
O Brasil perde 55,4 milhões de toneladas de alimentos por ano, da produção agrícola ao consumo doméstico. O volume equivale a cerca de um terço dos 161,3 milhões de toneladas produzidos anualmente no país, segundo o Relatório Diagnóstico sobre a Fome e Desperdício de Alimentos no Brasil, elaborado pela Integration Consulting em parceria com o Pacto Contra a Fome.
Em 2021, cada pessoa já desperdiçava uma média de 60 kg de alimentos por ano. Atualmente, estudos mostram que este número aumentou para 94 kg. Ao todo, são quase 20 milhões de toneladas de comida jogadas no lixo. O Brasil é o 10º país no mundo que mais desperdiça alimentos.
A gerente de Relações Institucionais e Políticas Públicas do Pacto Contra a Fome, Rafaela Vieira, explica que o desperdício continua elevado porque é um problema de raízes estruturais e complexas. “Enfrentamos diversos desafios para a redução das perdas e do desperdício de alimentos (PDA), a começar pela falta de dados e metodologias oficiais integradas que analisem a questão em suas diversas dimensões na cadeia produtiva”.
Rafaela ressalta ainda que esse número revela que o problema possui dimensões críticas não apenas no âmbito social, mas também ambiental e econômico. “A comida que vai para o lixo impacta fortemente o clima: de 8% a 10% de todas as emissões globais de gases de efeito estufa vêm do desperdício de alimentos, o que representa cinco vezes mais do que as emissões de todo o setor de aviação”.
“Isso sem falar nas perdas financeiras globais que atingem a marca de US$ 1 trilhão e, no orçamento das famílias brasileiras, que pode chegar a um custo invisível de R$ 1.600 a R$ 1.700 por ano. Ou seja, estamos falando de um problema social, ambiental e também econômico”, acrescenta.
Custo do desperdício
De acordo com a projeção da Avery Dennison, o custo do desperdício de alimentos ao longo da cadeia global de suprimentos pode alcançar US$ 540 bilhões em 2026. O valor representa um crescimento de 2,7% frente aos US$ 526 bilhões registrados no ano anterior.
Os resultados do estudo mostram ainda que, no Brasil, em média, os custos associados ao desperdício de alimentos equivalem a 32% da receita anual total na cadeia de suprimentos do varejo alimentício, desde a colheita até o ponto de venda.
O fundador e CEO da Donos de Restaurantes, Marcelo Marani, esclarece que nos restaurantes, o desperdício ocorre em toda a cadeia interna. “Se concentra no recebimento da mercadoria que chega fora de padrão, no estoque, no pré-preparo, na produção e no salão”.
Quando o estabelecimento reduz o desperdício, o ganho financeiro aparece no Custo da Mercadoria Vendida (CMV), pontua o CEO. “Cada quilo que deixa de ser perdido é uma compra que não precisa ser refeita. Como o desperdício não gera venda, cada ponto percentual recuperado cai quase integralmente no lucro”.
“Desperdício é o maior ladrão invisível do restaurante. Ele não aparece na nota fiscal nem no extrato, mas está todo dia na lixeira. É um dos poucos custos que o dono controla quase por completo, com método e equipe engajada. Reduzir desperdício não é só economizar, é respeitar o alimento, o trabalho de quem produziu e o dinheiro do negócio”, complementa.
Soluções
O Brasil tem avançado tanto na construção de marcos legais e políticas públicas quanto na implementação de iniciativas concretas. Segundo Rafaela, o debate público e a ação governamental precisam focar fortemente no que antecede o descarte: a prevenção. “Nossas prioridades devem ser criar uma metodologia oficial do Estado para mensurar o desperdício em todas as etapas de forma padronizada, pois não é possível gerenciar o que não medimos de maneira contínua”.
“Fortalecer e subsidiar infraestruturas logísticas, modernizar modais de transporte, centros de armazenamento e investir na cadeia de refrigeração no escoamento de safras pode contribuir fortemente para a redução das perdas no início da cadeia de produção. É crucial também fortalecer a agricultura familiar por meio de circuitos mais curtos de comercialização. E ampliar, de forma sistêmica, as redes de Bancos de Alimentos para os territórios desassistidos”, finaliza.