Uso de inteligência artificial nas atividades escolares exige equilíbrio

Foto: Magnific.com

Uma análise recente da OCDE, baseada nos dados do Pisa, indica que o uso frequente de chatbots de inteligência artificial (IA) nas atividades escolares pode estar associado a resultados acadêmicos mais baixos. Alunos que utilizam essas ferramentas diariamente apresentam desempenho inferior ao de estudantes que fazem uso moderado da tecnologia ou não recorrem a ela. Em ciências, a diferença pode alcançar 28 pontos, resultado comparável a cerca de um ano e meio de aprendizagem.

O levantamento contou com a participação de mais de 760 mil estudantes, distribuídos por 91 países. Entre os brasileiros, quase metade (48%) afirma utilizar ferramentas de inteligência artificial nos estudos ao menos uma vez por semana. Apesar dessa adesão, o desempenho dos alunos do país permanece inferior à média dos integrantes da OCDE nas áreas de ciências, matemática e leitura.

O relatório aponta que o problema está menos na tecnologia e mais na forma como ela é utilizada. Alunos orientados a questionar e verificar as respostas da inteligência artificial apresentam melhor desempenho. O uso moderado, uma vez por semana, também se mostra mais positivo do que não usar ou recorrer à ferramenta diariamente.

Para a psicopedagoga Carla Silva, o princípio deve ser fazer da inteligência artificial uma ferramenta de apoio, e não uma substituta do estudante. “O aluno pode pedir à IA que explique um conceito de outra maneira, apresente exemplos ou ainda ajude a identificar erros em um exercício. O que não deve acontecer é entregar à ferramenta a tarefa de pensar por ele, pois a aprendizagem depende do esforço de compreender, testar hipóteses e até mesmo errar”.

Uma das estratégias recomendadas é utilizar a IA depois de uma primeira tentativa independente. “Em vez de pedir diretamente a resposta de um problema de matemática, por exemplo, o estudante pode apresentar seu próprio raciocínio e solicitar uma explicação sobre onde errou. Em trabalhos de pesquisa, a ferramenta também pode ajudar na organização de ideias, desde que as informações sejam conferidas em fontes confiáveis”, explica.

O acompanhamento dos pais é importante, não precisa significar vigilância constante ou proibição completa. Para Carla, os responsáveis devem estabelecer limites de tempo e conversar com os filhos sobre o motivo pelo qual estão utilizando a ferramenta. “Melhor do que perguntar se a criança usou IA é questionar de que forma utilizou. Os pais podem pedir que o estudante explique o que aprendeu, quais respostas conferiu e o que fez sozinho. Isso ajuda a perceber quando a tecnologia está facilitando o estudo e quando está substituindo o aprendizado”.

Nas escolas, o desafio é transformar a inteligência artificial em objeto de educação digital. Para o professor de informática Osvaldo Mendes, simplesmente proibir os chatbots não resolve o problema. “Os estudantes precisam aprender que uma resposta produzida por IA não é automaticamente verdadeira, sendo necessário ensinar a verificar informações, comparar fontes, identificar erros e compreender os limites dessas ferramentas”.

Professores podem incorporar esse aprendizado às próprias atividades. “Em vez de apenas impedir o uso de IA em trabalhos, podem propor exercícios em que os alunos analisem uma resposta produzida por um chatbot, encontrem possíveis erros e expliquem como chegariam a uma conclusão diferente. Dessa forma, a tecnologia passa a ser utilizada como objeto de análise e não apenas como mecanismo para obter respostas rápidas”, sugere.

Segundo Mendes, a orientação também deve considerar a idade dos estudantes. “Crianças mais novas precisam de acompanhamento mais próximo dos adultos e de regras claras sobre quando e para que utilizar ferramentas de IA. Já entre os adolescentes, a escola pode ampliar gradualmente a autonomia, mas mantendo critérios para o uso responsável, especialmente em tarefas avaliativas”.

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