Uso de anabolizantes pode aumentar as chances de infarto

Volume de vendas cresceu nos últimos anos – Foto: Freepik.com

De acordo com um levantamento da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), de 2018 a 2023, houve um crescimento de 670% nas vendas de esteroides anabolizantes no Brasil. Segundo a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), um em cada 16 estudantes já utilizou anabolizantes. A SBEM ainda alerta que o uso indiscriminado é um fator silencioso de risco cardiovascular, sobretudo entre jovens.

Dados apresentados pela entidade mostram que 6,4% dos homens já utilizaram anabolizantes e que a taxa pode ser ainda mais alta entre frequentadores de academias. Em muitos casos, o uso não se limita a esteroides e envolve também insulina e hormônio do crescimento, o que, segundo a SBEM, potencializa os efeitos adversos.

O urologista da Unimed-BH, Mateus de Almeida Ribas, destaca que o uso indiscriminado de anabolizantes mexe com o corpo inteiro. “O maior perigo é que muita coisa acontece por dentro, enquanto a pessoa só vê o resultado no espelho. No coração e na circulação pode aumentar a pressão, piorar o colesterol, engrossar o músculo do órgão, o chamado hipertrofia, e elevar o risco de arritmia, trombose, infarto e acidente vascular cerebral (AVC), inclusive em jovens”.

“No fígado, principalmente com alguns anabolizantes orais, pode causar lesão relevante e, em casos graves, evoluir para problemas sérios. E também pode ter um impacto hormonal e sexual. No homem, o corpo desliga a produção natural, aparecendo queda de libido, disfunção erétil, redução do volume testicular e infertilidade”, complementa.

E não é só no físico que os problemas aparecem, alerta o urologista. “Pode causar irritabilidade, ansiedade, insônia e, em alguns casos, queda forte de humor, ao interromper o uso. E a utilização estética tende a virar um ciclo de dependência psicológica, porque a pessoa fica presa ao medo de perder o resultado. Em adolescentes é ainda pior, é um corpo em desenvolvimento sendo exposto a doses hormonais que não foram feitas para isso”.

Ribas pontua alguns sinais de alerta que não devem ser ignorados. “Dor no peito, falta de ar, palpitações, desmaio, olhos ou pele amarelados, acne explosiva, alterações extensas de humor, queda de libido, problemas de ereção, e também a famosa ginecomastia, que é o aumento das mamas. Às vezes é possível reverter o processo, mas não é garantido. Quanto mais tempo e maior a dose, aumenta a chance de causar um dano permanente”.

Ilusão

Na avaliação do profissional de educação física e especialista em Biomecânica e Longevidade, Randy Duarte, o uso de anabolizantes pode gerar um aumento rápido de força, volume muscular e até sensação de maior resistência nos treinos, e é justamente isso que ilude muitas pessoas. “O problema é que esse ganho acontece de forma artificial e desproporcional, principalmente no músculo, enquanto outras estruturas não acompanham essa evolução. O corpo até aparenta estar mais forte, contudo, fica mais vulnerável”.

“Esses esteroides podem mascarar sinais importantes de fadiga e dor, fazendo com que a pessoa treine além do limite. É comum vermos um aumento no risco de lesões, como rupturas de tendão, estiramentos graves e sobrecarga articular, justamente porque o músculo passa a gerar forças que essas estruturas ainda não estão preparadas para suportar”, esclarece.

O uso de anabolizantes está fortemente ligado à pressão estética e à influência das redes sociais, que muitas vezes vendem resultados irreais e rápidos, ressalta o profissional. “Com isso, o consumo acaba sendo normalizado, como se fizesse parte natural do processo de treino. E é fundamental reforçar que é possível evoluir sem esteroides”.

Para Duarte, as estratégias educativas mais eficazes são aquelas que mostram a realidade sem prometer atalhos. “É essencial reforçar que no treino não existe caminho rápido e sustentável: constância no treinamento, boa alimentação, descanso e acompanhamento profissional continuam sendo a base de qualquer resultado duradouro”, finaliza.

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