Violência política é cinco vezes maior durante período eleitoral

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Durante os 50 dias de campanha do primeiro turno, entre 16 de agosto e 4 de outubro, o Brasil registrou 134 casos de violência política, uma ocorrência a cada 9 horas. O número supera os 121 casos no primeiro turno de 2022, segundo a 4ª edição da pesquisa Violência Política e Eleitoral no Brasil, realizada pelas organizações Terra de Direitos e Justiça Global. No período eleitoral, os casos foram cinco vezes mais frequentes. Já entre outubro de 2024 e agosto de 2026, foram registrados 354 episódios, uma média de um a cada 44 horas.

A violência política contra mulheres se intensificou durante o primeiro turno, passando de 50,6% das vítimas no período pré-eleitoral para 52,2% dos casos registrados. Dos 134 episódios, 70 atingiram mulheres cis e trans, enquanto 61 tiveram homens como vítimas. As três ocorrências restantes envolveram sedes do PT, em Macapá e Campina Grande, e a equipe de campanha de uma candidata. Sobre o tema, o Edição do Brasil conversou com a coordenadora de incidência política da Terra de Direitos, Gisele Barbieri.

O que explica esse cenário de violência e o que esses números revelam sobre as condições da disputa democrática no país?

A violência política se intensifica no Brasil, sendo utilizada para favorecer e manter determinados representantes e suas propostas no cenário eleitoral. Contudo, seus efeitos vão além dos mandatários, interferindo no sistema democrático e definindo quem pode ocupar os espaços de decisão. Essa realidade, especialmente no caso da violência política de gênero, torna o exercício dos direitos políticos insustentável. Afinal, não há democracia plena sem a representação da diversidade da população brasileira.

Como explicar o maior número de casos de violência política contra mulheres e como isso pode comprometer a participação e a representatividade delas nos espaços de poder?

Os dados desta quarta edição evidenciam a desproporcionalidade da violência política de gênero, que atinge as mulheres por quem são, especialmente as negras e trans, buscando desumanizá-las e afastá-las dos espaços de poder. Apesar do crescimento das candidaturas femininas, a baixa representação revela barreiras à participação política, agravadas pela impunidade. É urgente responsabilizar os partidos e garantir que essas candidaturas vão além das cotas e do financiamento, assegurando uma participação efetiva e segura.

Mais da metade dos episódios ocorreu em ruas, atividades de campanha ou eventos públicos, enquanto 31,3% foram registrados no ambiente virtual. Qual deve ser a responsabilidade das plataformas digitais no enfrentamento desse problema?

É preciso pôr fim à impunidade nos crimes de violência política, nas ruas e nas redes, por meio da responsabilização dos agressores. No espaço público, o acirramento das disputas e a proximidade entre grupos opostos favorecem a transformação de hostilidades em agressões físicas. Já nas redes, a rápida disseminação de ataques, muitas vezes coordenados e direcionados principalmente a mulheres, amplia o alcance da violência. Por isso, é urgente regulamentar a internet e responsabilizar as plataformas pela circulação de conteúdos violentos, muitas vezes impulsionados pelo lucro e pelo engajamento.

O que explica a falta de responsabilização e quais são as principais falhas das instituições no combate à violência política?

A impunidade é um dos maiores vetores para a escalada dos episódios de violência política ao longo dos anos. Quando crimes de motivação política e ideológica, como ameaças, atentados e assassinatos, que buscam intimidar agentes políticos e afastar suas propostas do cenário de disputa eleitoral, ficam sem resposta célere da Justiça, a impunidade passa a ditar as regras e a violência passa a ser normalizada.

Quais medidas concretas devem ser adotadas pelo Estado, pela Justiça Eleitoral e pelos partidos para prevenir a violência, proteger as vítimas e garantir que ela não determina os rumos da disputa democrática?

O enfrentamento à violência política é dever do Estado e exige ações conjuntas dos órgãos de justiça, segurança, sistemas eleitorais, partidos políticos e sociedade civil. É essencial capacitar agentes públicos, ampliar canais de denúncia e integrar protocolos de investigação. Os partidos devem assumir sua responsabilidade diante da violência política de gênero, garantindo que as candidaturas femininas não se limitem ao cumprimento de cotas e ao financiamento. Afinal, esses espaços, historicamente masculinos, também são palco de violências contra mulheres, inclusive praticadas por colegas parlamentares, como ocorreu em 21 episódios no primeiro turno.

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