Reincidência na inadimplência tem alta e atinge o patamar de 83,95%

Quase 72 milhões de brasileiros estão com nome negativado / Foto: Fecomércio-Divulgação

O Indicador de Reincidência de Pessoas Físicas, apurado pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo SPC Brasil (Serviço de Proteção ao Crédito) revelou que 71,78 milhões de brasileiros estão com o nome negativado, em agosto. Sendo que do total de negativações, 83,95% foram de devedores reincidentes, ou seja, consumidores que já tinham aparecido no cadastro de inadimplentes nos últimos 12 meses.

As informações mostram que a maior parte dos reincidentes, 62,63%, ainda não havia quitado as pendências antigas e foi negativada novamente. Outros 21,32% tinham saído do cadastro de devedores nos últimos 12 meses, mas retornaram. Apenas 16,05% dos negativados não estiveram com restrições no CPF ao longo do último ano. O tempo médio decorrido entre o vencimento de uma dívida e o vencimento de demais pendências foi de 75,6 dias. Nos últimos 12 meses, houve um crescimento de 5,18% no número de devedores reincidentes. A faixa etária mais representativa continua sendo de 30 a 39 anos, com 25,81% do total. Quanto à participação por sexo: 53,60% são mulheres e 46,40% são homens.

Para o presidente da CNDL, José César da Costa, o alto número de devedores reflete não apenas a dificuldade individual de milhões de famílias em honrar seus compromissos, mas também impacta o consumo, o crédito e o crescimento econômico do país como um todo. “Essa crescente ‘bola de neve’ de dívidas se torna um ciclo vicioso difícil de ser quebrado, deixando o brasileiro em uma situação de vulnerabilidade e fragilizando ainda mais a economia nacional”.

A economista e Coordenadora de Ciências Atuariais Econômicas do Centro Universitário FMU, Natalie Verndl, explica que o aumento da inadimplência decorre principalmente de uma combinação de alguns fatores. “Existe uma dificuldade de ter crédito barato, que está muito caro por conta da Selic, a própria renda está estagnada, tem a qualidade dos empregos e os entraves de renegociar essas dívidas, seja por órgãos terceirizados ou pelo próprio banco”.

“Embora haja, nesse curto período, deflação, em setembro, tivemos a notícia da conta de luz mais cara, questões da própria inflação retomando novos patamares, o que já levou a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) a decisão de postergar a redução dos juros para 2026. Lembrando que vamos entrar em um ano de eleição, e acaba sendo um período conturbado que eleva esse cenário da inadimplência, uma vez que a renda real e esse peso dessas parcelas atrasadas impedem que as famílias retomem o rumo de uma boa gestão orçamentária”, esclarece.

Belo Horizonte

Segundo a pesquisa da Fecomércio MG e Confederação Nacional do Comércio (CNC), o índice de inadimplência sobe desde maio e teve mais uma elevação de 2,2 pontos entre julho e agosto, com 59,9% de consumidores com dívidas em atraso na capital. Já o número de consumidores que não terão condições de quitar suas dívidas teve redução, somando 19,8%; eram 20,2% em julho. As famílias superendividadas, que comprometem mais de 50% do orçamento com dívidas, somaram 20,3%.

As dívidas no cartão de crédito atingem 96,7% dos consumidores, sendo que as famílias com renda maior ou igual a 10 salários mínimos chegaram a 98,8% de endividamento no cartão. A inadimplência é 12,8% maior entre as famílias que ganham até 10 salários mínimos (61,8%) em comparação com as famílias de renda acima dessa faixa de renda (49,0%). Entre os endividados, 68% ainda não conseguiram honrar seus compromissos e estão com dívidas em atraso.

No curto prazo, a expectativa é que se tenha uma estabilidade com viés de alta, ressalta Natalie. “Porque os juros vão permanecer elevados, provavelmente, isso vai ceder apenas no próximo ano por conta de ser uma medida mais eleitoreira. Temos uma renda que vai continuar pressionada, uma inflação que ainda não vai ceder nesse curto prazo, e só será observada a queda consistente na inadimplência quando ocorrer cortes na Selic”.

“O próprio Banco Central projeta que esse risco de crédito deve aumentar ainda nesse curto prazo antes que possa, de fato, melhorar. O que podemos dizer é que vai ser uma recuperação ainda muito gradual e lenta. E novamente, há esse componente da eleição que vai acabar pesando nessa condução, nessa retomada da adimplência dos consumidores”, conclui a economista.

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