Violência sexual faz uma menina virar mãe a cada 30 minutos

Segundo dados do DataSUS do Ministério da Saúde, entre 2014 e 2023, a cada meia hora, uma criança deu à luz no Brasil. A média foi calculada a partir da quantidade de nascimentos em que a gestante tinha de 10 a 14 anos de idade. Por ano, cerca de 20 mil meninas viraram “mães”, mas poderiam ter interrompido a gestação legalmente, por terem sido vítimas de estupro de vulnerável, como prevê o Código Penal brasileiro quando a relação sexual envolve menores de 14 anos. O projeto Meninas Mães, da Revista AzMina, traçou um levantamento inédito no Brasil, revelando que os serviços de interrupção legal da gravidez estão, em muitos casos, extremamente distantes das meninas de 10 a 14 anos que engravidam. Como consequência, nos últimos dez anos, cerca de 205 mil meninas tornaram-se mães por não conseguirem exercer o direito ao aborto após estupros presumidos. Algumas precisariam viajar até 2.500 km para alcançar uma unidade de saúde que ofereça esse tipo de atendimento. A ginecologista e obstetra Helena Moura aponta que esse fenômeno não é isolado. “As meninas engravidam como consequência direta de estupro de vulnerável, muitas vezes cometido por familiares ou pessoas de confiança. Em regiões remotas, sem estrutura de saúde ou sem conhecimento da lei, o resultado é uma gravidez imposta, sem qualquer apoio ou direito respeitado”. Na avaliação de Helena, a geografia da dor é clara: meninas negras, indígenas e pobres, especialmente no Norte e Centro-Oeste, estão entre as mais afetadas. “Nas áreas rurais e periferias, a falta de acesso à educação sexual, à saúde e à justiça potencializa o risco. Muitas vítimas sequer sabem que podem interromper a gravidez em caso de estupro, direito garantido por lei”. “Maternidade imposta a uma criança é um desastre. O corpo não está preparado, o risco de complicações obstétricas e psicológicas é enorme e há aumento de morbimortalidade, depressão profunda, retraimento social e ainda a carga insuportável de cuidar de outro ser”, adiciona. Uma pesquisa elaborada pelo Centro Internacional de Equidade em Saúde, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com apoio da organização Umane, verificou mais de 1 milhão de partos do Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos de 2020 a 2022 e constatou que meninas nessa situação têm acesso reduzido ao pré-natal, e em até 40% dos casos, o cuidado só começa após o primeiro trimestre, e isso se agrava conforme a vulnerabilidade socioeconômica. Além das consequências severas para essas vítimas, como danos emocionais, hiperexposição sexual precoce, distúrbios mentais e, posteriormente, maior risco de uso de substâncias e comportamento de risco. De acordo com a assistente social Camila Lima, seria necessário operar em três frentes ao mesmo tempo: prevenção via educação sexual acessível, acolhimento emergencial eficaz e responsabilização real. “Sem essas engrenagens funcionando, vamos apenas perpetuar essa violência”. Algumas medidas citadas pela profissional são a ampliação e divulgação da Lei do Minuto Seguinte, que garante atendimento emergencial multidisciplinar gratuito às vítimas de violência sexual. Isso inclui profilaxia, apoio psicológico e social, orientações legais, sem necessidade de boletim de ocorrência. Também a implementação em todo o país da Rede Cegonha com foco em meninas vítimas de violência, oferecendo acesso seguro ao parto ou interrupção da gestação conforme a lei, acompanhamento pré-natal, suporte psicológico e garantia de continuidade escolar e social. “Educação sexual desde a infância, com programas adequados às faixas etárias, capacitação de professores e envolvimento da família, para prevenir abusos e empoderar crianças a identificarem situações de risco, juntamente com políticas integradas nas regiões remotas, com uso de unidades móveis de atendimento (ônibus, barcos, telemedicina), para levar serviços de saúde, assistência social e jurídica onde o Estado ainda não chega”, finaliza Camila.

