Toda Copa do Mundo revive uma obsessão nacional: a escalação da Seleção. Quem entra, fica ou é cortado na véspera. Discute-se o esquema tático, a conveniência de um meia mais criativo ou um volante mais marcador, e porque não levar aquele atacante em ascensão mesmo sem experiência em jogos decisivos. O técnico brasileiro, sabe- -se, carrega um fardo que extrapola o gramado: cada convocação é um juízo sobre competência, momento e temperamento. Errar um nome pode custar o título.
Na política acontece algo semelhante, embora com consequências mais duradouras. Montar uma campanha eleitoral é, antes de tudo, um ato de seleção. O candidato escolhe quem o assessorará, quem fará a comunicação, quem cuidará das redes, quem operará a pesquisa, quem comandará a coordenação geral. E, assim como no futebol, não basta ter recursos, é preciso ter a equipe certa.
O paralelo é mais do que uma metáfora conveniente. Uma campanha eleitoral guarda com o esporte de alta performance uma semelhança estrutural: ambas operam sob pressão extrema, com tempo limitado, recursos finitos e adversários preparados. Em ambas, a diferença entre vencer e perder reside em detalhes que só profissionais experientes sabem perceber. Um zagueiro sem repasse correto entrega o jogo; um marqueteiro sem leitura de cenário entrega o mandato.
É aqui que essa tradição do marketing político brasileiro ganha relevância. O Brasil, convém lembrar, não é apenas um país de futebol, mas também um laboratório sofisticado de campanhas eleitorais. A literatura captura com precisão essa dimensão de disputa: a campanha como arena, espaço de embate onde estratégia, timing e leitura de oponente definem quem sai com a vitória. Os pioneiros na reflexão sobre comunicação política no país já alertavam para os riscos de campanhas guiadas por intuição em vez de método. Quem tem trajetória de consultoria em pleitos decisivos materializa o que a teoria propõe: que experiência de campo é insubstituível. Diferentes vozes reforçam a centralidade da inteligência, seja na articulação narrativa ou no uso de dados para orientar decisões que não podem depender de achismos.
As obras coletivas que reúnem a produção dos profissionais da área reforçam um ponto que merece ser dito com clareza: o marketing político brasileiro amadureceu, profissionalizou-se, constituiu um corpo de conhecimento próprio. Ignorar esse acúmulo é como ignorar décadas de evolução tática no futebol, é escolher a improvisação onde existem escolas, métodos e profissionais testados.
E é exatamente o improviso o grande vilão. Há candidatos que têm caixa generoso, mas entregam a coordenação a amigos leais sem experiência, a parentes bem-intencionados ou a profissionais de outras áreas que enxergam a política como diversificação de negócio. O resultado é previsível: pesquisas mal interpretadas, comunicação desconexa, discurso que não conversa com o que os dados indicam, equipe reativa em vez de proativa. É o equivalente a colocar um jogador sem vivência de Copa para cobrar o pênalti decisivo.
O dinheiro, sozinho, não ganha eleição, assim como um time caro não ganha partida sem entrosamento e comando tático. Uma campanha bem estruturada exige coordenação entre pesquisa, comunicação, mobilização e resposta rápida. Cada profissional cumpre uma função específica, interdependente, e a falha de um setor compromete o todo. Quem já atuou em campanhas sabe que não há espaço para amadorismo em horário eleitoral.
Na Copa, perde-se de pênalti e se espera quatro anos pela redenção. Na política, perde-se por escolhas equivocadas de equipe e o custo é pago por quem precisava de representação, não por quatro anos, mas por todo um mandato. A diferença é que, no futebol, a torcida perdoa a derrota quando o time lutou e foi bem comandado. No eleitor, a tolerância com a mediocridade é muito menor.
Escolher bem não é luxo. É a diferença entre levantar a taça e assistir o adversário comemorar.