Quase 80% das famílias brasileiras terminaram o ano endividadas

Foto: Freepik.com

Em dezembro de 2025, o percentual de consumidores endividados atingiu 78,9%, o patamar mais elevado já registrado para esse mês desde o início da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), realizada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Em relação a dezembro de 2024, o indicador avançou 2,3 pontos percentuais. O índice de inadimplência também apresentou crescimento no período, alcançando 29,4% na comparação anual.

Já na análise mês a mês, os indicadores apresentaram alívio. Depois de alcançar o recorde histórico de 79,5% em outubro, a proporção de famílias com dívidas caiu para 78,9% em dezembro, o nível mais baixo observado desde julho. A mesma tendência de queda foi verificada na inadimplência: o percentual de contas em atraso ficou em 29,4% no encerramento do ano, resultado inferior ao pico de 30,5% registrado em outubro e o menor desde abril, quando marcou 29,1%. Mas mesmo com a recuperação observada nos últimos meses do ano, o balanço anual indica um aumento das dificuldades financeiras na comparação com o ano anterior.

“A alta persistente dos juros e a inflação ainda em patamares elevados corroem a renda disponível dos trabalhadores, forçando a maior utilização de crédito para o consumo cotidiano e para o pagamento de compromissos pré-existentes. Além disso, o encarecimento do crédito tradicional tem levado muitos consumidores a buscar modalidades de empréstimos com condições menos favoráveis, o que amplia o endividamento total”, explica a economista Laura Mendes.

“Temos uma conjuntura em que o custo de vida sobe mais rápido que os salários, juros altos reduzem o poder de compra e o crédito, ainda que seletivo, continua sendo a principal alternativa de consumo para muitos”, completa. Laura também afirma que a fraca educação financeira da população pode levar a escolhas menos equilibradas, como o uso excessivo do cartão de crédito sem planejamento, o que só aumenta o comprometimento da renda com juros e parcelas.

O uso do cartão de crédito firmou-se como a forma mais recorrente de endividamento, representando 85,1% das famílias com dívidas, o que corresponde a uma elevação de 1,3 ponto percentual em relação a 2024. Esse cenário inspira atenção, já que essa modalidade apresenta algumas das taxas de juros mais elevadas do mercado, próximas de 90,1% ao ano.

Em contrapartida, a proporção de famílias que afirmaram não conseguir arcar com seus compromissos financeiros recuou para 12,6%, encerrando o período em nível inferior ao observado em 2024. Já o comprometimento médio da renda com dívidas ficou em 29,5% em dezembro, abaixo dos 29,8% registrados no mesmo mês do ano anterior.

A economista diz que um ponto importante é uma política macroeconômica mais favorável ao crescimento econômico sustentável. “A redução responsável da taxa básica de juros, quando compatível com o controle da inflação, pode diminuir o custo do crédito e tornar mais viável o pagamento das dívidas. Além disso, programas de apoio às pequenas e médias empresas, que são grandes geradoras de emprego, podem fortalecer o mercado de trabalho e aumentar o poder aquisitivo das famílias”.

O consultor financeiro Ricardo Faria ressalta que a melhora dos indicadores no final de 2025 é explicada por um planejamento financeiro mais cuidadoso por parte dos consumidores. “Além de fatores sazonais, como as festividades de fim de ano, que impulsionam o comércio e a oferta de crédito, e o pagamento do 13º salário. Ainda assim, persiste um risco relevante no processo de endividamento, sobretudo relacionado ao uso do cartão de crédito, que pode levar à acumulação progressiva das dívidas”.

Neste início de ano, Faria recomenda a criação de um orçamento familiar rigoroso. “É essencial mapear gastos e priorizar o pagamento de dívidas com juros mais altos. Renegociar parcelas com credores, buscar crédito com juros baixos e, se possível, destinar parte da renda para um fundo de emergência são passos importantes”.

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