Casos de hepatite A aumentam em várias regiões brasileiras

O Brasil tem registrado uma preocupante alta nos casos de hepatite A. Dados recentes do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) mostraram que, em 2024, o número de infecções saltou 54,5% em relação ao ano anterior, passando de cerca de 1,1 para 1,7 caso por 100 mil habitantes. Em algumas regiões, como Centro-Oeste, o aumento chegou a 350%, enquanto no Sudeste foi de mais de 57%, e no Sul cerca de 50%. Apesar disso, Norte e Nordeste continuam concentrando a maioria dos casos acumulados desde 2000. Esse cenário gera preocupação entre autoridades sanitárias, principalmente porque esse aumento ocorre em um contexto em que a doença havia sido amplamente controlada na infância. Desde 2014, a vacina contra hepatite A faz parte do calendário nacional infantil, o que causou queda nos casos entre crianças, uma redução de mais de 97% entre menores de 5 anos, e de mais de 99% entre aqueles com até 9 anos. “A hepatite A é transmitida pela via fecal-oral, ou seja, ingestão de água ou alimentos contaminados e contato com ambientes ou pessoas infectadas. A falta de saneamento básico e higiene ainda é um problema sério em muitas regiões, especialmente nas periferias das grandes cidades. Além disso, em populações adultas, práticas sexuais sem proteção vêm sendo identificadas como fatores importantes de transmissão”, explica o epidemiologista Eduardo Salgado. Ele salienta que a doença costuma começar com sintomas inespecíficos, como fadiga, mal-estar, febre e dores musculares. “Podem surgir náuseas, vômito, dor abdominal, diarreia ou constipação. A urina escura costuma anteceder a icterícia (pele e olhos amarelados), o período de incubação varia entre 15 e 50 dias, e os sintomas geralmente duram menos de dois meses”. Segundo a infectologista Beatriz Menezes, o diagnóstico se dá por exame de sangue, que detecta anticorpos anti-HAV IgM, indicando infecção recente. A presença de IgG, por sua vez, sinaliza imunidade prévia (por infecção passada ou vacinação). “Não existe um tratamento específico. O foco é aliviar sintomas, manter hidratação, nutrição adequada e repouso. Hospitalização só é necessária em casos de insuficiência hepática grave, o que é raro, e é importante evitar a automedicação, especialmente com substâncias tóxicas ao fígado”. A médica destaca que a vacinação é a principal estratégia. “No Sistema Único de Saúde (SUS), a vacina é em dose única podendo ser aplicada nas crianças de 12 meses e menos de 5 anos. Adultos em grupos de risco (portadores de HIV, hepatopatias, imunossuprimidos, entre outros) podem receber duas doses nos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE) com intervalo mínimo de 6 meses”. “Além disso, o uso de preservativos, a higienização das mãos, genitália e região anal antes e depois das relações sexuais, são muito importantes para evitar contágio por via oral-anal. A higiene pessoal também é importante, lavar bem as mãos após usar o banheiro e antes de preparar alimentos; higienizar frutas, verduras e utensílios; utilizar água tratada; evitar locais com esgoto exposto ou água contaminada; e cozinhar bem mariscos, peixes e carne suína”, conclui Beatriz. Com o aumento de 54,5% nos casos em 2024, sobretudo entre adultos jovens, especialmente homens de 25 a 29 anos, e com maiores incidências no Sul, Sudeste e Centro-Oeste, as autoridades reconhecem que o comportamento humano, mudanças nos padrões de exposição e a falta de imunização em adultos são fatores-chave. Enquanto isso, idosos enfrentam risco elevado de evolução para formas graves, entre os 27 óbitos registrados em 2024, a maioria ocorreu em pessoas com 60 anos ou mais. Para combater esse aumento, as campanhas de saúde pública enfatizam a importância da vacina infantil (com baixa cobertura em algumas regiões), da ampliação da oferta vacinal nos CRIE para adultos, e da promoção de higiene básica e saneamento. “Não podemos esperar que o surto volte a ser um pesadelo infantil, precisamos ampliar a imunização adulta e urgente”, afirma Salgado.

