
A relação entre comida, memória e expressão artística ganha destaque em “A ponta da língua”, exposição da artista visual paulistana Valentina Tedeschi, selecionada para a 9ª edição do Programa de Seleção da Piccola Galleria, da Casa Fiat de Cultura. A mostra pode ser visitada até 13 de setembro e apresenta cinco trabalhos, quatro esculturas e uma pintura sobre ferro, que investigam os vínculos entre o corpo humano e a natureza a partir de materiais e referências ligados à alimentação. Com entrada gratuita, a exposição faz parte da programação que marca os 20 anos da Casa Fiat de Cultura, celebrados ao longo de 2026.
A pesquisa de Valentina tem origem na relação de sua família com a gastronomia, presente há gerações e marcada pela cozinha como espaço de convivência e transmissão de saberes. Formada em Artes Visuais, a artista aprofundou esse vínculo ao viver e trabalhar em um restaurante na Itália, experiência que ajudou a definir o caminho de sua investigação.
Em sua produção, ingredientes, utensílios e outros materiais ganham novos significados ao serem incorporados à arte. A partir deles, Valentina aborda processos como transformação, conservação e deterioração, aproximando o fazer culinário da criação artística.
Visual dos trabalhos
O ferro é um dos principais elementos da exposição. Associado a panelas e utensílios domésticos, aparece nas obras em estado bruto, com marcas de oxidação e do desgaste provocado pelo tempo. Em vez de esconder a ferrugem, a artista transforma o processo em parte da linguagem visual dos trabalhos. O material passa, assim, a carregar marcas de sua trajetória, em diálogo com a transformação e a passagem do tempo presentes nos alimentos.
Essa investigação se estende a outros materiais, como o mel, um dos conservantes naturais mais antigos da humanidade. “A comida sempre esteve presente na minha vida como parte da história da minha família e do trabalho desenvolvido por diferentes gerações. Depois da faculdade, percebi que esse universo também era o lugar da minha pesquisa. Trabalho com materiais que carregam o tempo em sua superfície, como o ferro e o mel, porque me interessa pensar como eles preservam histórias, transformam-se e continuam produzindo significados”, destaca Valentina.
Em “Escorpião-amarelo” e “Artrópode”, o mel ganha formas que remetem a animais presentes nos ecossistemas relacionados à alimentação. Com o passar dos dias, o material sofre alterações naturais de cor e escurece, incorporando à obra os efeitos do tempo e do processo de transformação.
Cozinha vira arte
Já em ‘Espetinho’, a artista aproxima natureza e culinária ao apresentar um cogumelo de metal atravessado por um espeto, em referência às mudanças que os alimentos sofrem durante o preparo. Em “Arroz com feijão”, ela traz, sobre uma chapa de ferro oxidada, as marcas dos dois ingredientes que dão nome à obra. O trabalho também faz referência ao Banco Global de Sementes de Svalbard, na Noruega, criado para conservar espécies agrícolas e garantir sua disponibilidade para as próximas gerações.
O nome da exposição, segundo a artista, remete à antiga ideia de que diferentes áreas da língua seriam responsáveis por identificar sabores, com a ponta associada ao gosto doce. Apesar de já ter sido descartada pela ciência, essa concepção permanece no imaginário coletivo e inspira Valentina a investigar a relação entre paladar, experiência e memória.
De acordo com a curadora Julia Cavazzini Cunha, as obras de Valentina revelam como cozinhar representa uma das primeiras tecnologias desenvolvidas pela humanidade e como os alimentos preservam histórias que ultrapassam seu valor nutricional. “Ao combinar ferro, mel, oxidação e outros materiais associados à cozinha, a artista evidencia que a transformação da matéria também é uma forma de conservar gestos, saberes e experiências coletivas”.