
Uma pesquisa realizada pelo Programa de Pós-graduação em Geografia do Instituto de Geociências (IGC) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) apontou que a qualidade do ar em Belo Horizonte não atende aos padrões recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS). No período do inverno, todas as ruas avaliadas registraram concentrações de poluentes superiores ao limite de 45 microgramas por metro cúbico (µg/m³).
A rua Padre Eustáquio, localizada na região Noroeste, apresentou a maior concentração de poluentes, com média de 78 µg/m³. Outras vias da cidade também registraram níveis elevados: Avenida Amazonas (65 µg/m³), Nossa Senhora do Carmo (69 µg/m³), Silva Lobo (69 µg/m³), Barão Homem de Melo (69 µg/m³), Antônio Carlos (69 µg/m³) e o Anel Rodoviário (57 µg/m³).
Para o engenheiro ambiental Marcelo Dutra, os índices elevados estão diretamente ligados à combinação de fatores urbanos e climáticos típicos do inverno. “Durante essa estação, a baixa umidade e a inversão térmica contribuem para que a poluição fique retida próxima ao solo, sem dispersão natural. Além disso, o aumento do uso de veículos e a proximidade entre os edifícios e o tráfego mais lento podem dificultar a dispersão do poluente”.
Ele destaca que o crescimento da frota de veículos nos últimos anos e a expansão das regiões industriais nas periferias da capital também são fatores importantes. “Belo Horizonte avançou de forma acelerada e muitas vias principais se tornaram corredores de trânsito intenso. O tráfego constante, alinhado à emissão de poluentes de indústrias e de pequenas queimas domésticas, gera um efeito cumulativo que prejudica significativamente a qualidade do ar”.
A pesquisa da UFMG também evidenciou que mesmo vias consideradas menos movimentadas apresentam níveis acima do recomendado, mostrando que a poluição do ar não está restrita a corredores de tráfego intenso, mas se espalha por diferentes regiões da cidade.
A solução passa por um conjunto de medidas integradas, explica Dutra. “É preciso ampliar o transporte público de qualidade, incentivar o uso de veículos elétricos e não poluentes, aumentar áreas verdes e implementar programas de monitoramento contínuo da qualidade do ar. Políticas públicas e educação ambiental também são fundamentais para que a população compreenda o impacto das ações individuais e coletivas no ar que respiramos”.
Dutra lembra ainda que a legislação ambiental brasileira estabelece padrões de emissão para indústrias e veículos, mas que a fiscalização nem sempre é suficiente para garantir o cumprimento dessas normas. “Sem monitoramento rigoroso e sanções efetivas, as leis acabam sendo pouco eficazes e a população sente os efeitos, mas nem sempre consegue exigir mudanças”.
O engenheiro ambiental ressalta que a concentração populacional em regiões densamente ocupadas, a ocupação de áreas verdes e a insuficiência de planejamento urbano contribuem para que poluentes fiquem concentrados, especialmente em bairros mais centrais e próximos de vias expressas.
“É possível reverter o quadro com políticas públicas bem estruturadas e a conscientização da população é de grande importância nas ações de monitoramento e de transparência nos dados. Respirar é um direito básico e garantir ar limpo não é apenas uma questão ambiental, mas uma prioridade de saúde pública e de justiça social”, conclui.
Graves impactos
A médica pneumologista Ana Cláudia Figueiredo alerta que a exposição contínua a partículas em suspensão acima do recomendado aumenta o risco de doenças respiratórias, cardiovasculares e até mesmo problemas neurológicos. “Crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas são os mais vulneráveis. Respirar esse ar diariamente pode levar a crises de asma, bronquite, infecções respiratórias e, em casos mais graves, agravar condições cardíacas. Além disso, estudos recentes mostram que a poluição do ar pode afetar o desenvolvimento cognitivo de crianças”.



