
Após uma temporada em Brasília, o espetáculo “Vou Fazer de Mim um Mundo” estreia em Belo Horizonte para uma temporada no Teatro I do CCBB BH, de 21 de junho a 14 de julho, sempre de sábado a segunda-feira, às 20h. O monólogo marca o retorno de Zezé Motta aos palcos depois de dez anos e celebra os 81 anos de uma das maiores artistas do país. Com adaptação e direção de Elissandro de Aquino, a montagem é baseada no livro autobiográfico “Eu sei por que o pássaro canta na gaiola”, de Maya Angelou, autora norte-americana que se tornou ícone da luta antirracista e dos direitos civis nos EUA.
A narrativa entrelaça a trajetória de Angelou com a de Zezé, unindo temas como racismo, exclusão, ancestralidade e resistência. A palavra – recitada com intensidade e emoção – é o fio condutor do espetáculo, que tem trilha sonora ao vivo executada pelos músicos Pedro Leal David e Mila Moura, numa fusão entre o blues e a música brasileira.
Elissandro conta que a ideia de adaptar a obra nasceu de um desejo antigo. “Já venho investigando esse trabalho há algum tempo. Comecei com Carolina Maria de Jesus, depois com Aline Bei, e agora fecho essa trilogia com Maya Angelou”.
“Para mim, o espetáculo se divide entre o micro e o macro. O micro trata da solidão de uma menina que, mesmo amada, se sente rejeitada. Já o macro aborda as questões políticas e de segregação racial. Buscar esse equilíbrio foi muito delicado, e a sequência das cenas, além da música, ajudou muito a compor isso”, acrescenta.
Segundo o diretor, o processo foi emocionalmente exigente para Zezé Motta. “Foi um laboratório devastador para ela. Muitas das vivências narradas por Maya ressoam com as experiências da Zezé. Ela mesma chegou a dizer que, ao ler o texto, sente como se Maya fosse brasileira”.
Apesar de conhecida pelo carisma e alegria contagiante, Elissandro descreve que o espetáculo revela uma nova faceta da atriz. “Zezé é um raio de luz, mas aqui ela se apresenta com uma energia lunar. É uma entrega econômica, contida, mas profundamente tocante. O público se sente atravessado pelas palavras”.
A cenografia minimalista, assinada por Claudio Partes, reforça essa intimidade cênica. O palco é povoado por uma plantação de algodão e uma nuvem, elementos carregados de simbolismo. “O algodão é macio ao toque, mas fere na colheita. Isso está no livro e representa a dor e a beleza da experiência negra. O Claudio soube traduzir isso visualmente com muita delicadeza”, explica Elissandro.
A música desempenha papel fundamental no espetáculo, costurando tempos e espaços, e promovendo o encontro simbólico entre Maya e Zezé. “É a confluência de dois rios: Maya Angelou e Zezé Motta. Com suas carreiras atravessadas pela música, é natural que se buscasse, em antigas gravações, pistas para esse processo de criação”, afirma Pedro Leal David, que assina a direção musical.
Ele esclarece que a trilha vai além da atmosfera dos anos 1930 e 1940 dos Estados Unidos. “As musicalidades de Maya e Zezé nos dão notícias distintas sobre como os ritmos, sons, tons da diáspora africana foram abrindo caminho ao longo do século 20, tanto nos Estados Unidos como no Brasil”.
A ideia foi construir pontes sonoras entre os dois continentes, segundo o diretor musical. “Nossa proposta foi deixar esses rios se encontrarem, trazendo o blues para o violão de nylon, como quem levasse Baden Powell para um passeio nas margens do Mississippi, ou como quem imaginasse os Tincoãs, em uma manhã de domingo, com suas vozes e atabaques, em uma igreja da Louisiana”.
Serviço: “Vou Fazer de Mim um Mundo”
Temporada: De 21 de junho a 14 de julho
Horário: Sábados, domingos e segundas, às 20h
Local: Teatro I do CCBB BH (Praça da Liberdade, 450 – Funcionários)
Ingressos: R$ 30 (inteira) | R$ 15 (meia-entrada), disponíveis no ccbb.com.br/bh ou na bilheteria do CCBB