Minas Gerais revisa cortes e destina verba para abastecer viaturas

Após receber críticas pelo corte no fornecimento de combustível para as viaturas policiais, o Governo de Minas Gerais resolveu revisar as medidas de contenção de despesas na Polícia Militar. Como resultado, foi anunciada a liberação de um adicional de R$ 5 milhões para garantir o abastecimento dos veículos da corporação. A informação foi divulgada pelo secretário de Estado da Fazenda, Luiz Cláudio Gomes, durante audiência pública realizada na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). A Comissão de Segurança Pública promoveu a reunião por iniciativa de seu presidente, o deputado Sargento Rodrigues (PL), que expressou críticas ao fato de a revisão dos cortes orçamentários ainda não contemplar a Polícia Civil e o Corpo de Bombeiros Militar do Estado de Minas Gerais (CBMMG). Segundo Gomes, estão em curso negociações com a Polícia Civil para analisar a possibilidade de reavaliar os cortes realizados. “Estamos em tratativas com a Polícia Civil para avaliar a real necessidade. A situação financeira do Estado não é fácil e não é à toa que fizemos esse contingenciamento de R$ 1 bilhão”. Túlio Gonzaga, superintendente central de Planejamento e Orçamento da Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão (Seplag), afirmou que, até o momento, não foi realizada nenhuma avaliação específica em relação ao Corpo de Bombeiros. “O CBMMG ainda não entrou em contato com a gente, mas se for necessário a gente vai avaliar”. “Será que não tem consciência do que isso está causando lá na ponta da linha, o estrago?”, questionou o deputado Sargento Rodrigues, destacando que a escassez de combustível compromete o desempenho das atividades investigativas da Polícia Civil. Ele acrescentou que é inaceitável que o Corpo de Bombeiros seja impedido de atender ocorrências de incêndios ou outras emergências devido à ausência de combustível. “Não dá para aceitar passivamente que o cidadão que paga imposto não tem uma viatura para atendê-lo. Isso tem influenciado o avanço das organizações criminosas em nosso Estado”. Rodrigues observou que facções criminosas vindas do Rio de Janeiro, como o Comando Vermelho, antes ausentes em Minas Gerais, atualmente exercem forte influência em várias comunidades de Belo Horizonte, entre elas Cabana do Pai Tomás, Serra e Morro das Pedras. Em 2025, o governador determinou a todas as áreas da administração estadual a adoção de um corte geral de despesas, por meio de um decreto de contingenciamento. A medida seguiu recomendação do Comitê de Orçamento e Finanças (Cofin), que atua como órgão de apoio na formulação e execução das políticas orçamentárias, financeiras, de gestão e de recursos humanos do governo. No entanto, o secretário de Estado da Fazenda, Luiz Cláudio Gomes, esclareceu que a decisão do Cofin se limitou à determinação do corte geral de despesas, cabendo a cada gestor de órgão definir como os ajustes seriam aplicados internamente. “Não temos capacidade de tratar neste nível de detalhamento”. Sargento Rodrigues afirmou que o governo deve dialogar com os responsáveis pelos órgãos de segurança para reconhecer que houve uma falha na definição das prioridades para os cortes orçamentários. “Ou o governo não conversou com eles, ou eles estão tomando uma decisão que vai colocar o governo na fogueira”. O deputado contestou o secretário da Fazenda, ressaltando que os benefícios fiscais concedidos pelo governo às grandes empresas em 2025 somam R$ 25,2 bilhões. Ele questionou Luiz Cláudio Gomes sobre a possibilidade de revisar essas isenções, ao invés de impor cortes em programas públicos fundamentais. Gomes defendeu a manutenção dos benefícios fiscais. “É uma política pública de geração de emprego e investimento no Estado, e estruturante que não deve ser modificada por falta de dinheiro. A gente não pode demonizar o benefício fiscal”. Ele ressaltou ainda que a guerra fiscal entre os estados e os benefícios associados a ela devem ser eliminados até 2032, devido à reforma tributária, destacando a importância de atrair empresas durante os próximos sete anos. “É o momento de atrair as empresas aqui para Minas Gerais, pois nós achamos que, depois que elas se estabelecem, elas ficam”.

841 toneladas de lixo foram retiradas da Lagoa da Pampulha até julho

Entre janeiro e julho deste ano, a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) recolheu 841 toneladas de resíduos da Lagoa da Pampulha. O levantamento, feito pela Secretaria Municipal de Obras e Infraestrutura (Smobi), abrange a limpeza do espelho d’água, além de serviços de roçagem, conservação do gramado na orla e manutenção das pistas destinadas a ciclistas e pedestres. Em períodos de estiagem, a quantidade de lixo flutuante na Lagoa da Pampulha costuma girar em torno de cinco toneladas diárias, podendo chegar a até dez toneladas nos meses de chuva. Somente entre janeiro e abril, cerca de 597 toneladas foram removidas do local. A quantidade de lixo recolhida é sintoma de um problema crônico que vai além da coleta de resíduos visíveis. O mau cheiro característico em determinados pontos da lagoa, especialmente durante os meses mais quentes, e o aspecto turvo da água denunciam a poluição orgânica e química acumulada ao longo das décadas, agravada por ligações clandestinas de esgoto e o escoamento de resíduos urbanos que chegam pelos afluentes da bacia da Pampulha. Para o engenheiro ambiental Marcelo Dutra, os números de resíduos retirados são alarmantes e indicam que o esforço atual é apenas paliativo. “A limpeza manual e mecânica da superfície é importante, sim, mas não resolve o cerne da questão. O que estamos vendo é um trabalho de contenção, que retira o lixo visível, mas o problema principal está no fundo da lagoa e nos córregos que a alimentam, que continuam trazendo esgoto e lixo”. A aplicação de oxigênio nas águas da Lagoa da Pampulha surge como uma possível alternativa para recuperar a qualidade ambiental. O método foi debatido recentemente na Câmara Municipal, e já foi adotado em iniciativas de despoluição do Rio Pinheiros, em São Paulo, e do Córrego Joana, no Rio de Janeiro. Moradores da região demonstram otimismo com a possibilidade de melhorias, mas especialistas alertam que, sem o fim do despejo de esgoto na lagoa, os resultados serão limitados. Dutra ressalta que a recuperação plena da Lagoa demanda ações integradas e de longo prazo. “A primeira etapa crucial seria a despoluição dos afluentes, como os córregos Ressaca e Sarandi, principais responsáveis pela carga de poluição que chega à lagoa. É preciso investir em interceptores de esgoto mais eficientes, ampliar a fiscalização das ligações irregulares e, principalmente, promover educação ambiental junto à população. A lagoa reflete o que acontece no entorno. Se o bairro joga lixo na rua, ele vai parar ali”. Além disso, a drenagem urbana inadequada e o excesso de sedimentos que chegam à Pampulha também impactam diretamente na qualidade da água. Com o passar do tempo, esses sedimentos se acumulam no fundo da lagoa, contribuindo para o assoreamento e criando condições ideais para a proliferação de algas, que, por sua vez, intensificam o mau cheiro. De acordo com a bióloga Carla Nunes, uma das estratégias mais promissoras para o médio prazo seria o uso de biorremediação, técnica que utiliza organismos vivos, como bactérias e plantas aquáticas, para degradar a matéria orgânica e reduzir os poluentes na água. “Esse tipo de intervenção pode ajudar a melhorar a qualidade da água de forma sustentável, especialmente se for combinado com dragagem dos pontos mais críticos de assoreamento”. Ela também destaca a importância de zonas de amortecimento ecológico, como faixas verdes ao redor da lagoa, que ajudam a filtrar a água das chuvas antes que ela entre diretamente na bacia. “Plantas nativas podem atuar como filtros naturais. Além disso, promovem a biodiversidade e ajudam na estética do local, tornando a lagoa mais atrativa”. É preciso um plano de recuperação ambiental sólido, com metas claras e envolvimento de toda a cidade para garantir que a lagoa não seja apenas um retrato bonito escondendo águas poluídas.

