R$ 60 milhões serão destinados para a agricultura familiar

A ideia é incentivar a produção de bioinsumos | Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) vai destinar R$ 60 milhões em recursos não reembolsáveis a cooperativas da agricultura familiar para a produção e multiplicação de bioinsumos acessíveis e replicáveis. A ideia é incentivar essas ações em unidades industriais ou semi-industriais.

Feitos a partir de microrganismos, resíduos vegetais e orgânicos, os bioinsumos são importantes na fertilização do solo e promoção da agricultura sustentável. Eles também atuam como predadores de pragas e promovem o crescimento, desenvolvimento e a saúde dos sistemas agrícolas, animais, aquícolas e florestais. A iniciativa conta com o apoio técnico da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

“O BNDES Bioinsumos atende a dois compromissos históricos: além de contribuir com o aumento da produção de alimentos saudáveis, garantindo a segurança e soberania alimentar e nutricional, essa iniciativa fortalece a geração de renda de cooperativas da agricultura familiar, ao ampliar o acesso aos bioinsumos, com menores custos e maior produtividade”, afirma o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante.

O engenheiro agrônomo e professor da UniArnaldo Centro Universitário, Marcos Flávio Godoy de Oliveira, explica que esse investimento representa uma iniciativa pioneira mundial. “Embora pareça pequeno diante dos R$ 89 bilhões anuais destinados ao segmento, os R$ 60 milhões têm importância estratégica singular: é o primeiro e único programa específico de bioinsumos para agricultura familiar identificado entre as grandes economias mundiais”.

“O programa pode revolucionar o setor ao reduzir drasticamente a dependência de fertilizantes importados. Hoje, o Brasil importa 83% dos fertilizantes que consome, uma vulnerabilidade que afeta diretamente os pequenos produtores. Com os bioinsumos, estudos da Embrapa mostram que é possível reduzir pela metade o uso de fertilização fosfatada e aumentar a produtividade em até 20%, enquanto reduz seus custos de produção em até 30%. Para as cooperativas das regiões Norte e Nordeste, prioritárias no programa, isso significa acesso à tecnologia de ponta que antes era restrita ao agronegócio empresarial”, complementa.

Para Oliveira, a produção orgânica nacional já cresce mais de 20% ao ano, muito acima da média mundial de 8% a 12%. “E os bioinsumos podem acelerar ainda mais esse crescimento. Os dados mostram uma correlação direta entre investimento em tecnologias sustentáveis e expansão da agricultura orgânica. Eles facilitam a transição para o orgânico porque eliminam a principal barreira: a dependência de insumos químicos sintéticos”.

Agricultura familiar

No Brasil, a agricultura familiar ocupa uma extensão de área de 80,9 milhões de hectares, o que representa 23% da área total dos estabelecimentos agropecuários. De acordo com o Censo Agropecuário mais recente, o segmento é a base da economia de 90% dos municípios brasileiros com até 20 mil habitantes. Conforme o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Minas Gerais possui 441,8 mil estabelecimentos, sendo o segundo Estado brasileiro com mais pessoas ocupadas no setor, cerca de um milhão de trabalhadores.

O engenheiro pontua que a agricultura familiar produz a maior parte dos alimentos consumidos no Brasil. “Responsável por 70% dos produtos que chegam à mesa dos brasileiros, o setor produz a maior parte dos itens básicos da alimentação nacional: 69,6% do feijão, 83% da mandioca, 45,6% do milho, 57,6% do leite de vaca e 67% do leite de cabra”.

“Em Minas Gerais, o papel é ainda mais estratégico. A agricultura familiar mineira se concentra especialmente no Vale do Jequitinhonha, onde 78 mil agricultores representam 9% da produção estadual e constituem a principal base econômica regional. Esses produtores não apenas garantem alimentos para o Estado, mas também abastecem outras regiões do país”, acrescenta.

Ele finaliza dizendo que os desafios do setor são complexos e interconectados. “O principal é a defasagem tecnológica, enquanto países como China e União Europeia têm multiplicadores tecnológicos de 2,5 a 3,0, o Brasil ainda está em 1,2. Isso significa menor produtividade e maior dependência de insumos externos. A superação exige estratégia integrada baseada em três pilares: modernização tecnológica, desburocratização e integração digital”.

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