Selic elevada adia o crescimento e deixa o crédito mais caro no Brasil

Taxa alcançou o maior valor nos últimos 20 anos / Foto: Marcello Casal Jr-Agência Brasil

O Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu manter a taxa básica de juros, a Selic, em 15% ao ano. O parecer reflete a postura do Banco Central (BC) de cautela diante de um cenário ainda marcado por inflação resistente, incertezas fiscais e volatilidade internacional. A medida, embora preserve o controle de preços, tem provocado efeitos profundos sobre o crédito, o consumo e o investimento produtivo no país.

De acordo com ata do Copom, a autoridade monetária considera que “a manutenção do nível corrente da taxa de juros por um período bastante prolongado é suficiente para assegurar a convergência da inflação à meta”.

“A extensão do nível atual de 15% por um período maior deveria produzir uma desaceleração econômica maior, uma convergência mais rápida da inflação e, possivelmente, uma valorização adicional do câmbio”, avalia o economista-chefe do Banco BMG, Flávio Serrano. “O Banco Central precisa de maior confiança no processo de arrefecimento do mercado de trabalho para começar a cortar a taxa Selic”, acrescenta.

Serrano observa que o cenário fiscal é outro entrave. O aumento de gastos do governo e a dívida pública próxima de 80% do PIB reduzem o espaço para cortes de juros, pois aumentam a percepção de risco entre investidores. “A política fiscal é fundamental para garantir juros mais baixos. Uma percepção mais negativa do endividamento do país gera taxas de juros reais mais elevadas ao longo do tempo, o que limita o potencial da queda da taxa Selic”.

Para o economista, o início do ciclo de alívio monetário deve ocorrer apenas no primeiro trimestre de 2026, projetando uma queda entre 12% e 12,5% ao ano. “Parece difícil o BC reduzir a taxa básica de juros ainda em 2025. Acreditamos que o Copom precisa de maior confiança no processo de desaceleração da inflação e do mercado de trabalho para começar a cortar”.

Impactos ao crédito

Enquanto isso, os efeitos dos juros altos continuam sendo sentidos na economia real. O CVO da Inteligência Comercial, Luciano Bravo, aponta que o crédito mais caro e restrito tem dificultado o crescimento das empresas, especialmente das médias e pequenas. “Com a Selic em 15%, praticamente todo o capital disponível migra para a renda fixa. Isso gera escassez de crédito para investimento produtivo, já que os ganhos são muito mais atrativos no Tesouro Direto e outros títulos”.

Ele explica que diante dessa migração de recursos, o custo do crédito quando o empresário consegue é extremamente alto, entre 18% e 30% ao ano. “Quando a margem média de lucro líquido é de 10%, o empreendedor acaba vendo o seu lucro corroído pelos juros”.

Bravo também ressalta o efeito sistêmico da atual política do BC. “A Selic alta causa escassez de investimento, desacelera o crescimento e aumenta a inadimplência e as recuperações judiciais. Há mais de 14 anos, o país perde, em média, mil fábricas por ano. O único culpado por isso é a alta taxa de juros e a escassez de crédito”.

No cenário internacional, a Selic em 15% tem dupla consequência. Por um lado, atrai o capital estrangeiro, tornando o Brasil um destino para investidores que buscam retornos elevados. Por outro, essa entrada de recursos é voltada, em grande parte, à dívida pública, e não à produção. “O investimento estrangeiro vem para financiar a dívida do Brasil, não para gerar riqueza produtiva. É um dinheiro que entra, mas não fortalece nossa cadeia produtiva”, afirma Bravo.

O especialista defende que, diante da dificuldade de acesso a crédito doméstico, as empresas brasileiras precisam explorar alternativas de financiamento externo. Ele cita a Lei nº 14.286, que regula o investimento direto estrangeiro e pode ser uma porta de saída para empresas que buscam crédito mais barato.

“A taxa de juros alta aqui dentro deveria incentivar as empresas a captar lá fora, onde o custo gira em torno de 7% a 8% ao ano. Hoje, apenas 1% das firmas brasileiras têm acesso a crédito internacional, e esse grupo responde por 33% do PIB nacional. É preciso aumentar esse percentual e reduzir a dependência do crédito interno. Enquanto a Selic permanecer alta, o Brasil continuará perdendo indústrias e oportunidades de geração de riqueza”, finaliza.

Compartilhe

Em destaque