76,6% das empresas mineiras possuem presença na internet

De acordo com a pesquisa E-commerce 2025, a participação do comércio no ambiente digital tem crescido continuamente ao longo dos anos. Em 2023, 57,1% das empresas já marcavam presença no virtual. Esse número subiu para 64,3% em 2024 e, em julho de 2025, atingiu 76,6%. Das empresas com presença na internet, 59,5% utilizam esse canal para realizar vendas, enquanto 33,8% estão apenas presentes on-line, sem efetivar transações comerciais. A adesão ao comércio eletrônico é explicada, principalmente, por seguir uma tendência de mercado (58,9%) ou por atender à demanda dos consumidores (48,1%). Em relação ao tempo de atuação, a maioria comercializa on-line há entre 3 e 5 anos (43,8%), e uma parcela menor, de 5,9%, está nesse segmento há mais de uma década. A maior parte das empresas faz uso do WhatsApp Business, com 75,1% utilizando a ferramenta tanto para presença digital quanto para realizar vendas. Por outro lado, apenas 2,2% usam o aplicativo apenas como canal de contato, sem efetuar vendas por meio dele. Cerca de 61,5% das empresas utilizam o WhatsApp como canal principal para concluir vendas, embora o pagamento seja realizado por outros meios. Já 34,3% dos estabelecimentos aproveitam o recurso de catálogo do aplicativo para exibir seus produtos e respectivos preços. O Instagram é a rede social mais utilizada pelas empresas com presença digital, estando presente em 99,3% delas, e servindo como canal de vendas para 96,5%. Já o Facebook tem uma participação menor: 36,6% das empresas do comércio estão na plataforma, e 23% efetivam vendas por meio dela. No total, 61,1% dos negócios comercializam seus produtos pelas redes sociais, sendo que 72,8% oferecem a opção de retirada na loja física. Segundo o economista Renato Duarte, o avanço no índice de presença on-line é reflexo de uma transformação estrutural nas formas de consumo. “A pandemia acelerou a digitalização, mas mesmo com o fim dela, o comportamento do consumidor mudou. Hoje, estar na internet não é mais um diferencial, é uma exigência básica de sobrevivência no mercado”. O crescimento da presença on-line do comércio local também está ligado à maior acessibilidade de ferramentas digitais, reforça Duarte. “Hoje é muito mais fácil e barato criar um site, configurar uma loja em marketplace ou anunciar nas redes sociais. Além disso, existem cursos e tutoriais gratuitos que capacitam pequenos empreendedores a se digitalizarem com mais autonomia”. “A internet permite ao empresário entender melhor o comportamento do consumidor, segmentar campanhas e ampliar o alcance da sua marca. Na loja física, o público é limitado à vizinhança. No ambiente digital, uma papelaria de Montes Claros pode vender para um cliente em São Paulo ou até no exterior, dependendo da estratégia”, explica. A especialista em marketing digital Letícia Menezes destaca que “o cliente está cada vez mais multicanal. Ele pesquisa no celular, compara no marketplace, tira dúvidas no WhatsApp e só depois decide onde vai comprar. Se a empresa não estiver nesses canais, perde o cliente para a concorrência”. Entre as empresas que planejam começar a vender pela internet, 60% demonstraram interesse em receber algum tipo de suporte, enquanto os 40% restantes preferem seguir sem auxílio. Já os empreendedores que ainda não ingressaram no comércio eletrônico, mas têm intenção de fazê-lo, apontam como principais obstáculos a ausência de planejamento (62,5%) e a falta de tempo (43,8%). Outros fatores mencionados incluem o porte reduzido da empresa (18,8%), carência de profissionais qualificados (12,5%) e o fato de o negócio ser recente (6,3%). No entanto, apenas estar presente na internet não basta. “É preciso investir em relacionamento com o cliente, construção de marca e, principalmente, em experiência de compra. O consumidor quer ser bem atendido em qualquer canal. Isso exige que o lojista tenha uma linguagem adequada, tempo de resposta rápido, imagens de qualidade e meios de pagamento diversificados”, salienta Letícia. Ela reforça que uma das estratégias mais eficazes é a personalização da comunicação. “Plataformas como Instagram e Facebook permitem segmentar anúncios por idade, localização, interesses e até comportamento de compra. Isso aumenta as chances de conversão e reduz o custo da publicidade”. Outra dica é o uso de ferramentas de automação, como chatbots, e-mail marketing e Customer Relationship Management (CRM), que ajudam a organizar o relacionamento com os clientes e promover campanhas mais assertivas. “Com um bom CRM, você sabe quando o cliente comprou, o que comprou, e pode enviar uma promoção personalizada na hora certa. Isso fideliza e aumenta o ticket médio”, conclui.

