País registrou 1.148 casos de coqueluche entre janeiro e agosto

Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

O número de casos de coqueluche entre crianças teve um crescimento alarmante de mais de 1.200% no Brasil, de acordo com dados do Observatório de Saúde na Infância. Só em 2024, foram contabilizados pelo menos 2.152 casos da infecção em crianças com menos de 5 anos, grupo considerado o mais suscetível a complicações graves. Esse total supera a soma dos casos registrados nos cinco anos anteriores. Entre as crianças afetadas, 665 precisaram de hospitalização e 14 vieram a óbito, número superior às dez mortes registradas entre 2019 e 2023.

Segundo o Ministério da Saúde, mais de 90% dos bebês e 86% das gestantes foram vacinados contra a coqueluche no ano passado, superando os índices registrados em 2013. No entanto, o Observatório alerta que a meta ideal de 95% de cobertura vacinal ainda não foi alcançada. Além disso, pessoas não imunizadas, como crianças mais velhas e adultos, também podem contrair e transmitir a doença, que, embora possa afetar todas as faixas etárias, costuma ser mais grave entre os menores.

Até agosto deste ano, os dados apontam uma leve redução nos números, embora os índices continuem elevados: foram contabilizados 1.148 casos, dos quais 577 resultaram em internações.

A coqueluche é causada pela bactéria Bordetella pertussis. Altamente contagiosa, ela provoca uma inflamação grave das vias aéreas e pode ser especialmente perigosa para bebês e crianças com menos de um ano de idade, que ainda não completaram o esquema vacinal. “A doença já esteve sob controle por meio da vacinação. Esse aumento vertiginoso de casos reflete um acúmulo de fatores, mas a principal explicação está na queda nas coberturas vacinais nos últimos anos”, afirma a infectologista pediátrica Carla Menezes.

Segundo a especialista, a coqueluche pode começar com sintomas semelhantes a um resfriado comum, febre baixa, coriza e tosse leve, mas evolui para acessos de tosse severa e prolongada, que podem levar a vômitos, dificuldade para respirar, exaustão e até convulsões. “ N o s l a c te n te s, o quadro pode ser silencioso, sem a tosse clássica, o que torna o diagnóstico mais difícil. Muitas vezes, o primeiro sinal é uma parada respiratória súbita, o que é extremamente perigoso”, completa.

“A coqueluche é uma doença prevenível por vacina. Quando temos uma cobertura vacinal adequada, acima de 90%, o risco de surtos é muito baixo. Mas quando há uma queda contínua, como estamos vendo desde 2016, o risco de reemergência é alto. Infelizmente, é o que está acontecendo agora”, salienta o epidemiologista Ronaldo Vieira.

Ele ressalta ainda que a proteção não é apenas individual, mas coletiva. “A vacina protege quem toma, mas também impede a circulação da bactéria na comunidade. Quando a taxa de vacinação cai, mesmo crianças vacinadas parcialmente, como bebês que ainda não completaram o esquema, ficam vulneráveis à infecção”.

O diagnóstico pode ser clínico, baseado nos sintomas, mas geralmente é realizado com exames laboratoriais, como a cultura da secreção nasofaríngea ou testes de PCR. No entanto, o tempo para confirmação pode atrasar o início do tratamento, o que agrava o risco de complicações. “O ideal é iniciar o tratamento com antibióticos ainda nos primeiros dias de sintomas, quando há forte suspeita clínica. Nos casos graves, principalmente entre bebês, é necessário internamento para suporte respiratório, hidratação e monitoramento contínuo”, explica Carla.

Além disso, a infectologista pediátrica reforça que o tratamento tem pouco efeito sobre os acessos de tosse uma vez que eles já se instalaram, o que reforça a importância da prevenção. “Mesmo com antibiótico, o quadro de tosse pode durar semanas. Por isso, a vacinação continua sendo nossa principal arma”.

“É fundamental que a imunização na gestação seja intensificada. A vacina contra coqueluche é recomendada a partir da 20ª semana de gestação, e isso reduz drasticamente o risco de formas graves da doença no recém-nascido. A desinformação, o medo de efeitos colaterais e a negligência com o calendário vacinal estão custando vidas”, conclui Vieira.

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