Expectativas da economia real

A decisão unânime do Copom de reduzir a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual, fixando a Selic em 14,25% ao ano, confirma as expectativas do mercado, mas frustra a urgência da economia real. É o terceiro corte consecutivo, um movimento que sinaliza a direção correta, mas que ainda peca pelo excesso de cautela. O que vemos é que os números revelam um país tentando acelerar com o freio de mão puxado.

O próprio Banco Central reconhece a aceleração da atividade que aconteceu no primeiro trimestre, com setores cíclicos retomando protagonismo e o mercado de trabalho mostrando sinais robustos. Ainda assim, o custo do dinheiro em patamares elevados atua como âncora sobre o setor produtivo. Sem expansão do crédito, empresas adiam investimentos, a geração de empregos formais encontra um teto artificial e o cidadão vê sua renda asfixiada por despesas financeiras.

O Brasil não pode se contentar com mero afastamento da estagnação técnica. Um crescimento tão brando não dá conta da demanda social do país, tampouco atrai o volume de capital necessário para o desenvolvimento de longo prazo. A parcimônia do Copom ancora- -se em justificativas conhecidas: inflação que ainda pressiona o limite superior da meta e volatilidade do comércio externo. São preocupações legítimas. O problema é com a estabilidade geopolítica conjuntural, como o reinício do confronto entre Estados Unidos e Irã.

Enquanto durou o breve acordo entre eles foi tratado como condição necessária para agir, em vez de ser aproveitada como janela para um corte mais ousado. Em ciclos passados, o conservadorismo do Banco Central já cobrou seu preço, estrangulando retomadas e penalizando setores vulneráveis da economia.

Esperar por um alinhamento perfeito na geopolítica ou por um horizonte inflacionário sem sobressaltos é apostar em uma miragem. A economia real, que lida com fluxo de caixa diário e folhas de pagamento, não tem como se dar ao luxo de aguardar o cenário ideal. Ao dosar o remédio monetário com tamanho zelo, o Banco Central converte prudência em amarra, ampliando o custo de oportunidade de uma nação que perde janelas para crescer. Responsabilidade fiscal e monetária é um pilar inegociável. Não deve ser confundida, porém, com inércia diante de um país que sangra por capital de giro. Mesmo assim, o corte referido no início ecoa como alívio burocrático frente a lacunas estruturais urgentes. Na próxima reunião, o Banco Central precisa demonstrar sensibilidade pragmática diante da paralisia do crédito e adotar uma postura mais ousada. Manter o freio de mão puxado pelo medo de solavancos futuros não evita o acidente, apenas garante que o Brasil continue parado no acostamento.

Na prática, o Copom sinaliza que o trabalho de combate à inflação está longe de terminar. O cenário atual ainda exige atenção. As expectativas de inflação seguem desancoradas e os riscos externos continuam elevados. O comitê retirou a indicação de que novos cortes seriam uma consequência natural do processo de calibração e passou a afirmar que a magnitude total do ciclo (de cortes) será definida à luz dos próximos dados. Em tom firme, indicam que novas reduções dependerão de uma melhora consistente dos indicadores.

Esta sinalização de pausa nos cortes acendeu a luz amarela na indústria, que vê a manutenção do sufoco financeiro, capaz de balancear o pleno emprego e o controle da inflação. O resultado prático desta timidez é a perpetuação de uma asfixia financeira crônica para famílias, empresas e para o próprio Estado. A avaliação é de que se trata de uma “superdosagem de medicação”, impõe-se um custo econômico desproporcional sem benefício real no controle de preços que sobem por escassez de produtos e não por excesso de demanda. O Brasil atingiu a marca de 9 milhões de empresas negativadas, acumulando um passivo de R$ 221 bilhões. O dado mais crítico é que 8,5 milhões desses CNPJs no vermelho são micro e pequenos negócios, motores da geração de empregos no país.

Mas, infelizmente, os grandes também estão passando por dificuldades enormes, como a mídia nos informa. Alguns exemplos publicados: 1) C&A anuncia fechamento de 24 lojas e empregados ficam ameaçados; 2) Pão de Açúcar tem prejuízo bilionário e vê “incerteza” sobre operações; 3) Gigante dos supermercados fecha 28 lojas e demite 6,6 mil funcionários, após frear expansão acelerada no Norte e Nordeste; 4) Land Rover fecha fábrica no Brasil e demite trabalhadores; 5) A indústria da construção iniciou 2026 com o pior desempenho em 9 anos; 6) o atual presidente acumula em 2 anos de governo o maior rombo de estatais do século; 7) Multinacional com 9 mil funcionários fecha fábrica e decisão afeta centenas de famílias. A empresa é a Isover, marca pertencente ao Grupo Saint-Gobain; 8) Michelin vai fechar fábrica de pneus em Guarulhos e culpa custos elevados de produção. Empresa atribui decisão à entrada crescente de produtos importados com preços inferiores ao custo nacional, 350 trabalhadores serão demitidos; 9) Mais de 230 empresas brasileiras já produzem no Paraguai. Negócios vão do Brasil para o país vizinho e atuam no chamado regime de maguila: pagam um média de 12% de imposto e encargos trabalhistas, contra 80% no Brasil; 10) Recorde histórico: empresas encerraram 2025 com R$ 213 bilhões em dívidas e inadimplência, no maior patamar já registrado; 11) Brasil bate recorde de empresas em recuperação judicial em 2025.

A lista continua, mas paramos por aqui.

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