MG registrou 153 mil casos de violência doméstica em 2024

Na última semana, a Lei Maria da Penha completou 19 anos, porém, os números da violência contra a mulher ainda são preocupantes. Em 2024, mais de 1.400 mulheres foram assassinadas em casos de feminicídio no país, uma média de quatro mortes por dia. De acordo com o 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, mais da metade desses crimes aconteceu na residência da vítima e teve como autor o parceiro ou ex-parceiro. Minas Gerais contabilizou 153 mil casos de violência doméstica e familiar contra mulheres, o equivalente a 420 ocorrências diárias. Além disso, entre janeiro e maio deste ano, foram contabilizados uma média de 169 pedidos diários de medidas protetivas no Estado, somando mais de 25 mil solicitações no total. Para falar sobre o assunto, o Edição do Brasil conversou com a pesquisadora do Centro de Estudos de Criminalidade da UFMG, Ludmila Ribeiro. O que mudou na percepção da sociedade brasileira sobre a violência doméstica desde a sanção da Lei Maria da Penha? Acredito que as mulheres começaram a se perceber como vítimas de violência doméstica. Toda aquela ideia de que “em briga de marido e mulher não se mete a colher” mudou muito depois da sanção da Lei Maria da Penha. As novelas, por exemplo, assim como os telejornais, tiveram um papel de extrema importância, sempre noticiando situações de agressão contra a mulher e como fazer para denunciar o crime. Quais são os principais avanços conquistados nestas quase duas décadas? Um deles é a possibilidade de concessão de medidas protetivas às mulheres em situação de violência, que podem ser solicitadas ao Judiciário ou, em alguns estados, diretamente nas delegacias. Essas medidas visam prevenir agressões mais graves, incluindo afastamento do lar ou proibição de contato. O segundo avanço, ainda limitado, é a criação de juizados com competência cível e criminal, que deveriam tratar de forma integrada questões como divórcio, pensão e visitação de filhos. Na prática, essa integração é falha, e decisões cíveis muitas vezes desconsideram as medidas protetivas, expondo novamente as vítimas ao agressor. A falta de estrutura nos serviços públicos compromete a efetividade da lei? A Lei Maria da Penha tem a finalidade de prevenir, reprimir e erradicar a violência contra o sexo feminino. Precisamos de uma série de serviços que acolham a mulher e verifiquem qual é a sua vulnerabilidade. Por exemplo, a lógica da Casa da Mulher é oferecer atendimento multidisciplinar humanizado, porém, em boa parte das cidades brasileiras, os serviços são fragmentados e não se comunicam, o que termina por revitimizar a mulher. Você considera que há desigualdade no acesso à proteção garantida pela norma? Estudos mostram que as mulheres que mais recorrem à Lei Maria da Penha são as mais vulneráveis, especialmente negras e/ou moradoras de periferias, por dependerem dos serviços públicos para buscar proteção. Já brancas e/ou com maior poder aquisitivo tendem a acessar serviços privados, como advogados e psicólogos, resolvendo a situação fora da rede pública. Mulheres em relações homoafetivas, muitas vezes, não são devidamente protegidas pela lei, pois o Judiciário ainda enxerga a violência doméstica dentro de um modelo tradicional, com um homem agressor, ignorando outras dinâmicas. Quais políticas públicas poderiam complementar e fortalecer a legislação? Faltam ações educativas nas escolas, que ajudem crianças e jovens a entender desde cedo o que é violência e que homens e mulheres têm os mesmos direitos. Esse debate foi freado nos últimos anos por acusações de “ideologia de gênero”, agravando-se diante de dados que mostram que jovens são hoje mais machistas que adultos de 40 anos. Outro desafio é o foco excessivo na vítima e a pouca atenção ao agressor, que muitas vezes repete o comportamento em novos relacionamentos por não compreender que sua conduta é criminosa. Trabalhar com esses homens é essencial para interromper o ciclo de violência.

