Os intocáveis

Ultimamente tenho escrito sobre filmes, ficcionais ou não, e suas semelhanças com a vida real, até porque acredito na afirmação de que a vida imita a arte, ou o contrário. O título acima é de um bom filme policial americano, dirigido por Brian De Palma, lançado em 1987, sucesso de crítica e bilheteria. Estrelado por Kevin Costner como Eliot Ness, um agente federal do Tesouro dos Estados Unidos; Robert De Niro como o gangster Al Capone, Sean Connery como um oficial da polícia de Chicago; e Andy Garcia.

O filme relata a história de Eliot Ness sobre seus esforços e de seus intocáveis, assim chamados por serem incorruptíveis, para colocarem Al Capone na cadeia, durante a Lei Seca daquele país. Neste filme, Connery recebeu o Oscar de melhor ator coadjuvante pelo seu desempenho. Nos anos 1930, Chicago vivia sob o domínio do crime e da corrupção, com a venda ilegal de bebidas alcoólicas e organizações criminosas que dominavam os negócios e o poder público, inspiradora que foi, junto com Nova York, de Gotham City, a cidade do Batman. Qualquer semelhança com os acontecimentos do Brasil atual é mera coincidência, em uma repetição de que o poder público, quando perde credibilidade, é sinal de seu fim, ou prenúncio do desastre moral do país.

Que o diga o presidente da Associação dos Auditores Fiscais (Unafisco), Kleber Cabral, que teve a ousadia de usar a frase “Não mexam com os intocáveis”, dirigindo-se aos agentes federais que tiveram a arrogância de, cumprindo seus deveres, consultar informações na Receita Federal de autoridades do Supremo Tribunal Federal (STF) e seus familiares, para auditar suas declarações. Um dever inerente às suas atribuições, diga-se de passagem. Acontece que no Brasil “intocáveis” são outros tipos de agentes públicos. São detentores de foro privilegiado, como políticos, ministros do Executivo ou Judiciário, desembargadores, juízes, amigos do poder, milionários bem relacionados transgressores das leis, mantenedores de relações criminosas e incestuosas, compradores de proteção. Gotham City é aqui.

Os cidadãos comuns são severamente fiscalizados pelos auditores fiscais, cumpridores de seus deveres, repito, apesar de servirem a um governo tributarista, fiscalista, cruelmente arrecadador do que a lei determina, com taxas e multas que portarias recomendam. Aos infelizes levados à “malha fina”, que vivem no inferno fiscal, só comparável aos dantescos lugares, são permanentemente vítimas de desconfianças e punições. Kleber está sendo investigado pelo chamado inquérito do “fim do mundo”, o das fake news, intimado a depor dentro deste processo do STF, número 4.781, porque afirmou “ser menos arriscado fiscalizar membros do PCC do que altas autoridades” do Brasil. Este inquérito, com mais de seis anos de existência, conduzido pelo ministro Alexandre de Moraes, segundo estudiosos e más línguas, só terminará com a aposentadoria do seu relator.

É um inquérito que bem retrata os absurdos jurídicos pelo que passamos, tem excesso de prazo, usado com mão de ferro, só comparável a ações de ditadores, onde liberdade de expressão é crime contra a nação. Nosso país precisa acabar com os intocáveis do Legislativo, com suas emendas parlamentares corruptas, com os membros do Executivo e sua ladroagem permanente, com privilégios e corrupção do Judiciário e seus penduricalhos.

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