
Com a aproximação das eleições presidenciais, a economia brasileira entra em um período tradicionalmente marcado por incertezas, volatilidade nos mercados e cautela por parte de investidores e consumidores. As projeções mais recentes do Boletim Focus, do Banco Central, indicam crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 1,8%, inflação próxima de 4%, taxa Selic em torno de 12,25% ao final do ano e dólar na faixa de R$ 5,50. Esse contexto reforça a percepção de um ano desafiador, com impacto no bolso da população e nas decisões de política econômica.
Para o economista Wallace Marcelino Pereira, a expectativa de crescimento mais fraco reflete tanto fatores estruturais quanto conjunturais. “A projeção de avanço reduzido do PIB em 2026 decorre, em parte, da condução da política monetária, com a Selic mantida em patamar elevado, e também das incertezas típicas de um ano eleitoral, quando os investimentos tendem a ser congelados”.
Na mesma linha, o economista Noé Santiago avalia que o consumo das famílias deve sustentar parte da atividade, mas sem força suficiente para impulsionar a economia. “O consumo tende a ser o principal vetor, apoiado por um mercado de trabalho ainda resiliente, enquanto o investimento produtivo segue enfraquecido, pressionado por juros altos, incerteza fiscal e baixo horizonte de previsibilidade”.
Inflação
Apesar da desaceleração inflacionária observada nos últimos anos, a expectativa de IPCA em torno de 4% mantém o Banco Central em posição cautelosa. Segundo Pereira, despesas como impostos, aluguéis, transporte e combustíveis devem continuar pressionando o custo de vida. “A nova alíquota fixa de ICMS sobre combustíveis tende a impactar toda a cadeia de transportes, elevando preços e comprometendo o orçamento das famílias”.
“Para mitigar esses efeitos, é fundamental que a taxa Selic volte a apresentar uma trajetória de queda. Um ciclo consistente de cortes aliviaria as despesas financeiras de famílias e empresas. Outra alternativa seria o adiamento do reajuste de preços administrados. A Petrobras poderia adotar políticas que suavizem a volatilidade do petróleo, reduzindo o impacto das flutuações internacionais e minimizando os efeitos para o consumidor final”, complementa.
Santiago acrescenta que a inflação mais resistente decorre de fatores estruturais. “A elevada indexação da economia, as pressões fiscais e o câmbio depreciado mantêm a inflação acima do centro da meta, o que exige uma postura firme do Banco Central para ancorar expectativas, especialmente em ano eleitoral”.
O ambiente político também influencia a trajetória dos juros. Pereira avalia que o cenário eleitoral pode atrasar a flexibilização monetária. “Anos de eleição elevam a volatilidade e reforçam políticas fiscais expansionistas, o que pode postergar ajustes mais profundos para depois do pleito e afetar as decisões do Banco Central”.
O principal risco macroeconômico segue sendo o fiscal, conforme avalia Santiago “Com a dívida em nível elevado, qualquer sinal de perda de credibilidade pode pressionar juros, câmbio e reduzir o crescimento, formando um ciclo negativo para a economia”, alerta.
Câmbio
Com o dólar projetado em torno de R$ 5,50, alguns segmentos tendem a se beneficiar. “Exportações agrícolas, turismo e setores mais competitivos ganham com o câmbio depreciado, enquanto indústrias dependentes de insumos importados enfrentam aumento de custos”, observa Pereira.
Já Santiago ressalta que o cenário reforça estratégias de proteção financeira. “O dólar passa a desempenhar um papel central na proteção patrimonial, o que explica o crescimento da busca por diversificação pela dolarização parcial dos investimentos”, finaliza.



