Preço do café provoca mudanças nos hábitos de consumo da bebida no país

Marcelo Camargo/Agência Brasil

O café, presente no cotidiano de 98% da população brasileira, atravessa uma transformação nos padrões de consumo. É o que aponta a pesquisa “Café – Hábitos e Preferências do Consumidor (2019-2025)”, encomendada pela Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC) ao Instituto Axxus, em parceria com o Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e o Núcleo de Economia Industrial e da Tecnologia (NEIT) da Unicamp.

Os dados mostram que a alta expressiva dos preços, superiores a 70% nos últimos dois anos, segundo IBGE e ABIC, impactou diretamente o comportamento dos consumidores. Em 2025, 24% reduziram o consumo, a maior taxa da série histórica. Em contrapartida, apenas 2% aumentaram a ingestão, contra 16% em 2023.

“Os resultados mostram uma transformação nos hábitos de consumo. Porém, o brasileiro continua amando e comprando café, e o fato de 87% dos entrevistados reconhecerem o selo da ABIC como um guia de qualidade nos enche de orgulho”, afirma a gerente de Marketing da ABIC, Mônica Pinto.

A pesquisa também mostrou que o brasileiro vem tomando menos xícaras de café. Em 2019, 29% tomavam mais de seis por dia. Esse índice caiu para 26% em 2025. Já o grupo que consome até duas xícaras cresceu de 8% em 2019 para 14% neste ano. O consumo matinal segue quase universal: 96% dos entrevistados disseram tomar café ao acordar. Por outro lado, 2% das pessoas aumentaram a ingestão em 2025, contra 16% em 2023.

Preço redefine escolhas

Quase quatro em cada dez consumidores (39%) afirmaram optar pela opção mais barata, número que mais que dobrou em relação a 2023 (16%). O hábito de escolher marcas favoritas cede espaço à busca pelo menor valor. A mudança também se reflete fora de casa. A frequência em cafeterias caiu de 51% em 2023 para 39% em 2025. Entre os principais motivos estão preços elevados, mau atendimento e qualidade inconsistente. Muitos consumidores têm preferido preparar o café em casa, motivados tanto pelo custo quanto pela conveniência.

O pesquisador do IAC e coautor do estudo, Sérgio Parreiras Pereira, avalia que mesmo em um cenário de alta expressiva nos preços, o café segue presente no cotidiano dos brasileiros, mas de forma mais moderada e seletiva. “A pesquisa revela que o consumidor não abre mão da bebida, mas está adaptando seus hábitos ao novo contexto econômico”.

Onde e como comprar mudou

O levantamento revela também mudanças nos canais de compra. Os atacarejos aumentaram sua participação de 24,6% em 2023 para 28,2% em 2025. Já os pequenos varejistas perderam espaço, caindo de 6,4% para 2,2%. O ambiente digital também ganhou força. O YouTube se consolidou como principal fonte de informação sobre café para 13,2% dos consumidores, contra 8,6% em 2023, superando até redes sociais e sites especializados.

Tradição em transformação

Apesar da pressão econômica, o café segue como um dos símbolos culturais mais fortes do Brasil. O consumo diário se mantém estável em casa, no trabalho e entre amigos, e 87% dos entrevistados reconhecem o selo de qualidade da ABIC como referência de segurança e confiança.

A pesquisa ouviu 4.200 pessoas durante o mês de setembro em todas as regiões do país. A amostra foi estratificada por gênero, faixa etária, renda e localidade, com nível de confiança de 99% e margem de erro de 2%.

“O cuidado com a estratificação da amostra garante que o estudo reflita a realidade de diferentes perfis de consumidores em todo o Brasil. Trabalhamos com alto nível de confiança e margem de erro reduzida, o que nos permite comparar os resultados ao longo dos anos com segurança científica e identificar tendências consistentes”, destaca o coordenador do estudo, professor Rodnei Domingues.

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