Uma média de 232 desaparecidos por dia e casos subnotificados

Foram mais de 84 mil ocorrências / Foto: Paulo Pinto-Agência Brasil

De acordo com dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), o Brasil registrou 84.760 casos de desaparecimento de pessoas em 2025. O número equivale a 232 sumiços diários e o resultado é 4,1% superior ao de 2024. Quase um terço (28%) das pessoas desaparecidas tinha menos de 18 anos de idade, e as 23.919 ocorrências envolvendo o segmento infantojuvenil representam uma alta de 8% em comparação a 2024. Para entender mais sobre o tema, o Edição do Brasil conversou com o advogado e representante da Comissão de Direitos Humanos da OAB/MG, Renan Penchel.

Quais são os principais problemas que o país enfrenta para frear o aumento desses índices?

A subnotificação crônica, porque muitos casos ainda não são registrados ou são registrados de forma inadequada; falta de padronização e integração, ausência de protocolos unificados e interoperáveis entre as diversas forças de segurança e órgãos estaduais e federais; capacitação deficiente; recursos insuficientes; burocracia e morosidade; e causas estruturais, persistência de fatores como violência urbana, tráfico de pessoas, exploração sexual, abandono de incapazes e atuação de grupos criminosos organizados.

O Brasil tem um sistema confiável e integrado para contabilizar desaparecimentos?

Lamentavelmente, ainda não possuímos um sistema plenamente confiável e integrado para contabilizar desaparecimentos. Embora iniciativas como o Sinesp e bancos de dados estaduais existam, a fragmentação e a falta de interoperabilidade entre essas plataformas geram lacunas de informação. A ausência de um cadastro nacional único, com fluxo contínuo e padronizado de dados em tempo real, dificulta a eficiência das buscas e a geração de estatísticas precisas.

Por que a Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas ainda não conseguiu conter a escalada de casos?

Acredito que o real motivo se dá pela dificuldade de implementação efetiva; alocação de recursos; resistência cultural e burocrática, há uma persistência na cultura de esperar um período (24h/48h) para registrar o desaparecimento, contrariando a premissa da busca imediata; e abrangência das causas, a polícia foca na busca, mas nem sempre aborda de forma integrada as causas sociais, econômicas e criminais que levam aos desaparecimentos.

Segundo a pesquisa, o total de pessoas localizadas também vem aumentando na última década. O que esse avanço reflete?

Este crescimento pode indicar uma melhoria na qualidade dos registros, aprimoramento nas ações de busca, uso de tecnologia e maior sensibilidade institucional e social. Este avanço, embora não elimine o problema dos novos desaparecimentos, sinaliza que os esforços empenhados estão gerando resultados concretos na reunião de famílias e na garantia do direito à informação sobre o paradeiro de seus entes.

Quais medidas poderiam reduzir o número de desaparecimentos no país?

Adoção universal da busca imediata, eliminar qualquer período de espera para o registro e início das investigações de desaparecimento, conforme a legislação de Direitos Humanos; criação de um Cadastro Nacional Único e Integrado; investimento em tecnologia e inteligência artificial; capacitação e especialização de agentes; fortalecimento da rede de proteção social; cooperação interinstitucional e internacional, reforçar a colaboração entre órgãos de segurança, justiça, saúde e assistência social e ampliar acordos de cooperação com países vizinhos; e canais de denúncia acessíveis e eficazes.

Analisando o momento atual, você acredita que os índices de desaparecimento diminuam no país em curto prazo?

Observando os dados apresentados e a complexidade dos desafios estruturais, torna-se desafiador prever uma diminuição de novos casos de desaparecimento em curto prazo. A redução efetiva e sustentável exige uma transformação profunda nas políticas de segurança pública, justiça, assistência social e direitos humanos. Embora possamos esperar a continuidade de melhorias nos registros e nas taxas de localização, a diminuição drástica dos desaparecimentos, como um todo, é um objetivo de médio e longo prazo.

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