serviços aumentou e o estigma em torno da busca por ajuda vem diminuindo”.

Quando uma pessoa ingere grande quantidade de álcool de uma vez, aumenta imediatamente o risco de acidentes, intoxicações, brigas, violência e outros comportamentos de risco, afirma o psiquiatra. “E, quando esse padrão começa a se repetir, aparecem também consequências de longo prazo, como maior risco de doenças hepáticas e cardiovasculares, alguns tipos de câncer, transtornos mentais e dependência”.

Risco aos rins

O nefrologista e membro da Sociedade Brasileira de Nefrologia, Ariel Augusto de Britto Rosa, explica que o consumo excessivo de álcool pode prejudicar os rins por diferentes mecanismos. “Desde o favorecimento da desidratação ao aumento da pressão arterial e alterações metabólicas, que são importantes fatores de risco para doença renal”.

“Além disso, o consumo abusivo de álcool frequentemente está associado a outras condições que podem comprometer os rins, como doenças cardiovasculares e hepáticas. Portanto, não se trata apenas de um efeito direto do álcool sobre o órgão, mas de um conjunto de alterações que, ao longo do tempo, podem comprometer a função renal”, complementa.

Rosa observa que as alterações renais frequentemente não provocam sintomas nas fases iniciais. “Por isso, não devemos esperar o aparecimento de indícios para investigar a saúde dos rins. A avaliação periódica da creatinina, da função renal e da presença de albumina na urina pode identificar alterações precocemente e permitir a adoção de medidas antes que ocorra uma perda mais significativa da função renal”.

Ampliar a prevenção

Para o psiquiatra, a Atenção Primária é um espaço excelente para perguntar sobre o consumo de maneira rotineira, identificar padrões de risco e realizar intervenções breves antes que apareçam consequências mais graves.

Também precisamos capacitar os profissionais e melhorar a integração entre as Unidades Básicas de Saúde, os serviços de saúde mental e Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD), pontua Cunha. “Ao mesmo tempo, não podemos colocar toda a responsabilidade da prevenção nas costas do indivíduo”.

“Políticas sobre publicidade de bebidas, acesso ao álcool, proteção de crianças e adolescentes, fiscalização e educação da população também são fundamentais. Quanto mais cedo identificamos um consumo de risco, maior a chance de resolver o problema com intervenções relativamente simples”, finaliza o especialista.

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