Calistenia: força, equilíbrio e saúde com o peso do corpo

Na era dos aplicativos de treino e das academias 24 horas, uma prática antiga ressurge com força total nas praças e parques de cidades por todo o mundo: a calistenia. Ela utiliza o próprio corpo como instrumento de treinamento físico, sem halteres, sem esteiras, sem aparelhos eletrônicos. Baseada em movimentos naturais como flexões, barras, agachamentos e abdominais, a prática busca desenvolver força, equilíbrio, mobilidade, coordenação e consciência corporal, aliando saúde física e mental em um único sistema. Segundo o educador físico e especialista em treinamento funcional, Ricardo Menezes, as pessoas estão buscando mais autonomia para cuidar da própria saúde. “A calistenia é democrática, acessível e pode ser feita praticamente em qualquer lugar. Além disso, promove um fortalecimento completo do corpo, com baixo risco de lesão se bem orientada”. Mais do que ganhos físicos, os benefícios da calistenia também se estendem à saúde mental. Menezes destaca o impacto positivo da prática regular sobre o humor e a autoestima. “O exercício exige concentração, foco e paciência para evoluir nos movimentos. A prática ajuda a reduzir a ansiedade e melhora a autopercepção corporal, algo essencial em tempos de hiperconectividade e distorções de imagem corporal”. Uma das grandes vantagens da calistenia é sua versatilidade. Ao contrário do que muitos pensam, não é preciso já ter um físico preparado ou ser jovem para iniciar. “A calistenia pode e deve ser adaptada ao nível de cada pessoa. Temos idosos que começam com movimentos básicos, como sentar e levantar de uma cadeira ou segurar posições em isometria. E atletas avançados que desafiam a gravidade com movimentos que mais parecem acrobacias”, garante o profissional. Pessoas com sobrepeso, sedentarismo prolongado ou lesões anteriores também podem se beneficiar da calistenia, desde que com a devida supervisão, alerta Menezes. “O primeiro passo é avaliar a mobilidade e a força inicial do aluno. A progressão é feita de forma gradual e respeitando os limites do corpo, sendo possível ver avanços incríveis em poucas semanas”. O estudante de engenharia Lucas Freitas, de 23 anos, encontrou na calistenia uma forma de superar um quadro de depressão leve. “Comecei por vídeos na internet, copiando treinos simples em casa. Aos poucos, fui percebendo não só mudanças no meu físico, mas principalmente na minha disposição e clareza mental. Hoje treino todos os dias e posso dizer que salvou minha saúde física e mental”. Para quem deseja se iniciar na calistenia, a dica é começar devagar, com movimentos fundamentais que trabalham grandes grupos musculares. Flexões de braço, agachamentos livres, pranchas abdominais e barras são a base de qualquer treino. A partir deles, novas variações e desafios vão sendo incorporados. Para Menezes, o segredo está na consistência e na paciência. “Muita gente quer pular etapas e acaba se frustrando. “O progresso é um processo e cada pequena conquista deve ser comemorada. Uma repetição a mais, uma posição que antes parecia impossível. É transformador”. Ele ressalta ainda que, apesar de muitos treinos estarem disponíveis on-line, o ideal é ter algum acompanhamento inicial. “Nem sempre o que serve para um influenciador vai funcionar para você. Buscar orientação é um investimento que evita lesões e acelera os resultados”. Um dos maiores atrativos da calistenia é que o exercício exige pouco ou nenhum equipamento. Um espaço livre no chão, uma barra fixa e talvez uma paralela são mais do que suficientes para uma rotina completa de treinos. Muitos praticantes utilizam bancos de praça, escadas ou mesmo brinquedos de playground como ferramentas improvisadas. “Embora tenha ganhado popularidade, principalmente nas redes sociais, a calistenia está longe de ser apenas uma tendência passageira. Seus princípios básicos (autocontrole, progressão, consciência corporal e respeito aos limites do corpo) garantem que a prática se mantenha relevante”, conclui.

