Blocos criticam a concentração de recursos no Carnaval

Foto: Mirna de Moura/ALMG

Representantes dos blocos carnavalescos e escolas de samba de Belo Horizonte pedem mais investimentos e melhor infraestrutura para fortalecer a festa popular que, todos os anos, ocupa as ruas da capital. Durante reunião da Comissão de Cultura da Assembleia Legislativa, realizada no dia 10 de março, integrantes da comunidade do Carnaval levaram suas demandas a representantes dos governos estadual e municipal.

Uma das maiores preocupações das lideranças ligadas ao Carnaval é a forma como os recursos públicos são destinados aos cortejos. Os blocos apontam críticas às chamadas vias sonorizadas, financiadas com aproximadamente R$ 10 milhões pela Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais (Codemge). Embora a medida proporcione melhor qualidade de som, os critérios sobre quais grupos são contemplados geram questionamentos.

De acordo com a Bruta, liga que representa cerca de 70 blocos carnavalescos, as chamadas vias sonorizadas, localizadas nas avenidas Brasil, Andradas e Amazonas, receberam 23 cortejos neste ano. Para a presidente da entidade, Marcela Linhares, do bloco “Então Brilha!”, a situação revela uma forte concentração de recursos direcionados a um número restrito de blocos.

Ela sugere que o modelo de patrocínio da Codemge seja revisto, com a possibilidade de que os recursos sejam destinados diretamente aos blocos, que relatam dificuldades para custear a realização dos desfiles. “O aluguel de um trio elétrico custa cerca de R$ 70 mil, e muitos não conseguem arrecadar o montante. Não existe valorização do Carnaval sem dinheiro na mão dos blocos”.

A Bruta também pede que sejam definidos critérios mais objetivos e transparentes para a seleção dos blocos contemplados pelas vias sonorizadas. Segundo Marcela Linhares, neste ano o “Alcova Libertina”, um dos blocos mais tradicionais de Belo Horizonte, não conseguiu desfilar na Avenida dos Andradas, local onde costumava se apresentar.

Com o objetivo de garantir mais recursos para o carnaval, os blocos ainda defendem o aumento do limite de patrocínio previsto na Lei Estadual de Incentivo à Cultura (Leic). De acordo com Leandro César da Silva, diretor do bloco “Então Brilha!”, “os recursos destinados ao financiamento do Carnaval e de outras iniciativas culturais acabam se esgotando rapidamente”.

Para Maria Elisa Abreu da Cruz, presidente da Liga das Escolas de Samba de Minas Gerais (Aliga), as agremiações necessitam de mais investimentos e de maior atenção por parte das políticas públicas.

Ela também destacou que as escolas de samba vão além do espetáculo carnavalesco: funcionam como espaços de formação para profissionais da cultura, fortalecem o protagonismo feminino e ajudam a acolher jovens em situação de vulnerabilidade e expostos à violência. “A escola de samba oferece disciplina, pertencimento, identidade cultural e comunidade. Cada jovem que entra em uma bateria, em uma ala ou em uma oficina cultural encontra também um espaço de formação, convivência e cidadania”.

A secretária de Estado de Cultura e Turismo, Bárbara Botega, contestou as críticas relacionadas à sonorização de algumas vias da cidade e disse que a iniciativa tem boa aceitação tanto entre os foliões quanto entre as agremiações carnavalescas. Ela também argumentou que, caso os recursos destinados à sonorização fossem distribuídos entre os mais de 600 blocos de rua existentes na capital, o valor recebido por cada grupo seria bastante reduzido.

Já o vice-presidente da Belotur, Bruno Eduardo Silva Cassimiro, destacou o empenho da administração municipal em apoiar o Carnaval e afirmou que a prefeitura mantém disposição para dialogar com os blocos de rua e as escolas de samba. “Sabemos que temos muita coisa para melhorar, mas estamos de portas abertas para construir um Carnaval melhor”.

A deputada Bella Gonçalves (Psol) fez críticas à postura da secretária de Estado de Cultura e Turismo e voltou a questionar a escolha de investir na sonorização de determinadas vias. Na avaliação da parlamentar, a medida representa uma “concentração excessiva” de recursos em uma ação específica, que não atende diretamente às necessidades dos blocos carnavalescos. “Queremos saber quem está lucrando com esse Carnaval, já que os blocos não recebem recursos para fazer seus cortejos”.

A parlamentar reiterou que o teto de recursos da Leic não aumenta porque o governo estadual não permite. “Precisamos que o governo compreenda a importância da cultura”. Já a deputada Lohanna (PV) afirmou que os cidadãos precisam acompanhar a atuação da Secretaria de Estado de Cultura. “Que tipo de carnaval a gente quer: privado, com blocos selecionados sem transparência, ou descentralizado, que pertença ao povo mineiro?”.

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