
O Brasil teve 472 mil pedidos de benefícios por incapacidade temporária associados à saúde mental no trabalho, em 2024. Foi mais que o dobro no último biênio, em 2022, foram 201 mil, segundo os dados do Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho da Iniciativa SmartLab, coordenada pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) e pelo Escritório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) para o Brasil.
Entre os casos, destacam-se afastamentos acidentários por reações ao estresse (28,6%), ansiedade (27,4%), episódios depressivos (25,1%) e depressão recorrente (8,46%). Quanto aos afastamentos em geral, são predominantes os episódios depressivos (25,6%), de ansiedade (20,9%) e de depressão recorrente (12%).
Já na análise por setores econômicos, os bancos múltiplos, com carteira comercial, partiram de 9,3% do total em 2012 para alcançar 20% de afastamentos acidentários em 2024. O segmento de comércio varejista (hipermercados e supermercados) passou de 3,9% em 2012 para 5,6%. E as atividades de atendimento hospitalar também se destacam nesse aumento da participação, partindo de 1,2% em 2012 para 10,2%.
Segundo o diretor do Escritório da OIT para o Brasil, Vinícius Pinheiro, é preciso internalizar que o investimento em saúde é um ganha-ganha para os colaboradores, as famílias, as empresas e a sociedade como um todo. “O investimento na promoção da saúde mental beneficia a todos, porque promove ambientes de trabalho seguros e saudáveis, minimiza a tensão e os conflitos e melhora a fidelização do quadro de pessoal e o rendimento e a produtividade do trabalho”.
A administradora de empresas e coach, Gleinda Aguiar, acredita que esse crescimento de afastamentos por saúde mental se deve a uma série de fatores combinados. “Estamos vivendo uma época de excesso de informações e de muita pressão para estar sempre atualizado e entregar resultados. Além disso, ambientes de trabalho tóxicos e uma comunicação violenta acabam agravando ainda mais a situação. Tudo isso impacta diretamente na saúde mental das pessoas, gerando quadros de ansiedade, depressão e outros problemas. Em resumo, a forma como temos vivido e trabalhado acaba prejudicando a qualidade de vida no ambiente de trabalho, e isso reflete nesse aumento de afastamentos”.
Gleinda destaca que a falta de escuta dentro das equipes pode agravar ainda mais a situação. “Quando as pessoas não têm espaço para serem ouvidas, para expressar o que sentem ou para falar sobre os problemas que enfrentam no trabalho, elas acabam acumulando essas tensões internamente. Isso gera mais ansiedade e frustração”.
“Por outro lado, quando existe um diálogo aberto, um ambiente onde as pessoas podem conversar com segurança e sem medo de julgamento, tudo fica mais leve. Ter alguém que ouve ativamente, que orienta e acolhe faz toda a diferença. Isso não só ajuda a prevenir problemas de saúde mental, mas também melhora a colaboração e a qualidade do trabalho, já que os funcionários se sentem mais seguros para lidar com os desafios”, acrescenta.
Bem-estar emocional
A profissional afirma que é possível conciliar alta performance com o bem-estar emocional. “Isso está muito ligado ao desenvolvimento contínuo, onde a pessoa se esforça para ser um pouco melhor a cada dia. Identificar o que pode ser aprimorado e buscar essa melhoria constante é o que realmente leva a resultados melhores”.
Para Gleinda, as organizações realmente precisam dar uma atenção especial ao local de trabalho. “É fundamental construir um ambiente onde as pessoas queiram ir trabalhar e que se sintam valorizadas e respeitadas. Isso envolve entender o que realmente importa para os colaboradores, oferecendo reconhecimento, premiações, bonificações e um espaço de relações humanas mais respeitosas”.
“A liderança precisa ter um olhar mais humano, cuidar melhor dos liderados, compartilhar informações, cobrar resultados de forma assertiva e manter uma comunicação não violenta e empática. Precisamos de uma mudança de cima para baixo, para que a cultura de trabalho se torne mais cooperativa e colaborativa. Assim, ajudamos uns aos outros dentro da empresa, enquanto competimos lá fora”, finaliza.