Festival Acessa BH valoriza artistas com deficiência em sua programação

Reconhecido como o principal evento voltado à valorização da cultura deficiente no Brasil, o Festival Acessa BH chega à sua 5ª edição, que acontece de 5 a 28 de setembro de 2025. A programação contempla mais de 30 atividades, incluindo apresentações teatrais, exibições de filmes e videoclipes, oficinas, rodas de conversa e o lançamento de um livro. Os ingressos para todas as atividades são gratuitos e podem ser retirados com antecedência nas bilheterias dos respectivos espaços. A programação completa está disponível no site acessabh.com.br. Com presença de artistas vindos de nove estados do país e também do Reino Unido, o festival destaca a potência, a diversidade e a originalidade da produção cultural protagonizada por pessoas com deficiência, reforçando seu papel central em uma cena artística inclusiva e ativa. Toda a programação será gratuita, com eventos realizados em locais como o Sesc Palladium, Palácio das Artes, Funarte MG e Centro Cultural Unimed-BH Minas. A programação do Festival conta com mais de 30 atividades distribuídas entre 14 apresentações artísticas, incluindo teatro, dança, música e performance, além de quatro oficinas, cinco produções cinematográficas (sendo três curtas e dois longas), três videoclipes, quatro conversas após os espetáculos, uma roda de diálogo e o lançamento de um livro. “Mais do que uma seleção de espetáculos, a curadoria propõe um campo de encontro e troca, onde diferentes modos de criação possam conviver e provocar o público a refletir, sentir e imaginar futuros possíveis. Um convite à escuta atenta e ao deslocamento dos olhares, que valoriza tanto a expressão poética quanto o engajamento político da cena contemporânea”, afirmam os idealizadores do festival, Daniel e Lais Vitral. O evento promove uma experiência inclusiva por meio de diversas ações de acessibilidade. Os espaços que recebem a programação têm estrutura acessível, oferecem cadeiras de rodas para empréstimo e permitem a presença de cães-guia identificados, conforme a Lei nº 11.126/2005. A acessibilidade comunicacional é garantida com legendas descritivas, janelas de Libras e audiodescrição nos filmes e espetáculos. Todas as atividades contam com interpretação em Libras/Português, além da oferta de abafadores de ruído e pranchas de comunicação alternativa. Na Funarte, haverá também uma sala de regulação sensorial. Uma equipe especializada, incluindo intérpretes de Libras, estará disponível para receber o público com deficiência. O Acessa BH destaca o protagonismo de artistas e profissionais com deficiência, envolvendo consultores e uma equipe qualificada para assegurar a inclusão em todas as fases do evento. “Esse trabalho conjunto inclui visitas técnicas aos espaços de apresentação, proposição de pautas e estratégias de comunicação, e análise de diversos recursos de acessibilidade para cada atividade. Para além do conhecimento teórico, as vivências com a equipe, artistas e público sempre provocam novas reflexões, e motivam nossa busca constante de fazer um festival cada vez mais diverso, acolhedor e potente”, explica Anita Rezende, coordenadora de Acessibilidade do Acessa BH. A professora de artes visuais Cecília Santana afirma que as expressões artísticas e culturais realizadas por pessoas com deficiência exercem um impacto amplo e significativo na sociedade. “Elas transformam o olhar da sociedade sobre a produção artística de pessoas com deficiência, que historicamente foram invisibilizadas. Ao colocar esses artistas no centro, o festival rompe barreiras estéticas e sociais”. Ela destaca que a acessibilidade proposta pelo Acessa BH não é apenas física, mas também simbólica. “Quando vemos espetáculos com audiodescrição, oficinas com interpretação em Libras e espaços sensoriais pensados para diferentes públicos, entendemos que a arte é para todos. É um exemplo de como eventos culturais podem e devem ser inclusivos”.

Trabalhadores no segmento de eventos já superam em 74,7% o pré-pandemia

Nos cinco primeiros meses de 2025, o número de trabalhadores com carteira assinada no setor de eventos culturais e de entretenimento em Minas Gerais chegou a 14.593, um aumento de 74,7% em comparação com o mesmo período de 2019 (8.534), anterior à pandemia de COVID-19. Esse crescimento superou a média nacional, que foi de 74,6%. As informações foram levantadas pela Associação Brasileira dos Promotores de Eventos (Abrape), com base em estatísticas oficiais fornecidas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). A economista Marcela Andrade atribui esse crescimento a um conjunto de fatores articulados: políticas públicas, dinamismo da economia e o fortalecimento de Minas como destino de turismo de negócios. “A aplicação do Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos (Perse) foi decisiva. O apoio fiscal e os créditos facilitaram não apenas a sobrevivência, mas também a expansão das empresas do setor no Estado. Esse programa federal, aprovado durante a pandemia, teve impacto direto sobre os índices de emprego no segmento”. Na avaliação de Marcela, a demanda reprimida de 2020 a 2022, aliada ao retorno de eventos de grande porte como feiras, congressos, shows e exposições, alimentou a geração de novos postos. “Minas Gerais vem se consolidando como um hub de eventos regionais e nacionais. A infraestrutura, especialmente o Expominas em Belo Horizonte, com capacidade para milhares de pessoas, atrai promotores e garante movimento contínuo para hotéis, restaurantes e serviços auxiliares”. Essa expansão não é apenas uma estatística de mercado, mas ganha reflexos concretos na economia local. A percepção da economista é que “o crescimento da massa salarial circulante impulsiona os serviços e amplia o consumo interno. Isso fortalece cidades como Belo Horizonte, Contagem e Betim, onde grande parte do setor de eventos se concentra, e fomenta pequenas cidades que recebem feiras agropecuárias e festivais regionais”. Para que os números sigam em alta nos meses seguintes, os especialistas apontam caminhos complementares ao Perse. O produtor cultural Rafael Lacerda sugere que “é preciso investir em capacitação técnica: cursos e formações em produção de eventos, marketing digital e logística são essenciais para profissionalizar o setor e reduzir a informalidade”. Ações estratégicas de promoção do Estado como destino de eventos, especialmente voltadas ao turismo de negócios, fazem diferença, reforça Lacerda. “Atrair congressos nacionais e internacionais, feiras especializadas e festivais culturais consolida Minas como destino competitivo, garantindo ocupação full time de espaços como o Expominas e extrema utilidade da rede hoteleira”. Outra estratégia apontada é a ampliação de incentivos municipais para eventos locais nas cidades do interior. “Ao incentivar as prefeituras a promover exposições agropecuárias, festivais culturais e rodadas de negócios, há uma geração de emprego regional nos locais que normalmente ficam fora do grande fluxo turístico”, conclui o produtor. Brasil O estoque de empregos formais no setor de eventos até maio de 2019 no Brasil era de 190.171. Já em 2025, a quantidade de cargos aumentou para 331.987. O Produto Interno Bruto (PIB) do segmento de “Outras Atividades de Serviços”, que engloba o setor de eventos, cresceu 4,6% no acumulado de quatro trimestres até o 1º trimestre de 2025. O índice supera a média nacional (3,5%) e coloca o setor entre os que mais avançam no país. O boletim ainda apresenta dados atualizados sobre o consumo, evidenciando o fortalecimento da cadeia produtiva. Somente em maio, o consumo estimado no setor alcançou R$ 11,618 bilhões. No acumulado de janeiro a maio, o montante chegou a R$ 57,8 bilhões, o maior já registrado para esse intervalo desde o início da série histórica, em 2019, representando um crescimento de 3,3% em comparação ao mesmo período de 2024.

Estudo identifica 20,5 milhões de brasileiros sem acesso à internet

Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua mostram que embora o uso da internet esteja cada vez mais presente no dia a dia, ainda está ausente na rotina de 20,5 milhões de brasileiros, o equivalente a 10,9% da população com 10 anos ou mais em 2024. Entre esse grupo, cerca de 45,6% afirmam que a principal razão para não utilizarem a rede é a falta de conhecimento sobre como acessá-la, o que corresponde a cerca de 9,3 milhões de pessoas. No caso dos idosos, 66,1% declararam não saber utilizar a internet como principal obstáculo. Ainda assim, os dados revelam uma tendência crescente de adesão à rede por parte dessa faixa etária. As razões de cunho econômico (como considerar o acesso ou os dispositivos muito caros) tornaram- -se menos frequentes. Em 2024, representaram 10,9%, contra 16,2% em 2022, ano em que esse dado começou a ser coletado. A pesquisa também apontou que, entre os que nunca acessaram a internet, 73,4% tinham baixa escolaridade, com nenhum ou apenas o ensino fundamental. Além disso, um total de 52,1% pertenciam à faixa etária dos idosos. “Existe uma certa exclusão estrutural. A falta de acesso à internet não é apenas uma questão de tecnologia, mas uma extensão das desigualdades que marcam o país em termos de renda, educação e infraestrutura. Não possuir conexão à web é praticamente viver à margem do mundo. Desde oportunidades de trabalho e estudo até o simples acesso à informação, tudo passa pelo digital”, diz a socióloga Andreia Lima. A pandemia de COVID-19, entre 2020 e 2022, já havia escancarado essa fragilidade quando milhões de estudantes ficaram sem aulas por não conseguirem acompanhar o ensino remoto, lembra Andreia. “A internet deixou de ser uma ferramenta complementar para se tornar parte integrante do processo educacional. Sem acesso digital, os alunos não apenas perdem conteúdos, mas também ficam de fora das interações que moldam o aprendizado. É uma barreira invisível que gera atraso educacional e compromete o desenvolvimento de competências básicas”. Os impactos se estendem ao mercado de trabalho. Em um cenário onde o número de vagas ofertadas e candidaturas acontece majoritariamente por meio de plataformas on-line, a falta de conexão representa estar ausente do mercado. “Profissões ligadas à economia digital, como marketing, TI, vendas digitais e prestação de serviços por aplicativos, tornam-se inacessíveis a quem sequer consegue abrir um navegador”, destaca o tecnólogo Felipe Magalhães. Ele afirma ainda que a inclusão digital pode ser uma alavanca econômica. “Ela capacita o indivíduo, aproxima de oportunidades e fomenta a inovação local. Quando um número tão expressivo de brasileiros está desconectado, o país perde em produtividade, competitividade e diversidade econômica. Podemos estar desperdiçando um enorme potencial por falta de infraestrutura e políticas inclusivas”. As empresas de telecomunicação alegam que os altos custos de operação em áreas de difícil acesso e a baixa rentabilidade desestimulam investimentos em regiões remotas. No entanto, esse modelo de negócio pode contribuir para manter a exclusão. “Há uma lógica de mercado que ignora as populações mais vulneráveis. Por isso, são necessárias políticas públicas de incentivo, como subsídios, parcerias público-privadas e investimentos em infraestrutura de rede em comunidades isoladas”, pontua Andreia. Além das questões econômicas e educacionais, a exclusão digital também compromete o pleno exercício da cidadania. “Com o avanço da digitalização de serviços públicos, como agendamentos médicos, acesso a benefícios sociais, declarações de imposto e emissão de documentos, estar off-line significa também ficar de fora dos direitos básicos”, destaca. Na avaliação de Andreia, a superação da exclusão digital passa pela adoção de um novo paradigma: o da internet como direito fundamental. “O combate à exclusão digital é mais do que uma pauta tecnológica, é uma urgência social, econômica e democrática. Trazer os invisíveis para o centro da transformação digital é, antes de tudo, uma questão de justiça”.